29.8.17

Samba a duas cores

Muitas sociedades, embora lamentavelmente não todas, asseguram hoje a cada indivíduo o privilégio de poder ter, durante quase duas décadas, uma única obrigação: a de se instruir. Nesse longo período escolar não precisa de produzir nada, nem de pagar o que consome; basta que seja curioso, que adquira conhecimentos, que aprenda a usar o seu talento. Para contrariar alguma tentação familiar de fazer render os filhos em trabalho precoce que impeça a escolarização mínima, esta é obrigatória. O sucesso deste esforço colectivo da civilização depende, claro, da qualidade dos professores e alunos, e exige uma hierarquia criteriosa nos temas a ensinar. Há que começar pelo mais simples, conteúdo que é por vezes difícil de estabelecer e nem sempre consensual. Por exemplo, em matemática, pode iniciar-se com várias instâncias em que surgem números naturais e fracções, com a comparação de formas, com a detecção de simetrias. Pouco depois, espera-se que utilizem a linguagem e as operações da aritmética com alguma desenvoltura. Só mais tarde se lhes pede que treinem o pensamento geométrico, que entendam o que é uma demonstração matemática ou que apliquem o que sabem. Uma aprendizagem mínima deve garantir que os jovens prossigam a sua vida com autonomia e êxito; frequentemente, os contributos que daí surgem, em ciência ou noutros domínios, retribuem em excesso o investimento educativo feito pela comunidade.

Do mesmo modo, para muitos amadores de botânica, a atenção às plantas silvestres começa com um capítulo fácil: as orquídeas. São de uma família evolutivamente muito avançada, que exibe estratégias de disseminação fascinantes e fáceis de observar. Além disso, têm flores sofisticadas que se avistam sem dificuldade, entre Janeiro e Agosto, nos afloramentos calcários do país. Havendo tantas espécies de orquídeas no mundo (umas vinte mil espécies distribuídas por cerca de oitocentos géneros), quem quiser pode gastar nelas todo o seu interesse pela botânica. Outros haverá que virão a apreciar fetos e gramíneas com idêntica paixão. Nenhum deles, contudo, ficará indiferente a uma orquídea que vê pela primeira vez.


Dactylorhiza sambucina (L.) Soó



Na nossa visita à Cantábria e às Astúrias, em Maio, foram tantas as novidades florísticas de que ainda nem vos demos notícia que estas orquídeas, abundantes nos prados de montanha em Somiedo e parecidas com a Dactylorhiza insularis, têm estado à espera de vez. Há um pormenor curioso nesta espécie de Dactylorhiza que nunca tínhamos observado. Em populações grandes de orquídeas é frequente surgirem umas poucas plantas com flores hipocromáticas (brancas ou em tons muito mais claros do que o usual). Na espécie das fotos, a variação relativamente à norma (flores amarelas com o labelo pintalgado de vermelho) é feita por flores vermelhas cujo desabotoar se adianta ligeiramente em relação ao das flores amarelas. Tudo indica que a cor rubra, mais vistosa, ajuda a atrair os polinizadores para um manto de flores que, se fosse todo igualmente amarelo-esbranquiçado, talvez passasse despercebido. Como estas flores não oferecem nenhuma recompensa às abelhas, seja em néctar ou em agasalho, as flores de cores diferentes permitem também distrair os insectos do logro em que vão caindo ao visitá-las.

O epíteto sambucina remete para um arbusto que decerto o leitor conhece. Lineu, em 1755, descreveu esta orquídea a partir de exemplares da Suécia, e pareceu-lhe que a inflorescência recendia a sabugueiro (Sambucus nigra). Pena que, ao contrário da tabuada que aprendemos na escola primária, não tenhamos boa memória para cheiros, menos ainda para o do sabugueiro.

22.8.17

Águas entubadas



Bolboschoenus glaucus (Lam.) S. G. Sm.




Desde os humildes regatos aos grandes rios, os cursos de água assumem os mais variados tamanhos, mas todos eles porfiam por alcançar o mar. Alguns fazem-no directamente, outros entregam-se como afluentes aos que já romperam caminho para a costa. Com o crescimento das cidades, as ribeiras de pequeno caudal que as atravessavam foram sendo entubadas, por serem incompatíveis com o cimento e o asfalto ininterruptos sobre os quais nos habituámos a fazer a nossa vida. Uma vez escondidas dos nossos olhos, podiam ainda, ignominiosamente, ser convertidas em esgotos. Os lugares onde as águas, finalmente a descoberto, chegavam ao mar (ou a um rio que, pela sua dimensão, não pudesse ser ocultado) tornavam-se então focos de sujidade e de cheiros pestilentos. Porque a espécie humana sente uma repugnância paradoxal pela porcaria que ela própria produz, não é essa a vizinhança preferida de quem vai à praia para banhos de sol ou de mar. A solução era prolongar o entubamento pelo mar fora, fazendo com que a água choca saísse a umas centenas de metros da praia.

Felizmente muito mudou nas últimas décadas, e essa é uma conquista civilizacional que merece ser celebrada. Em Gaia e em Matosinhos, muitas ribeiras foram despoluídas e (parcialmente) desentubadas, desaguando agora no areal sem incómodo para os veraneantes e sem lhes pôr a saúde em risco. É até didáctico: às crianças que se entretêm a fazer castelos de areia podem agora os pais mostrar um rio em miniatura chegando à foz. Entre a flora dunar beneficiada por esta melhoria conta-se a Honckenya peploides, que vive em areias de beira-mar mas precisa de molhar as raízes em água doce. Em Matosinhos não é invulgar encontrá-la debruçada nestes ribeiritos que meandram preguiçosamente pelo areal. A sul do Douro ela rareia, e há dois ou três anos que não conseguimos detectá-la nos pontos do litoral gaiense onde costumava existir. Oxalá reapareça. Em compensação, na Aguda, onde um curso de água recém-libertado forma um pequeno charco na areia, surgiu uma população, concentrada mas numerosa, de uma das ciperáceas mais raras do país, o Bolboschoenus glaucus. Trata-se de uma planta com caules com cerca de 1 m de altura, de secção triangular, encimados por espiguetas dispostas em fascículos longamente pedunculados; no seu congénere B. maritimus, bastante mais comum em Portugal, todas ou quase todas as espiguetas são sésseis. As duas espécies vivem sempre com um pé na água, mas o Bolboschoenus glaucus é exclusivo de águas doces e o B. maritimus (que existe com abundância, por exemplo, na lagoa de Paramos) dá-se bem em águas salobras.

Se as plantas se conformassem com o que os estudiosos escrevem sobre elas, o Bolboschoenus glaucus nunca apareceria em Gaia, pois a Flora Iberica apenas reporta a sua ocorrência no centro e sul do país. Mas, para uma espécie cuja área de distribuição natural vai da Europa até à Índia, não custará muito transpor as curtas distâncias dentro deste nosso ocidental rectângulo.

8.8.17

Flor das lampreias



Hieracium umbellatum L.



Na verdade, as lampreias que sobem o rio Minho e ficam presas nas redes armadas nas pesqueiras nunca olham para estas flores. Não porque sejam pouco dadas à contemplação, ou porque os desesperados esforços para se libertarem da armadilha não lhes permitam essa disponibilidade mental. Afinal que sabemos nós do que vai na cabeça dos bichos que matamos para comer? O desencontro entre a lampreia e este (chamemos-lhe assim) dente-de-leão é ditado pelo desfasamento temporal. É entre Fevereiro e Abril que a lampreia sobe o rio Minho para acabar nas mesas dos restaurantes a 35 euros a meia dose; e é de Julho a Setembro, quando o caudal baixa e as pedras à beira-rio escaldam ao sol, que o Hieracium umbellatum se entrega à tarefa de florir. Seria a mais tardia das plantas que enfeitam muros e rochas das pesqueiras, não fosse, em algumas lagoas e charcos, a florida companhia da Nymphoides peltata.

Uma outra asterácea de grandes capítulos amarelos, a Inula salicina, compartilha com o Hieracium umbellatum este habitat semi-natural em que os muros parecem, como as rochas, ter saído das mãos do Criador. Começa a florir dois meses antes, e diferencia-se pelas brácteas involucrais mais desenvolvidas e pelo disco central formado por florículos tubulares -- em contraste, os capítulos do Hieracium umbellatum são formados apenas por florículos ligulados (fotos 4 e 5 acima). As duas asteráceas que a lampreia nunca pôde ver também não são vistas por muita gente. A maioria das pesqueiras são pouco acessíveis, e quase ninguém as frequenta passada a faina da lampreia. Nas pesqueiras de Monção e Melgaço tanto uma como outra são fáceis de encontrar, mas de resto, a fazer fé no portal Flora-On, só aparecem em pouquíssimos lugares do Minho e de Trás-os-Montes. A sua preferência por afloramentos rochosos no leito dos grandes rios -- o tipo de habitat que o criminoso programa nacional de barragens tem vindo sistematicamente a afogar -- não lhes augura longo futuro.

Hieracium vem do nome grego para o falcão, ecoando a crença de que esta ave se alimentava da planta para tornar a vista mais apurada (como antes se dizia às crianças que as cenouras fazem os olhos bonitos). Assim se explica que os anglo-saxónicos chamem hawkweed às plantas do género. A outra coisa que sobre elas convém saber é que têm uma taxonomia terrivelmente enredada. A hibridação, a poliploidia e a apomixia (capacidade de produzir sementes férteis sem fecundação) fazem com que o número de espécies descritas, muitas delas pouco se distinguindo umas das outras, se situe, só na Europa, entre 5000 e 10000. Nenhuma flora que tentasse descrever todas estas espécies teria qualquer utilidade prática, de modo que os especialistas se puseram de acordo em destacar um certo número de espécies principais, suficientemente disseminadas, que se foram combinando para dar origem a todas as outras. Na Península Ibérica supõe-se que essas espécies principais não sejam mais que 26, contando-se entre elas o Hieracium umbellatum. O formato das folhas, a disposição dos capítulos em umbelas (i.e., elevando-se todos mais ou menos à mesma altura - confira aqui ou aqui) e a ecologia permitem-nos supor, com alguma confiança, que foi essa a espécie que encontrámos nas pesqueiras. Certeza, porém, é coisa que não está ao nosso alcance.

1.8.17

Lindas azedas

As folhas trifoliadas lembram as de um trevo, mas pela flor, com cinco pétalas venadas de lilás, percebe-se que não é do género Trifolium. Esta espécie de Oxalis, que Lineu descreveu em 1753, é comum em bosques antigos e sombrios da Europa e Ásia. Por cá, só se conhecem registos dela em regiões mais elevadas do Minho onde ainda sobram alguns carvalhais não perturbados. As fotos são de plantas da Cantábria, que aí convivem com o visco dos druidas e muitas outras herbáceas famosas.


Oxalis acetosella L.



As flores das aleluias são tacinhas com cerca de 2 centímetros de diâmetro que nascem entre Março e Junho, logo que a camada de neve começa a diminuir mas antes que as densas copas das árvores impeçam a luz de se infiltrar através da ramagem. Os pedúnculos das flores são altos e organizam-se com as folhas num arranjo interessante. Durante o dia, os folíolos formam um leque aberto e plano, num esforço conjunto para reduzir a sombra que cada folha pode causar nas restantes e, desse modo, garantirem a captação de toda a luz disponível. Para isso, as nervuras das folhas são ramificadas, permitindo à planta tê-las mais largas. Sobressaem, então, dessa mesa de folhas as flores brancas e pequeninas. Pelo contrário, à noite ou quando chove, os folíolos dobram-se (note-se a nervura central vincada em cada folíolo, o que facilita o origami) e, enquando agasalham a base da planta, impedem que o frio intenso, o vento forte ou a água em excesso os estraguem. Depois da floração, amarelecem e a planta hiberna, vivendo dos nutrientes que guardou no rizoma até à Primavera seguinte.

Admitindo que a maior parte dos detalhes morfológicos das plantas são de algum modo favoráveis às respectivas espécies, perguntamo-nos por que razão as folhas de algumas espécies são divididas em folíolos e que benefício retiram da coloração vistosa no Outono (em geral, tons de vermelho, laranja ou amarelo), precisamente quando estão prestes a cair.

O mais certo é que as tonalidades outonais sejam apenas resultado da interrupção da fotossíntese e da produção de clorofila, numa época do ano em que há cada vez menos horas de sol e a planta não pode despender a energia que uma folhagem vasta exige. Além disso, uma tal pigmentação também deve ser resultado de a planta sugar das folhas todos os nutrientes que ainda lhes restam antes de as soltar. Sim, tudo isso determina o tom de verde menos viçoso das folhas envelhecidas. Mas quanto a colorirem de vermelho ou púrpura folhas que estão à beira de morrer, isso parece a alguns botânicos exigir esforço. Sendo assim, a planta deveria retirar daí algum proveito. Mas qual? Há especialistas que afirmam que a cor está associada a substâncias anti-oxidantes, que protegem a base da planta e aumentam a eficiência com que absorve nutrientes durante o período invernal de dormência. Mas, dizem, para isso resultar, é essencial que tais folhas não sejam comidas pelo gado ou outros animais, nem se arruinem por servir de ninho para os ovos de insectos. A cor funciona, por isso, como um alerta de perigo, que dissuade possíveis predadores. Há outros cientistas, porém, que afirmam o contrário: em vez de tentar afastar, a cor forte chama a atenção de pássaros e outros bichos, que assim reparam nos frutos inconspícuos que caem com as folhas, os comem e disseminam. Controvérsia à parte, algumas destas vantagens decerto se aplicam a plantas que, como a O. acetosella, formam tapetes de folhas tenras, têm frutos pequeninos e vivem em habitats de solo rico mas com pouca luz.

Quanto à forma das folhas, em particular a opção por dividi-las ou enfeitar-lhes as margens, há decerto também vantagens a assinalar. O mais provável é que resultem de adaptações ao habitat, seja para as folhas não se destruirem com o vento, seja para reduzirem a perda de água, ou ainda para optimizarem a exposição solar. As folhas de plantas de bosques sombrios, como a O. acetosella, tendem a ser maiores mas mais finas, e a divisão em folíolos confere-lhes uma resistência que talvez não tivessem se fossem inteiras. Neste capítulo, a vulgar relva de estádio é das plantas mais especializadas e bem sucedidas: para fazer face ao cortes persistentes, as folhas são estreitas e longas, com textura rugosa e margens cortantes, e o crescimento centra-se não na ponta mas na base da folha. É como se crescêssemos apenas junto aos pés.