13.9.17

Trovisco rosado

De acordo com estudos experimentais que simulam a rotina de polinizadores, as abelhas têm uma preferência inata por certas cores, aquelas que nas flores costumam estar associadas a mais néctar, ou a um néctar mais nutritivo, ou a outras recompensas. Esta é uma enorme vantagem para a abelha iniciante na lida de recolha de alimento, como o é um mapa actualizado numa viagem a uma região mal conhecida. Mas, de facto, a cor da flor não é a única preocupação da abelha. A visão das abelhas em voo só lhes permite identificar a que flor se dirigem quando já estão quase em cima dela. E, nesse momento, há que corrigir o ângulo de navegação, manter o equilíbrio enquanto reduzem a velocidade, localizar um lugar vago e seguro na flor (que não raro abana com o vento) para aterrar, e fazê-lo sem a danificar. Se a flor for perfumada e exibir uns salpicos de cor que contrastem, assinalando o caminho até ao néctar ou ao pólen, a manobra é naturalmente mais fácil. Se, apesar de seguirem o mapa, a flor onde aterram for afinal desconhecida mas se revelar um pote de guloseimas, as abelhas não desperdiçam a oportunidade de lá voltar: sacrificando a rapidez da colheita, memorizam os traços mais significativos da flor, apreendem demoradamente as mudanças de parâmetros da cor com o ângulo de abordagem e a incidência da luz, e traçam uma rota optimizada para a reencontrar (algo que os instrumentos de GPS não sabem ainda fazer sozinhos).

Pelo que vemos por aí, as plantas mantêm constante a cor das suas flores, e este é talvez o sinal mais fiável para o polinizador as identificar. Mas a longo prazo, algumas alterações genéticas podem introduzir variações que se revelam lucrativas, e a selecção natural tenderá a valorizar as características da flor que mais agradam aos visitantes. As primeiras flores, que se acredita terem sido esverdeadas, evoluiram para atrair polinizadores; por isso, o modo como estes vêem e distinguem as cores determinou a paleta dominante (amarelo, violeta, branco, vermelho) que hoje reconhecemos nas flores silvestres. Nos troviscos, de que em Portugal há registo de duas espécies, a Daphne laureola e a (muito mais comum) Daphne gnidium, só conhecíamos flores brancas ou de cor creme. Na nossa visita à Cantábria em Maio aprendemos que este género sabe tirar proveito de mais cores.


Daphne cneorum L.




Circulávamos numa estrada íngreme no Parque Natural dos Collados del Asón, ladeada por montes calcários, quando, pelo rabo do olho, nos pareceu ver umas manchas de um tom de rosa invulgar. Parámos, claro, para averiguar, e foi uma agradável surpresa descobrir uma população magnífica deste trovisco com flores carmim. É da natureza humana apreciar o que é belo e raro: já se sabe que, se por cá as flores de Daphne fossem cor-de-rosa, seriam as esbranquiçadas que nos entusiasmariam. Mas ainda não estava tirada a terceira fotografia do novo trovisco, e já a polícia de trânsito surgia ao fundo da ladeira para inquirir daquele estacionamento inusitado. Felizmente havia mais exemplares no topo da estrada, e a sessão de fotos pôde aí completar-se em sossego. Notem como as folhas são coriáceas e formam arbustos rasteiros, com as flores (sem pétalas; o tubo rosa, muito perfumado, é feito de sépalas) agrupadas em grinaldas nos ápices dos ramos. Nesta excelente página sobre a flora do Mediterrâneo listam-se mais algumas espécies de Daphne com flores invulgares.

1 comentário :

bea disse...

Muito atraente, o trovisco rosado. Mesmo para quem não é abelha. A variedade alpina também me seduz. Os senhores agentes são assim, pouco ligam a motivos florais de beira de estrada:).