Duplo refúgio

Araucaria heterophylla
Encravadas numa língua de areia entre a ria e o mar, Torreira e São Jacinto - as duas localidades que confinam com a reserva natural do mesmo nome - têm isto mais em comum: gostam pouco de árvores. Plantam choupos e plátanos nas ruas como quem cumpre a contragosto uma obrigação de que não alcança o sentido; e todos os anos, com um zelo que não esmorece, os mandam mutilar e os deixam reduzidos a pouco mais que os troncos. As árvores assim tratadas têm em geral vida curta; e, na verdade, nunca chegam a ser árvores, pois nunca têm copa que nos abrigue do sol. Afinal, por que diabo haveria alguém de querer fugir da luz do sol em terra que vive do veraneio?
De modo que a reserva de São Jacinto não é só um refúgio para aves, escapadas aos caçadores que exercitam a pontaria pela banda da ria: é também um refúgio para árvores, que ali estão a salvo da motosserra do podador. É claro que uma reserva onde se tentam preservar os valores naturais de uma região não é o lugar indicado para o plantio em série de árvores ornamentais exóticas - além de que a pobreza do solo arenoso dificultaria o seu desenvolvimento. Mas esta Araucaria heterophylla junto à sede da reserva, que pouco mais terá que 20 metros de altura, deu-se bem com os ares da ria, avantajando-se já aos pinheiros-bravos - que são, eles sim, os legítimos ocupantes deste território. Outras árvores refugiadas se vêem na foto: à esquerda do caminho um par de elegantes laranjeiras e, à direita, a larga copa de uma amoreira com a folhagem nova acabada de estrear.

Salix atrocinerea (salgueiro-preto)
Se há coisa que o visitante a estas paragens nota é a falta de relevo: por isso, dentro da reserva, qualquer árvore, por pequena que seja (e elas em geral são pequenas), nos corta a perspectiva. Considerada como paisagem, a reserva é monótona e pouco tem para oferecer ao visitante: vale é como experiência botânica para quem se der à minúcia de esquadrinhar a vida vegetal, pequena ou grande. E também, como é óbvio, recompensa largamente o observador de aves aquáticas, se ele tiver a fortuna de encontrar o caminho para a pateira - a qual, apesar de se estender por vários hectares, está praticamente oculta do visitante. O único posto de observação é uma cabana de madeira com uma estreita ranhura à altura do peito aberta numa das paredes. Em vez das acácias e pinheiros que dominam o resto da reserva, a vegetação circundante do lago é sobretudo de salgueiros-pretos; e o recorte sinuoso mas aberto das suas margens forma um bem-vindo contraste com os caminhos em linha recta que cruzámos até ali.



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