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23/08/2004

Cipreste com laranjas

«- Isto deu-se há muito tempo, já não é da minha lembrança nem da dos mais velhos que há aí na vila. (...) Quando começou a constar que a sede do concelho vinha para cá, os de Sendim não queriam deixar nem à mão de Deus padre. Que não senhor, que não vinha. (...) Tocaram os sinos a rebate, pegaram em armas e juraram por todos os santos que Valeiros só seria vila quando o cipreste do largo desse laranjas. T' ás a ver o gozo, ó Jorginho: o cipreste dar laranjas... Como quem diz: nunca jamais em tempo algum. (...) O certo é que o decreto saiu mesmo e vão então os de Valeiros, para aporrinhar os de Sendim, no meio do estrondo dos foguetes e da banda marcial de Murça, assubiram-se ao cipreste e penduraram nele, com guitas, dois quarteirões de laranjas (...). E agora Valeiros é que é a vila (...).
Ambrósio Sardinha ria-se da picardia, saboreava-a como se nela se tivesse empenhado pessoalmente, dava palmadas gozosas nas coxas: era um valeirense dos quatro costados, orgulhoso dos feitos dos trisavós que subiram ao cipreste para suspender laranjas dos seus ramos já quebradiços da muita idade.»

A. M. Pires Cabral, A loba e o rouxinol (2004)