31.1.17

Madeira Fern Fest (2)

Asplenium aethiopicum subsp. braithwaitii Ormonde

A Madeira tem uma invejável rede de vias rápidas, servida por uma profusão de pequenos, médios e grandes túneis -- que, se nos permitem chegar mais rapidamente à almejada natureza, têm o inconveniente de dificultar o uso de GPS. A receita é conduzir a velocidade moderada, dando tempo ao aparelho para captar os satélites nos breves intervalos entre dois túneis. Quando tomamos as estradas secundárias, é uma outra ilha que se descobre, inalterada durante as décadas em que a Madeira Nova progredia a toda a brida. Em redor do Funchal, as vias labirínticas, estreitíssimas e quase a pique são um susto para o condutor desprevenido. Subindo para o interior da ilha e deixando para trás a malha urbana, as estradas normalizam-se e a condução faz-se sem dificuldades. Podemos estar atentos à vegetação das bermas, parando sempre que nos convenha, pois não foi para outra coisa que viemos. Três dos fetos que vão desfilar no Madeira Fern Fest, incluindo o de hoje, são estradeiros. Que os tenhamos encontrado nos mesmos locais das mesmas estradas onde foram assinalados há 30 ou 40 anos, apesar da modernização, dos incêndios e de outras catástrofes, é forte motivo para optimismo.

Este Asplenium aethiopicum prefere a vertente norte da ilha, mais arborizada e húmida, menos povoada. O muro alto de pedra solta onde o vimos empoleirado fica à face da estrada. Antigos campos de cultivo, invadidos por Pteridium, Arundo donax e outras plantas infestantes, pontuados por pinheiros e eucaliptos, dispõem-se em socalcos acima e abaixo da estrada. Do lado de lá de um vale, o casario branco trepa pela encosta. É uma paisagem rural, mas de uma ruralidade ferida de abandono, igualzinha à que conhecemos no continente.

Igualzinha nos traços gerais, mas não nos detalhes. Os muros são de basalto, em vez de xisto ou granito. Algumas plantas indígenas, lideradas pelos ensaiões (Aeonium glandulosum, Aeonium glutinosum), disputam cada palmo do muro às invasoras. Nessa comunidade de resistentes integra-se o Asplenium aethiopicum, um feto de tamanho médio (folhas até 40 cm de comprimento) que fornece uma prova adicional da africanidade desta ilha povoada por europeus. Os soros lineares no verso das pinas (2.ª foto), fazendo lembrar pinturas de guerra dos povos indígenas norte-americanos, não deixam dúvidas quanto à sua filiação no género Asplenium, um dos mais variados e populosos (cerca de 700 espécies no mundo inteiro) desta classe do reino vegetal. Mas nenhum outro Asplenium em território português (seja nas ilhas ou no continente) se confunde com este. As frondes registam alguma variação, sendo as jovens (3.ª foto) menos recortadas do que as maduras, mas em geral são bipinatífidas, enquanto que as do A. onopteris, por exemplo, são bipinatissectas (ou tripinatissectas). Isso significa que neste os segmentos (pínulas) que compõem as pinas estão bem separados uns dos outros (foto), enquanto que naquele eles o estão apenas por uma fenda que não atinge o eixo da pina.

O epíteto aethiopicum não significa que, em África, a planta apenas exista na Etiópia. Aethiopia, na antiguidade clássica, era o nome para toda a África não mediterrânica, aquela que fica a sul do Egipto, Líbia, Argélia e Marrocos; na taxonomia botânica, o nome aethiopicum é mais usado para plantas sul-africanas. De facto, o Asplenium aethiopicum foi primeiramente descrito a partir de exemplares colhidos na África do Sul; e, apesar de estar muito espalhado por África (ver nesta página), talvez nem exista no país a que hoje chamamos Etiópia (antiga Abissínia). Em compensação, a sua distribuição global é vastíssima, pois é tido como nativo da América tropical (incluído Caraíbas), de África (incluindo Madagáscar), da Austrália e do sudeste da Ásia. Num feto tão viajado, não é surpresa que a variabilidade seja grande, e só na África do Sul estão registadas umas quatro subespécies, diferindo umas das outras no tamanho e no grau de divisão das frondes, e também, mais subtilmente, no número cromossómico e no modo de reprodução (sexuada ou apomíctica). Algumas variantes (exemplos: 1, 2) parecem-se pouco com a versão madeirense, mas outras já se assemelham bastante (exemplo). As plantas madeirenses foram emancipadas em 1991, por José Ormonde (no artigo The Macaronesian representatives of the Asplenium aethiopicum complex, publicado no n.º 43 do Boletim do Museu Municipal do Funchal), numa nova subespécie a que ele chamou braithwaitii, endémica da Macaronésia (Madeira, Canárias e Cabo Verde), mas a aceitação deste taxon não é unânime.

24.1.17

Sinos dourados

Lembra-se, caro leitor, da Azorina vidalii, espécie única de um género da família Campanulaceae que é endémico dos Açores? Pois bem, o arquipélago da Madeira também tem a sua quota de campânulas endémicas: o género Musschia, nome dedicado ao botânico Jean Henri Mussche (1765-1834), só existe na Madeira e Desertas, e dele há registo de três espécies.


Musschia aurea (L.f.) Dumort.



As plantas da espécie Musschia aurea, fáceis de avistar em fissuras de rocha de algumas falésias do litoral sul madeirense, são herbáceas perenes de uns 50 cm de altura, com rosetas de folhas luzidias e flores amarelas dispostas em panícula piramidal. Estranha-se que sejam parentes das frágeis campânulas e lobélias mas, descontando o exagero no tamanho, notamos semelhanças entre todas elas. Repare-se, por exemplo, nas folhas bi-serradas mais estreitas na base, no cálice de sépalas longas, nas pétalas reviradas para fora, nos estigmas unidos ao centro. Não esperávamos vê-las em flor (ao contrário dos muitos pés de Gennaria diphylla a bordejar as levadas), mas na Ponta do Garajau, em rochas e muros mais sombrios, havia ainda alguns exemplares viçosos.



As plantas da espécie Musschia wollastonii são arbustivas, com caule lenhoso que pode atingir os dois metros de altura. Moram no interior extremamente húmido da ilha da Madeira, sob o ruído constante da água a correr e à sombra das magníficas árvores da laurissilva. Para as encontrar neste cenário especial, munidos de lanterna de mineiro, botas anti-derrapantes e bordão, atravessámos um túnel estreito, de uns 600 metros de comprimento, que acompanha parte da levada do Folhadal. As folhas são grandes e penugentas, estreitando na base, e formam um saiote engraçado porque a roseta basal se vai elevando à medida que o talo cresce. As flores, da Primavera e Verão, têm corola avermelhada e agrupam-se em panículas piramidais de cerca de um metro de altura. É uma espécie monocárpica: cada planta só floresce uma vez na vida, morrendo depois de lançar o seu fogo de artifício. Na lista vermelha da IUCN, a M. wollastonii está na categoria das espécies em risco pelas inúmeras ameaças ao seu habitat.


Musschia wollastonii Lowe



Em 2007, foi descrita uma outra espécie também monocárpica, Musschia isambertoi, cujo epíteto homenageia o vigilante da natureza Isamberto Silva, seu primeiro descobridor, que se distinguiu na colaboração com várias gerações de botânicos na Madeira. Dela conhecem-se apenas duas populações na Deserta Grande. Diferencia-se das anteriores essencialmente pela corola verde das flores, pela inflorescência só dividida no topo da haste floral, e pelo formato e indumento das folhas. R. Lowe, que certamente visitou as Desertas pois descreve a flora destas pequenas ilhas na obra A manual flora of Madeira and the adjacent islands of Porto Santo and the Desertas (1868), não a terá visto porque, no século XIX, o excesso de cabras e coelhos terá reduzido drasticamente o contingente desta e de outras espécies. As mesmas que agora, sendo as Desertas uma reserva natural e estando as visitas controladas ou mesmo proibidas, recuperam aliviadas de um tal excesso de predadores.

17.1.17

Madeira Fern Fest (1)


Arachniodes webbiana (A. Braun) Schelpe subsp. webbiana



Férias na última semana do ano por imposição da entidade patronal, entre as luzes dos presépios gigantes, a música melosa embalando ruas e centros comerciais, a promessa de multicoloridos fogos de artifício ao último toque da meia-noite. A Madeira não é o melhor lugar para fugirmos ao espírito da quadra, até porque nos calhou ficarmos hospedados na vila com a maior concentração de presépios do mundo ocidental, mas o clima subtropical proporcionou-nos, mesmo em Dezembro, algumas gratificantes descobertas botânicas. Cabe aqui um tímido protesto por a flora madeirense não ter tirado, a nosso ver, o máximo proveito da amenidade do clima. Vigora ainda um temeroso respeito pela divisão clássica do ano em quatro estações que, com propriedade, só se aplica a latitudes mais agrestes. Não se vislumbra motivo razoável para a opção assumida pela maioria das plantas da ilha de florir naqueles meses que, no continente, chamamos de Primavera. Há flores na Madeira em Dezembro, mas não tantas como seria possível ou desejável. Para compormos o ramalhete de novidades, viramo-nos para os fetos, essas plantas austeras, avessas a enfeites, que se mantêm todo o ano iguais a si próprias.

O primeiro feto a comparecer, de seu nome Arachniodes webbiana, é um habitante da mítica laurissilva que reveste as abruptas encostas da metade norte da Madeira. Este feto de grandes folhas, que podem atingir um metro de comprimento, vive em florestas húmidas e permanentemente ensombradas. O formato pentagonal da folha, com as duas pinas basais muito maiores e mais divididas do que as restantes, pode fazer lembrar o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa). Este último, contudo, é de maior envergadura (quase 2 metros) e apresenta soros marginais (ver foto), enquanto que no feto madeirense os soros estão distribuídos pela face inferior das pínulas (2.ª foto acima).

No desenho minucioso das suas frondes, a Arachniodes webbiana faz inteira justiça à teia de aranha que o seu nome invoca. Para melhor exibir tão elegante simetria, a estipe, com uns 50 cm de altura, é vertical, fazendo um ângulo quase recto com a lâmina da folha, que adopta a posição horizontal. É quase inexplicável que um feto de tão óbvias qualidades ornamentais não seja cultivado em jardins.

Apesar da abundância de habitats propícios, a Arachniodes webbiana aparece apenas em raros lugares da laurissilva, aproveitando então para formar populações numerosas. Endémica da ilha da Madeira, a raridade torna-a ainda mais vulnerável e preciosa, mas noutras eras ela ou os seus antepassados próximos terão tido uma distribuição bastante mais ampla. De facto, uma sua irmã gémea (Arachniodes foliosa, ou Arachniodes webbiana subsp. foliosa) sobrevive no sudeste de África, numa faixa que vai desde o Uganda e o Quénia até à África do Sul. As duas espécies (ou subespécies), mal se distinguindo na morfologia, são geneticamente distintas, já que a madeirense é diplóide e a africana é tetraplóide. Isso sugere que a estirpe insular é a mais antiga das duas, e sublinha o estatuto único da laurissilva madeirense, refúgio de tantas relíquias do passado da Terra.

10.1.17

Pequena umbela amarela



Thapsia minor Hoffmanns. & Link

Pequenas, grandes ou assim-assim, muitas são as umbelas amarelas que enfeitam os campos na Primavera e no Verão. A mais abundante no continente e nas ilhas é o funcho (Foeniculum vulgare), que apesar de ultrapassar a estatura de um adulto exibe uma umbela de acanhadas dimensões. Mas não é pelas flores que o funcho é apreciado, e são as plantas menos utilitárias que têm de se esforçar no capítulo da beleza. A campeã em altura e em efeito ornamental é a canafrecha (Ferula communis), disseminada pelo centro, sul e interior norte do país mas ausente do noroeste. Usando igualmente a ideia das inflorescências esféricas, a tápsia (Thapsia villosa), com uma altura máxima de 2 metros, fica em vistosidade um pouco aquém da canafrecha. O que temos hoje no escaparate, ainda na temática amarela, é uma tápsia em versão de bolso, com caule mais débil (30 a 90 cm de altura), umbelas mais ralas e achatadas, ideal talvez para um jardim modesto, ou mesmo para um vaso de trazer por casa se a fraca luminosidade a não fizer definhar.

A tápsia-maior (chamemos-lhe assim para fazer contraponto à menor) é uma planta todo-o-terreno, mas em Portugal aparece sobretudo em áreas de clima mediterrânico (bacia do Douro, Algarve) e em substratos calcários. A tápsia-menor, com fobia por solos básicos, frequenta o sub-bosque de pinhais, sobreirais e carvalhais de Quercus pyrenaica, e também, ocasionalmente, clareiras de urzais como aqueles que revestem as encostas da serra da Boneca (Penafiel), onde a fotografámos. Durante algum tempo, e foi essa a opção de Franco no 1.º volume, de 1971, da Nova Flora de Portugal, as duas tápsias foram integradas na mesma espécie, considerando-se a agora chamada Thapsia minor como um extremo de variação da Thapsia villosa. O assunto foi tirado a limpo com a publicação, em 2003, do volume X da Flora Iberica, dedicado à família das umbelíferas. Prova de que a ciência não é imune a retrocessos, não se tratou de baptizar uma espécie nova, mas sim de recuperar o nome que Hoffmannsegg & Link lhe haviam dado em 1834 no volume 2 da Flore Portugaise (ver aqui). A tápsia-menor, diga-se, tem a distinção de ser um endemismo ibérico, enquanto que a tápsia-maior também vive em França e no norte de África.

O que interessa a estas umbelíferas não é serem agradáveis aos nossos olhos. Isso é apenas efeito colateral do seu indiscutível sucesso a atrair insectos que, por via da polinização, lhes garantam a produção de sementes. E eles mostram-se tão empenhados nas suas funções que nem descansam ao fim-de-semana, como comprovam as fotos (tiradas num sábado) onde, além das formigas, vemos afanosamente mergulhados nas flores dois outros bichos a que, por incurável ignorância, chamamos escaravelhos.

3.1.17

Flores de outras heras



Glechoma hederacea L.

Para as plantas herbáceas perenes, o Inverno é tempo de descanso forçado pelas poucas horas de sol e pelas longas noites frias. A maioria delas resguarda-se no subsolo, pacientemente à espera de Março. Algumas, porém, apreciadoras de sombra e humidade, aproveitam esse recolhimento geral para avançarem determinadas pelo solo, enraizando os caules e garantindo para si na Primavera os melhores recantos. Parece ser o caso da herbácea rasteira das fotos. Outrora com uso medicinal e culinário, alguns chamam-lhe erva-de-São-João, outros ground-ivy. Para quem, como nós, insiste em procurar plantas que não estão em flor nesta altura do ano, estes são os exemplares que, de tão sozinhos, reconhecemos pelas folhas. As da Glechoma hederacea lembram as da hera (do género Hedera), e são reniformes com margens dentadas ou crenadas.

Esta é a única espécie do género Glechoma que ocorre na Península Ibérica, onde parece restringir-se ao norte e oeste. A descrição da Flora Ibérica sugere que é abundante em bosques caducifólios de quase toda a Europa e parte da Ásia, mas por cá tem sido raro encontrá-la. As fotos são de espécimes de Macedo de Cavaleiros (junto ao rio Azibo), mas poderiam ser do Gerês (perto da albufeira de Salamonde) ou de Chaves (nas margens do rio Mousse). A preferência por habitats ribeirinhos fartamente arborizados, ainda não convertidos em praias fluviais, confina esta espécie, no nosso país, a uns poucos e recatados lugares.



Com o perfil e formato típicos da família das labiadas, as flores de Glechoma (femininas ou hermafroditas) usam, além do aroma, sinais de cor no espectro ultravioleta que guiam os polinizadores até ao néctar -- e que são desligados quando a polinização acontece. Nos refúgios com parca luminosidade onde estas plantas vivem, a cor roxa suave que vemos na corola das flores surge ao olhar dos insectos claramente dividida em duas zonas de tonalidade distinta, realçando-se desse modo o centro da flor onde estão os nectários e a polinização se pode efectuar. É uma conversa silenciosa esta que as flores mantêm com os insectos.