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31/01/2014

Flor do sabão



Salsola kali L.


Às plantas não chegou ainda o aviso de que o excesso de sal é maligno. A das fotos, embora também ocorra em meios não salgados, aprecia dunas embrionárias e mesmo areais junto à espuma do mar, vive coberta de sal e bebe muita água, da salgada, que guarda nas folhas cilíndricas e suculentas. Somos tentados a comentar que é por isso que esta herbácea é anual: tem uma vida curta em consequência do consumo desregrado de sal. Mas não é bem assim: ela tem vizinhas igualmente gulosas de sal que são perenes. Notem, porém, que as folhas têm uma ponta aguçada que lhe serve para se proteger de predadores, de que não sabe fugir, mas também para reduzir as perdas de humidade; além disso, os caules são penugentos, e esses apêndices fornecem zonas de sombra pequenas mas calmantes aos caules da planta. O aspecto geral dela é o de uma erva ramosa de cor verde-alface, com muitos espinhos, esticando-se até quase um metro a partir de uma moita basal. Os talos são estriados de vermelho, como os cálices das silenes de beira-mar, o que constitui talvez mais uma protecção das queimaduras do sol, como se supõe suceder com a pele das zebras.

É relativamente comum nos areais da costa atlântica, mar Báltico e mar do Norte, mas parece estar em regressão por não resistir ao pisoteio e ao uso intenso das praias na sua época de floração, de Julho a Outubro. As flores são minúsculas, nascendo em geral solitárias na base das folhas. Têm cinco pétalas amareladas e duas brácteas espessas e espinhosas a protegê-las de quem as queira comer. Desde tempos medievais e até ao século XIX, a barrilha foi não só abundante como muito útil a uma vasta indústria na Península Ibérica: das suas cinzas extraía-se carbonato de sódio com que se fazia soda e, com esta, vidro, sabão e lixívia, por um processo artesanal zelosamente mantido em segredo para salvaguardar os lucros obtidos com a exportação destes produtos. O nome latim salsola refere-se ao seu apetite pelo sal; kali deriva da palavra árabe, al-qali, para a soda.

04/01/2014

Acelgas


Beta maritima L.



O dicionário Houaiss regista nove entradas para a palavra beta, algumas delas com múltiplos significados. Em geral, o termo alude à noção de segundo. Em ciência, tanto designa a segunda estrela em grandeza numa constelação, como um segundo produto de uma reacção química, a segunda das três radiações por emissão de partículas das substâncias radioactivas, o número dois ou a segunda letra do alfabeto grego. Mas beta também pode ser uma lista sobre um fundo de cor diferente, seja ele de tecido, pelagem, plumagem, ou o contraste na coloração entre os lenhos de Verão e de Primavera de um tronco de madeira. E, mais localmente, beta também é o nome dado a um cabo com que se puxa a rede para terra depois da pesca de arrastão, e ainda a um tresmalho para a pesca de sargos e robalos; ou, em momentos de atrapalhação, azáfama ou grande pressa, a algum instrumento sem denominação própria.

Em botânica, Beta é o nome científico das acelgas, usado a partir da designação vernácula proveniente do celta bett, que quer dizer vermelho. Beta é o género que contém a beterraba (B. vulgaris), aquela raiz intumescida e adocicada, globosa ou fusiforme, vermelha-cor-de-vinho-tinto, branca ou amarela, com que se fazem sopas, saladas, sumos ou bolos coloridos, e que é fonte de grande percentagem do açúcar consumido no mundo. A espécie B. maritima, ou acelga-brava, comum no litoral, que se pendura em arribas ou se estira em dunas e sapais salgados, tem uma raiz grossa mas não tão carnuda. É nativa da oeste e sul da Europa, parte da Ásia, norte de África e Macaronésia.

As fotos mostram como as folhas desta espécie, que encontrámos nas areias marítimas e em praias de seixos de Viana do Castelo, são glabras, inteiras e alternadas, com a nervura central conspícua e, por vezes, tingida de vermelho ou rosa, tendo as basais um longo pecíolo. As flores, que nascem entre Abril e Outubro, são esverdeadas com um leve matiz púrpura e apresentam cinco tépalas encurvadas para dentro, desse modo formando uns capuzes onde se protegem os estames. Além disso, são hermafroditas, agrupando-se em inflorescências que parecem espigas. Se tivéssemos arrancado uma noz a algum dos pares que os frutos soldam à haste, poderíamos agora conferir que cada um contém uma semente alongada.

Por cá, ocorrem espontaneamente três espécies do género, mas a B. macrocarpa é rara e, até agora, só terá sido avistada no Algarve e Estremadura. Da B. maritima há registos em quase toda a faixa costeira, tirando Alentejo e Douro Litoral.


Areosa, Viana do Castelo

01/11/2012

Entre marés

Quem pretende morar na fronteira entre terra e mar, onde o sal fino é uma segunda pele e o chão foge a cada recuo das ondas, ou é inerte como um seixo ou tem que ser versátil como um pirata. Essa parece ser uma das qualidades das plantas do género Suaeda, cujo habitat, sapais e marismas, raramente está calmo e enxuto. As folhas, sésseis e com aspecto farinhento, são suculentas, o que é comum nas plantas que vicejam à beira-mar; as raízes são longas, permitindo que a planta se segure num solo arenoso e sugue água doce num meio misto onde abunda a água salgada. E as espécies deste género revelam algum polimorfismo, sinal de oportunas adaptações ao ambiente.

A S. albescens (amiúde confundida com a Suaeda maritima (L.) Dumort.) é uma herbácea anual de hábito prostrado, esporádica em areais marinhos do Algarve ao Minho. As folhas são metades de cilindro com cerca de 3 centímetros de comprimento e ponta aguçada, que começam por dispor-se em roseta e depois se eriçam num arbusto descabelado. As flores, de Verão, são verdes, hermafroditas ou femininas, e agrupam-se em glomérulos lassos nas axilas das folhas.



Suaeda albescens Lázaro Ibiza

A S. vera, a que o povo chama valverde-dos-sapais, é perene e lenhosa, e cresce muito mais que a espécie anterior. As suas flores, igualmente minúsculas (cerca de 1 milímetro de diâmetro), agrupam-se às dúzias, protegidas por uma bráctea grande e várias bractéolas; os frutos são utrículos com uma semente. Diz-se que, em tempos idos, era queimada para se retirar das cinzas um carbonato de sódio usado no fabrico de vidro. É nativa da região mediterrânica e da costa atlântica norte até Inglaterra e, por cá, segundo a Flora Ibérica, ocorre no Algarve, Baixo Alentejo e Estremadura. Contudo, o exemplar das fotos mora no estuário do Lima, em Darque, Viana do Castelo. Com sorte, é um recém-chegado da Galiza e trouxe consigo a sua fantástica parasita, a Cistanche phelypaea.


Suaeda vera Forssk. ex J. F. Gmel

Das cerca de cem espécies do género Suaeda, a Flora-On dá conta de quatro em Portugal (além das anteriores, também a S. spicata (Willd.) Moq. e a S. splendens (Pourr) Gren & Godr.). Porém, a designação da primeira não é consensual entre os taxonomistas, e a Flora Ibérica não a regista em Portugal. Por isso também neste âmbito poderão estar para breve novos cortes.

25/07/2009

Pompons


Ptilotus manglesii (Lindl.) F. Muell.

It's time you learned, Doc, the only thing in this life a man can earn is friendship. Everything else you can steal.
Once Upon a Horse (Dir: Hal Kanter, Universal International Pictures, 1958)

Tivessem os filmes de cowboys sido filmados nas regiões semi-desérticas da Austrália - onde também existiram colonos e indígenas desapossados de bens e sossego - e as sagas redentoras, as corridas ao ouro e a demanda das terras prometidas, com os inevitáveis duelos-ao-sol, teriam como alegoria não cactos espinhosos mas estas bolinhas (de cerca de 5cm de diâmetro) fofas e peludas. A lanugem branca destas inflorescências, onde se notam flores de cinco tépalas de cor violeta, finas como papel e com brácteas castanhas, lembra a longa cabeleira do cacto Cephalocereus senilis (Haw.) Pfeiff., e é essencial para proteger a planta de insolações.

O género Ptilotus, descrito formalmente pela primeira vez em 1810 pelo botânico Robert Brown na obra Prodromus Florae Novae Hollandiae, abriga mais de cem espécies, australianas com excepção de uma (Ptilotus conicus R.Br.) que é nativa de Timor. As plantas deste género são herbáceas perenes ou arbustos que se adaptaram a solos secos e pobres em nutrientes, tolerantes a excessos de fósforo, mas que, por essa escassez de meios, exibem alguma dificuldade em germinar.

Pela aparência cabeludinha, a planta das fotos já se chamou Trichinium manglesii (do grego trichos, cabelo). Mas o termo grego ptilon tem igual préstimo: significa pena, ou asa. Os dois i's adjacentes no epíteto específico manglesii remetem, por regra taxinómica, para o nome de personalidade que assim é preiteada. Neste caso trata-se de James Mangles (1786-1867), um entusiasta da horticultura que viajou pelo Médio Oriente, visitou o oeste da Austrália em 1831 e escreveu, com C. Irby, a obra Travels in Egypt and Nubia, Syria and Asia Minor during the years 1817 & 1818.

Porque é viciada em fome e formosura, a esta espécie têm estado atentos os horticultores. Contudo só os estóicos e empedernidos, como os heróis do faroeste, capazes de se esquecerem da planta no Inverno e depois a submeterem à sede e ao calor, é que terão a sua recompensa.

08/11/2006

Perpétuas-roxas



A Gomphrena globosa é uma amarantácea da América tropical que se adaptou ao frio europeu e tolera solos pobres. As flores são minúsculas mas as brácteas - que parecem de papel como as da Celosia - formam inflorescências de pé alto (gomphrena deriva do grego gomphos, prego), redondas (globosas), brancas, violeta, púrpura ou carmim; e uma das designações comuns em inglês para esta herbácea é precisamente bachelor's button.

A planta contém substância anti-asténica usada tradicionalmente na farmacopeia africana e amazónica; e também na portuguesa, como infusão milagrosa que aclara a voz das fadistas. Além disso, dela se fabrica um corante violeta. E, quando em pleno sol, atrai irresistivelmente as borboletas.

29/09/2006

Flores de papel



As inflorescências das herbáceas do género Celosia, da família Amaranthaceae, são o ideal dos aficcionados das flores secas, as que duram nas jarras por longos anos sem serem falsas, de plástico ou pano. As flores não têm pétalas e as brácteas aveludadas têm textura de papel engelhado. Podem apreciar-se agora - até que o frio as obrigue a recolherem-se a estufas de ambiente tropical - nos canteiros de algumas ruas do Porto, alternando com begónias, zínias, tagetes ou escovinhas (Ageratum houstonianum). Como são híbridos cujo genoma tem mais cromossomas do que o usual, exibem grande diversidade morfológica; para poupar confusões, os horticultores agrupam-nas em quatro classes identificáveis pelo formato das inflorescências:
- Spicata: são espiras cónicas, e as flores abrem da base para o topo;
- Cristata: são achatadas e retorcidas como cristas-de-galo;
- Plumosa: parecem plumas erectas de cor berrante;
- Childsii: redondas como cabeças.
O termo Celosia deriva do grego kéleos, queimado, seco; Amaranthacea tem origem em amárantos, o que não murcha.


[A 3.ª foto foi cedida pelo desNorte e tirada no Jardim Botânico de Munique.]