31.5.17

Orquídea pálida

Os jornais anunciaram há dias a descoberta, em local longínquo do universo, de planetas talvez parecidos com a Terra, mas que têm órbitas muito mais demoradas em torno dos respectivos sóis. O movimento de translação desses planetas à volta das suas estrelas leva centenas de anos terrestres a completar-se. Se nos tivesse calhado uma dessas Terras, poderíamos viver toda a vida na Primavera. Claro que também haveria o risco de só conhecermos o Inverno; ou de termos de suportar o imortal cansaço de Verão. Imaginemos, porém, um cenário eternamente florido. Um regalo, sim, mas teríamos de abrir mão da alternância de estações e de paisagens, das migrações dos bandos de pássaros, do ritual de hibernação dos ursos, da luz do Outono, da folhagem nova dos carvalhos, do assombro num campo amarelo de narcisos, de muita arte e ciência. E também não existiriam as plantas que, no rigor do Inverno, se recolhem ao subsolo reduzidas a um bolbo -- uma cebolinha que, misteriosamente, guarda intacto o programa para gerar sem erro novas folhas e flores meses depois.

Felizmente, vivemos numa Terra caprichosa e apressada, onde inúmeras espécies se adaptaram às mudanças tornando-se perenes, embora dependentes do ninho onde se resguardam quando a neve e a penumbra lhes cobrem o torrão. Como esta orquídea de prados alpinos e bosques de montanha que vimos em Fontibre, na Cantábria, e reencontrámos em Somiedo, nas Astúrias, e que, ao primeiro olhar, quase confundimos com a Dactylorhiza sulphurea.


Orchis pallens L.



Desconfiámos da identificação pelo porte bem mais robusto (cerca de 50 cm de altura) da orquídea do norte de Espanha, pelas 4 a 6 folhas grandes, brilhantes e não maculadas, como as das Barlias, pela ausência de brácteas que entremeiam a inflorescência e por as flores terem o capuz pálido, quase branco. Na verdade, pertence até a outro género, Orchis, mas o engano é desculpável: descrita em 1771 por Lineu com o epíteto pallens, foi rebaptizada em 1825 por John Sims como Orchis sulphurea. Há, porém, outro equívoco, desta vez benéfico, associado a esta orquídea: apesar de não ter néctar para oferecer, é polinizada por abelhas que, atraídas pelo perfume e coloração das flores, julgam que estão a visitar outras plantas com floração semelhante e que são nectaríferas. O mais curioso é que o logro continua a funcionar mesmo quando as plantas que esta orquídea imita não estão presentes. Naturalmente, um tal estratagema exige astúcia e impõe alguns constrangimentos: a orquídea tem de conviver no mesmo habitat do modelo, com necessidades climáticas e ecológicas idênticas; precisa de começar a florir mais cedo para conseguir ludibriar mais polinizadores antes de eles encherem a barriga nas plantas com néctar; e tem de se manter em flor por um período mais longo para poder beneficiar de mais instâncias em que o logro resulte. O ardil é um achado pois, apesar de localmente a Orchis pallens ser rara, a sua distribuição inclui quase todas as grandes cordilheiras montanhosas da Europa.

23.5.17

Abróteas de todo o ano


Asphodelus serotinus Wolley-Dod



Há quem diga, brincando, que todos os cogumelos são comestíveis, só que alguns apenas uma vez. Os cogumelos não são a melhor escolha para os suicidas que optam pelo envenenamento, pois a dolorosa agonia prolonga-se por vários dias. Em qualquer caso, movidos pela morbidez ou desejando apenas uma boa refeição, convém saber o que levamos à boca. Há plantas venenosas (e até letais) cuja perigosidade é neutralizada pela cozedura ou por algum outro modo de preparação, e que são parte importante da dieta de certos povos. É esse o caso da mandioca, omnipresente na culinária brasileira. E o mesmo poderia suceder na região mediterrânica com as plantas do género Asphodelus, conhecidas colectivamente como abróteas.

As abróteas contêm asfodelina, um alcalóide tóxico que acelera o ritmo cardíaco e pode provocar a morte. Certo é que o gado, pressentindo o perigo ou simplesmente desdenhando-as pela fraca palatibilidade, não lhes põe o dente, e por isso elas se vêem aos milhares em zonas intensamente pastoreadas e sujeitas a fogos frequentes. Uma vez cozidas, contudo, as abróteas são inofensivas; e, diz quem lhes provou as folhas tenras condimentadas com azeite e sal, francamente saborosas. Também as raízes, engrossadas em tubérculos, são susceptíveis de aproveitamento culinário, como substitutas das batatas.

São oito as espécies de Asphodelus recenseadas em Portugal continental. Com excepção da abrótea-fina (Asphodelus fistulosus), muito mais pequena do que as outras, são todas muito parecidas. Só não são indistinguíveis porque os frutos variam bastante de formato. O A. serotinus acima no escaparate, fotografado no final de Abril algures a sul do Tejo, tem os frutos pequenos e algo pegajosos, em forma de pêra e de um verde brilhante. Também ajuda ter em conta a distribuição e a época de floração: as espécies que encontramos no norte do país (basicamente duas: A. lusitanicus e A. macrocarpus) não são as mesmas que existem no centro e no sul; e há aquelas que florescem muito cedo (A. ramosus, de Fevereiro a Março), outras na Primavera (A. lusitanicus, A. serotinus), e outras ainda no Verão (A. aestivus). Temos abróteas para o ano inteiro, mas não sempre as mesmas nem em todos os lugares ao mesmo tempo.

17.5.17

O que não se vê


Aphanes australis Rydb.

É da família das rosas e grácil, mas tão pequenina que se julgaria difícil encontrá-la. Contudo, são raros os interstícios entre paralalepípedos de rua, ou as gretas e bermas de campos de cultivo e pousios, onde ela, frágil e prostrada, não surja no Verão. Com um ciclo de vida anual, depende bastante da sorte para se manter em tais habitats; mas, quando o solo é seco, arenoso e com baixa ocupação, forma tapetes densos e muito macios pela penugem que cobre toda a planta.

Sendo tão inconspícua, admiramo-nos que tenha nomes populares. Uma breve consulta a manuais de farmacopeia, porém, revela a razão: talos e folhas têm propriedades medicinais muito benéficas, embora agora em desuso. Não surpreendentemente, quase todas as designações se referem a detalhes morfológicos das folhas, afinal a parte mais visível da planta: salsinha, falsa-salsa, pé-de-leãozinho. Para além das folhas em leque, muito divididas e sem pecíolo, consegue-se notar como as flores minúsculas, esverdeadas, hermafroditas e apétalas, se aninham bem aconchegadas na base das folhas e protegidas pelas estípulas. Este pormenor justifica o nome dew cup (taça de orvalho) que lhe atribuem em inglês.

O género Aphanes abriga umas vinte espécies, das quais cinco estão registadas em Portugal. São de facto todas muito parecidas, mal se distinguindo pelo formato e tamanho das estípulas, das flores e dos frutos, sobretudo quando são plantas jovens. Alguns estudos apontam também para um acentuado parentesco (genético, do que não se vê) entre estas espécies e as do género Alchemilla. Uma mudança taxonómica aumentaria o nosso contingente neste último género, de que só se conhecem as populações de Alchemilla transiens da serra da Estrela.

9.5.17

Praias de pouco andar



Cyperus capitatus Vand.



O regresso da chuva -- amaldiçoada por aqueles que desejam que ela só caia de noite ou, se tiver mesmo de cair a horas menos amigáveis, apenas onde faça falta (campos, albufeiras) -- obriga os portugueses a interromper temporariamente os ensaios para as férias de Verão. Com estas tépidas Primaveras a que nos vamos afeiçoando, a época balnear ocupa no mínimo metade do ano, e os areais que costumavam encher-se apenas em Agosto acolhem agora banhistas de Abril a Setembro. Talvez se deva lamentar o fraco empenho dos portugueses em diversificar as suas (in)actividades de lazer, mas quem mais sofre com o assalto contínuo às praias são as plantas dunares. Embora o problema seja atenuado pela instalação de passadiços nas praias mais concorridas, há plantas que se fizeram raras e poucas oportunidades terão de se reinstalar nos lugares de onde foram (involuntariamente) extirpadas.

A junça-da-praia (Cyperus capitatus), que é nativa de toda a região mediterrânica e, em Portugal, deveria aparecer do Minho ao Algarve, fez-se entre nós bastante esporádica. A crer no portal Flora-On, praticamente desapareceu a norte do Douro. As praias do litoral centro onde ainda persistem bons contingentes da espécie são aquelas que, pelos maus acessos e pela ausência de rede de telemóvel, são evitadas pelos veraneantes comuns. Planta de proporções modestas, com hastes que não ultrapassam os 40 cm, a junça-da-praia destaca-se da família a que pertence, em grande parte formada por espécies pouco vistosas, pela atraente folhagem glauca, semelhante à do narciso-das-areias (Pancratium maritimum). Tal como outras espécies que vivem em areias móveis, é dotada de um rizoma comprido, às vezes com vários metros de comprimento, podendo uma mesma planta lançar hastes bem afastadas umas das outras.

O nome junça pode ser dado a qualquer uma das dez espécies de Cyperus na flora portuguesa, das quais nove são tidas como autóctones e uma (Cyperus eragrostis) é exótica e assaz invasora. As três brácteas muito compridas onde se aninha a inflorescência são um distintivo traço comum a todas elas. Com a notória excepção da junça-da-praia, são plantas de terrenos húmidos, amiúde encharcados. A mais famosa espécie do género, que não pertence à flora portuguesa mas é cultivada em jardins aquáticos, é o Cyperus papyrus, originária de África e usada no antigo Egipto para produzir o papiro, suporte de escrita que foi um dos primeiros antepassados do papel.

3.5.17

Maias da Madeira

Este é um mês venturoso para as giestas, piornos e tojos. Com folhagem nova, alindam os taludes das estradas com racimos de flores de um amarelo sedoso. No campo, de espinhos afiados (os que os têm) para evitar o gado predador, rescendem a frutos verdes. E por todo o lado, mas em murmúrio, a tradição atribui-lhes o poder de esconjurar o mal. Noutros tempos, os ramos unidos eram também ágeis vassouras ou boa lenha para o fogão, e havia ainda espécies usadas no fabrico de tinta. Algumas, muito melíferas, constituem no início das Primavera fonte importante de alimento para as abelhas que, agradecidas, nem notam que as flores se abrem como se explodissem, soltando uma chuva de pólen que aterra no dorso dos polinizadores. Um truque que talvez justifique o sucesso destas fabáceas, de que a Península Ibérica e a região mediterrânica abrigam dezenas de espécies.

A giesta-da-Madeira (Genista tenera, a que a Flora de JT Press e MJ Short chama giesta de piorno) é um arbusto endémico da ilha da Madeira, ocorrendo em lugares soalheiros e secos de ravinas perto do mar e penhascos de montanha. Perene e coberto por um indumento acetinado, não cresce além dos 2,5 metros mas exibe flores grandes entre Março e Julho. Os frutos são vagens espalmadas, com um gancho na ponta e contendo muitas sementes acastanhadas.



Genista tenera (Jacq. ex Murray) Kuntze



A segunda leguminosa que vos mostramos hoje é também endémica da Madeira (e da Deserta Grande) - e, tal como a primeira, é conhecida na ilha pelo nome popular de piorno. Já se chamou Genista maderensis (Webb & Berthel) Lowe, assim como Cytisus maderensis (Webb & Berthel.) Masf., e com razão. De facto, as suas flores têm o cálice como os do género Genista, mas a semente é mais parecida com as do género Cytisus. Por isso, houve quem propusesse que deveria pertencer, com outras espécies das Canárias, a um género próprio, Teline.

Esta maia da Madeira (Teline maderensis) é um arbusto perene que pode chegar aos 6 metros de altura, de ramos penugentos e folhas trifoliadas, com folíolos mucronados de cor verde acinzentada. Prefere a laurissilva, mas também se encontra em escarpas junto ao mar, especialmante na Fajã da Ovelha e em São Vicente. As versões marítima e de montanha diferem sobretudo na cor do indumento, de prateado a castanho, e no tamanho do ápice aguçado dos folíolos. Pormenores que levam alguns taxonomistas a distinguir duas variedades, Teline maderensis var. maderensis e Teline maderensis var. paivae.


Teline maderensis Webb & Berthel.