28.6.17

Globos de ouro

As sépalas, quando existem, são a parte mais externa da flor, que a agasalha, protege dos predadores e até pode servir de pires para que o pólen não se desperdice. São componentes estéreis, que nascem antes dos outros orgãos da flor, num arranjo em que, sobrepondo-se, cobrem completamente o botão que se está a gerar. Como as pétalas, são folhas modificadas, e não são raras as que contêm espinhos, penugem irritante ou glândulas com produtos tóxicos para desencorajar quem queira estragar a flor em formação. Unidas, criam um cálice que torna mais robusta e estável a ponta da haste onde a flor aberta se apoia. Depois de as flores serem fecundadas, as sépalas costumam secar e cair; todavia, se necessário, endurecem e mantêm-se vigilantes, agora em defesa do fruto e das sementes. São em geral verdes como as folhas, mas tal como acontece com a nossa roupa, podem ficar maiores do que o resto da flor, ou até serem a parte da flor que tem a cor mais vistosa e, por isso, recebe a função adicional de atrair os polinizadores. É o que se passa, por exemplo, com as tulipas, os malmequeres-dos-brejos e as flores globosas, a lembrar tangerinas, que hoje vos mostramos.


Trollius europaeus L.



Têm cerca de 5 cm de diâmetro e são solitárias, nascendo entre Maio e Julho no topo de um talo erecto que pode chegar aos 70 cm. Na base, as folhas redondas mas muito divididas ajudam a identificar a família (Ranunculaceae) desta planta. Cada flor exibe uma dezena de sépalas amarelas que se curvam para esconder um feixe de outras tantas pétalas fininhas, sem graça mas com nectários apetitosos, e numerosos estames. Há decerto um momento em que estão ligeiramente abertas, mas não tivemos sorte em presenciá-lo; contudo, pode ver mais pormenores aqui, ou nesta ilustração da espécie T. chinensis. O nome do género, Trollius, que Lineu adoptou quando o descreveu em 1753, deriva da designação suíça trollblume (flor redonda) para esta planta.

Trata-se de uma herbácea perene de prados permanentemente húmidos e bosques frescos, margens de riachos e zonas turfosas de montanha. É venenosa para o gado que, meticulosamente, a ignora. Há populações magníficas de T. europaeus na Europa mais fria, mas na Pensínsula Ibérica só há registos dela na metade norte. Estes exemplares são da orla de um riacho em Somiedo, algures a caminho da reserva dos ursos pardos.

20.6.17

Na pista da Pistorinia


Pistorinia hispanica (L.) DC.



Às vezes dá ideia que a fronteira luso-espanhola foi desenhada com o único intuito de nos espoliar de plantas interessantes. O roubo de Olivença, empurrando a linha fronteiriça uns quilómetros para oeste, foi tavez planeado para que alguma planta até então também nossa deixasse de existir em território português. Infelizmente, estão por estudar as motivações botânicas nas disputas territoriais entre estados vizinhos. Numa época de fronteiras abertas, em que as maiores diferenças entre cá e lá são as matrículas dos automóves e a dificuldade em encontrar um restaurante que nos sirva sopa, não é este um tema de pesquisa que atraia muitos eruditos. Podemos sem dificuldade visitar essas plantas que nos foram negadas, mas ainda dói pensar que não são nossas. Nessa partilha tão desigual, há géneros botânicos (como Sempervivum, Androsace e Petrocoptis) bastamente representadas na Península (cada um com pelo menos meia dúzia de espécies) que estão tristemente ausentes da flora portuguesa.

É assim motivo para moderado regozijo saber que a Pistorinia hispanica é também portuguesa, embora só saibamos dela na margem direita (a nossa) do Douro internacional, e em tão escasso número (vimos umas dez plantas em flor) que a sua futura permanência por cá é incerta. A sua preferência por margens arenosas de rios explica o seu gradual desaparecimento por perda de habitat. Em Portugal não há grande ou médio rio que esteja livre de barragens, e é pouco provável que a Pistorinia ainda exista, como reportava Franco na Nova Flora de Portugal, no Tejo ou no Sabor. Neste último, com o recente enchimento da barragem, as margens e as plantas que lá viviam foram afogadas numa extensão de 40 Km.

O número de espécies de Pistorinia é incerto: estão descritas umas seis, mas alguns nomes são tidos como sinónimos. Confirmadas (e documentadas com fotos nesta página) estão três espécies distribuídas entre a Península Ibérica e Marrocos; a que nos ocupa é um endemismo ibérico. Todas elas são plantas anuais carnudas, de porte erecto e baixa estatura (a P. hispanica não excede os 20 cm de altura), com flores tubulares dispostas em cimeiras. A decoração extravagante das "pétalas" -- ou, mas precisamente, dos segmentos terminais em que a corola se divide -- é a marca mais distintiva da Pistorinia hispanica: sobre um fundo rosa choque, traçam-se a vermelho três riscos paralelos, rematados por uma mancha também vermelha como se a flor pintasse as unhas.

13.6.17

Olho de pássaro

Este ano retornámos à Cantábria, mas viajámos em Maio, dois meses mais cedo do que na visita anterior. Da nossa agenda constavam algumas das espécies de montanha que em Julho de 2015 já só tinham frutos para nos mostrar. Mas desenganámo-nos logo à chegada: é difícil acertar na melhor data para ver esta e aquela flor. Restarão, pois, sempre motivos para lá voltar.

Desta vez, em alguns locais a neve ainda não tinha derretido, e as plantas, cautelosas, aguardavam em folha até que o tempo aliviasse. Exemplo disso foi a Pulsatilla vernalis, que estava em flor, sim, mas teimosamente fechada. Pensámos nisso, mas não cedemos ao impulso de lhe forçar as pétalas; demos mais uma volta pelo Pico Tres Mares para lhe dar tempo de acordar, mas nem assim. Outra desilusão foi a Paris quadrifolia que, abrigada nas fissuras de rocha calcária do Picon del Fraile, tinha a haste floral a assomar mas parecia encolher-se para evitar a chuva fria que entretanto desabou sobre nós. Nos fantásticos bosques de faias, por outro lado, a pressa era outra. A maioria das herbáceas tem de florir enquanto há luz, antes que as folhosas tapem o solo com a sua sombra cerrada. Por isso, em muitos deles (mas não em todos, como vos contaremos), da Hepatica nobilis, da Anemone nemorosa, do Allium ursinum ou da Oxalis acetosela já só havia folhas. Contudo, nas turfeiras de alta montanha (acima dos 1300 metros), a natureza parecia regular-se pelo mesmo relógio que nós. E num terreno muito encharcado, entre inúmeros pés de martaguinho, lá estavam as flores que procurávamos, acabadas de fazer.

Primula farinosa L.


Esta é uma espécie perene que ocorre nas montanhas do norte e centro da Europa até ao Ártico, com plantas baixinhas (3-12 cm de altura, raramente mais) e muito atraentes. Nas flores em tom carmim destaca-se o centro amarelo, numa combinação que a alguns lembra um olho de pássaro. As folhas com formato de colher, unidas numa roseta basal, parecem polvilhadas de farinha (justificando o epíteto farinosa), mas são de facto revestidas a lã-de-prímula para agasalhar a haste floral erecta.

O género Primula parece especialmente bem adaptado a regiões frias, ocorrendo a maioria das 500 espécies em prados ou escarpas abrigadas dos Himalaias, ainda que haja também registo de algumas nas montanhas do norte de África. O nosso clima cálido não parece permitir, nem na serra da Estrela, grande variedade de prímulas, e o contingente por cá reduz-se à P. acaulis.

6.6.17

Dedaleira do Douro


Digitalis amandiana Samp.



A dedaleira é das plantas mais comuns no nosso país, e uma das poucas a que a generalidade dos portugueses sabe dar nome. Aprendemos, ainda crianças, que as dedaleiras são tóxicas, embora de facto só sejam perigosas se ingeridas em doses significativas. É pouco provável que tenhamos alguma indisposição só por enfiar o dedo numa flor (pois ela parece mesmo um dedal) ou por rebentá-la na palma da mão. Nesta época do ano, em que as dedaleiras floridas alegram terrenos baldios e bermas de estrada, cabe lembrar que mesmo uma planta tão corriqueira não é isenta de mistérios. Esses cachos de flores rosadas, bonitos mas gastos aos nossos olhos pela habituação, não podem, em rigor, ser declarados inconfundíveis, porque são várias as espécies que se escondem sob o mesmo aspecto geral. É verdade que aquela que Lineu baptizou como Digitalis purpurea é a mais abundante, mas no interior do país entre o Douro e o Tejo a Digitalis thapsi (dedaleira-peganhenta ou pegajo) faz-lhe aguerrida concorrência, chegando a suplantá-la na prontidão com que coloniza os taludes das auto-estradas. E, em certas zonas do alto Douro vinhateiro, particularmente em Carrazeda de Ansiães, a D. purpurea é substituída por uma espécie endémica da região, a D. amandiana, originalmente descrita por Gonçalo Sampaio em 1905. (A descrição de Sampaio foi reproduzida por Júlio Henriques, em 1906, no vol. XXII do Boletim da Sociedade Broteriana.) Tal como a sua congénere, a D. amandiana dá-se bem em terrenos perturbados, conseguindo assim sobreviver à fúria herbicida com que os vinicultores vêm dizimando a flora espontânea duriense.

Se compararmos a Digitalis amandiana (fotos em cima) com a D. purpurea (em baixo), as diferenças são notórias. O caule da D. amandiana é inteiramente glabro, enquanto que o da D. purpurea é peludo de alto a baixo. As folhas da D. amandiana são glabras, luzidias, estreitas, grosseiramente serradas nas margens -- em completo contraste com as da D. purpurea, que são penugentas, baças, largas, finamente dentadas. A corola da D. amandiana é exteriormente glabra, enquanto que a da D. purpurea está coberta de pêlos. Há também diferenças no cálice: os da D. amandiana são abertos, com sépalas largas e arredondadas; os da D. purpurea têm as sépalas comparativamente estreitas, mais ou menos pontiagudas, e encostadas à corola. Tudo somado, são mais óbvias as disparidades entre a D. amandiana e a D. purpurea do que entre a segunda e a D. thapsi. Não por acaso, são frequentes os híbridos entre a D. thapsi e a D. purpurea nas zonas onde as duas coexistem, mas nunca ninguém reportou um híbrido natural entre a D. amandiana e a D. purpurea.

Contudo, o reconhecimento deste endemismo duriense não tem sido unânime. João do Amaral Franco, que por certo nunca viu a planta, decretou, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2, 1984), que D. amandiana era simples sinónimo de D. purpurea subsp. purpurea. A Flora Iberica (vol XIII, 2009) não cometeu esse erro, substituindo-o por outro um pouco menos grave: considerou que a singularidade da D. amandiana merecia apenas ser reconhecida ao nível de subespécie, ficando ela a chamar-se D. purpurea subsp. amandiana. Não menos plausível, embora igualmente arbitrário, teria sido subordiná-la à D. thapsi, chamando-lhe D. thapsi subsp. amandiana ou, como já sucedeu, D. thapsi var. amandiana.

(Sobre a Digitalis amandiana, leia-se ainda o informativo texto que, em 2009, Carlos Aguiar aqui publicou.)


Digitalis purpurea L.