14.3.17

Madeira Fern Fest (5)



Ceterach lolegnamense Gibby & Lovis [= Asplenium lolegnamense (Gibby & Lovis) Viane]



Passeando pelas íngremes estradas em redor do Funchal, o naturalista amador encontra aqui e ali, aninhado nas fendas dos muros, um feto que lembra irresistivelmente um seu velho conhecido. Pergunta-se então se a douradinha, que no continente enfeita calcários e xistos, também terá cruzado o oceano para se instalar no basalto das ilhas. Só se o tiver feito na Madeira, pois, se bem se lembra, nos Açores ela nunca foi vista. Mas a verdade é que nem na Madeira ela conseguiu poiso. A douradinha-da-Madeira (nas fotos) é aparentada com a continental (é neta desta), mas não é a mesma coisa, distinguindo-se tanto pelo número cromossómico (hexaplóide a primeira, tetraplóide a segunda), como, à vista desarmada, pela maior envergandura das frondes e pelas pinas mais compridas, amiúde quase triangulares. Se os soros estiverem maduros, podemos notar, revirando as folhas, que no Ceterach lolegnamense (a espécie madeirense) eles se dispõem ordenadamente em duas fiadas paralelas, uma em cada metade da pina (3.ª foto em cima e última foto nesta página), enquanto que no Ceterach officinarum a arrumação é menos simétrica (fotos aqui).

Pouca necessidade haverá, no terreno, de pôr em prática estes ensinamentos: na Madeira só ocorre o Ceterach lolegnamense, que aliás é endémico da ilha, no continente só há Ceterach officinarum, e assim nenhuma confusão é possível. Mas se um descende do outro, não terão eles, há uns tantos milhões de anos, coexistido em algum lugar do planeta? Provavelmente sim, e a resposta passa pelo arquipélago das Canárias. Essas ilhas espanholas 450 Km a sul da Madeira dispõem de várias versões da douradinha, entre elas as duas espécies, Ceterach aureum e Ceterach octoploideum, cujo cruzamento terá dado origem ao Ceterach lolegnamense.

O Ceterach aureum, como aqui se pode ver, apresenta, quando bem desenvolvido, frondes bastante mais largas do que as do Ceterach officinarum. Já o também canarino Ceterach octoploideum é, na prática, indistinguível a olho nu do C. officinarum. A combinação dos dois levou a que o Ceterach lolegnamense assumisse características intermédias. Depois de gerado, não logrou sobreviver na sua ilha natal, migrando contudo para norte através de esporos trazidos pelo vento ou agarrados às patas de alguma ave. Fintou a esterilidade que persegue todos os híbridos recorrendo à apomixia, o que significa que os gametófitos do C. lolegnamense não precisam de ser fecundados para originarem um novo indivíduo.

Até 1989, ano em que os botânicos Mary Gibby e J.D. Lovis publicaram no n.º 13 da Fern Gazette um artigo sobre o Ceterach madeirense, pensou-se que ele era idêntico ao C. aureum, tido então como o único do seu género nas ilhas Canárias. Sabe-se hoje que afinal existem lá três: aos endémicos canarinos C. aureum e C. octoploideum soma-se, para ajudar à confusão, o verdadeiro C. officinarum. A história, cheia de reviravoltas, suspense e algum sexo, é contada num artigo de 2006 com o título Asplenium ceterach and A. octoploideum on the Canary Islands (Aspleniaceae, Pteridophyta).

1 comentário :

José Batista disse...

Nos casos de poliploidia [multiplicação do número base de cromossomas de uma espécie por um número inteiro (maior que zero)], a especiação (formação de novas espécies) ocorre (ou pode ocorrer) na passagem de uma geração para a seguinte, porquanto, em certos casos, no (novo) poliplóide obtido podem ocorrer meioses viáveis, o que é condição para haver reprodução sexuada. Ou seja: formam-se nessas situações novas espécies (logo, constituídas por indivíduos férteis) e não híbridos estéreis.
Muitas plantas com flores derivaram de outras por poliploidia, que é um processo de a Natureza formar novas espécies de plantas num tempo curto. Nos animais a poliploidia não tem viabilidade.

Claro que os humanos, através do conhecimento, passaram a promover a formação de poliplóides e daí surgirem morangos do tamanho de maçãs, couves que podem crescer vários metros, abóboras com dezenas de quilos, o trigo que dá as espigas fartas e abundantes de que se faz o pão, etc.

A poliploidia não pode, contudo, fazer-se em crescendo ao longo de gerações, pois que as células passam a ter grande tamanho e problemas metabólicos, estruturais e funcionais que as tornam inviáveis. E também a qualidade, por exemplo, em termos de sabor de alguns produtos comestíveis, vai-se perdendo...