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22/03/2008

Duplo refúgio


Araucaria heterophylla

Encravadas numa língua de areia entre a ria e o mar, Torreira e São Jacinto - as duas localidades que confinam com a reserva natural do mesmo nome - têm isto mais em comum: gostam pouco de árvores. Plantam choupos e plátanos nas ruas como quem cumpre a contragosto uma obrigação de que não alcança o sentido; e todos os anos, com um zelo que não esmorece, os mandam mutilar e os deixam reduzidos a pouco mais que os troncos. As árvores assim tratadas têm em geral vida curta; e, na verdade, nunca chegam a ser árvores, pois nunca têm copa que nos abrigue do sol. Afinal, por que diabo haveria alguém de querer fugir da luz do sol em terra que vive do veraneio?

De modo que a reserva de São Jacinto não é só um refúgio para aves, escapadas aos caçadores que exercitam a pontaria pela banda da ria: é também um refúgio para árvores, que ali estão a salvo da motosserra do podador. É claro que uma reserva onde se tentam preservar os valores naturais de uma região não é o lugar indicado para o plantio em série de árvores ornamentais exóticas - além de que a pobreza do solo arenoso dificultaria o seu desenvolvimento. Mas esta Araucaria heterophylla junto à sede da reserva, que pouco mais terá que 20 metros de altura, deu-se bem com os ares da ria, avantajando-se já aos pinheiros-bravos - que são, eles sim, os legítimos ocupantes deste território. Outras árvores refugiadas se vêem na foto: à esquerda do caminho um par de elegantes laranjeiras e, à direita, a larga copa de uma amoreira com a folhagem nova acabada de estrear.


Salix atrocinerea (salgueiro-preto)

Se há coisa que o visitante a estas paragens nota é a falta de relevo: por isso, dentro da reserva, qualquer árvore, por pequena que seja (e elas em geral são pequenas), nos corta a perspectiva. Considerada como paisagem, a reserva é monótona e pouco tem para oferecer ao visitante: vale é como experiência botânica para quem se der à minúcia de esquadrinhar a vida vegetal, pequena ou grande. E também, como é óbvio, recompensa largamente o observador de aves aquáticas, se ele tiver a fortuna de encontrar o caminho para a pateira - a qual, apesar de se estender por vários hectares, está praticamente oculta do visitante. O único posto de observação é uma cabana de madeira com uma estreita ranhura à altura do peito aberta numa das paredes. Em vez das acácias e pinheiros que dominam o resto da reserva, a vegetação circundante do lago é sobretudo de salgueiros-pretos; e o recorte sinuoso mas aberto das suas margens forma um bem-vindo contraste com os caminhos em linha recta que cruzámos até ali.

27/11/2007

A árvore das espécies



Em Abril de 2005, a Manuela mostrou aqui imagens da existência atribulada desta Araucaria heterophylla no então estaleiro de obras da Metro do Porto. O que na altura se projectava para o quarteirão antes ocupado por uma fábrica têxtil há muito falida, embora estivesse ainda dependente da concordância do IPPAR, era um espaço com o nome de Camélias Parque: seria um centro de lazer e não, enfaticamente, um centro comercial. Como relata a Manuela, o IPPAR teria, segundo os jornais, intercedido pela preservação das «espécies arbóreas» no local. Escrevendo na Baixa do Porto, Francisco Rocha Antunes, promotor que esteve de início ligado ao empreendimento, estranhou o teor da notícia, já que a manutenção da araucária e das camélias terá sido desde sempre - como indicava o próprio nome do previsto centro de lazer - uma das balizas do projecto.

Nos 31 meses entretanto decorridos veio a autorização do IPPAR e a obra acabou por se fazer, mas o que foi inaugurado há duas semanas com o pindérico nome de Porto Gran Plaza já não se disfarça de centro de lazer: é um banalíssimo centro comercial onde nem sequer existem as prometidas salas de cinema (o único atractivo que me levaria a visitá-lo com regularidade).

Embora tenha perdido ramos e acuse alguma debilidade, salvou-se a araucária, protegida num cilindro de terra com diâmetro generoso; e foram ainda plantadas em caldeiras oito camélias já com dois metros de altura. É verdade que isto não se confunde com o jardim que o IPPAR, nos idos de 2005, parecia exigir; mas talvez o mesmo IPPAR que deixou petrificar a avenida dos Aliados, aceitando como boa a justificação dos arquitectos de que o que lá ficava era um jardim elevado constituído pelas copas das árvores, acredite que há agora um verdadeiro jardim à entrada do Porto Gran Plaza.

Só mais uma nota. O IPPAR fala em «espécies arbóreas», obviamente confundindo «espécie» com «espécime». Uma árvore não é uma espécie, assim como um homem não é uma espécie: é um representante de uma espécie, a humana. Os seres vivos estão agrupados em espécies, e cada indivíduo de uma espécie não é uma espécie: será, quando muito, um espécime. A confusão entre os dois vocábulos generalizou-se mesmo entre jornalistas. Andréia Azevedo Soares escreveu no Público, sobre este mesmo centro comercial, que «foram salvaguardadas questões ligadas ao impacte estético, à arqueologia industrial e à preservação de determinadas espécies arbóreas». E a frase é ainda mais caricata por estar no plural: uma só araucária, a única árvore que foi salvaguardada, corporiza várias «espécies arbóreas».


Do outro lado da rua Fernandes Tomás, nos velhos prédios contíguos ao Via Catarina, vive uma dessas famílias clandestinas que saltam de telhado em telhado. Obras como as do Porto Gran Plaza significam a morte para muitos gatos: ninguém se lembra deles, ninguém os protege; os operários divertem-se a apedrejá-los enquanto avançam com as obras que lhes destroem a casa. Fica aqui a lembrança de que a cidade também lhes pertence.

20/09/2006

O campo na cidade



A ruralidade aparente desta cena é desmentida pelo exotismo das belas-donas que acompanham o muro e pela gigantesca Araucaria bidwillii que remata a perspectiva. O cão não guarda qualquer rebanho, e o que se cultiva nestes terrenos, e se esconde na estufa entrevista à esquerda, não são produtos hortícolas mas sim plantas ornamentais. Estamos em Villar d'Allen, a quinta histórica mais notável e bem preservada do Porto e arredores, onde também funciona um importante viveiro comercial. A visitar sempre, sobretudo na época da floração das camélias, agora inaugurada com as sasanquas em flor.

10/09/2006

Caída do céu



Se, em vez da maçã, tivesse caído esta pinha na cabeça de Newton, teria ele formulado a teoria da gravitação universal? Apesar de este grande ananás (62 cm de perímetro, 22 cm de comprimento, 5 kg de peso) ser um projéctil bem mais memorável do que a maçã, é provável que a sua queda não estimulasse as lucubrações do privilegiado cérebro do cientista.

A foto é fantasiosa: as sementes, uma em cada escama, podem comer-se, mas não é prático fazê-lo com faca e garfo. Aliás, talvez seja aconselhável deixá-las secar primeiro, mas não irei comprovar isso, pois enterrei quatro delas num vaso e devolvi o resto da pinha ao local onde a encontrei. Lá ficou como aviso a quem se quisesse encostar à árvore que a largou: a Araucaria bidwillii do Jardim do Carregal. Dias depois, os jardineiros da Câmara cercaram a árvore com uma fita verde e branca, que não fica bonita mas remedeia: as pinhas, de tão pesadas, caem sempre a prumo, bem junto ao tronco. Solução definitiva seria rodeá-la com um maciço de arbustos que impedisse a aproximação das pessoas.

26/07/2006

Araucárias de Angra




Em Angra do Heroísmo, e de facto em quase todas as povoações açorianas, as araucárias (A. heterophylla) avistam-se ao longe, erguendo-se bem acima do casario como mastros de embarcação fundeada. As das fotos nem são as mais notáveis, mas ilustram como elas se integram na vida quotidiana - civil ou militar - dessa cidade a meio caminho entre dois continentes: a primeira araucária acolhe uma esplanada na praça entre o Jardim Duque da Terceira e o Palácio dos Capitães Generais; a segunda, jovem e sonhadora, empoleirou-se no Monte Brasil a contar navios; e a terceira faz de sentinela à entrada da Fortaleza de São Filipe.

19/07/2006

Araucaria classificada - Vila Praia de Âncora

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Classificada de interesse público em 1995, esta araucária habita um pequeno jardim na rua de 5 de Outubro em Vila-Praia-de-Âncora (Concelho de Caminha). Media então 45 metros de altura, 3.40 m. de perímetro (a 1.30 m. do solo) , 13 a 14 m. de diâmetro de copa e -segundo a placa "identificativa" que se encontra ao seu lado- terá sido plantada em 1886. Trata-se de um dos mais altos exemplares da araucaria mais comum em Portugal, a Araucaria heterophylla -o que não confirma o que diz a referida placa...-vulgo araucária-de-Norfolk, espécie originária da pequena ilha australiana de onde deriva a sua designação vulgar, e em cuja bandeira aparece representada.
Tentando ajudar M. Simões -que muito gentilmente nos enviou as duas fotos panorâmicas que publicamos- a encontrar informações sobre araucárias-de-Norfolk de porte semelhante transcreve-se o que Ernesto Goes diz no seu livro de 1986 sobre as dimensões de duas das mais notáveis destas araucárias em solo português: «O maior exemplar que conhecemos desta espécie situa-se no Parque de Monserrate em Sintra, próximo do Palácio, que tem 6. 25 m. de PAP, 44 m. de altura e 22 m. de diâmetro. Esta árvore deve ter sido plantada em meados do século passado, pelo primitivo proprietário desta Quinta, Sr. Francisco Cook, de nacionalidade inglesa. (...)
O segundo exemplar em grossura de tronco situa-se no Jardim do Monteiro Mor (Jardim do Museu do Traje) no Lumiar, em Lisboa. Trata-se da araucária mais antiga do país; plantada por Jacome Ratton no final do séc. XVIII, e também a primeira plantada na Europa ao ar livre. Tem presentemente 5, 93 m. de perímetro (PAP), 43.5 m. de altura e 20.2 m. de diâmetro da copa. (...) » (nota: de acordo com o site do Instituto Português dos Museus a data de plantação terá sido 1842 > cf. )


Araucária de Vila-Praia de Âncora- Araucaria heterophylla classificada de interesse público em 1995
Fotos: © manueladlramos e Manuel Simões - clicar nas imagens para aumentar

02/04/2006

O tempo que não passa


Araucárias-do-Brasil (A. angustifolia) na Casa do Campo, Celorico de Basto - Março de 2006

Há uma espécie de grandeza na imutabilidade aparente, que resiste às mudanças do mundo ou ao correr das estações. Na versão vegetal, os epítomes da constância são as coníferas: não é que não mudem, mas fazem-no devagar ou de um modo subtil que escapa aos olhares desatentos. Não têm floração vistosa, e todo o santo ano se vestem de impertubável verdura. Se as olharmos de perto, vemos despontar as pinhas e notamos o verde mais fresco da folhagem recente. Mas às vezes têm copas tão subidas que é impossível escrutiná-las com o olhar. Baixamos os olhos para inspeccionar os despojos que vão largando no chão: aqui um galho, mais adiante uma pinha. São sinais de vida em quem parece ter deixado de crescer, instalando-se no que é, para a nossa escala temporal, uma reconfortante eternidade.

À entrada da Primavera, solicitados pressurosamente pelas folhosas que se vão revestindo de mimosos rebentos, aqui ficam as duas mais-que-seculares araucárias-do-Brasil da Casa do Campo, em Celorico de Basto. São árvores como estas que nos alimentam a vista durante o Inverno; passam agora para segundo plano, mas sabemos onde reencontrá-las, constantes e fiéis, sempre que quisermos.

07/02/2006

A árvore e o homem

«Glória aos fotógrafos, a essa objectiva humilde que vai visitar as árvores na mata, no jardim público ou à beira da estrada, e delas recolhe a imagem menos imperfeita, porque menos individualista - árvore em estado de árvore. Não me achando em condições de possuir um sítio, nem mesmo uma araucária particular, incompatível com as dimensões do metro quadrado em que resido, eu (e aqui sou João, Leovigildo, Heitor, homem urbano em geral) consolo-me contemplando algumas fotografias de olmos, faias, eucaliptos, jequitibás, espécies resinosas e essências. Amo vê-las em grupo ou isoladas, oferecendo à pressão do vento a massa compacta de folhagem; reflectindo, interceptando ou matizando os raios solares que tentam penetrá-las; lavando-se à beira da corrente, em sincera solidão; ou ainda contrastando com os frágeis monumentos de pedra, tijolo e cimento, que chamamos de casas, e que é tão raro não "sobrarem" na natureza; e até mesmo esparsas entre esses outros monumentos, os mais frágeis de todos, de nervos e vasos sanguíneos, que chamamos homens, e tampouco sabem integrar-se no conjunto natural onde folhas, raízes, insetos e ventos se organizam sem política.»

Carlos Drummond de Andrade, Passeios na Ilha (1952)


Foto: 0509 - Araucaria bidwillii no Buçaco

23/12/2005

Araucaria cunninghamii


Foto: pva 0511 - Araucaria cunninghamii no Jardim Botânico da Universidade de Lisboa

Visto de Coimbra, e em particular do seu jardim botânico, o resto do mundo (e até o resto do país) deve parecer um local peculiar. Pois não é que, tirando o de Coimbra, todos os jardins botânicos do planeta franqueiam, gratuitamente ou não, os seus portões aos visitantes, levando a irresponsabilidade ao ponto de os deixarem sozinhos a deambular entre árvores, arbustos e flores? Estar em minoria, mesmo numa minoria de um contra todos, não significa estar destituído de razão; e o Tempo, esse grande desestabilizador, pode vir a inverter a relação de forças. Talvez no futuro todos os jardins, parques urbanos e reservas naturais sejam cercados por gradeamentos e de acesso proibido a estranhos - sejam, na verdade, condomínios fechados, como é há muito (avant la lettre) o Jardim Botânico de Coimbra.

Enquanto assim não for, vamos passeando por esse Portugal exterior a Coimbra onde os jardins botânicos estão abertos ao público. E um dos mais simpáticos, com entrada por apenas 1,5 euros (e, autêntica pechincha, passe anual a 7,5 euros), é justamente o da Universidade de Lisboa, à Rua da Escola Politécnica. À entrada, entre os veneráveis edifícios do Museu de História Natural, um duplo alinhamento de Washingtonia robusta prenuncia a colecção das palmeiras, uma das mais valiosas do jardim. Mas deixemo-la para mais tarde, e vamos falar da árvore da foto, o mais bonito exemplar que alguma vez vimos de Araucaria cunninghamii. A folhagem desta árvore, concentrada em tufos na ponta dos ramos, é semelhante à da Araucaria heterophylla, muito comum no nosso país; mas, em contraste com esta, de arranjo esmeradamente regular, a Araucaria cunninghamii exibe acentuada assimetria, com os ramos terminais a erguerem-se em profusa desordem. Tem a beleza descuidada que quem dispensa artifícios de enfeite.

A Araucaria cunninghamii - que, no estado natural, pode atingir os 60 metros de altura - é, como a Araucaria bidwillii, originária da costa leste australiana. (A Araucaria heterophylla, por seu turno, não é propriamente australiana, mas sim endémica da ilha de Norfolk.)

04/12/2005

araucárias



araucárias são palavras erguidas
taças de palavras contra o céu de inverno
árvores que reinam sua solidão
sobre as vozes da floresta
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silvia chueire
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05/11/2005

O jardim proibido


Foto: pva 0511 - Jardim Botânico de Coimbra: alameda de tílias com Araucaria bidwillii ao fundo

Em Agosto de 2002 escrevi ao Público a carta de que transcrevo em seguida o início:

«De há uns anos para cá, sempre que vou a Coimbra costumo visitar o seu jardim botânico. Não sei por que ainda o faço: na verdade nunca o vi, porque não me deixaram. Ao contrário do que pode parecer, o jardim botânico está (e, tanto quanto me lembro, sempre esteve) fechado ao público. Há um horário de abertura, até generoso, fixado à entrada, e os portões costumam estar abertos; mas a parte acessível do jardim não deve ultrapassar um sexto da área total. Além do quadrado central e da alameda que percorre a zona nascente do jardim, tudo o resto nos está vedado, incluindo os canteiros que ladeiam a alameda e a mata que ocupa a maior extensão do jardim (e que, presumivelmente, alberga o que de mais interessante nele se poderia visitar). Não lhe bastando ser exígua, a parte aberta ao público ainda peca por falta de informação: são poucos os espécimes identificados, e algumas das raras placas identificativas estão gastas a ponto de serem ilegíveis.»

A carta motivou uma resposta zangada do então director do jardim, confirmando no essencial as minhas observações mas atribuindo culpas à falta de pessoal e ao magro orçamento, e concluindo que «certamente não será preciso acrescentar mais nada para que qualquer visitante sensato compreenda e aceite o presente condicionamento». O problema, claro está, é que o visitante ocasional depara com um jardim onde quase tudo lhe está vedado - e, a menos que tenha dons divinatórios, não pode aceitar como boas as razões que ninguém lhe explicou. E o outro visitante, o que conhece a história do jardim e sabe que o presente condicionamento dura há décadas, não será assim tão magnânimo para compreender e aceitar.

Mais de três anos passados sobre a carta, que mudou no Botânico de Coimbra? Muito pouco, apesar de haver nova directora. A maioria das plantas ainda não está etiquetada. O visitante desprevenido ainda esbarra, estupefacto, com os portões trancados; e, se vier ao fim-de-semana, nem às estufas tem acesso. (Haverá razões ponderosas, mesmo que dúbias, para fechar a mata, mas nunca entendi por que hão-de estar inacessíveis todos os canteiros da parte nascente, incluindo o recanto tropical.) Houve promessas de, em colaboração com a Câmara Municipal, franquear ao público o acesso à mata, mas o tempo vai passando e nada acontece.

Tudo isto é uma tristeza. O Jardim Botânico de Coimbra é um tesouro de que muito poucos usufruem - um lugar onde, em vez de serem exibidas aos visitantes, as colecções de plantas se fecham avaramente como em cofre-forte.

É justo referir que há ao longo do ano visitas guiadas à mata - mas, realizando-se só aos dias úteis, exigindo marcação prévia por ofício e um mínimo de 25 participantes, destinam-se exlusivamente às escolas. Para outros públicos, decorrem este ano, em Outubro e Novembro, os passeios de Outono na mata do Botânico. Se morar em Coimbra, puder tirar um dia de folga no emprego, e conseguir juntar um grupo de 10 amigos nas mesmas circunstâncias, não deixe fugir a oportunidade!

04/09/2005

Araucanas

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A propósito das Araucarias araucanas do Parque da Lavandeira em Gaia e de Chiswick House em Londres, e devido também à semelhançada das silhuetas...
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Fotos: Porto, na rua de S. Roque da Lameira; Vila Real, no Jardim da Carreira.

02/09/2005

Araucaria araucana no Parque da Lavandeira


Fotos: pva 0508/0506 - Washingtonia robusta e Araucaria araucana no Parque da Lavandeira (Gaia) / A. araucana nos jardins da Chiswick House (Londres)

Apesar de ser esta esta a única espécie de Araucaria mencionada no recém-reeditado guia FAPAS, Árvores de Portugal e Europa, a verdade é que a chilena A. araucana é bem pouco vulgar no nosso país, ao contrário da australiana A. heterophylla e da brasileira A. angustifolia. Encontram-se alguns exemplares jovens em jardins particulares, mas árvores adultas são uma raridade (no Porto, por exemplo, só conhecemos uma, na rua de S. Roque da Lameira): o clima português não será muito indicado para o desenvolvimento desta espécie andina, que prefere regiões mais frias. É significativo que Ernesto Goes, no seu livro Árvores Monumentais de Portugal, não refira nenhuma araucana, mas dedique várias páginas a araucárias notáveis de cinco outras espécies.

Por isso a descoberta, no Parque da Lavandeira, de um exemplar adulto de A. araucana é notícia de primeira página. A árvore apresenta algumas feridas no tronco e o seu aspecto geral é débil, mas deve levar-se em conta as condições em que ela sobreviveu durante décadas, sufocada por vegetação daninha, e ter esperança na sua recuperação.

Nos climas mais frios do norte da Europa, a A. araucana é naturalmente mais comum; é mesmo a única araucária que cresce ao ar livre em Inglaterra (e por isso os guias ingleses de árvores, como aquele que o FAPAS traduziu, omitem todas as outras). No muito recomendável livro The Heritage Trees, editado em 2004 sob os auspícios do Tree Council britânico, fala-se da maior araucana (ou monkey puzzle) na Grã-Bretanha, hoje com 26 metros de altura e plantada em 1843 como parte de uma alameda de 50 monkey puzzles. Essa alameda com 460 metros de extensão, situada no parque do Bicton College (escola agrária associada à Universidade de Plymouth), no condado de Devon, ainda hoje existe, tendo as 23 árvores que entretanto se perderam sido substituídas por outras criadas de sementes produzidas pelas originais. A monkey puzzle recordista tem ainda a distinção de ser uma das 50 Great British Trees, eleitas em 2002 pelo Tree Council para celebrar o cinquentenário do reinado de Isabel II.

19/07/2005

Kauri

Mencionámos aqui o triste destino da Agathis robusta do Jardim do Carregal. Felizmente, como já antes noticiámos, existe na Quinta de Villar d'Allen uma árvore adulta da mesma espécie; e recentemente, como ilustram estas fotos, foi plantado um exemplar no Jardim Botânico do Porto.

Uma espécie congénere desta, mas que nunca vimos em Portugal, é nativa da Nova Zelândia e é uma mais das volumosas árvores que se conhecem. Trata-se da Agathis australis - kauri em língua maori -, que teve um papel importante na colonização europeia dessas ilhas, iniciada no começo do século XIX. O seu valor económico e as razões da sua quase extinção são muito bem explicados na passagem que a seguir transcrevemos de um livro de viagens de 1873.

«Kauri gum - an article of trade found (...) only in the province of Auckland - is used in the glazing of calico, and as a cheap substitute for copal varnish in the preparation of furniture; and also, - if the assertion be not calumny, - for the manufacture of amber mouthpieces. (...) The kauri gum exudes from the kauri tree, but is not got by any proccess of tapping, or by taking the gum from the tree while standing. The tree falls and dies, as trees do fall and die in the course of nature; - whole forests fall and die; - and then when the timber has rotted away, when centuries probably have passed, the gum is found beneath the soil. Practice tells the kauri gum seekers where to search for the hidden spoil. Armed with a long spear the man prods the earth, - and from the touch he knows when he strikes it. Hundreds of thousands of tons probably still lie buried beneath the soil; - but the time will come when the kauri gum will be at an end, for the forests are falling now, not by the slow and kind operation of nature, but beneath the rapid axes of the settlers.

I was taken out from Auckland by a friend to see a kauri forest. Very shortly there will be none to be seen unless the searcher for it goes very far a-field. I was well repaid for my troubles, for I doubt whether I ever saw finer trees grouped together; and yet the foliage of them is neither graceful nor luxuriant. It is scanty, and grows in tufts like little bushes. But the trunks of the trees, and the colour of the timber, and the form of the branches are magnificent. The chief peculiarity seems to be that the trunk appears not to lessen in size at all till it throws out its branches at twenty-five or perhaps thirty feet(*) from the ground, and looks therefore like a huge forest column. We saw one, to which we were taken by a woodsman whom we found at his work, the diameter of which was nine feet, and of which we computed the height up to the first branches to be fifty feet. And the branches are almost more than large in proportion to the height, spreading out after the fashion of an oak, - only in greater proportions.

These trees are fast disappearing. Our friend the woodman told us that the one to which he took us, - and than which he assured us that we could find none larger in the forest, - was soon to fall beneath his axe.»


Anthony Trollope, Australia and New Zealand (1873)

(*) 10 feet = 3,048 metros


Apesar de a destruição ter sido massiva, os neo-zelandezes conseguiram ainda salvar parte importante desse legado. Em 1952, as florestas de Waipoua, Mataraua e Waima, a primeira delas com mais de 9000 hectares, foram instituídas como reservas naturais. Hoje o abate desses ancestrais kauris está proibido, e estão em marcha ambiciosos programas de reflorestação.

Sobre o autor do texto acima: o inglês Anthony Trollope (1815-1882), um dos mais populares romancistas da sua época, escreveu 47 romances, quase outros tantos contos, uma autobiografia e vários relatos de viagens. A resina de kauri, ou kauri gum, aparece também no seu romance The prime minister, publicado em 1876: Ferdinand Lopez, o mau da história, filho de pai português e desastrado especulador, compra um grande carregamento dessa resina na mira de uma valorização rápida que não chega a ocorrer.

04/07/2005

Um murmúrio do passado


Fotos: pva 0506 - Wollemia nobilis - Kew Gardens

Em Setembro de 1994, David Noble, ao serviço do NSW National Parks & Wildlife (Austrália) , deparou-se com um bosque, numa zona arenosa e de difícil acesso de um desfiladeiro a cerca de 700 metros de altitude do Wollemi National Park, com umas 40 árvores que não reconheceu. Começou aí a revelação da história fascinante da espécie Wollemia nobilis, uma das mais importantes descobertas botânicas do século XX.

O "pinheiro" de Wollemi - ou, mais carinhosamente, wollemia - conífera da família Araucariaceae e portanto parente próxima das araucárias e da agathis, é uma das mais antigas plantas do planeta. Contemporânea dos dinossauros, conheciam-se dela fósseis bem conservados com 91 milhões de anos, tendo os botânicos deduzido que se teria extinguido há 2 milhões de anos. Os poucos exemplares adultos vivos do Wollemi Park, que curiosamente não revelam diferenças genéticas entre si, estão agora a ser alvo de medidas especiais de salvaguarda e conservação; a par está a ser seguido um programa cuidadoso de reprodução a partir de sementes ou estacas, de que resultou esta jovem wollemia plantada nos Kew Gardens.

Os exemplares adultos têm cerca de 40 metros de altura e 1 metro de diâmetro do tronco. O ritidoma parece ter bolhinhas e é da cor do chocolate. Trata-se de uma espécie monóica, isto é, cada planta tem cones masculinos e femininos, que nascem nos extremos dos ramos. A folhagem da wollemia é peculiar. Cada árvore apresenta dois tipos de ramos: os que crescem na vertical, geralmente desde a base da árvore, e se assemelham a troncos suplementares; e os que se desenvolvem lateralmente e onde se dispõem as folhas, que são sésseis e se alinham em 4 fiadas, estruturadas em duas camadas de cada lado do ramo essencialmente sobrepostas (o que parece um desperdício da natureza...). Os botânicos têm detectado que, caprichosamente, as estacas retiradas do topo da árvore produzem rebentos que crescem verticalmente, enquanto que das colhidas da base resultam ramos que crescem lateralmente.

O nome científico do género, Wollemia, deriva da latinização da palavra Wollemi, o nome do parque onde as árvores foram encontradas; o epíteto da espécie, nobilis, é um tributo a David Noble que as descobriu.

O governo australiano, através do Department of the Environment and Heritage e em colaboração com os Royal Botanic Gardens de Sydney, tem ajudado a divulgar e a conservar esta espécie preciosa, conforme aqui se descreve.

15/06/2005

...no jardim do Passeio Alegre...

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Foto manueladlramos 0404
Araucárias em primeiro plano e ao fundo, diante do mar, as palmeiras *

Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos

vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,

para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis - assim nuas.

Eugénio de Andrade (Rente ao Dizer, 1992)

*Tal como o jacarandá do Viriato, também as 63 araucárias (Araucaria heterophylla) e as 28 palmeiras (Phoenix canariensis) do Jardim do Passeio Alegre foram classificadas de interesse público em Janeiro passado.
..

19/04/2005

Boa notícia

Em Novembro do ano passado escrevemos aqui, a propósito da árvore no Jardim do Carregal do género Agathis, mirradita e ameaçada pelas famosas obras de um muito falado túnel, que «não conhecemos outro exemplar de Agathis no Porto; Amaral Franco, nos Anais do Instituto Superior de Agronomia, menciona um de bom porte no Palácio de Cristal mas que já não existe». Pois na nossa recente visita à Quinta Villar d' Allen descobrimos um exemplar formidável, de copa alta e tronco cinzento com manchinhas cor-de-laranja como mandam os manuais. Plantado por Alfredo Allen, com mais de cem anos, é mais um motivo para que a classificação desta Quinta pelo IPPAR como imóvel de interesse público não tarde. Aqui fica o registo do nosso contentamento.


Fotos: mdlramos 0504 - Agathis sp. (ladeada, na 2.ª foto, por um Cedrus e duas Araucaria bidwillii)

17/04/2005

Modo de vida


Foto: mpc 0503 - pinheiros-do-Paraná (Araucaria angustifolia) e camélias
Casa de Campo - Molares, Celorico de Basto

«É verdade, eu havia desistido de ter passarinhos; distribuí-os pelos amigos; o último a partir foi o corrupião Pirapora, hoje em casa do escultor Pedrosa. Continuo a jogar, no telhado de minha água-furtada, pedaços de miolo de pão. Isso atrai os pardais; não gosto especialmente de pardais, mas também não gosto de miolo de pão. Uma vez ou outra aparecem alguns tico-ticos; nas tardes quentes, quando ameaça chuva, há um cruzar de andorinhas no ar, em vôos rasantes sobre o telhado do vizinho. Vem também, às vezes, um casal de sanhaços; ainda esta manhã, às 5h15m, ouvi canto de sanhaço lá fora; frequentam ou uma certa antena de televisão (sempre a mesma) ou o pinheiro do Paraná que sobe, vertical, até minha varanda. Fora disso, há, como em toda a parte, bem-te-vis; passam gaivotas, mais raramente urubus. (...) Mas a verdade é que um homem, para ser solteiro, não deve ter nem passarinho em casa; o melhor de ser solteiro é ter sossego quando se viaja; (...) viajar com o corpo e a alma, o coração tranquilo.

Pois nesse dia eu ia mesmo viajar para Belo Horizonte; tinha acabado de arrumar a mala, estava assobiando distraído, vi um passarinho pousar no telhado. Pela cor não podia ser nenhum freguês habitual; fui devagarinho espiar. Era uma canário; (...) um roller, desses nascidos e criados em gaiola. Senti meu coração bater quase com tanta força como se me tivesse aparecido uma dama loura no telhado. Chamei a empregada: "Vá depressa comprar uma gaiola, e alpiste..." Quando a empregada voltou, o canarinho já estava dentro da sala; ele e eu, com janelas e portas fechadas. Se quiserem que explique o que fiz para que ele entrasse eu não saberei. (...) Quando telefonei para o táxi ele já tinha bebido água e comido alpiste, e estava tomando banho. Dias depois, quando voltei de Minas, ele estava cantando que era uma beleza. (...)

Está cantando agora mesmo; como canta macio, melodioso, variado, bonito... Agora pára de cantar e fica batendo as asas de um modo um pouco estranho. Telefono para um amigo que já criou rollers, pergunto o que isso quer dizer. "Ele está querendo casar, homem; é a primavera..."

Casar! O verbo me espanta. Tão gracioso, tão pequenininho, e já com essas ideias! Abano a cabeça com melancolia; acho que vou dar esse passarinho à minha irmã, de presente. É pena, eu já estava a gostar dele; mas quero manter nesta casa um ambiente solteiro e austero; e se for abrir exceção para uma canarinha, estarei criando um precedente perigoso. Com essas coisas não se brinca.»

Rubem Braga, Apareceu um canário, in A traição das elegantes (1960)

01/04/2005

A Araucária das Almas do "Camélias Parque"

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Há uns dias foi noticiado que "o Centro das Camélias avança" (no Primeiro de Janeiro): um "centro de lazer" atrás da Capela das Almas, empreendimento mobiliário que abrangerá o quarteirão das ruas de Fernandes Tomás, Santa Catarina, da Firmeza e Alegria. Claro que na notícia saída a público, chamou-nos a atenção a seguinte passagem: «Apenas um pormenor deve ser introduzido, "com a preservação de uma árvore muito antiga e que será o centro das atenções na praça pública que vai nascer"».

Esta árvore antiga (perturba a falta de curiosidade das pessoas que nem sequer se dão ao trabalho de saber como se chama este ser monumental que como diz o promotor deverá constituir "o centro das atenções ...") é uma Araucaria heterophylla centenária -aqui fotografada do alto do Centro Comercial que já lá existe do outro lado da rua! - a que costumamos chamar "Araucária das Almas" porque se eleva, magnífica, acima da Capela das Almas.

Entretanto ontem, a notícia veio desmentida: afinal o projecto do referido empreendimento, que mais não é do que um enorme centro comercial - "Camélias Parque" inicialmente designado por "Entertainment Center Camélias"- tem estado e continua a estar sujeito a alterações devido a imposições do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR).

E não é apenas a Araucaria heterophylla centenária que deverá ser preservada, segundo notícia do Comércio do Porto, «o IPPAR sugeriu mesmo, entre outros pontos, a "manutenção de um espaço de jardim, desafogado de construção, caixas de escadas e elevadores panorâmicos, assim como a presença das espécies arbóreas mais representativas, inclusive as que dão o nome ao local". »
Não podemos deixar de nos regozijar por estas (e pelas outras) preocupações do IPPAR!


Araucária-de-Norfolk e japoneiras (visivelmente maltratadas).
As fotografias retratam o estado do estaleiro há cerca um ano atrás (Fevereiro de 2004)

Adenda 1(14:20 h)
Após um comentário de F.R. Antunes lido n' A Baixa do Porto, gostaria de acrescentar as fotografias.

Adenda 2
Resposta de P. V. Araújo ao comentário de F.R Antunes e resposta deste!
Pormenor da japoneira da foto anterior; loureiro ao pé do muro; tronco da araucária a servir de encosto a material de construção.
Já agora aproveito para colmatar uma omissão: o estaleiro, na altura das fotografias, estava a cargo da empresa METRO do Porto (a quem a Campo Aberto, diga-se de passagem e a propósito, já outorgou um Certificado de Mérito Arboricida).
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