11.4.17

Madeira Fern Fest (7)


Dryopteris aitoniana Pic. Serm.


Os fetos são para quem aprendeu a apreciar a simetria e a simplicidade, e a valorizar os detalhes que marcam a diferença. Fazem um apelo austero ao intelecto, em vez de, como as plantas com flor, seduzirem pela sensualidade do colorido e do perfume. Não foram feitos para estes tempos de atenção distraída e borboleteante, em que somos joguetes de um fluxo ininterrupto de estímulos básicos. Contudo, quem se interesse por plantas deve tentar familiarizar-se com os fetos, pois são muitos os bons encontros que perde se não conseguir reconhecê-los. Se não nos quisermos entregar a um panteísmo acéfalo, convém sabermos distinguir as árvores que compõem uma floresta: nem tudo o que é verde é ouro, e um carvalhal não é o mesmo que um eucaliptal. Ou, falando das ilhas, é imperdoável confundir a laurissilva com um emaranhado de vegetação infestante, como acontece nesta triste foto de São Miguel. Depois de garantirmos que não cometemos tais erros de palmatória, devemos passar ao estádio seguinte, em que somos capazes de discernir os ingredientes que fazem a singularidade de um pedaço de natureza. É enriquecedor saber que os fetos da mágica laurissilva madeirense são, em grande parte, diferentes dos que vemos noutras paragens, e que alguns deles só existem na Madeira.

Juntando-se à Arachniodes webbiana e ao Polystichum falcinellum, a Dryopteris aitoniana é o terceiro feto habitante da laurissilva e endémico da Madeira que aqui apresentamos (um quarto feto endémico, Ceterach lolegnamense, é de pequeno tamanho e prefere os muros soalheiros do sul da ilha à humidade umbrosa da laurissilva). A sua filiação no género Dryopteris é denunciada pelos indúsios reniformes que protegem os esporângios (compare a última foto em cima com esta ou esta). De resto, o formato geral das frondes, o seu tamanho (até 120 cm de comprimento) e a sua disposição em tufos pouco ajudam a diferenciá-la das suas congéneres. Na Madeira ocorrem três espécies adicionais de Dryopteris, todas elas frequentes na laurissilva e até em plantações florestais: D. aemula, D. affinis subsp. affinis e D. maderensis (esta última quase sósia da D. azorica). Se atendermos ao recorte das pínulas (divisão de segunda ordem das folhas), muito mais pronunciado na D. aemula e na D. maderensis, só com a D. affinis se pode a D. aitoniana razoavelmente confundir; e aí as pínulas basais, em regra bastante compridas na D. aitoniana (5.ª foto acima) e muito curtas na D. affinis (veja aqui), ajudam a dissipar as últimas dúvidas. Além disso, a D. aitoniana apresenta folhas mais rígidas e de um verde mais pálido, e tem poucas escamanas na ráquis. Ao segundo dia das nossas deambulações pelas levadas madeirenses já a reconhecíamos ao longe.

Calcula-se em 38 o número de espécies (e subespécies) de Dryopteris que ocorrem na Europa, na zona mediterrânica e na Macaronésia. Estão ligadas por uma complexa teia de relações familiares que têm na hibridação e poliploidia a sua principal génese. Daí que a diferenciação entre taxa ou a sua própria delimitação não sejam assuntos simples. A D. aitoniana tem fortes semelhanças com a Dryopteris oligodonta, endémica das Canárias, motivo para algumas listagens reportarem a presença de uma ou de outra no arquipélago errado.

Falta explicar por que razão o nome do feto madeirense homenageia o primeiro director dos Kew Gardens, William Aiton (1731–1793), que nunca pôs os pés na Madeira nem, que se saiba, alguma vez saiu da Grã-Bretanha. Aiton foi o autor de um Hortus Kewensis (1789) descrevendo 5600 plantas cultivadas em Kew e originárias de muitas partes do mundo. Para muitas dessas espécies, Aiton foi o primeiro a dar-lhes nome científico. Sob o nome, que hoje nos parece absurdo, de Polypodium elongatum, o feto madeirense aparece na pág. 465 do vol. 3 dessa obra. Pelo menos supõe-se que é esse o feto que se pretendia nomear, embora a descrição seja demasiado abreviada e se diga erradamente que ele ocorre também nos Açores. O italiano Rodolfo Pichi-Sermolli, que em 1951 reconheceu a validade da espécie e a transferiu para o género Dryopteris, não pôde conservar o epíteto elongata por ele já ter sido usado noutra espécie do género, e optou pelo epíteto aitoniana para assim registar a prioridade de Aiton.

1 comentário :

bea disse...

Boa Páscoa!