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30/10/2012

Pau enegrecido

Picconia azorica (Tutin) Knobl.


Que a ilha das Flores é um rectângulo com 17 Km de comprimento e 12 Km de largura é um dado objectivo, do qual somos tentados a deduzir que todas as distâncias na ilha são insignificantes, e que só por comodismo habitantes e turistas se deslocam de carro e não a pé. O pedestrianismo é, além do mais, um modo de combater a claustrofobia, fazendo com que um espaço confinado se alargue em lonjuras insuspeitadas. Na realidade, para quem não é adepto de desportos suicidas, as distâncias que os mapas mostram pouca relação têm com aquelas que somos obrigados a percorrer. Subindo à costa oeste da ilha contemplamos lá em baixo, assim o nevoeiro o permita, os campos delimitados a pedra de lava, verdíssimos e geométricos, que anunciam o casario da Fajã Grande. Um pássaro pôr-se-ia lá num breve bater de asas, mas as centenas de metros da falésia quase vertical obrigam-nos, pobres bípedes, a tomar uma estrada que se enrola e desenrola preguiçosamente por uma dezena de quilómetros.

Aproximarmo-nos gradualmente daquilo que começámos por ver ao longe é pretexto para um jogo de adivinhação com regras flexíveis, em que o apostador pode ir corrigindo a aposta e no final ganha sempre. Que árvores são aquelas derramadas pela encosta como um reposteiro espesso? Criptomérias, sem dúvida. Mais adiante uma mata cerrada de incensos. Um ou outro plátano esquecido à beira da estrada. Não haverá, em toda esta exuberância de arvoredo exótico, uma amostra da vegetação autóctone? Sim, há os fetos, alguns deles raros noutras paragens mas aqui improvavelmente comuns, como o feto-do-botão (Woodwardia radicans) e o feto-frisado (Trichomanes speciosum). E há arbustos que gostariam de ser árvores e lutam por um réstia de espaço numa ilha que já foi sua, como a faia-da-terra (Myrica faya) e o pau-branco (Picconia azorica).

Já quase a altitude zero, com uma pastagem e uma estrada a separá-lo do mar, um bosquete de pequenas árvores com folhagem luzidia e copa de muitos e emaranhados ramos atrai-nos a atenção. Não fossem os troncos quase negros e diríamos tratar-se do pau-branco. Há que saltar um muro para confirmar de perto a identificação. Sim, as flores (poucas, porque tardias) não mentem, e os ramos mais recentes exibem a palidez e lisura que caracterizam a espécie. O pau-branco enegreceu e enrugou com a idade, mas não deixou de ser quem era.

Arbusto ou árvore perenifólia com não mais que 8 metros de altura, a Picconia azorica é endémica dos Açores, onde só não ocorre na Graciosa. Uma segunda espécie, Picconia excelsa, da Madeira e das Canárias, partilha o nome pau-branco e completa um género que é exclusivo das ilhas atlânticas. Ambas têm fama de fornecer boa matéria-prima para a marcenaria, o que, nos Açores, terá contribuído para o desaparecimento de povoamentos antigos. Nas Flores, onde são comuns os indivíduos jovens de Picconia azorica, a espécie não está tão ameaçada como poderá estar noutras ilhas; mas árvores com muitas décadas de vida, como estas na Fajã Grande, parecem ser raras.

Ilha das Flores: Fajã Grande com Picconia azorica em primeiro plano

25/09/2012

Costa dos cubres

Solidago sempervirens L.


Que o Solidago sempervirens é das plantas mais estimadas pelas gentes açorianas prova-o a circunstância de o seu nome, cubres, ser genuinamente popular, e não uma invenção de botânicos empenhados em enriquecer a língua portuguesa. Em São Jorge existe a Fajã dos Cubres, testemunho inequívoco do apreço em que esta planta é tida localmente. E, aquando da minha primeira vista às Flores, ao mencionar no hotel o meu interesse por plantas, a recepcionista puxou do livro Plantas e Flores do Açores, de Erik Sjögren, e mostrou-me os cubres em foto de página inteira. Desiludi-a ao admitir que nunca tinha visto a planta — embora, como comprovei depois, ela ocorresse em boa quantidade a poucas dezenas de metros do hotel.

O reverso da medalha é que o Solidago sempervirens, nativo da costa leste da América do Norte, não pertence à flora indígena açoriana. Ou será que pertence? Os registos históricos são incertos, mas há suspeitas de que a sua presença nas ilhas seja anterior à colonização portuguesa. Se chegou lá por meios naturais, com sementes trazidas pelas marés, pelos pássaros ou pelo vento, então deve ser considerada indígena e não exótica. Outro óbice a tratar-se de uma espécie introduzida é que, tirando os Açores, onde está presente em todas as ilhas, o Solidago sempervirens só ocorre na sua região de origem, nos EUA: não há notícia de se ter naturalizado em qualquer outra parte do mundo. O seu estatuto nos Açores tarda em ser esclarecido e é certamente merecedor de estudo sério.

O nome inglês seaside goldenrod é uma boa descrição da planta em flor e também um indicador do habitat por ela preferido. É uma planta alta, com 1 a 1,5 metros de altura, base lenhosa e folhas grandes, semicarnudas, com os capítulos florais, que brotam só nos meses de Verão, agrupados em panículas densas e alongadas. Nas Flores surge nas falésias e rochedos ao longo de toda a costa, mas também faz umas incursões ao interior da ilha. Sendo muito comum nesta ilha (menos nas outras), está perfeitamente integrada na flora e paisagem locais e, pelo seu comportamento regrado, não pode ser equiparada a exóticas daninhas como o Hedychium gardnerianum e a Hydrangea macrophylla.

21/09/2012

Macho arrepiado

Dryopteris crispifolia Rasbach, Reichst. & G. Vida


Nisto de fetos há uma tradição, que remonta a Lineu, de distinguir machos e fêmeas, numa separação de todo fantasiosa que não se baseia no papel de cada um na reprodução por via sexual. O feto-fêmea (Athryium filix-femina) não tem comércio com o feto-macho (Dryopteris filix-mas) e, mesmo que tivesse, dificilmente tal interacção daria origem a uma nova planta. Com todas estas ressalvas, e na ausência de nomes comuns em português para a maioria das espécies, dá jeito tratar todos os fetos do género Dryopteris, em geral plantas de envergadura respeitável que vivem em bosques e lugares húmidos, pelo nome de feto-macho. Ao endemismo açoriano de que hoje nos ocupamos, com as suas folhas retorcidas, assenta bem a designação de feto-macho-arrepiado. A temperatura nas ilhas não justifica, em geral, aspecto tão friorento, mas o nosso feto, que ocorre em apenas cinco ilhas (São Miguel, Terceira, Pico, Faial e Flores), prefere as altitudes mais elevadas, acima dos 350 metros. E nas Flores, ultrapassada a fasquia dos 600 m de altitude, o Inverno pode acontecer em qualquer dia do ano. Curiosamente, o outro feto crispado que já por aqui passou, Cryptogramma crispa, é uma especialidade de alta montanha, o que reforça a ideia de que, tanto num como noutro caso, os arrepios que afligem as folhas são uma reacção às baixas temperaturas.

Salvo pelo seu aspecto peculiar do anonimato em que, por inépcia nossa, se perdem grande parte dos fetos açorianos, do Dryopteris crispifolia podemos garantir que é presença assídua nas florestas liliputianas de zimbro com turfeira que preenchem a zona central da ilha das Flores. Mesmo o turista que se apeia do seu carro para a visita obrigatória ao miradouro das lagoas tê-lo-ia em abundância à mão de fotografar, caso as ditas lagoas, uma escura e redonda e a outra azul e estreita, não lhe monopolizassem a atenção.

Com frondes triangulares de não mais que 90 cm de comprimento, dispostas em tufos, o feto-macho-arrepiado aparece em ravinas e bosques naturais mas também, ocasionalmente, em antigas plantações de criptomérias.

Lagoa Negra e Lagoa Comprida — ilha das Flores

14/09/2012

Mansa com espinhos

Rubus hochstetterorum Seub.


Há dois motivos fortes para evitarmos as silvas: os seus espinhos agressivos, que tornam intransponíveis os matorrais por elas colonizados; e o labirinto taxonómico em que o género Rubus se tem enredado, e onde até os especialistas correm risco de desnorte. Graças a estratégias como a hibridação, a reprodução vegetativa ou a apomixia (produção de sementes férteis sem que tenha havido fecundação), o número de micro-espécies é assustadoramente alto e resiste a qualquer sistematização. Seguindo o exemplo de outros peritos, o autor da revisão do género na Flora Ibérica decidiu, para que a sua síntese tivesse alguma utilidade, não considerar como espécies válidas aqueles táxones com uma área de ocorrência inferior a 50 Km2. Há portanto silvas que, por lei, vivem no limbo das coisas sem nome.

Mas as flores que despontam com a Primavera, além da beleza modesta que é a sua, contêm a promessa de regalo para o paladar. No meio dos espinhos, quando chega o Verão, brilha o negrume luzidio das amoras silvestres. Perdoamos os arranhões e tratamos de adoçar a boca. Flores e frutos, cada qual a seu tempo, são razões que pesam no prato do bem e talvez consigam, na balança dos nossos (des)afectos, compensar as razões do lado do mal. Devemos pois manter uma atitude aberta. Silvas há que têm nome, entre elas a mais comum e mais fácil de identificar, chamada Rubus ulmifolius. Outras silvas compensam o anonimato pelas flores vistosas e pelos frutos generosos. E outras ainda juntam ao mérito visual e gustativo a conveniência de um nome inequívoco. Assim é o Rubus hochstetterorum, a silva-mansa açoriana, um endemismo que, de todas as ilhas do arquipélago, só não mora na Graciosa.

As duas silvas, a expansionista R. ulmifolius e a endémica R. hochstetterorum, competem uma com a outra nas oito ilhas restantes, com a primeira quase sempre em larga vantagem. A excepção é a ilha das Flores, em que a silva-mansa é muito comum e a outra nem por isso. Pelo perverso hábito de ignorar o que é abundante e só ter olho para as raridades, somado ao preconceito contra as silvas em geral, não dei qualquer atenção, durante a minha visita à ilha em 2011, a essa silva de flores imaculadamente brancas (ou por vezes rosadas) que encontrei desde os cumes do Morro Alto até às falésias costeiras. Que o erro pôde ser remediado em 2012 aí estão as fotos para comprovar.

A cor das pétalas não é um indicador infalível para distinguir as duas espécies, pois ocasionalmente o R. ulmifolius pode dar flores brancas. Mas em qualquer caso elas são mais pequenas, com cerca de metade do diâmetro das flores do R. hochstetterorum (que podem chegar aos 5 cm), têm pétalas mais delgadas, e dispõem-se em panículas estreitas, em contraste com as panículas amplas do R. hochstetterorum. Por não ter visitado a ilha na estação certa, não pude comparar os frutos de uma e de outra silva, mas consta que as da segunda são maiores.

São dois os botânicos alemães de apelido Hochstetter ligados ao estudo da flora açoriana, e não é impossível que o epíteto hochstetterorum tanto homenageie um como outro. Christian Ferdinand Friedrich Hochstetter (1787-1860) e Karl Christian Friedrich Hochstetter (1818-1880), pai e filho, visitaram demoradamente o arquipélago em 1838, mas só o primeiro é referido, e de raspão, no livro Os Dabney — Uma família americana nos Açores (edição Tinta da China, 2009), relato condensado da vida no Faial ao longo do século XIX. As descobertas açorianas dos dois Hochstetter serviram de base à pioneira Flora Azorica (1844), de Moritz August Seubert, onde surgem as descrições originais do Rubus hochstetterorum, da Veronica dabneyi e de muitos outros endemismos do arquipélago.

07/09/2012

Patalugo

Leontodon rigens (Dryand.) Paiva & Ormonde Leontodon hochstetteri M. Moura & L. Silva


Há quem saia das ilhas movido por sonhos de grandeza. As plantas têm a atitude oposta e instalam-se nas ilhas para ficarem grandes. Já aqui reportámos instâncias desse fenómeno açoriano, com uma Angelica e uma Tolpis que extravasam escandalosamente as medidas aconselhadas para os géneros a que pertencem. E, embora de aparência mais comedida, pois não ultrapassa os 60 cm de altura, o Leontodon rigens, outro endemismo açoriano, faz figura de extraterrestre face a congéneres continentais como o L. tuberosus e L. taraxacoides. Além das folhas grandes (30 cm de comprimento), caracteristicamente recortadas e peludas (toda a planta é aliás bastante hirsuta), o que singulariza o L. rigens é o modo como os capítulos florais, cada um deles com 5 ou 6 cm de diâmetro, se dispõem em corimbos quase esféricos.

Patalugo-menor é o nome por que ele é conhecido no seu arquipélago natal, ficando patalugo-maior reservado para o também açoriano Leontodon filii. Paradoxalmente, o patalugo-menor excede o seu irmão em quase todos os parâmetros: no tamanho das folhas, na altura da haste floral, na abundância da floração. O patalugo-maior só se superioriza no diâmetro dos capítulos florais, mas perde por ter apenas 4 ou 5 em cada haste. Os dois Leontodon são de floração estival, ocorrendo cada um deles em cinco ilhas: ambos em São Miguel, Pico e Terceira; o L. filii ainda em São Jorge e no Faial; e o L. rigens nas Flores e no Corvo. Como sucede a quase todos os endemismos açorianos, os patalugos são raros e têm a sua sobrevivência ameaçada, com a importante ressalva de o L. rigens ser comum nas Flores, e só nas Flores. Enfeitando bermas de estrada, onde aliás só não surge com maior frequência por causa da perseguição das brigadas de limpeza, substituiria com vantagem as exóticas hortênsias como imagem de marca da ilha, pois floresce na época do ano em que chegam mais visitantes.

Terminamos com um apontamento semântico-morfológico. Leontodon significa dente de leão, nome que é costume dar, em português e em outras línguas, às plantas do género Taraxacum. Os dois géneros botânicos têm evidentes semelhanças, tanto nas inflorescências como no recorte das folhas onde a imaginação popular, acolhida por Lineu, quis ver a dentadura do grande felino. Talvez o modo mais fiável de distinguir os Taraxacum seja pelas brácteas involucrais proeminentes, por vezes com os ápices recurvados para baixo.

Nota. Um artigo de 2015 na revista Phytotaxa, intitulado A revision of the genus Leontodon (Asteraceae) in the Azores based on morphological and molecular evidence), mostrou que as plantas do grupo ocidental antes incluídas em Leontodon rigens constituem de facto uma espécie diferente, a que os autores chamaram Leontodon hochstetteri. Assim reinterpretado, L. rigens é um endemisno da ilha de São Miguel.

31/08/2012

Poderosa Angélica

Num rectângulo com 17 Km de comprimento e 12 de largura, como é a ilha das Flores, as distâncias são de pouca monta, e é de supor que a rede viária esteja há muito completada. Bastaria uma estrada principal ligando as povoações, todas elas no litoral, complementada por uns poucos acessos secundários à costa ou ao interior da ilha: um esqueleto básico que já foi largamente excedido sem que a construção de rodovias pareça abrandar. O processo, em geral com várias etapas, começa quando um caminho de pé posto é alargado e convertido em estradão; em seguida o estradão recebe uma camada de asfalto, logo depois as bermas são melhoradas, e eis que temos uma estrada a brilhar de nova. É o que está a suceder na zona do Morro Alto, onde se situam as mais valiosas manchas florestais de zimbro com turfeira, e por onde, dentro de poucos anos, passará uma estrada de ligação ao norte da ilha. Falta só asfaltar, pois o estrago maior (abertura e alargamento da via) já foi feito.

Que necessidade há de uma estrada dessas? O interior da ilha é despovoado e ninguém mora no Morro Alto. O trajecto entre a Fajã Grande e Ponta Delgada ficará talvez meia dúzia de quilómetros mais curto, mas não é certo que os florentinos venham, nas suas deslocações, a preferir a nova estrada. Talvez só para variar o itinerário, pois a urgência de chegar não faz parte do seu dia-a-dia. Percorri demoradamente a pé, numa terça-feira com muito sol, a recente estrada que liga a caldeira seca à costa nordeste das Flores. Podia, se o quisesse, andar descansado pelo centro da via, pois nas três horas de uma caminhada com muitas paragens nem dez carros terei visto passar.

Os prejuízos da abertura de estradas em zonas de grande valor natural não se resumem aos inevitáveis desbastes e terraplenagens. Para além de se facilitar o acesso de visitantes a habitats sensíveis, abrem-se vias de penetração para a conteira (Hedychium gardnerianum) e a árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum), principais componentes da vegetação infestante que, nas Flores, domina por completo os bosques a média ou baixa altitude.

Admito, com algum egoísmo, que essas novas e nefastas estradas até me deram jeito. Sem elas, não teria tido igual facilidade em dar de caras com a Poderosa Angélica e outras especialidades da flora açoriana.


Angelica lignescens Reduron & Danton



Da angélica ou Angelica lignescens, endemismo açoriano presente em cinco ilhas dos três grupos do arquipélago (Flores, Faial, Pico, Terceira e São Miguel), dir-se-á no mínimo que impõe respeito. Trata-se de uma umbelífera descomunal, que no período de floração atinge os três metros de altura, e em que a inflorescência sustentada por quatro ou cinco dezenas de raios pode chegar a um metro de diâmetro. É uma planta ameaçada, com populações localizadas e escassas. É também impossível de não ver se chegarmos perto dela ou nem assim tão perto. Pude chegar muito perto porque a tal nova estrada de escassíssimo trânsito atravessa justamente a maior população desta planta na ilha das Flores.

Além das plantas em flor, que porém não se tinham ainda desenvolvido em toda a pujança e ficavam aquém das medidas prometidas, havia muitas outras que só mostravam a folhagem — folhas tripinadas com cerca de um metro de comprimento. Florir, para a angélica, é o culminar apoteótico da existência, e não acontece antes do quinto ou sexto ano de vida. Depois de produzir semente, acto em que investe todas as suas reservas de nutrientes, a planta seca e morre. Exemplo mais conhecido do mesmo fatalismo é a Agave americana. As plantas perenes que adoptam esse estilo de vida (ou de morte) dizem-se monocárpicas.

É quase inexplicável como uma planta tão vistosa e singular, embora de claras semelhanças com as angélicas continentais (como a Angelica sylvestris), só tenha sido baptizada em 1997, em artigo da autoria de três botânicos franceses (Philippe Danton, Jean-Pierre Reduron, Michel Baffray: Une nouvelle angélique pour la flore des Açores: Angelica lignescens sp. nov. (Apiaceae). Acta Botanica Gallica 144: 183-189). Durante mais de um século a angélica açoriana foi confundida com o Melanoselinum decipiens, uma umbelífera madeirense igualmente monocárpica e de porte não menos avantajado. As duas plantas só têm alguma semelhança quando não estão em flor; quando estão, são tão parecidas uma com a outra como um elefante com uma girafa. O Melanoselinum decipiens apresenta haste lenhosa, é desprovido de folhas na base, e a sua inflorescência assume tonalidades arroxeadas — tudo características que a Angelica lignescens não partilha.

Mas, para nosso embaraço, alguém confundiu mesmo um elefante com uma girafa e a asneira teve força de lei, como se comprova consultando o vol. I da Nova Flora de Portugal (1971) ou lendo esta passagem do Catálogo das plantas vasculares dos Açores (1966), livro póstumo de Ruy Telles Palhinha: «Em Natural History of Azores [1870] Watson nega a existência desta espécie [Melanoselinum decipiens] nos Açores; um século depois Tutin & Warburg [1932] colheram-na nas Lages do Pico e na Caldeira do Faial.» Para dar um toque de ironia à confusão, decipiens significa enganador em latim.

Em 1998, um ano depois de a angélica ter visto reconhecida a sua verdadeira identidade, o britânico John R. Press e o português Eduardo Dias publicaram, no número 16A da revista Arquipélago, um artigo (PDF) onde contam toda esta rocamblesca história com final feliz. Porque afinal cada um dos arquipélagos, Madeira e Açores, viu a sua flora oficialmente enriquecida com um novo endemismo.

24/08/2012

O preço de uma flor

As Flores e o Corvo, perdidas no Atlântico e com um pé na América, são o pedaço mais remoto de um Portugal já sem império. Mas, com a construção dos aeroportos e os voos regulares para as ilhas, o que é longínquo passou a ser acessível. O preço que pagamos pela facilidade que temos em ir e voltar é que já não é verdadeiramente possível estar nas ilhas. Não nos desligamos do assédio dos prazos e dos compromissos que trazemos do continente. Achamos curiosa a vida despojada dos ilhéus, com tão escasso comércio e tão raros entretenimentos, e não nos imaginamos a viver vida igual. Visitar as Flores por uma semana é como meter o pé na água fria sabendo que nunca mergulharemos de corpo inteiro.

Descendo para o Atlântico sul, há ilhas povoadas, como a de Santa Helena, famosa por Napoleão ter sido para lá exilado, a que ainda hoje só se chega de barco. Para reaprendermos o significado de distância, talvez seja bom visitar Santa Helena antes que lhe construam um aeroporto e com ele venha esse mal moderno do turista apressado.

Dentro da temática que nos é própria, também há motivos para falarmos de Santa Helena a propósito das Flores. São ilhas de dimensões semelhantes, cada uma delas com cerca de 4000 habitantes. Para uma ilha tão pequena (122 Km2), Santa Helena tem um número excepcional de endemismos botânicos, nada menos que 54 plantas vasculares. Por contraste, não haverá mais que 70 plantas endémicas no total das nove ilhas do arquipélago dos Açores. Infelizmente, Santa Helena também se distingue por outro número, o de extinções: pelo menos cinco plantas endémicas estão extintas, e duas outras já só existem em cultivo. Nesse aspecto os Açores parecem ter-se comportado melhor, pois a Vicia dennesiana, colhida algures em São Miguel no século XIX, é o único endemismo açoriano reconhecidamente extinto.

Mas talvez esse menor número de extinções se deva apenas à circunstância de haver nos Açores, proporcionalmente à sua área total, muito menos endemismos do que em Santa Helena. É que não sou poucas, no arquipélago, as extinções locais — plantas que deixaram de existir em algumas ilhas, persistindo porém noutras. E, como seria de esperar em território sob admnistração britânica, a preocupação com a sobrevivência da flora nativa e os programas activos de conservação estão, em Santa Helena, a anos-luz de distância da prática açoriana.

Euphrasia azorica H. C. Watson
A Euphrasia azorica é uma das plantas endémicas açorianas que existem só nas Flores e no Corvo. Embora não esteja oficialmente em risco de extinção, é difícil encontrá-la mesmo em habitats propícios como bordas de crateras, e é provável que, por culpa das cabras e coelhos que andam à solta na ilha, o seu contingente tenha diminuído muito ultimamente. Pelos mesmos motivos, o Myosotis azorica, outro endemismo exclusivo dessas ilhas, está no limiar da extinção. Que medidas têm sido tomadas para prevenir tais catástrofes? O mínimo seria controlar as cabras, mas nem isso foi feito. Intervenção mais activa é de todo irrealista esperar, pois a Secretaria Regional do Ambiente não tem pessoal habilitado e, além do mais, desconhece a localização das últimas populações dessas plantas ameaçadas. Pode haver em breve mais extinções nos Açores sem que ninguém dê por elas.

Tanta displicência poderia emanar de uma superioridade moral semelhante à que alguns brasileiros invocam para justificar a desmatação galopante da Amazónia. Como podem os países desenvolvidos que destruíram as suas florestas exigir ao Brasil que preserve a sua, abdicando assim de altíssimos proveitos económicos? De modo análogo, os açorianos poderiam alegar que o exemplo britânico em Santa Helena os dispensa de ouvir lições de forasteiros. Os Açores também têm direito a extinguir os seus endemismos, se isso for da sua conveniência.

Claro que o raciocínio está de todo viciado. Ao contrário do que sucede no Brasil com a exploração da Amazónia, a ilha das Flores não tirará qualquer lucro do desaparecimento da Euphrasia azorica ou do Myosotis azorica. E, em ambos os casos, há uma amputação auto-infligida que é estranho apresentar como uma retaliação contra outrem.

Euphrasia azorica H. C. Watson
A Euphrasia azorica é uma planta hemiparasita com o aspecto de um arbusto miniatural, atingindo entre 20 e 40 cm de altura e florescendo nos meses de Verão, com flores de cerca de 1,6 cm de diâmetro. Tirando a também açoriana Euphrasia grandiflora, uma planta ainda mais rara que ocorre só no grupo central do arquipélago, as restantes espécies europeias do género Euphrasia são herbáceas anuais. Além de terem distribuições disjuntas, as duas Euphrasia açorianas distinguem-se pela forma das flores (as da E. grandiflora têm os lobos mais fendidos) e das folhas (as da E. grandiflora são arredondadas, enquanto que as da E. azorica são deltóides, com ápice bem definido).

Só com muita sorte ou persistência é que um visitante das Flores encontrará sem ajuda uma Euphrasia azorica. No caso deste escriba, a persistência tem a medida objectiva das dezenas de quilómetros percorridos a pé por toda a ilha. Mas não vá o leitor desistir já, pois há coisas que não exigem esforço e valem a viagem, como este panorama com a Fajãzinha ao fundo que se contempla do Miradouro de Craveiro Lopes.

28/11/2011

Falta-lhe ser completo

Pteris incompleta Cav.
O fotógrafo admite a sua inépcia: este feto era um entre muitos dos seus iguais, mas a falta de discernimento fez com que de outros mais elegantes não ficasse registo. A profusão de fetos na ilha das Flores exige um olhar treinado e minucioso para conseguir destrinçá-los, senão até um feto de personalidade tão vincada como este acaba por perder-se na multidão.

Um troço da estrada que liga Santa Cruz ao interior da ilha é peculiar por ter piso de cimento e ser tão íngreme que subi-lo a pé sem pausas garante ao involuntário atleta os mínimos olímpicos na disciplina de escalada. Quem não almeje grandes feitos aceitará o convite das criptomérias para recuperar o fôlego à sua sombra, e avançará com alívio pela vereda de declive zero que se embrenha pelo bosque. Apesar de ser esta uma conífera originária da Ásia, há muitos fetos, quase todos autóctones, a forrar o chão. É questão de desembaciar os óculos para que a névoa não atenue o brilho das frondes. As da Pteris incompleta, pela cor, pelo avantajado do tamanho (1,5 m de comprimento) e pelo recorte das pinas, podem ao longe confundir-se com as da Woodwardia radicans, feto muito comum em toda a ilha. De perto as diferenças tornam-se óbvias: as pínulas (= segmentos de última ordem) da W. radicans são pontiagudas, as da P. incompleta são arredondadas e denticuladas (3.ª foto); e uma singularidade da P. incompleta é que, em cada fronde, as duas pinas basais são mais divididas do que as restantes, com três pínulas de cada lado a serem substituídas por segmentos compostos. Se o fotógrafo tivesse espreitado o verso das frondes, teria ainda constatado como os esporângios se dispõem linearmente, protegidos pela margem dobrada das pínulas, tal como sucede na Pteris vittata.

Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde compõem uma região biogeográfica excessivamente diversificada a que se convencionou chamar Macaronésia. São poucos os traços comuns a todos esses arquipélagos. A Pteris incompleta não é um deles porque falha em Cabo Verde, mas faz o pleno dos arquipélagos restantes. A sua presença residual tanto no continente africano (Tânger) como no europeu (Algeciras e serra de Sintra) poderia dever-se ao comércio hortícola e à utilização ocasional em jardinagem; no entanto, a opinião que tem prevalecido é que essas populações são de origem natural, relíquias do período pré-glaciar. Outros fetos que hoje se concentram nas ilhas mas mantiveram delegações no continente são a W. radicans, o Trichomanes speciosum, a Culcita macrocarpa e o Asplenium hemionitis.

Pteris incompleta Cav.

31/10/2011

Ponta da Fajã


Ponta da Fajã, ilha das Flores: quintal abandonado com Equisetum telmateia e Colocasia esculenta (= inhame)

Mais um passo na mesma direcção e a Europa acaba. Não se apoquente o leitor: aludimos a um simples facto geográfico, não à impiedosa crise que sobre nós desabou. A ilha das Flores ainda é Europa, pelo menos politicamente (de outros pontos de vista há quem tenha dúvidas, alegando qualquer coisa sobre "placas continentais"). E daqui para oeste até às Américas não há outro pedaço desgarrado do continente europeu. A costa ocidental das Flores e a freguesia da Fajã Grande marcam um limite inultrapassável para os europeus sem passaporte.

A estrada que desce para a costa da Fajã Grande prolonga-se ainda por dois quilómetros até à Ponta da Fajã. À nossa direita desenrola-se o paredão contínuo da falésia com centenas de metros de altura, rasgada por ribeiros alegremente suicidas na pressa de encurtar caminho até ao mar. Na plataforma verdejante da fajã há casas agora só de recreio e campos de cultivo abandonados ou convertidos em pastagens. Vêem-se anúncios de casas para venda, quem sabe se ao preço da chuva, mas qualquer dia acontece um desabamento (muito por culpa do excesso da dita) e fica tudo soterrado. Talvez o cavalo magricela a pastar naquilo que foi em tempos um jardim ainda tenha agilidade para se pôr a salvo.

Equisetum telmateia Ehrh.
A juntar às omnipresentes (e daninhas) exóticas invasoras, há também plantas nativas que têm vindo a recolonizar campos abandonados. Consola ver, aqui na Ponta da Fajã, o vigor com que o Equisetum telmateia se tem espalhado, ocupando em formação cerrada quintais e linhas de água. Trata-se da versão gigante (até 2 metros de altura) do rabo-de-cavalo (Equisetum arvense). Além de ser espontânea nos Açores, é uma planta quase cosmopolita, amiga de lugares húmidos, presente na Europa, Ásia, norte de África e América do Norte.

Tal como o seu congénere, o Equisetum telmateia faz brotar hastes de dois tipos. As férteis surgem entre Março e Abril: têm menos de 50 cm de altura, não são ramificadas, apresentam uma coloração acastanhada e são encimadas pelos cones que contêm os esporângios; desaparecem depois de cumprirem o seu papel reprodutor para serem substituídas pelas hastes estéreis (as que se vêem nas fotos), que persistem até Outubro.

O Equisetum telmateia é também, em Portugal, cidadão do continente, concentrando-se sobretudo na Estremadura, Beira Litoral e Costa Vicentina. Duas espécies adicionais (E. palustris e E. ramosissimum) completam o contingente lusitano de uma família botânica que, tendo sobrevivido a 150 milhões de anos de convulsões do planeta, se aguenta por cá com dificuldade, vítima do desaparecimento ou degradação dos habitats húmidos a que se acolhia.

29/09/2011

A associação do agrião

Cardamine caldeirarum Guthnick ex Seub.
Ao fim de alguns anos a observar plantas silvestres, é inevitável que elas se repitam. Os lugares assiduamente revisitados já não revelam novidades, e quase nos limitamos a saudar distraidamente algumas velhas conhecidas. A mesma sensação de déjà vu que assalta o amador também aflige, e com maior intensidade, o profissional. Portugal é um país pequeno, com uma flora indígena ou naturalizada que não ultrapassará as 4000 espécies. A solução para quem procura coisas novas será demandar áfricas ou orientes inexplorados; ou então (como os fitossociólogos se lembraram de fazer) estudar as associações vegetais. Expliquemo-nos: certas espécies, por terem preferências ecológicas semelhantes, costumam aparecer juntas; o conjunto das espécies que caracteriza um determinado habitat diz-se uma associação vegetal. As associações vegetais recebem nomes alatinados que resultam, em geral, da combinação dos nomes das principais plantas que as compõem; um exemplo é Geranio purpurei-Cardaminetalia hirsutae. A ideia, além de ter permitido uma leitura mais profunda dos espaços naturais, expandiu prodigiosamente o âmbito da erudição botânica. A aritmética é simples: em vez de considerarmos as 4000 espécies separadamente, combinamo-las em grupos de duas, três ou mais. Tomando só conjuntos de duas espécies, obtemos 7998000 possíveis associações vegetais; se preferirmos conjuntos de três, o número sobre para 10658668000 (mais de 10 mil milhões).

Antes que a caixa de comentários se encha de protestos indignados, ressalvamos que nem todas as combinações de duas ou três espécies da flora portugesa configuram associações vegetais plausíveis. Um planta dunar do litoral e outra que viva em lagoas de montanha dificilmente coexistem na natureza. Tirando isso, e tendo em conta os exageros de que alguns fitossociológos são culpados, o exercício não é descabido nem irrealista.

À janela do escritório tenho uma floreira onde três azáleas de folhagem perene sobrevivem há mais de uma década, nunca se esquecendo de florir profusamente em cada Primavera. Costumava arrancar as ervitas espontâneas, mas deixei de fazê-lo com assiduidade e as azáleas não parecem ressentir-se do desleixo. Entre as plantas que colonizaram esse ecossistema semi-natural, o agrião-de-canário (Cardamine hirsuta) destaca-se pela persistência e abundância. O matrimónio entre a herbácea vadia e o arbusto ornamental leva já uns anos, e é justo que se lhe reconheça cidadania socio-taxonómica. Nasce assim a associação Rhododendronion azaleae-Cardaminetalia hirsutae as. nova inéd., até hoje conhecida de uma única floreira num prédio urbano de habitação, mas com potencial para surgir em muitos mais lugares.

A Cardamine hirsuta, que tem algumas semelhanças com o verdadeiro agrião, é uma planta anual oportunista, capaz de ocupar os recantos mais inesperados. Essas plantas omnipresentes podem despertar a nossa admiração pela sua capacidade de sobrevivência, mas dificilmente nos entusiasmam quando deparamos com elas. Foi por isso que pouca atenção prestei quando, na ilha das Flores, me pareceu vê-la em grandes quantidades junto a regatos e escorrências de água. Olhando melhor, vi que a planta açoriana era mais robusta e ramificada, com flores maiores. Tratava-se, de facto, da Cardamine caldeirarum, que é endémica dos Açores - e que, ocorrendo em quase todas as ilhas do arquipélago (a excepção é a Graciosa), chega em algumas delas, mas não nas Flores, a merecer o estatuto de raridade.

Como nos jardins açorianos também se cultivam azáleas, não é impossível nas Flores que algum agrião-de-canário-açoriano lhes vá fazer companhia. À cautela, fica desde já registada a associação Rhododendronion azaleae-Cardaminetalia caldeirarae as. nova inéd. Averiguarei da sua existência in situ numa próxima visita à ilha.

26/09/2011

Morrião dourado

Lysimachia azorica Hornem. ex Hook. [= Lysimachia nemorum subsp. azorica (Hornem. ex Hook.) Palhinha]


Após um intervalo de quatro semanas, regressamos à ilha das Flores e à flora açoriana para fazer dois aditamentos. Neste primeiro mostramos uma das plantas mais comuns em lugares húmidos - o que nas Flores abrange quase a ilha inteira. Aí, de facto, a Lysimachia azorica só está ausente dos pontos mais baixos do litoral. À medida que subimos pela estrada em direcção às caldeiras, o amarelo das suas flores vai-se tornando mais frequente nos taludes; até que, nas turfeiras que se sucedem às pastagens, não há metro quadrado de terreno que ela desaproveite. A única outra planta nativa que com ela rivaliza em abundância é o feto-pente (Blechnum spicant). E a Lysimachia azorica não é apenas nativa: é uma planta endémica açoriana; existe em todas as ilhas do arquipélago, mas não existe em nenhum outro lugar do mundo.

Ou será que existe? A Lysimachia azorica é sósia quase perfeita da Lysimachia nemorum, uma espécie europeia que se distribui do norte da Península Ibérica até à Grã-Bretanha e à Escandinávia, e daí desce até à Itália. Já que a espécie açoriana nem sequer ganhou nome vernáculo, inspiramo-nos naquele que os britânicos dão à sua irmã gémea (yellow pimpernel) para lhe chamar morrião-dourado. A semelhança entre as duas suscita uma pergunta inquietante: não se dará o caso de serem uma e a mesma espécie?

A pergunta não tem deixado de apoquentar os botânicos desde que, em 1817, Jens Wilken Hornemann (1770–1841), director do Jardim Botânico de Copenhaga, cultivou a planta a partir de sementes trazidas dos Açores por um oficial da marinha dinamarquesa. O próprio Hornemann começou por considerar que se tratava da Lysimachia nemorum, mas mudou de opinião e baptizou-a como Lysimachia azorica. No entanto, Moritz August Seubert (1818–1878), na sua Flora Azorica (1844), volta a chamar-lhe Lysimachia nemorum. Em meados do século XX a contenda não estava ainda decidida. Rui Teles Palhinha (1871-1957), estudioso da flora açoriana e autor de um Catálogo das plantas vasculares dos Açores (publicado postumamente em 1966), dedicou-lhe um artigo (Acerca de uma Lysimachia açorense) que apareceu em 1956 no Boletim da Sociedade Broteriana. Conta Palhinha que ele próprio teve uma opinião oscilante sobre o assunto, mas que, depois de observar ao vivo tanto as plantas continentais como as insulares, concluiu que as dois taxónes não configuravam espécies separadas. Entendeu, ainda assim, que as plantas açorianas eram diferentes (caules não tão prostrados; folhas obtusas e de margens recurvadas; flores maiores e de pétalas mais estreitas), e por isso se justificava autonomizá-las numa subespécie. Estava salvo um endemismo açoriano, embora despromovido para uma divisão secundária.

O próprio Palhinha, consciente de que a taxonomia botânica não é uma ciência exacta, parecia adivinhar que a história não terminava aí. Escreveu ele a dado passo: A observação de uma planta é objectiva, mas a sua posição sistemática é totalmente subjectiva. Baseia-se esta, sem dúvida, nos caracteres observados, mas a apreciação desses caracteres e, o que é mais, o seu valor, dependem apenas do critério do estudioso.

O critério do João do Amaral Franco, no vol. II da Nova Flora de Portugal (1983), foi diferente do de Palhinha: segundo ele, o morrião-dourado açoriano não é claramente distinguível da sua versão continental. Estava o enterro consumado: o que existe nos Açores, na opinião de Franco, é a Lysimachia nemorum sem mais, e não uma subespécie.

Numa reviravolta inesperada, não é a opinião de Franco, o patriarca da botânica portuguesa, que hoje em dia prevalece. Nem sequer a de Palhinha. A Lysimachia azorica ressuscitou, já não subordinada à L. nemorum, e surge em todas as listas recentes de endemismos açorianos. Que se terá passado? Alguém com olho mais apurado e prestígio ainda mais firme viu mais e melhor do que Palhinha e Franco? O que aconteceu foi que a taxonomia botânica evoluiu, e não depende tanto, como na época de Palhinha, do critério subjectivo de um estudioso. A evolução é tecnológica: são os estudos genéticos que servem agora para tirar a prova dos nove. Os botânicos alemães Günther Rudolf Heubl e Robert M. Vogt publicaram na revista Mitteilungen der Botanischen Staatssammlung München, em 1988, um artigo (com um título difícil de ler em voz alta: Zyto- und chemotaxonomische Studien an Lysimachia nemorum L. und Lysimachia azorica Hornem. ex Hooker) que parece ter encerrado de vez a discussão. Dizemos parece porque não vimos o artigo: os textos publicados em revistas científicas só estão, em geral, disponíveis ao público que os paga assinando-as. Alguém nos pode ajudar?

Adenda. O artigo de Heubl & Vogt sobre a Lysimachia (o qual, de facto, revalida definitivamente a L. azorica como espécie autónoma, distinta da L. nemorum) pode ser lido aqui (PDF) - muito obrigado a Ricardo Lima pela ajuda.

26/08/2011

Saudades das ilhas



Scabiosa nitens Roem. & Schult.

O suspiro-roxo é um dos cerca de 70 endemismos açorianos (espécies, subespécies ou variedades) e está protegido pela Convenção de Berna e pela Directiva Habitats — não porque seja muito raro (está porém em declínio em algumas ilhas) mas porque a sua ecologia é ainda mal conhecida. Saúda-se tal precaução entre nós, mais habituados a lamentar o prejuízo enquanto corremos afoitos atrás das compensações.

É uma herbácea perene, lenhosa na base, que chega perto dos 50 cm de altura, com flores lilases e folhas glabras e brilhantes (o latim nitens significa precisamente luzidio), dispostas em rosetas semelhantes às da europeia Scabiosa columbaria L. Esta, segundo Hanno Schäfer (Chorology and Diversity of the Azorean Flora, Dissertationes Botanicae, 2003), é um antepassado plausível da planta açoriana. Está presente em todas as ilhas, com excepção da Graciosa — mas, segundo H. Schäfer (Flora of the Azores — A Field Guide, 2.a edição, 2005), poderá estar extinta no Faial —, e cresce em falésias, praias de calhau rolado, matos costeiros, pastagens de baixa altitude e prados húmidos de montanha abaixo da floresta de nuvens.

O leitor fará a fineza de a comparar com estas outras escabiosas do continente.