Mostrar mensagens com a etiqueta Acanthaceae. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Acanthaceae. Mostrar todas as mensagens

13/03/2020

Uma espécie de justiça

Na obra Species Plantarum (1753), de Lineu, pode ler-se na página 15 a primeira descrição da Justicia hyssopifolia, endemismo das ilhas de Tenerife e La Gomera. O texto, em latim como era obrigatório e é ainda hoje recomendado (embora se permita o inglês), informa que se trata de uma espécie com folhas linear-lanceoladas e flores bilabiadas axilares, solitárias e de cor esbranquiçada -- contrastando com a maioria das espécies de Justicia, que se prezam pelas flores garridas em arranjos muito vistosos. Quanto ao habitat, fica precisamente in insulis Fortunatis, designação feliz e realmente apropriada para as ilhas Canárias.


Justicia hyssopifolia L.


Ironicamente, foi no Barranco do Inferno, em Tenerife, que vimos estes exemplares de Justicia hyssopifolia. A visita a este barranco, com muitas rochas em tons claros a encandear os passeantes incautos sem óculos escuros, e um micro-clima escaldante e quase desértico, é paga. Cada visitante recebe então um mapa com a duração máxima permitida em cada troço do percurso e um capacete devidamente desinfectado que deverá usar para se proteger de possíveis derrocadas de pedras. A duração da visita é controlada por olheiros que, ao longo do barranco, evitam que os visitantes saiam dos trilhos, colham plantas e flores ou façam demasiado ruído, se concentrem, estragando, em locais de maior biodiversidade, ou nadem nas piscinas na base da cachoeira que é servida como troféu no fim do passeio -- magrinha mas muito apreciada dada a sua raridade nesta ilha sem rios. Com a demora para observar as inúmeras plantas em detalhe, e o respeito devido pela fotografia perfeita, ultrapassámos em muito o tempo recomendado de permanência no barranco. Valeu-nos um grupo grande de alemães idosos cujo avanço no caminho foi frequentemente nulo ou mesmo negativo, e que devolveram os capacetes muito depois de nós.

Justicia é dos géneros mais populosos da família Acanthaceae, com cerca de 900 espécies conhecidas. Crê-se que tenha origem nas regiões de clima quente temperado, alimentando na América, África e Índia várias espécies de borboletas (como a Anartia fatima). Apesar de tão disseminada, e de o arquipélago da Madeira estar próximo, não há registo de endemismos conhecidos da família Acanthaceae nessas ilhas.

15/09/2009

Pequenas Helenas


Thunbergia alata Bojer ex Sims

.....Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
.....Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas.

.....Quando amadas se perfumam
.....Se banham com leite, se arrumam
.....Suas melenas
.....Quando fustigadas não choram
.....Se ajoelham, pedem imploram
.....Mais duras penas
.....Cadenas

.....Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
.....Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas.

.....Mulheres de Atenas (Chico Buarque - Augusto Boal, 1976)

A designação inglesa desta trepadeira africana de caule volúvel, Black-eyed Susan, é problemática de traduzir: não sabemos se quase todas as Susanas têm olhos claros, justificando-se por isso uma possível homenagem às de pupilas escuras, ou se o nome quer evocar as vítimas-Susanas de actos violentos no confinado mas indefeso seio familiar. Esta planta lenhosa é polinizada por abelhas, e os especialistas estão convencidos de que o olho, que é o tubo castanho-chocolate da flor, reflecte a luz ultravioleta numa banda visível aos insectos, conduzindo-os até ao centro da flor.

É a nossa Susana herbácea de trato fácil, exigindo pouca água mas carecendo de uma pérgula ou treliça onde se enrolar. As folhas são rômbicas com cerca de 8 cm de comprimento, margens com lobos basais vincados e pecíolo alado.

O género Thunbergia, de cerca de 90 espécies de trepadeiras ou arbustos da África tropical e meridional, de Madagascar e da Ásia temperada, reconhece-se pelo par de brácteas, como duas castanholas, que abraçam a base das flores-trombeta. O botânico sueco Carl Peter Thunberg (1743-1828) foi um colector afamado de plantas sul-africanas e japonesas, e talvez o mais distinto discípulo de Lineu.

14/06/2008

Thunbergia-da-Malásia


Thunbergia laurifolia

«Desceu do cavalo apressado com mais pressa do que o cavalo e antes de o seu pé tocar no chão já as suas mãos tocavam no chão, rebolou, pois, como fazem os ginastas, e quando tinha a cabeça virada para a terra arrancou uma flor que no momento em que a sua cabeça estava já virada para o céu foi oferecida a uma mulher que o esperava há três horas. Para um homem tão rápido a agir, só uma mulher muito paciente.

Entenderam-se. Foram felizes para sempre. Mas o para sempre do cavalheiro (...) era rapidíssimo. Quase nada. Muito.»

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (2006)

19/01/2008

Mackaya bella



..............Haverá para os dias sem memória
............. outro nome que não seja morte?
............. Morte das coisas limpas, leves:
............. manhã rente às colinas,
............. a luz do corpo levada aos lábios,
............. os primeiros lilases do jardim.
............. Haverá outro nome para o lugar
............. onde não há lembrança de ti?


........... Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra (1989)
........... (19 de Janeiro de 1923 - 2005)

07/12/2007

Coro-a-capela

Diz a experiência dos que cultivam plantas, ou as fotografam, que o amarelo é a cor preferida dos insectos, e as flores sabem disso. Em ambientes de competição mais renhida, ou de maior diversidade de polinizadores, as plantas optam por distinguir-se colorindo as pétalas/sépalas com outros tons atraentes, mas raramente esquecem uma gota de amarelo, nem que seja só no topo dos estames, o lugar do pólen.

O vermelho (coccineus em latim), vivo, trigueiro ou carmesim, vê-se menos, a não ser em bagas que assim previnem do seu carácter tóxico. Parece que as flores também conhecem a conotação pejorativa que as pessoas atribuíram a esta cor. Alguns exemplos, aqui reunidos para atestar a nossa culpa, são embaraçosos: a marca de erro numa correcção de um exame faz-se num humilhante vermelho; por imposição legal, os faróis de perigo, o semáforo que enerva os condutores e os avisos de proibição são vermelhos; a maioria dos elevadores - cuja função útil é a de ascender a carga porque a descer todos os santos ajudam - utiliza um triângulo vermelho para assinalar a descida; a coloração rosada repentina das maçãs-do-rosto é indício de vergonha, pecado ou fúria; e, em várias línguas, os revolucionários, os burocratas rígidos, as mãos criminosas, a situação deficitária de uma conta bancária são etiquetados de vermelho. Até a paixão, que desassossega ou escraviza, é poeticamente rubra. E no sinónimo encarnado há mesmo a alusão à luxúria, impura e sem alma.

Indiferente a esta maldição semântica, nesta época o país finge-se inocente e pinta-se de vermelho, acompanhado por diospiros, romãs, medronhos e azevinhos, e por certo ícone comercial muito popular entre a criançada. A Thunbergia coccinea colabora admiravelmente neste afã natalício. Trepadeira com longos ramos, originária da Índia, Birmânia e Malásia, tem folhas opostas emparelhadas (como mãos em oração) e floresce no Inverno. As flores de centro amarelo e gola escarlate enfeitam agora muros, lembrando palcos recheados de meninos de coro, de vozes sublimes a entoar melodiosos cânticos que enternecem corações. Mesmo os mais avermel... rebeldes.


Thunbergia coccinea

27/10/2006

Planta-zebra


Aphelandra squarrosa
aphelandra - do grego apheles, simples, e andros, estame

Numa inusitada comunhão dos reinos, esta herbácea brasileira, que em ambiente natural pode atingir 2 metros de altura, tem folhagem com nervuras bem assinaladas a branco como as listras das zebras africanas. As flores são tubulares, labiadas, amarelas, pequeninas e duram pouco; mas as brácteas formam uma espiga erecta que se mantém viçosa por várias semanas. Da família Acanthaceae, como a Acanthus mollis, a Pachystachys lutea, a Justicia brandegeana ou a Justicia carnea, recebeu o epíteto específico do latim squarrosus, áspero, possivelmente em alusão à textura das folhas.

A variedade louisae, de menor porte, tem folhas verde-esmeralda com veios amarelos e espiga dourada. O nome homenageia Louis van Houtte (1810-1876), naturalista belga cujo trabalho lembra o de Marques Loureiro, o jardineiro do Horto das Virtudes e proprietário do Jornal de Horticultura Prática (1872-1892). Louis van Houtte criou o Horto van Houtteano, em Ghent, um dos maiores e mais bem sucedidos do seu tempo na Europa (em 1870 tinha uma área de cerca de 14 hectares e 50 estufas), que começou a sua actividade com camélias. Vieram depois os gerânios, as 400 variedades de azáleas, as 1700 de rosas, os rododendros, as dálias e, mais tarde, coníferas, cactos, palmeiras, samambaias e ananases. A primeira Victoria amazonica cultivada na Europa nasceu ali em estufa concebida especialmente para ela. A propósito de uma visita do rei belga ao horto, disse-se em 1840: «O lugar é tão vasto que precisamos de mapa para o conhecer.» L. van Houtte foi também fundador e editor do jornal mensal de horticultura Flore des serres et des Jardins de l'Europe, tendo-se publicado 23 volumes de 1845 a 1883 (alguns póstumos) com cerca de 2000 reproduções parcialmente coloridas à mão pelos cromolitógrafos belgas Severeyns, Stroobant e De Pannemaker.

Louis van Houtte esteve em Cabo Verde em 1834 e de seguida no Brasil até 1836, em expedição dedicada, a pedido do rei, à colecção de orquídeas e cactos. A descrição detalhada das novidades recolhidas nesta viagem começou em 1847 no seu jornal de horticultura e teve um último capítulo em 1875 com um estudo sobre a Araucaria angustifolia.

26/08/2006

Jardim Botânico de Coimbra




O Jardim Botânico de Coimbra foi criado em 1772 como parte do Museu de História Natural da Universidade, instituído pelo Marquês de Pombal. Excelentemente planeado mas actualmente mal mantido, o Jardim ocupa hoje cerca de 13,5 hectares do centro da cidade, a maioria dos quais ostenta o aviso "Vedado ao público".

O que começou por ser um projecto modesto, inspirado no Chelsea Physic Garden, transformou-se desde 1774 numa colecção notável de plantas, nomeadamente de eucaliptos, cuidada inicialmente pelo botânico-jardineiro João Rodrigues Vilar e bastante depauperada pelo desmazelo a que foi sendo votada desde meados do século XX.

A primeira parte do Jardim a ser construída foi o "Quadrado central", que liga à Alameda das Tílias. Ainda hoje lá vegetam árvores do século XVIII, como uma Cunninghamia sinensis, uma Cryptomeria japonica e uma Erythrina crista-galli. A componente do Jardim a que o público tem acesso livre inclui, além deste quadrado (com magníficas espécies de magnólias) e da alameda, alguns terraços ajardinados. O Jardim contém ainda o "Terraço tropical" com palmeiras cabeludas, fetos arbóreos, cicadáceas, bananeiras e estrelícias; outros terrenos, ditos de "Escola", com árvores e arbustos que daria muito gosto observar de perto; e a "Mata", com preciosidades de difícil acesso: todos estes espaços são absolutamente interditos aos visitantes que não formem grupos de 20 ou mais pessoas que, com a antecedência de pelo menos duas semanas, solicitem e consigam uma visita vigiada (cuja data exacta é comunicada aos candidatos pela direcção do Jardim). Para consolo restam aos interessados duas das quatro estufas existentes no Jardim (entrada por 2 euros, fechadas ao fim-de-semana), com a sua dose de má manutenção que lhes vai destruindo a variedade de plantas (como ilustra o desaire este ano com a Victoria amazonica) e onde também se sente a falta de placas de identificação - que no exterior é escandalosa por este dever ser um espaço prioritariamente educativo.

As fotos que aqui ficam servem para que mais pessoas desejem visitar este Jardim e que a sua insistência, aparentemente mal-vinda aos donos deste lugar, leve os responsáveis a repensar a gestão desde património. Mostram flores de Pachystachys lutea, um arbusto peruano semi-herbáceo da família Acanthaceae conhecido como camarão-amarelo; de Hoya carnosa, trepadeira pouco ramificada da Austrália e China, classificada na família Apocynaceae, cujas flores perfumadas branco-róseas parecem feitas de cera; de Anthurium scherzerianum, da família Araceae, o rabinho-de-porco da América Central cuja flor tem uma espata de cor vermelha muito ornamental; e finalmente de Asclepias curassavica, também Apocynaceae, herbácea da América Tropical de flores amarelo-escarlate.

03/07/2006

Camarões e flamingos


Justicia brandegeana

Encontrámos recentemente em locais distintos dois arbustos cujo parentesco se adivinhou por um pedacinho das respectivas flores. Trata-se de um exemplar de Justicia brandegeana e outro de Justicia carnea. Em ambos as inflorescências são longas e muito vistosas, com cinco sépalas a formar um cálice, havendo no primeiro brácteas ovais em nuances de ruivo que se sobrepõem e formam um tubo que parece um camarão, e no segundo espigas densas terminais de flores de um rosa acetinado que faz lembrar o dos flamingos. Além disso, a corola é feita de um par de línguas finas (brancas no primeiro arbusto, cor-de-rosa no segundo) que formam um varandim coberto: o tecto tem agarrados os estames, o chão é um alpendre convidativo para insectos e colibris. Quando um insecto se decide por uma visita, aterra na pétala inferior fazendo oscilar o conjunto, garantindo que o topo toca no dorso do bichano e que aí deposita uma gota de pólen; quando este insecto aborda outra flor, liberta pelo mesmo processo o pólen que transporta. Truques para uma polinização cruzada bem sucedida.

A Justicia brandegeana é mexicana, e a J. carnea brasileira. Pertencem à família Acanthaceae (como os Acanthus mollis), e devem o nome ao naturalista escocês James Justice (1698-1763), amador que se especializou no cultivo de bolbos e frutas exóticas. Apreciam bordaduras ou canteiros soalheiros, embora tolerem a sombra, e solo permeável e bem irrigado: justamente o que vai faltando na cidade.


Justicia carnea

09/06/2006

Acanthus cantabile

.

Foi sem dúvida um dos pontos altos da tão badalada Festa de Serralves:
o espectáculo dos Acanthus ao pé do lago, ao som da Harpa Lacustre.

Estrelas consagradas na arte do paisagismo (e não só), estas "ervas-gigantes" davam aliás show
em outros locais do parque; aqui vemo-las num cenário particularmente bem conseguido, emoldurando
uma das fotografias da Exposição de exterior -"Parque Serralves 1940".
.