Sem fruto


Temos tido um Inverno atípico, mais quente e com muita e por vezes furiosa chuva, ainda assim brando a julgar por aquilo de que o El Niño é capaz. Mas as plantas perenes de folha caduca, que apreciam igualmente o calor e o frio se estes as atingirem na época certa, andam confusas. Elas parecem ler os sinais da natureza, importantes para os seus ciclos de vida, nas variações da temperatura ambiente, no número de horas com exposição à luz solar, na quantidade de precipitação, etc. São dados que todas as plantas recebem em simultâneo, e por isso se comportam como se guiadas por um maestro, perfeitamente ajustadas às nossas estações do ano. Contudo, este ano não temos tido um verdadeiro inverno e, portanto, as plantas ou prolongaram o Outono (a ginkgo do Jardim das Virtudes só agora se despiu da folhagem, negando-nos em Novembro o espectáculo de a vermos coberta de folhas amarelas) ou julgam estar já na Primavera. E é ver os carvalhos ainda com folhagem, eles que daqui a um mês terão de começar a produção de folhas novas; ou reparar nas dedaleiras apressadas no florir, apesar de não haver ainda polinizadores que aproveitem tal benefício. Receia-se que tais mudanças climáticas e a inevitável falta do período de descanso acabem por debilitar as plantas e imponham depois um ano de fome às abelhas.
A cambroeira, planta arbustiva da família Solanaceae e espontânea em Portugal, não parece ter escapado às consequências da tão estranha mudança de calendário. Em geral, e apesar de ser resistente ao frio, à maresia e ao ar salgado, por esta altura deveria estar ainda a fingir-se de morta, reduzida ao feixe de ramos secos e ásperos, espinhosos nas extremidades, com que costuma iludir os rigores do Verão (como teria de fazer num habitat realmente semi-desértico em África, onde também ocorre e de onde talvez tenha vindo para a Península Ibérica). Nesse estado, cumpria-lhe aguardar as chuvas de Fevereiro-Abril para sair da hibernação. O exemplar (isolado mas de porte considerável e talvez idoso), que vimos no fim de Dezembro numa arriba da costa vicentina, estava com a folhagem carnuda e fresca, e exibia várias flores, mas nenhum fruto. Naturalmente, nesta altura não se viam abelhas ou outros insectos a polinizar as flores. Um desperdício, que, porém, muito apreciámos.

O outro Lycium que ocorre espontaneamente em Portugal, L. europaeum, anda desaparecido, embora a Flora Ibérica lhe atribua uma distribuição mais vasta que a do L. intrincatum. Mostrámos aqui há uns anos uma outra espécie, essa não considerada nativa de Portugal, o L. chinense, que conhecemos das dunas de Gaia entre a Aguda e Espinho.
















































