Mostrar mensagens com a etiqueta Apocynaceae. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Apocynaceae. Mostrar todas as mensagens

31/05/2020

Bombardeira ou maçã-de-Sodoma


Calotropis procera (Aiton) W. T. Aiton


Por qualquer bitola que se use, a Calotropis procera é uma planta bem sucedida: as flores, que surgem durante quase todo o ano, parecem de cera e têm uma coloração atraente, convencendo não poucos admiradores a cultivá-la nos seus jardins; os frutos estão recheados de uma fibra plumosa que, à semelhança da sumaúma, pode usar-se para encher almofadas; em tempo de guerra, o látex exumado pelo caule fornece veneno para derrotar inimigos. A somar a estas qualidades, é uma planta que sabe cuidar de si, tendo feito a melhor aposta para acautelar o futuro: própria de zonas áridas ou semi-áridas, com exigências ecológicas mínimas, não são a falta de chuva ou a expansão dos desertos que poderão apoquentá-la. A sua área de distribuição, que já era vasta, estendendo-se da África tropical à Índia, tem-se alargado exponencialmente com a sua chegada à América e à Austrália.

Organismos com essa capacidade para ampliar o seu território, sejam eles plantas ou bichos, não costumam ser bem vistos. São invasores que tiram espaço às espécies nativas, alterando os habitats de forma às vezes irreversível. É esse o efeito da bombardeira (nome para a Calotropis procera no Brasil) na caatinga do Nordeste brasileiro, um ecossistema já muito diminuído e adulterado por desmatações, queimadas e, mais recentemente, por grandes obras públicas como a construção dos canais de transvase do rio São Francisco. A capacidade de que a planta dá provas para colonizar áreas degradadas é assombrosa: numa faixa de desmatação de dezenas de quilómetros de comprimento por cem a duzentos metros de largura, aberta para fazer passar um dos canais de transvase e depois abandonada, estimou-se, em artigo datado de 2013, uma média de 12 exemplares da planta por cada quadrado de 5 metros de lado, incluindo 8 já adultas (produzindo flores e frutos). No mínimo, isso dá um milhão de exemplares. E o domínio da bombardeira era absoluto: nas parcelas de amostragem só foram detectadas três outras espécies de plantas, cada uma delas com apenas um exemplar. De facto, a bombardeira possui mecanismos eficazes para inibir o crescimento de outras plantas e assim formar povoamentos mono-específicos. Essa mesma capacidade (a que os biólogos chamam alelopatia) é exuberantemente demonstrada em Portugal pela mimosa (Acacia dealbata) nos terrenos por ela invadidos.

Esclareça-se que as nossas fotos foram tiradas na Grã-Canária, onde a Calotropis procera, talvez por aí se encontrar tão perto da sua área de distribuição natural (que inclui Marrocos, Argélia e Egipto), tem um comportamento incomparavelmente mais comedido, que de modo nenhum se pode qualificar de invasor (é possível que em Fuertventura, a mais árida das ilhas Canárias, a história seja outra). Só encontrámos exemplares isolados, e apenas em dois ou três locais. Devemos até reconhecer que ficámos contentes com o encontro, porque a achámos bonita e nunca a tínhamos visto. Francisco Clamote, que a viu e fotografou na Índia, fala-nos aqui sobre ela.

15/02/2020

Flores de madeira


Ceropegia fusca Bolle


Há pouco mais de dois anos, uma revisão do género Ceropegia, nomeado por Lineu em 1753 e que abrigava cerca de 220 espécies, reuniu sob essa designação mais de 700 espécies, nativas da África, Ásia, Austrália e Canárias. Uma arrumação na mesma gaveta em tão grande escala soa-nos inusitada numa época em que os estudos genéticos apontam mais frequentemente para a independência, e decerto muitos descritores de taxónes não apreciaram o almagamento. Para os que se apegam aos detalhes, como coleccionadores ávidos, algumas destas espécies não parecem sequer próximas, quanto mais primas. Ora veja o leitor estas imagens para formar a sua opinião: F1, F2, F3, F4, F5, F6, F7, F8, F9, F10. Vasta informação sobre a morfologia destas plantas é aduzida pelos autores da proposta de unificação num só género, embora dividido em várias secções, e pode ser lida aqui.

Que lhe parece? Notou concerteza semelhanças: as flores tubulares ciliadas de pé curto, com um topo formando um chapéu de bispo, um guarda-chuva, uma lanterna ou uma gaiola; os talos suculentos, enroscados em jeito de trepadeira; e as folhas grandes e verdinhas, nascendo em pares opostos. Mas há também muitos pormenores diferentes nas flores, sejam cores ou penachos que, dizem os estudiosos, são consequência de ajustes com os polinizadores -- em geral uma grande diversidade de moscas que, atraídas por aromas e tons, ficam momentaneamente enjauladas nas flores e as polinizam enquanto buscam uma saída (como descrito aqui).

Contudo, as espécies de Ceropegia endémicas das Canárias (a Ceropegia dichotoma em Tenerife, La Palma, El Hierro e La Gomera; e a Ceropegia fusca, acima ilustrada, em Tenerife e Grã-Canária) não encaixam bem neste formato. Não são trepadeiras e investiram mais nos talos cilíndricos, engrossando-os em rolos erectos e fazendo-os nascer directamente do solo até cerca de 1 metro de altura; e reduziram as folhas a apêndices sésseis, finos, caducos, de 2-5 cm de comprimento e margens revolutas, que surgem no inverno. Supõe-se que sejam o resultado da adaptação ao habitat que colonizaram nessas ilhas: seco, rochoso, de solo ralo, e com exposição prolongada ao sol e ao calor.

20/03/2019

Não são cactos

La Graciosa, a norte das Canárias, a menor ilha habitada do arquipélago, é um pequeno deserto com muito vento, assolada por frequentes tempestades de areia e sem fontes de água potável. O acesso a partir de Orzola, em Lanzarote, faz-se em barcos que mal fintam as vagas agitadas do oceano que separa as duas ilhas. São vinte minutos de travessia até à povoação Caleta del Sebo, na costa sudeste da ilha, com casinhas brancas embelezadas com motivos azuis, e cerca de setecentos habitantes que têm acesso a água do mar dessalinizada e sabiamente dispensam as estradas pavimentadas.



Esperavam-nos uma frota de veículos todo-o-terreno e muitas bicicletas, que a maioria dos turistas aluga para percorrer os cerca de 5 km até à bela Playa de las Conchas. Recusámos, para seguir a pé pelo estradão de terra batida, feita de cinzas vulcânicas e areia, ladeado por vegetação de duna secundária à beira-mar. O ambiente era árido mas a temperatura sentia-se cálida, como é usual em Dezembro por estas paragens. Dirigimo-nos à Montanha Bermeja, um dos cinco grandes vulcões da ilha La Graciosa, que a erosão tem vindo a reduzir a um monte de altura modesta (cerca de 150 m). Procurávamos uma planta suculenta, endemismo raro de Lanzarote e Fuerteventura.



A cerca de meia altura da montanha de cor vermelha, exposto ao sol e à maresia, notámos um tapete de talos suculentos, erectos, com cerca de 20 cm, de secção quadrangular e cor esverdeada a tender para o cinzento. A floração estava em curso, e por sorte alguns exemplares já exibiam frutos. São ambos, flores e frutos, de aspecto magnífico a que vale a pena prestar atenção. A corola de tubo curto tem cinco lóbulos castanhos, quase púrpura, a lembrar os do Vincetoxicum nigrum e salpicados de penugem branca; abrigam uma estrutura amarela que parece uma flor dentro da flor maior. Os frutos, formando dois corninhos como é usual na família Apocynacea, confirmam que a Caralluma não é um cacto, apesar de a morfologia desta planta bizarra resultar, com toda a probabilidade, de uma adaptação à secura e ao calor, como acontece às suas congéneres no norte de África e aos cactos nos desertos das Américas.


Caralluma burchardii N. E. Br. var. burchardii


O epíteto específico é dedicado a Oscar Burchard (1863-1949), botânico alemão que viveu em Tenerife e a quem se deve a descrição de inúmeras espécies da flora das Canárias.

25/11/2018

Abraços verdes


Periploca laevigata Aiton
Já aqui vos mostrámos uma trepadeira do género Periploca que em tempos se enroscava no portão de uma das estufas do Jardim Botânico do Porto, entretanto reformada (que é como quem diz «sem a vegetação de outrora»). A espécie que encontrámos em Tenerife também tem flores estreladas que se agrupam em cimeiras axilares, com pétalas que combinam igualmente os tons de púrpura, amarelo e verde. Contudo, a espécie canariense tem porte de arbusto, pode mesmo chegar aos 3 metros de altura, e a folhagem é glabra, coriácea e perene.



O fruto (que se vê na 4.ª foto) é como o dos loendros (Nerium oleander) ou do vincetóxico, no que constitui um traço de parentesco pois as três espécies pertencem à família Apocynaceae: dois fusos longos (cerca de 10 cm) e bicudos, opostos como duas metades de um bigode oitocentista, que se abrem longitudinalmente para libertar as sementes envoltas num penacho de algodão. Podem ver aqui imagens destas cápsulas já abertas, a que o povo espanhol alude quando designa esta planta por cornicabra.

A Periploca laevigata é nativa das ilhas Canárias, Cabo Verde, norte de África, sudeste de Espanha e parte da região mediterrânica, e aprecia ladeiras pedregosas ou areais perto do mar. A Flora Ibérica menciona uma antiga aplicação medicinal de talos, folhas e sementes, por certo em desuso pois as plantas da família Apocynaceae costumam ser perigosamente tóxicas (são, porém, ornamentais, ainda que, com a pressa, mal notemos a sua presença nos separadores das nossas auto-estradas).

24/07/2018

Flores de cera


Ceropegia dichotoma Haw.


Há muito que o homem entortou a Natureza.
Porque o homem pensa a Natureza como se esta
fosse uma mesa a que se pode cortar uma das pernas
para a endireitar.
Mas a paisagem não é uma coisa
que possa ser corrigida por cidadãos
bem equipados, a paisagem é que te corrige.
É a terra que te come, e não
o inverso.
Gonçalo M. Tavares
Uma viagem à Índia (Caminho 2010)

23/06/2015

O veneno que se cuide

Em Outubro de 2013 falámos aqui do Vincetoxicum nigrum, uma planta de flores minúsculas com um tom incomum de vermelho. Nessa altura, especulámos sobre a possibilidade de encontrar plantas da outra espécie de Vincetoxicum que ocorre em Portugal, o V. hirundinaria. Como sugere o nome, é igualmente útil como antídoto para o veneno de cobras, sendo conhecida popularmente como erva-contraveneno; o epíteto hirundinaria (de hirundinis, andorinha em latim) recorda que os frutos desta planta parecem a cauda daqueles passarinhos em voo (e, em inglês, a designação comum da planta é precisamente swallow-wort).

Efectivamente, em Junho do ano seguinte encontrámos, no Gerês, junto ao rio Maceiras, uma planta solitária desta espécie, pequenina e sem flores. Magra recompensa para quem esperou tanto. Contudo, no mesmo local havia vários exemplares floridos de Thymelaea broteriana, além de Laserpitium eliasii, e a desilusão amainou. Ficou-nos a vontade de regressar este ano para procurar de novo, mas melhor, o segundo Vincetoxicum.


rio Minho em Monção
Mas, afinal, não foi preciso. Como sabem, temos ido passear às pesqueiras do rio Minho, seja para rever o Allium scorzonerifolium, a Spirea hypericifolia, a Veronica montana ou a Nymphoides peltata, seja para explorar mais algumas das formações rochosas que guarnecem as margens do rio. E, no topo de uma delas, a encher as fendas, encontrámos esta magnífica população de V. hirundinaria em flor.



Vincetoxicum hirundinaria subsp. lusitanicum Markgr.


É uma herbácea perene que, ao contrário do V. nigrum que aprecia nichos ensombrados, precisa de luminosidade e de solo relativamente seco. É quase glabra e as flores, que nascem no fim da Primavera ou já no Verão, surgem em cachos de 5 a 12 nas axilas das folhas ou no topo dos caules. Os frutos (penúltima foto), com uns 5 centímetros de comprimento, são fusos que terminam num pico (os chamados pimientos-do-monte); e, quando secos, abrem-se longitudinalmente para libertar as sementes que esvoaçam com a ajuda de um penacho.

É nativa da Europa e Ásia, mas as Floras europeias aludem a várias subespécies, destacando diferenças na cor das flores (mais ou menos verdes ou brancas) e no comprimento dos pedúnculos. As plantas que ocorrem no norte de Espanha e noroeste de Portugal correspondem, em alguns desses textos, à subespécie lusitanicum; tal distinção, porém, não foi acolhida pelos autores do capítulo correspondente na Flora Ibérica.

01/10/2013

Caudas-de-andorinha



Vincetoxicum nigrum (L.) Moench

São as folhas e os frutos desta planta que fazem lembrar as andorinhas. As folhas são ovais, de ponta aguçada; os frutos são longos fusos acastanhados - há quem assevere que abrem qualquer porta. Ambos se agrupam frequentemente aos pares em posição que lembra as penas da cauda daqueles pássaros em voo.

As flores em estrela minúsculas nascem em cimeiras e os lóbulos triangulares exibem um tom púrpura quase negro que é pouco usual. Abrem de manhã e permanecem disponíveis para os polinizadores durante aproximadamente sete dias, o tempo de esgotarem o pote de aroma forte com que os atraem. Têm um sistema misto de reprodução, coexistindo frutos que resultam de auto-polinização com outros de polinização cruzada. Não são exigentes, qualquer mosquinha lhes parece servir como polinizador, mas alguns estudos mostram que é usual a presença de um insecto que, como um porteiro, defende as flores dos intrusos alados que roubam néctar mas não transportam pólen.

Para premiar uma busca demorada, este ano encontrámos, nas margens ensombradas do rio Minho, em zonas pedregosas e de bosque, várias populações abundantemente floridas desta espécie, que é nativa do sudoeste da Europa. Para nos poupar outra visita, alguns pés mostravam já frutos. As sementes têm uma asinha e um paraquedas porque é o vento que as dissemina, e devem estar agora a espalhar-se. Cumprida esta tarefa, a planta hiberna e só ressurge na Primavera.

Na Península Ibérica ocorre outra espécie do mesmo género, também perene e rizomatosa, que, embora aprecie um habitat eurosiberiano semelhante, é mais rara que a das fotos e não tem hábito tão notório de trepadeira. Há registo da presença dela no Gerês, onde a veremos em Junho do próximo ano, e também na Beira Alta e no Alto Alentejo. Até lá, o leitor fará o favor de pintar as pétalas destas fotos com tinta verde, a coroa de dentinhos ao centro de amarelo e de aclarar um pouco a folhagem: terá desse modo uma ideia de como é o Vincetoxicum hirundinaria. Ou, preferindo, poderá visitar esta página do portal Flora-on.

02/09/2009

Trepadeira cruel


Araujia sericifera Brot.

A crueldade desta trepadeira manifesta-se no tratamento que dá aos insectos: sem ser carnívora, e portanto sem tirar qualquer proveito desse gesto, usa o pólen pegajoso para os aprisionar; só quando a flor murcha é que eles se libertam, se não for já tarde de mais para isso. É nessa altura que os frutos começam a inchar: dispõem-se aos pares, são ovóides, atingem 10 cm de comprimento por 5 de largura, e contêm numerosas sementes envoltas por filamentos sedosos. É aliás o recheio dos frutos que explica o epíteto sericifera (= que produz seda) e os nomes comuns dados à planta no Brasil: paina-de-seda, sumaúma-bastarda. Ressalve-se, contudo, que a Araujia não tem qualquer relação com a paineira (Ceiba speciosa) ou com a sumaúma (Ceiba pentandra), apesar de estas árvores produzirem frutos semelhantes e serem igualmente sul-americanas.

A abreviatura Brot. e o nome científico Araujia denunciam claramente uma conexão lusitana. A primeira descrição da planta foi publicada por Brotero em 1818 nas Transactions of the Linnean Society of London. Com Araujia quis Brotero homenagear António de Araújo e Azevedo (Ponte da Barca, 1754 - Rio de Janeiro, 1817), cientista, diplomata e político português que acompanhou a corte nacional quando ela se estabeleceu no Brasil, e que foi feito conde da Barca dois anos antes de morrer. Além de manter actividade política, montou em sua casa no Rio de Janeiro um laboratório de química e plantou um jardim com mais de 1500 espécies, tanto indígenas como exóticas. Alguns sítios na Internet (nenhum deles em português) ligam Araujia a um misterioso António de Matos Araújo, suposto colector de plantas do século XIX, mas tudo indica tratar-se de um erro. Maior ainda foi a argolada cometida pelo Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners: segundo essa obra (em geral fiável), Araujia deriva do nome comum da planta no Brasil.

Até me agradaria que Araújo fosse um nome de inspiração vegetal, como Silva, Carvalho, Rosa ou Pinheiro, mas não se pode ter tudo. Acontece aliás que Araujia, a planta, não é muito bem vista nos vários lugares do mundo (como as ilhas dos Açores e da Madeira) onde se tornou uma invasora problemática. Se me perguntarem, não tenho com ela quaisquer laços de parentesco nem a conheço de sítio nenhum.

29/08/2009

Baloneira



Asclepias physocarpa (E.Mey.) Schlechter

Coronis, daughter of Phlegyas, King of the Lapiths, Ixion's brother, lived on the shores of the Thessalian Lake Beobeis, in which she used to wash her feet. Apollo became her lover, and left a crow with snow-white feathers to guard her while he went to Delphi on business. But Coronis had long nursed a secret passion for Ischys, the Arcadian son of Elatus, and now admitted him to her couch, though already with child by Apollo. Even before the excited crow had set out for Delphi, to report the scandal and be praised for its vigilance, Apollo had divined Coronis's infidelity, and therefore cursed the crow for not having pecked out Ischys's eyes when he approached Coronis. The crow has turned black by this curse, and all its descendants have been black ever since.

[The son] was a boy, whom Apollo named Asclepius, and carried to the cave of Cheiron the Centaur, where he learned the arts of medicine. (...) Asclepius became so skilled in surgery and the use of drugs that he is revered as the founder of medicine. (...) He had the temerity to ressurect a dead man, and thus rob Hades of a subject; Hades naturally lodged a complaint on Olympus, Zeus killed Asclepius with a thunderbolt, and Apollo in revenge killed the Cyclopes.


Robert Graves, The Greek myths (The Folio Society, 1996)

Os arbustos da espécie Asclepias physocarpa, nativa do sudeste de África, têm textura herbácea, folhagem caduca e seiva leitosa. Toleram o frio e podem atingir os 2 m de altura, mas requerem solo fértil e bem irrigado. As flores, que se agrupam em cimeiras de longa haste, têm um formato bizarro: cinco sépalas pequeninas e verdes; cinco pétalas reflexas (dobradas para trás), penugentas numa das faces; estames e carpelos escondidos numa estrutura com capuchinhos e trompetes unidos numa coluna com entalhes onde as larvas de borboleta, esfomeadas ou atraídas pelo néctar, enterram as patinhas - e, sem cerimónia, a planta deposita nelas umas mochilas cheias de pólen, assegurando deste modo que os polinizadores levam carga bastante para distribuir por várias flores. Os frutos, que nascem aos pares, são esferas verde-limão com superficie pilosa (balões que já vêm com alfinetes...) contendo fiadas de sementes castanhas apetrechadas com vistosos pára-quedas feitos de fibras sedosas.

O nome do género indica que abriga plantas que têm tradicionalmente uso medicinal. A paineirinha é, contudo, quase toda tóxica; o que agrada às borboletas, que alimentam parcimoniosamente as larvas com o néctar, tornando-as não comestíveis e salvando-as da gulodice dos pássaros.

29/05/2008

Silk vine

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.


Carlos Drummond de Andrade, A Rosa do Povo (1945)


Periploca graeca

Antes que o riso vos dobre pela cintura e as lágrimas vos impeçam de ler o resto do texto, entendamos que Periploca deriva das palavras gregas peri, em torno, e ploke, entrançado. Graecum é grego... em latim. Ou seja, esta é uma trepadeira comum na região dos Balcãs que se enrosca, modesta mas sincera, em qualquer pérgula que se lhe ponha no caminho.

Uma vida assim em permanente reviravolta, sempre com o perdão na ponta da gavinha, tinha de deixar marcas, algumas azedas. Sossegada em cada manhã com o sol acima da cabeça, aflita com ele à tarde debaixo dos pés, tem folhas opostas em ininterrupta oração; produz flores cautelosas na coloração (exterior da corola verde, vermelho-púrpura no interior), com formato de estrela para ter algum céu a que se agarrar; e os frutos, vagens frágeis recheadas de sementes empenachadas de seda, são confessadamente indigestos.

Além de ser endémica no sudeste europeu, esta Periploca, dando um salto de milhares de quilómetros por cima da Turquia, consegue também ser espontânea no sudoeste asiático.

26/08/2006

Jardim Botânico de Coimbra




O Jardim Botânico de Coimbra foi criado em 1772 como parte do Museu de História Natural da Universidade, instituído pelo Marquês de Pombal. Excelentemente planeado mas actualmente mal mantido, o Jardim ocupa hoje cerca de 13,5 hectares do centro da cidade, a maioria dos quais ostenta o aviso "Vedado ao público".

O que começou por ser um projecto modesto, inspirado no Chelsea Physic Garden, transformou-se desde 1774 numa colecção notável de plantas, nomeadamente de eucaliptos, cuidada inicialmente pelo botânico-jardineiro João Rodrigues Vilar e bastante depauperada pelo desmazelo a que foi sendo votada desde meados do século XX.

A primeira parte do Jardim a ser construída foi o "Quadrado central", que liga à Alameda das Tílias. Ainda hoje lá vegetam árvores do século XVIII, como uma Cunninghamia sinensis, uma Cryptomeria japonica e uma Erythrina crista-galli. A componente do Jardim a que o público tem acesso livre inclui, além deste quadrado (com magníficas espécies de magnólias) e da alameda, alguns terraços ajardinados. O Jardim contém ainda o "Terraço tropical" com palmeiras cabeludas, fetos arbóreos, cicadáceas, bananeiras e estrelícias; outros terrenos, ditos de "Escola", com árvores e arbustos que daria muito gosto observar de perto; e a "Mata", com preciosidades de difícil acesso: todos estes espaços são absolutamente interditos aos visitantes que não formem grupos de 20 ou mais pessoas que, com a antecedência de pelo menos duas semanas, solicitem e consigam uma visita vigiada (cuja data exacta é comunicada aos candidatos pela direcção do Jardim). Para consolo restam aos interessados duas das quatro estufas existentes no Jardim (entrada por 2 euros, fechadas ao fim-de-semana), com a sua dose de má manutenção que lhes vai destruindo a variedade de plantas (como ilustra o desaire este ano com a Victoria amazonica) e onde também se sente a falta de placas de identificação - que no exterior é escandalosa por este dever ser um espaço prioritariamente educativo.

As fotos que aqui ficam servem para que mais pessoas desejem visitar este Jardim e que a sua insistência, aparentemente mal-vinda aos donos deste lugar, leve os responsáveis a repensar a gestão desde património. Mostram flores de Pachystachys lutea, um arbusto peruano semi-herbáceo da família Acanthaceae conhecido como camarão-amarelo; de Hoya carnosa, trepadeira pouco ramificada da Austrália e China, classificada na família Apocynaceae, cujas flores perfumadas branco-róseas parecem feitas de cera; de Anthurium scherzerianum, da família Araceae, o rabinho-de-porco da América Central cuja flor tem uma espata de cor vermelha muito ornamental; e finalmente de Asclepias curassavica, também Apocynaceae, herbácea da América Tropical de flores amarelo-escarlate.

10/06/2006

Ventoinhas de flor



Trachelospermum jasminoides - Praça da Alegria, Porto

A família Apocynaceae abriga cerca de 360 géneros de herbáceas, arbustos ou árvores, quase todos com uso farmacêutico importante e floração espectacular, como a dos loendros que nesta altura dão cor aos separadores das auto-estradas.

As flores de algumas das espécies desta família têm corolas em trombeta e pétalas encurvadas como as pás duma hélice. Por isso quando nos deparámos com este arbusto desconfiámos do seu parentesco com o Nerium oleander e a Plumeria rubra. É um exemplar bem desenvolvido de Trachelospermum jasminoides, uma trepadeira chinesa com flores brancas de cinco pétalas recurvadas e de ponta serrada, e perfume a noz moscada. O epíteto específico relaciona-a com o jasmim, embora tenha flores de formato bem distinto.

Os frutos são longas vagens verdes, reunidas em pares formando charmosos bigodes-à-Dali; esperamos fotografá-los no Outono.