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30/08/2014

Salsaparrilha açoriana



A ilha do Pico é uma montanha jovem com cerca de 2350 metros de altura que parece dividida em três camadas. O primeiro anel, junto ao mar, tem praias de rocha ainda não erodida e é um terreno de inclinação suave pintalgado de telhados vermelhos, casas brancas e vinhas plantadas em resguardos com muros de pedra vulcânica. O topo, feito de rocha escura e quase sem vegetação, com um Piquinho engraçado onde neva no Inverno e se senta no Verão, por vezes, um boné de neblina, é tão alto que, sob criteriosa autorização da Direcção Regional do Ambiente, é possível ver dele o sol a nascer ou a pôr-se, muito mar, baleias e as outras ilhas. No anel do meio, verde e fresco, distinguem-se, se o cachecol de nuvens o permite, vastos prados de solo muito fértil, matos de rapa, vassoura, faia, pau-branco, azevinho e zimbro, e floresta laurissilva muito bem preservada. É este terço médio que nos interessa: é o refúgio de quase todas as plantas que vimos no Pico, algumas em populações abundantes a contrariar o avanço das hortênsias, rocas-da-velha e pitósporos que tanto afligem quem se preocupa com a conservação da flora endémica açoriana.


Smilax azorica H. Schaef. & P. Schoenfelder


A trepadeira Smilax azorica já se chamou Smilax canariensis, espécie que se julgava endémica da Madeira, de seis das ilhas dos Açores e três das ilhas Canárias. Os herbários indicam que foi colhida pela primeira vez por Masson em 1777 na ilha de São Miguel e descrita posteriormente por Watson em 1844. Contudo, em 2009, num artigo publicado pelo Instituto de Estudios Canarios, Hanno Schaefer e Peter Schoenfelder revelaram as conclusões de um estudo genético comparativo destas duas espécies, propondo que a Smilax açoriana se tornasse uma espécie independente, com a designação Smilax azorica. Para quem procura uma ou outra espécie, convirá saber que a S. canariensis é rara mesmo na Madeira; que a S. azorica não ocorre nas ilhas Graciosa, Flores e Corvo, não é fácil de encontrar nas ilhas do grupo central (no Faial só a vimos no Jardim Botânico, mas no Pico avistámos várias populações, com muitos frutos, em bosques de incenso e também em florestas naturais), e é algo mais frequente em São Miguel e Santa Maria. Os autores desse artigo elaboraram uma chave taxonómica para que não restem dúvidas, de que destacamos o facto de os frutos da S. azorica amadurecerem vermelhos como cerejas e os da S. canariensis serem de cor preta quando maduros.

Talvez a Smilax açoriana descenda da S. canariensis, e esta de plantas asiáticas, mas essa árvore genealógica está ainda por comprovar. A única irmã destas Smilax que ocorre, aliás com uma distribuição ampla, na Península Ibérica é a S. aspera, de folhas sagitadas coriáceas com margens espinhosas, cujos frutos amadurecem negros. São todas plantas dióicas e de folhagem perene.

27/08/2014

Pico dos licopódios



Nos Açores, as três ilhas mais centrais, cada uma delas perfilada à frente das outras, formam o triângulo, pois é assim que toda a gente do arquipélago as conhece. Um triângulo muito irregular, que nem isósceles consegue ser, pois as distâncias, apesar de pequenas, são variáveis, com o Pico e o Faial a esfregarem-se um no outro sob o olhar ciumento de São Jorge. O Pico e são Jorge são compridos, cerca de 50 Km de extensão cada um, com ligeira supremacia de São Jorge; Faial é uma ilha em formato de bolso e o seu diâmetro é inferior a 20 Km. E há a questão da altura, sobremaneira valorizada por quem, como nós, não aprendeu a voar. A desproporção entre a montanha do Pico e o relevo manso das demais ilhas do arquipélago faz suspeitar que o criador quis usar na ilha que deixou para fazer em último lugar todo o material que avaramente poupou na construção das restantes.

Depois de uma semana de visita a São Jorge em Junho, e de outra ao Faial já em Agosto, houve ainda tempo em 2014 para completarmos o triângulo com uma estadia de uma semana no Pico, também em Agosto. Não escalámos a montanha, nem sequer tentámos, pois não somos de grandes feitos atléticos. Subimos até onde a estrada nos levou, mais uns 200 metros para tocarmos a nuvem-cachecol que sempre se enrola no pescoço da montanha. O nosso modo de andar, com os olhos a varrer cada moita e cada metro quadrado de terreno, não nos permite exceder muito a velocidade de um caracol. Quando tivéssemos explorado as encostas com o vagar que nos convém, talvez pudéssemos em consciência tranquila ascender ao topo, comprar a t-shirt celebratória da proeza, olhar, se a nuvem nos deixasse, o panorama da ilha e do mar e das outras ilhas tão pequenas, procurar as duas ou três plantas que se nos não tivessem ainda mostrado mais abaixo. Mas, para cumprir esse programa, precisaríamos de mais uma ou duas semanas de estadia, pois o Pico não se resume à montanha, e há partes da ilha mais apelativas e compensadoras para aficionados de botânica.

Entre as plantas que não se encontram no topo da montanha há várias que nos fazem sentir em casa, como se tivéssemos rompido por uma fissura do espaço-tempo e déssemos connosco, inesperadamente, nos cumes do Marão ou da serra do Gerês. O tomilho que, em Julho e Agosto, dá o tom roxo à montanha do Pico é o mesmo Thymus caespititius que vive nas serras pedregosas do noroeste de Portugal. Não fosse a incursão nos Açores, não só no Pico mas em todas as outras ilhas com excepção de Santa Maria, esse tomilho seria um endemismo ibérico de pleno direito. Outro elemento continental frequente nas faldas da montanha é a torga (Calluna vulgaris), que nas ilhas é conhecida como rapa. Há ainda, e em grande profusão, o queiró insular (Daboecia azorica), que é uma miniatura com cores mais saturadas do queiró peninsular (Daboecia cantabrica). Mais estranho foi termos deparado, a 1240 m de altitude, com uma planta que só deveria existir 1000 metros mais acima: a Silene uniflora subsp. cratericola, versão de montanha da Silene uniflora de habitats costeiros que é comum nos Açores (particularmente no Pico), no litoral minhoto e, em geral, na costa atlântica europeia. Garantiu-nos depois um guia que a planta vai aparecendo esporadicamente pela montanha acima. Esse dúbio endemismo da montanha do Pico foi baptizado por Franco com base em diferenças morfológicas nada claras e, sobretudo, na ecologia radicalmente diferente: é um grande salto migrar da costa para o topo da montanha, onde no Inverno cai neve e as temperaturas negativas são frequentes. Mas, se se concluir que a mesma Silene uniflora surge a altitudes intermédias, já a transição não nos parece tão abrupta. Ou será que a 1240 metros de altitude ainda não se trata da subsp. cratericola? A que altitude é que a mesma espécie deixa de ser uma planta vulgar para passar a ser uma subespécie rara e exclusiva?


Diphasiastrum madeirense (J. H. Wilce) Holub



Este feto, que na verdade não é feto mas um parente algo afastado, começou por chamar-se Lycopodium, e de facto o seu aspecto evoca irresistivelmente o licopódio-da-Estrela: em ambas as espécies os esporângios aparecem reunidos em estróbilos semelhantes a pinhas que surgem no topo de hastes erectas. Já na ramificação e na folhagem as duas plantas divergem marcadamente: o Diphasiastrum tem ramos achatados e muito ramificados, e as suas folhas surgem ordeiramente aos pares, comprimidas contra as hastes; o Lycopodium tem um porte bem mais rasteiro, exibindo hastes de secção circular e folhas mais compridas, numerosas e desordenadas. São estas, grosso modo, as diferenças morfológicas que levaram o botânico checo Josef Holub (1930-1999), em 1975, a criar o género Diphasiastrum, distinguindo-o do género Lycopodium. Como é normal nestes assuntos, nem todos os cientistas acataram a mudança.

O Diphasiastrum madeirense é endémico da Madeira e dos Açores, estatuto que só lhe foi reconhecido em 1961 por Joan Hubbell Wilce, que em 1963 defendeu uma tese de doutoramento na Universidade de Michigan com o título "Section complanata of the genus Lycopodium". Até então considerava-se que estes licopódios macaronésios pertenciam à espécie Lycodium complanatum (= Diphasiastrum complanatum), que está amplamente distribuída no norte da Europa e na metade setentrional da América do Norte. Outra espécie morfologicamente próxima que ocorre nos mesmos continentes é o Diphasiastrum tristachyum. O nosso D. madeirense combina as hastes muito achatadas do primeiro com a tendência do segundo para produzir três a seis estrolóbios por cada haste fértil. Dado que neste género é frequente ocorrerem híbridos fertéis, não é de excluir que a espécie das ilhas tenha origem num matrimónio remoto entre o D. complanatum e o D. tristachyum, e entretanto se tenha adaptado a um clima mais ameno.

Nos Açores, onde está assinalado em sete das nove ilhas (as excepções são Santa Maria e Graciosa), o D. madeirense só não é raro no Pico. Nesta ilha encontrámo-lo em altitudes entre os 600 e os 1300 metros, em habitats bastante diversificados: bosques de Juniperus e Ilex, plantações florestais, matos rasteiros de altitude dominados por Calluna. Ao contrário do que reportam alguns autores, não parece ter especial preferência por sítios húmidos, e alguns dos locais onde o vimos eram, pelo contrário, secos e pedregosos.

09/08/2014

Férias


{Regressamos no final de Agosto. Entretanto estaremos desconectados,
e por isso a publicação de comentários fica suspensa.}

29/12/2007

apontamentos

1-Muito apreciada a prendinha que me veio parar às mãos, chegadinha da ilha: o livro sobre Dragoeiros do Museu do Vinho que o Paulo já aqui referira. A fotografia do "bleeding dragon's heart" foi tirada no Botânico do Porto numa tarde de Maio.


2- De passagem pelo horto fiquei de olho numas Coprosma (que variedade de cores e que folhinhas brilhantes tão bonitas) e numas Gaultheria procubens (carregadinhas de frutos vermelhos); pelos vistos estas últimas, para além de ornamentais, são também medicinais e aromáticas. Vão ambas para a minha "wish list";-)


3- E para não terminar em beleza: o Pedro Santos anuncia no seu blogue o início da "época da estupidez "! Como ele escreve, começou o período «da "dendrofobia" e do "arboricídio", a partir de agora e até ao início da Primavera qualquer motivo é válido para decepar uma árvore!... Lutamos contra uma cultura de ignorância, de medo (o eterno receio que as árvores nos caiam em cima!...) e de conformismo perante este terrorismo arbóreo patrocinado pelas autarquias.»
Uma luta infeliz em que estamos juntos.

(...)

31/10/2005

Dragoeiros nos Açores



Fotos: pva 0509 - Dracaena draco no Jardim Duque da Terceira, Angra do Heroísmo

Ainda que haja dúvidas de que o dragoeiro (Dracaena draco) seja nativo dos Açores, ele é tão característico dessas ilhas como da Madeira e das Canárias, de onde é seguramente originário: não há verdadeiro jardim açoriano onde ele não compareça. Este exemplar, que mora no patamar superior do Jardim Duque da Terceira, terá decerto idade considerável, embora não atinja o porte monumental de alguns na Madeira e nos jardins botânicos de Lisboa. O que nele há de assinável é que, ao invés do que é típico da espécie, se ramifica quase a partir da base. De resto a ramificação segue a regra dicotómica ditada pela genética: cada ramada se vai bifurcando sucessivamente, com as folhas pontiagudas dispondo-se em coroas nas extremidades dos ramos mais jovens; o efeito do conjunto, com a copa perfeitamente circular, é semelhante ao de um amplo guarda-sol de varetas intumescidas.

O estatuto do dragoeiro na iconografia açoriana é confirmado por um livro que comprei na livraria In-Fólio (na Rua da Guarita, em Angra): editado em 2005 pela Presidência do Governo Regional dos Açores, e com o título Dragoeiros do Museu do Vinho, o volume - encadernado, 72 páginas - reúne excelentes fotos da autoria de António Araújo e alguns breves textos introdutórios. Pela clareza e rigor, realço o de João Paulo Constância, de que aqui transcrevo um excerto: «Esta espécie de dragoeiro foi uma das principais espécies tintureiras, com interesse comercial, utilizadas entre os séculos XV e XIX. A sua resina, transparente e de cor vermelho sangue, é conhecida por sangue de dragão ou drago, tendo sido utilizada como substância corante e na produção de tintas, lacas e vernizes. Há também referência ao uso da resina em medicina popular.»

O Museu do Vinho fica na Vila da Madalena, Ilha do Pico. Visitei a ilha há uns anos de corrida, mas não vi o museu. Há agora mais motivos para lá voltar, mesmo para quem, desprovido como eu de ambições políticas, se iniba de ascender ao cume da ilha.

P.S. (2 de Novembro): Veja aqui os notáveis dragoeiros do Museu do Vinho. Obrigado, Pedro.