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07/08/2019

Palmeiras de Famara


Phoenix canariensis Chabaud
Uma vivenda à beira-mar com relvado e palmeira, mais o BMW estacionado na garagem: era esse o sonho possível de prosperidade nos anos pobretes mas alegretes das últimas décadas do século XX. Que se mantém hoje desse sonho? O BMW e a beira-mar, com certeza, mas as vivendas (ou moradias) foram substituídas por prédios de apartamentos, as palmeiras morreram todas, e os jardins (ou espaços verdes) são agora simples rectângulos de terra ressequida ao serviço dos cães e dos seus donos. Talvez não haja muito a lamentar nessa mudança. As defuntas palmeiras eram um símbolo do estatuto conquistado, e a sua presença em relvados nus e rigorosamente aparados sublinhava um enfático desinteresse por plantas e pela jardinagem em geral. Mas a nostalgia está para além da racionalidade: Miramar e Francelos sem palmeiras representam uma amputação da memória.

Por palmeira entendemos, claro está, a palmeira-das-Canárias: embora haja centenas de espécies de palmeira, várias delas cultivadas entre nós, a preponderância da Phoenix canariensis é (ou era) avassaladora. Com a chegada, na última década, do escaravelho-da-palmeira (Rhynchophorus ferrugineus), houve uma mortandade quase total nos jardins privados, esforçando-se algumas câmaras municipais por salvar os exemplares mais emblemáticos em espaços públicos.

Daqui a uns anos, com o gradual desaparecimento das palmeiras citadinas, talvez só as possamos ver se viajarmos para fora do país. E o lugar de eleição para esse reencontro é, obviamente, o arquipélago das Canárias. Afinal a palmeira é endémica dessas ilhas - e, além de a vermos plantada por todo o lado, também a encontramos em estado silvestre, formando pequenos bosques em encostas e ravinas. O temível escaravelho também chegou às Canárias, sem ter porém causado estragos muito visíveis, talvez por o combate ter sido eficaz, ou por o clima seco das ilhas não ser favorável à propagação do bicharoco.

Uma característica simpática das palmeiras-das-Canárias é que sempre acolheram de palmas abertas as pequenas herbáceas que sobre elas se quiseram instalar: fetos, dentes-de-leão, malmequeres, gramíneas... Todo um jardim clandestino em miniatura que era muitas vezes o único rasgo de cor nos manicurados jardins suburbanos. E essa índole hospitaleira da Phoenix canariensis já lhe vem de origem: nas Canárias não há palmeira, mesmo cultivada, que não tenha inquilinos. Um exemplo entre muitos é dado pelas palmeiras que ladeiam a Ermida de Las Nieves, no maciço de Famara, em Lanzarote (foto acima). Entre as plantas nelas empoleiradas detectámos quatro endémicas das Canárias, três delas exclusivas de Lanzarote e Fuerteventura.



Reichardia famarae Bramwell & G. Kunkel ex Gallego & Talavera


Os dois dentes-de-leão que se hospedaram nas palmeiras de Famara são endémicos das duas ilhas mais orientais do arquipélago, e ambos aparecem com abundância na crista rochosa de Famara, não raro em paredes perfeitamente verticais. A verticalidade do habitat disponível no espique de uma palmeira não é pois coisa que lhes cause vertigens. Talvez a maior visiblidade das plantas nas palmeiras as obrigue ao esforço suplementar de uma floração precoce, já que quando as vimos, no final de Dezembro, eram elas as únicas entre as suas iguais que estavam em flor.

A Reichardia famarae (em cima) é uma planta rasteira, glabra, com hastes florais de não mais que 15 cm de altura, quase sempre rematadas por um único capítulo, e com folhas glaucas, algo carnudas, de margens dentadas, dispostas em rosetas basais densas.

A Crepis canariensis (em baixo) tem folhas maiores, verdes, formando uma roseta mais difusa, e as suas hastes, além de pubescentes, são mais empertigadas (até 50 cm de altura) e várias vezes ramificadas.

No canto inferior esquerdo de duas das fotos espreita uma terceira endémica destas mesmas ilhas: trata-se de uma planta suculenta, o Aichryson tortuosum, que foi avaro em mostrar-nos as flores (fora de época, é verdade) e por isso apresentamos só de raspão. Bonito como todos os seus congéneres, singulariza-se por ser uma planta perene e formar tapetes rastejantes (os Aichryson mais costumeiros são plantas anuais, com hastes erectas bem individualizadas).


Crepis canariensis (Sch. Bip.) Babc.

29/12/2018

Cebolinha albarrã


Scilla haemorrhoidalis Webb & Berthel. [sinónimo: Autonoe haemorrhoidalis (Webb & Berthel.) Speta]


Cebola-albarrã é o nome que se dá em Portugal à Urginea maritima. É uma planta bolbosa que no Outono faz brotar uma vistosa espiga de flores brancas, muitas vezes com mais de um metro de altura, desacompanhada de folhas. Estas só surgem depois, discretamente, quando a haste floral já secou, mantendo-se visíveis no Inverno e na Primavera. Em Espanha e nas Canárias, nomes equivalentes (cebolla albarrana ou cebolla almorrana) designam tanto a Urginea maritima como plantas de porte mais modesto, como esta de flores lilás que as fotos ilustram, e que é endémica das Canárias. Se abstrairmos da cor e do tamanho, e do facto de, na planta canarina, flores e folhas surgirem em simultâneo, conseguimos detectar evidentes traços de família entre as duas plantas: têm o mesmo tipo de inflorescência, as flores têm igual estrutura (estreladas, com seis tépalas, seis estames, um único estigma, ovário súpero), e ambas apresentam só folhas basais. Lineu, com o seu critério de classificação baseado nos orgãos sexuais das plantas, não teria dúvidas em incluí-las no mesmo género: o nome original da nossa cebola-albarrã, publicado em 1753 no Species Plantarum, é justamente Scilla maritima.

Mas até as flores podem enganar, e tem-se vindo a descobrir que o género Scilla, tal como circunscrito por Lineu, é um saco demasiado amplo onde cabem coisas muitos díspares. Houve o que se chama convergência evolutiva, que é o que acontece quando ramos evolutivos separados desenvolvem características comuns de forma independente. Neste caso, as "flores tipo Scilla" terão aparecido em várias plantas que não partilhavam antepassados próximos. Por exemplo, a (agora chamada) Urginea maritima está evolutivamente mais distante das "verdadeiras cilas" do que as plantas do género Muscari, que têm flores de aparência muito diferente.

A reorganização filogenética da taxonomia botânica obrigou a grandes mudanças que ainda estão em curso. O princípio básico é que cada grupo taxonómico deve conter todos os descendentes de uma certa entidade, e apenas esses. Como o género Scilla era polifilético (continha espécies com ascendências diferentes), houve necessidade de o desmembrar. Entre os géneros criados por essa verdadeira pulverização contam-se Prospero (para onde transitou a Scilla autumnalis), Tractema (que recebeu a Scilla ramburei, a S. verna e a S. odorata), Oncostema (nome actual da vistosa Scilla peruviana) e Nectaroscilla (que acolheu a Scilla hyacinthoides). Das sete espécie de Scilla assinaladas em Portugal continental, apenas a S. monophyllos não foi obrigada a mudar de género.

E quantos às cilas das Canárias? Houve uma tentativa para as incluir num género próprio, Autonoe, onde também caberia a muito semelhante (e muito rara) cila-da-Madeira (Scilla madeirensis), mas a aceitação da proposta não é unânime.

Seja qual for o nome do género, esta cebolinha-albarrã é uma das duas "cilas" presentes nas Canárias, por sinal a menos vistosa. As hastes florais, de cor avermelhada, têm 10 a 20 cm de altura; as folhas, em número de 2 ou 3, são estreitas (de 1 a 2 cm de largura) e têm 10 a 20 cm de comprimento. A planta vive em habitats rochosos, amiúde perto da costa, e floresce principalmente de Janeiro a Abril, com mais intensidade em anos pluviosos. Ainda era cedo em Dezembro, data da nossa viagem, e o ano tinha decorrido muito seco, de modo que o prémio para os nossos esforços de prospecção foram apenas duas plantas em flor (no sítio de Interián, em Los Silos) e umas tantas rosetas de folhas sem sinal de floração, estas nuns rochedos da costa noroeste a que chegámos após cruzar uma interminável plantação de bananeiras.

11/01/2010

Caminhos de Belém


Washingtonia filifera (Lindl.) H. Wendl. / Phoenix canariensis Chabaud

Em Portugal, o caminho de Belém é uma metáfora do percurso político - alimentado durante anos por «tabus» postos a cozinhar em lume brando nos títulos especulativos dos jornais - que pode guindar alguém ao mais alto cargo da nação. Quem não tiver sido eleito para nada de especial, nem for político ou personalidade pública de relevo bastante para ser recebido em audiência, pode apenas visitar os jardins do Palácio de Belém em cada dia 5 de Outubro ou em alguma outra rara ocasião em que os portões sejam franqueados ao povo. Mas é possível, em qualquer altura do ano, espreitá-los sem grande despesa pagando uma entrada de dois euros no vizinho Jardim Botânico Tropical, aberto todos os dias (excepto feriados) até às 17:00. Os dois jardins partilham um gradeamento de algumas dezenas de metros, e dá para ver, do lado de lá, dois ou três pinheiros-mansos, um lago rodeado por laranjeiras para onde se desce por uma dupla escadaria, e, nas traseiras do palácio, uma araucária-de-Norfolk entristecida por falta de companhia. Um gato digno e anafado, de pelagem cinzenta e porte inconfundivelmente presidencial, atravessa amiúde o gradeamento para vir ao lado de cá mordiscar as ervitas que lhe lubrificam o trânsito digestivo.

Evocativas do sul e dos trópicos, palmeiras em dupla procissão ladeiam os caminhos que, dentro do Jardim Botânico Tropical, conduzem ao Palácio de Belém atrás das grades. Não um sul muito exacerbado, pois tanto a palmeira-das-Canárias (Phoenix canariensis) como a palmeira-de-leque-da-Califórnia (Washingtonia filifera) resistem bem ao frio e são comuns - muito mais a primeira do que a segunda - em todo o litoral norte do país. Alamedas com o efeito cénico destas duas, com centenas de metros de extensão, não são, porém, nada comuns, e valem, por si só, uma visita ao jardim.

Inaugurado em 1912, com uma área ajardinada de cinco hectares, este espaço já se chamou Jardim Colonial e, depois de 1951, Jardim do Ultramar. Integrando o Instituto de Investigação Científica Tropical, não consegue disfarçar um certo desmazelo, ainda que menos chocante do que noutros jardins botânicos portugueses. Será esse o resultado da falta de pessoal? Segundo esta página, dos 25 funcionários do jardim no activo, incluindo investigadores, técnicos e bolseiros, só dois são jardineiros. Também o dinheiro não parece por aqui existir às mãos-cheias: a estufa, fechada há dois anos para obras de recuperação que nem sequer se iniciaram, está a caminho da ruína completa.

24/09/2009

Palmeira vinícola


Jubaea chilensis (Molina) Baill.

A placa de madeira à entrada faz-nos crer que se trata de um parque excepcional, cuidado com desvelo, onde a natureza se refugiou aliviada. Porém, se o Parque Municipal de Alta Vila, em Águeda, foi grandioso, isso já não se nota. São muitos os espécimes em ruínas, tem um aspecto geral de abandono, e há até quem ouse estacionar dentro dele a pretexto de organizar actividades para crianças.

São certamente do desenho original, gizado por Eduardo Caldeira, vários ciprestes-do-Buçaco (Cupressus lusitanica), um deles de porte majestoso, um belo arbusto-bananeiro (Michelia figo), camélias (Camelia japonica), cedros (Cedrus libani e C. atlantica), castanheiros-da-Índia (Aesculus hippocastanum), carvalhos (Quercus robur), castanheiros (Castanea sativa), austrálias (Acacia melanoxylon), loureiros (Laurus nobilis), tílias não podadas ao pé de banquinhos soalheiros, uma colecção variada de palmeiras tropicais, uma melaleuca colada a uma estufa, um bambuzal desengraçado e muita passarada no seu uso de passarinhar. Mas foi uma fantástica palmeira-do-Chile que nos arrebatou a atenção.

A Jubaea chilensis é a única espécie do género Jubaea e já vai rareando no seu habitat natural, uma pequena região montanhosa no centro do Chile. Este estado vulnerável, que só se resolve com um convincente programa de protecção, deve-se ao crescimento lento desta planta, e, sobretudo, à utilização da seiva, rica em açúcares, na produção de uma bebida fermentada e, quando fervida, de um mel-de-palma muito apreciados na América do Sul; lamentavelmente, esta extracção exige o abate da árvore.

O que a torna tão especial? É uma palmeira monóica, de fuste liso e cinzento, com folhas sésseis, compostas, em forma de pena de 3-4m de comprimento e ráquis arqueado. Aprecia Invernos amenos, embora resista a geadas, mas, ao contrário da maioria das outras palmeiras, não se dá bem com a brisa salgada. Pode chegar aos 30m de altura, e um registo europeu destas árvores indica que a de maior porte em estufa é a dos Kew Gardens, com 25m e 1.3m de diâmetro na base do espique. As inflorescências nascem entre as folhas protegidas por espatas e medem cerca de metro e meio; as flores roxas, cada uma com uns 30 estames, juntam-se em grupos de 3, uma feminina e duas masculinas. Raramente frutifica antes dos 60 anos; o fruto ovóide e pequenino (de ~4cm de diâmetro) é um coquito (R. A. Philippi, paleontólogo alemão, denominou-a Micrococos chilensis) com casca impermeável e polpa fibrosa que envolve um endocarpo duro de interior branco comestível.

O nome Jubaea é, segundo William T. Stearn (Dictionary of plant names for gardners), dedicado ao rei Juba da Mauritânia (antes Numidia), no norte de África, que se suicidou em 46 a.C. depois de ver o seu reino reduzido por Júlio César a uma província romana. Contudo, outros autores (como G. López González, em Los árboles y arbustos de la Península Ibérica e Islas Baleares, 2006, ou os de À sombra de árvores com história) preferem uma versão menos romanceada, e mais plausível (trata-se afinal de uma espécie chilena dedicada a um rei africano): entendem que o homenageado é o filho deste rei, Juba II, que a história guarda como culto, autor de vários tratados sobre História Natural e um apaixonado pela botânica que participou em várias expedições pioneiras à Madeira e Ilhas Canárias.

No Porto conhecemos as Jubaea de Vilar d'Allen, talvez contemporâneas da de Águeda. A foto da esquerda mostra a do Jardim Botânico de Coimbra, em terraço de acesso proibido. As da direita retratam a de Águeda, a mais formosa.

21/03/2008

Dia da árvore


Trachycarpus fortunei

Da janela do automóvel vejo uma espécie de palmeira plana como um leque. Digo sabem o que aconteceu àquela árvore um gigante esqueceu-se dela dentro de um livro. Cortesmente todos riem.

Ana Hatherly, Tisana 143

07/08/2007

A ponte, as palmeiras e o sul


Vista da rua do Gólgota com palmeiras-das-Canárias (Phoenix canariensis) em primeiro plano

É por pontes como esta que a cidade se esvazia, rumo ao sul. O sul, na acepção mais extrema do termo, é a única parte do país que não fecha em Agosto. Por isso, e para não definharem à míngua de companhia e de entretenimento (e até de coisas mais básicas), é no sul que os nossos concidadãos vão desaguar em grossas torrentes. Se o país fosse a tábua de um baloiço, nós aqui a norte, em número escasso para equilibrar as hostes sazonais a sul, ficaríamos o mês inteiro a espernear aflitos, sem nunca pormos os pés no chão. (E Lisboa, que é onde aproximadamente se situa o ponto de apoio, nem notaria a nossa atribulação.)

Quando vejo os turistas a passear pelo Porto, dá-me vontade de lhes pedir desculpa. Vieram enganados? Ninguém lhes disse que este mês fecham lojas, restaurantes, teatros, salas de música, cinemas e museus? E que só por um absurdo inexplicável não fecham também os hotéis? Não os preveniram das obras que transformaram passeios e ruas em labirintos poeirentos e traiçoeiros, delimitados por grades e fitas vermelhas?

Claro que há um Porto intemporal, feito de ruas, jardins e miradouros, que não faz férias em Agosto e talvez compense transtornos e desilusões. Escolhi duas vistas com a ponte da Arrábida para ilustrar essa cidade fiel: duas paisagens com palmeiras (palmeiras que vieram do sul mas se enraizaram a norte) e com marcas de uma ruralidade, embora decadente, que poucos associariam ao Porto.


Vista do jardim das aromáticas (Palácio de Cristal) com uma palmeira Washingtonia robusta

10/10/2006

Linda de morrer

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Enviadas por um ramo familiar ;-) muito querido, finalmente as tão desejadas fotografias de uma Corypha umbraculifera em flor no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro! Que surpresa e que alegria! Este acontecimento excepcional já tinha sido por nós anunciado aqui e aqui. Destas palmeiras com propriedade se pode afirmar que são lindas de morrer! Com efeito, depois da floração e de uma frutificação segundo parece assaz longa, morrem pouco a pouco. Mas deixemos os especialistas falar: da versão portuguesa do livro Palmeras. Un reino vegetal, de Alex Puig e Pera Ramoneda, transcrevem-se os seguintes parágrafos referentes a esta recordista invulgar de nome original talipot ("folha de palmeira" em bengalês segundo o Houaiss) que já apenas se encontra em cultura.
«do grego koryphe "cabeça coroada" (...)
Características: É uma das maiores palmeiras do Mundo. As suas enormes folhas costapalmadas, com mais de 7 m. de diâmetro, podem albergar e manter a seco umas quinze pessoas. (...)
É uma palmeira monocárpica, o que quer dizer que dá flor e fruto uma única vez e depois morre. A sua grande inflorescência, de caules encurvados como enormes penas de avestruz, chega a medir 7 m. de altura por 12 metros de largura e a albergar uns 79 milhões de flores hermafroditas brancas; podendo pesar quase uma tonelada quando está carregada de frutos. Estes são algo assimétricos e medem uns 4 cm. de diâmetro. Dá flor aos 60 ou 80 anos.(...)»
Ver fotos de outras corifas.
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02/10/2006

Corypha umbraculifera

clicar na imagem para aumentar
Die Schattenpalme (Corypha umbraculifera ) auf Ceylon -
pg 203 of Anton Joseph Kerner von Marilaun, Adolf Hansen: Pflanzenleben: Erster Band: Der Bau und die Eigenschaften der Pflanzen, 1913 (via wikipedia)

Enquanto esperamos que nos mandem "provas" da floração de uma Corypha umbraculifera no Aterro do Flamengo -que cremos estar fazendo manchete no Rio- publicamos a reprodução de uma pintura de 1913 desta especialíssima palmeira; assim como a sugestão de visita a uma página do site do Jardim Botânico de Caracas para se apreciarem "fotos de um espécime que está em condições muito semelhantes às daqui do Rio de Janeiro", como afiança a nossa amiga Leonor (causadora de toda esta expectativa do lado de cá do Atlântico ;-) .
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27/09/2006

Palmeira-elegante


Archontophoenix cunninghamii

Portugal não é (nem poderia ser) um país de palmeiras, se excluirmos as omnipresentes palmeiras-das-Canárias e os coloridos cartazes vendendo pacotes de ida-e-volta aos paraísos tropicais. Mas quem não quiser aderir ao turismo exótico de massas pode ainda assim, com a nossa insistente ajuda, aprender a gostar de palmeiras. A primeira lição é que não são todas iguais: algumas (como esta) têm folhas em leque, outras (como a que mostramos hoje) têm folhas pinadas; há palmeiras atarracadas, outras esguias; umas são anãs, outras agitam a coroa a dezenas de metros do solo.

Palmeira-elegante é, muito apropriadamente, o nome vulgar da planta na foto. Originária da costa leste australiana, pode chegar aos 20 metros. Foi fotografada há um ano no Jardim Duque da Terceira, em Angra do Heroísmo, e por esta altura deve já ter renovado o seu saiote florido. A parte terminal do espique, acima do saiote, chama-se palmito: é de consistência tenra e existe em todas as palmeiras, embora em geral não tão desenvolvido como nesta espécie. No Brasil, além de ser usada como ornamental, a palmeira-elegante é também cultivada para a produção de palmito, iguaria muito apreciada por lá.

23/09/2006

Palmeira azul de crina dourada


Brahea armata

Esta pequena palmeira de crina dourada adorna o único local do Buçaco que a maioria dos excursionistas de fim-de-semana costuma visitar: o jardim do Palace Hotel. A Brahea armata é uma espécie mexicana das zonas costeiras que pode atingir até 12 metros de altura e costuma florir no Verão. Palmeira-azul é a designação vernácula que para ela é proposta no livro Portugal Botânico de A a Z; nos EUA é conhecida como blue hesper-palm. As fotos foram tiradas há já duas semanas, mas é possível que o amarelo da floração não tenha ainda desbotado. No Jardim Botânico de Coimbra existem, vizinhas uma da outra, duas palmeiras-azuis em diferentes fases de crescimento; mas só quem vier munido de binóculos poderá observá-las com algum detalhe.

07/09/2006

As famosas palmeiras

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«Aléa Barbosa Rodrigues
Esta aléa, considerada como principal e ornamentada pelas Palmeiras Real ou Imperial, foi assim designada em homenagem ao naturalista João Barbosa Rodrigues, respeitável director do do Jardim Botânico no período de 1890 a 1909. Suas palmeiras foram plantadas em 1842 durante a administração de Serpa Brandão, enquanto as mais baixas, em 1951, em comemoração ao Dia da Árvore, na gestão de Paulo Campos Porto, sendo todos os seus exemplares originários da
Palma Mater. (...)» in Conhecendo nosso Jardim: Roteiro Básico-IPJBRJ, 1997, p. 37

É um sonho que tenho: conhecer esta alameda de palmeiras (Roystonea oleracea), chamadas real ou imperial por "sua mãe" (a Palma Mater) ter sido plantada por D. João VI de Portugal. Enquanto isso não acontece, entretenho-me com página da floração do mês da Associação dos Amigos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro...

05/09/2006

Palma

Chamaerops humilis .... clicar nas imagens para aumentar
«Em todo o reino se faz uso das obras de palma, que no Algarve se fabricão; e muitas ainda são procuradas pelos estrangeiros. Este artigo deve todo o seu valor ao feitio: a matéria prima he dom da natureza; nasce e cresce nos terrenos não cultivados e pedregosos, nas charnecas e nos serros; não pertence a pessoa alguma; he de quem a quer a panhar. Todo o trabalho he feito por mulheres: ellas a vão colher no mais intenso calor do verão; ellas a lanção ao sol, e sem mais preparo fazem as vassouras; ellas a preparão lavando, e dando-lhe fumo de enxofre para fazerem as outras obras, como condeças, esteiras, capachos redondos, golpelhas, alcofas, e a considerável quantidade de seriras, em que se mette o figo e passa de uva que se exporta: ellas ainda tingem alguma de preto e encarnado, com que bordão e matizão aquellas obras, ás quaes dão bonitos lavores: com a empreita fazem chapéos de que algumas senhoras usão; e se mais espirito nacional tivessemos, talvez poderiamos dispensar os de palha, que os estrangeiros nos vêm trazer por bom preço, e prefeririamos os de palma por serem obra de casa.»

in LOPES, João Baptista da Silva, Corografia ou memória económica, estatística e topográfica do reino do Algarve, Academia Real das Ciências de Lisboa, 1841 (edição facsimilada da Algarve em Foco Editora, 1988), p. 151
. Link externo: Chamaerops humilis (artigo em italiano da Wikipedia)

03/01/2006

A palmeira que canta


Foto: pva 0512

Há certos sons quotidianos que crescem devagarinho, sempre à mesma hora. Por vezes nem damos por eles, mesmo que nos sejam agradáveis, pois o nosso cérebro, pouco criterioso, acaba por filtrá-los juntamente com outros sons mais agrestes; mas, se parassem, ficava um buraco. Mais precisamente: se, ao fim da tarde, os estorninhos deixassem de cantar junto à minha janela ficava um buraco sonoro em forma de palmeira; ou então uma palmeira de filme mudo, anacronicamente a cores.

19/11/2005

Praça dos Leões- anos 60

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Praça dos Leões - postal anos 60
Para quem tem saudades da velha praça e não pode ir "à Alameda de Fernão de Magalhães conversar sobre os tempos idos com as palmeiras exiladas..."

As Palmeiras dos Leões- Postal antigo

18/11/2005

Refugiadas


Foto: pva 0509 - jardim da Alameda Fernão de Magalhães: palmeiras (Phoenix canariensis) e, ao fundo, uma alameda de bordos (Acer negundo)

Até migrarem em Setembro de 2003 para o local onde hoje as vemos, estas palmeiras tinham vivido desde 1888 numa das praças mais simbólicas da identidade portuense: designada na toponímia oficial por Praça de Gomes Teixeira, e antes por Praça dos Voluntários da Rainha e Praça da Universidade, todos a conhecem, há mais de um século, por Praça dos Leões. Ela é, sem exagero, a praça da minha vida, como o é de muitos outros que frequentaram, anos a fio, o velho edifício da Faculdade de Ciências. É... ou era, porque hoje não a reconheço: a minha praça fervilhava de gente, tinha flores, arbustos e desenhos na calçada; não era esta plataforma cinzenta friamente traçada a régua e esquadro.

Desde 2001, ano em que começou a destruição da praça com as escavações para o estacionamento subterrâneo, e até 2003, quando foram retiradas, as palmeiras não tiveram vida fácil. Envasadas em betão, sustentadas por muletas de ferro, a sua sobrevivência era incerta, e o transplante acabou por ser inevitável. Meses depois, quando tive coragem de as visitar na sua nova morada, os sinais eram promissores; e em 2005 estão sem dúvida de boa saúde.

Quem tiver saudades da velha praça que venha à Alameda de Fernão de Magalhães conversar sobre os tempos idos com as palmeiras exiladas. E, se vier por estes dias de Novembro, aproveite para admirar as cores outonais dos liquidâmbares que lhes fazem companhia.

27/08/2005

Jerivá



Fotos: pva 0508 - Prado do Repouso: Syagrus sp. (em primeiro plano à esquerda; pormenor da coroa à direita) e Washingtonia filifera

A entrada norte do Prado do Repouso é pontuada por 7 palmeiras centenárias, de belo porte, que acentuam o carácter de cemitério-jardim deste espaço. Estão dispostas em fiadas distintas, duas de sentinela mesmo junto ao portão e as restantes mais atrás, a descrever meia lua.

Cinco destes exemplares são da espécie Washingtonia filifera, com folhas em leque, enfeitadas de filamentos que dão o nome à espécie, e uma saia na coroa formada pelas folhas secas que permanecem presas ao espique. É conhecida por palmeira-de-saia-da-Califórnia, nome que também alude à sua região de origem.

As outras duas são do género Syagrus e, julgamos, da espécie romanzoffiana; a ser assim, daqui a pouco tempo a inflorescência que se vislumbra numa das fotos - protegida por grossa bráctea em forma de colher, lenhosa e sulcada na parte externa - transformar-se-á numa espectacular «crina de cavalo» amarela, pendente e penteadinha. Esta espécie, de nome vulgar jerivá, é muito cultivada com fins paisagísticos no sul do Brasil e por isso temos esperança que algum amigo brasileiro nos confirme esta identificação. (Ao lado vê-se o fruto, que tem cerca de 2,5 cm de comprimento e 1,5 cm de espessura.)

Anterior na mesma série

22/08/2005

Paz aos vencidos


Foto: pva 0508 - Butia eriospatha junto ao mausoléu aos vencidos, Prado do Repouso, Porto

Os cemitérios portugueses cumprem fielmente as últimas (e primeiras) vontades de um povo dendrófobo, que nem na morte quer árvores por perto: são duras mortalhas de pedra sem o alívio de uma pincelada verde. Mas há excepções à regra: os primeiros cemitérios públicos do Porto, o do Prado de Repouso (1839) e o de Agramonte (1855), construídos na época dos grandes jardins privados e do entusiasmo generalizado pela horticultura, ainda receberam uma arborização comparativamente abundante. No cemitério do Prado do Repouso, por exemplo, há das maiores japoneiras do Porto (e do país) e uma alameda de grandes tulipeiros que se estende por centenas de metros.

Entrando no cemitério pelo largo do Padre Baltasar Guedes, encontramos o mausoléu aos revoltosos republicanos de 31 de Janeiro de 1891 com a legenda a paz aos vencidos inscrita na base; foi inaugurado em 1897, era ainda Portugal uma monarquia. À sua frente, formando esparsa cortina, plantou-se um alinhamento de magnólias-de-Soulange; a seu lado, servindo-lhe de sóbrio contraponto, ergue-se uma palmeira com cerca de cinco metros de altura. Embora pequena, é uma palmeira perfeitamente proporcionada, arrumadinha como as donas-de-casa nos anúncios antigos. A Manuela já antes aqui falou de uma palmeira presumivelmente da mesma espécie no Parque de S. Roque; concluiu-se então, com a ajuda de um amigo brasileiro, que se tratava de uma Butia eriospatha, endémica das regiões temperadas do sul do Brasil.

Também há, no Prado do Repouso, coisas bonitas em ponto grande. Lá voltaremos para as admirar.

15/06/2005

...no jardim do Passeio Alegre...

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Foto manueladlramos 0404
Araucárias em primeiro plano e ao fundo, diante do mar, as palmeiras *

Chegaram tarde à minha vida
as palmeiras. Em Marraquexe vi uma
que Ulisses teria comparado
a Nausica, mas só
no jardim do Passeio Alegre
comecei a amá-las. São altas
como os marinheiros de Homero.
Diante do mar desafiam os ventos

vindos do norte e do sul,
do leste e do oeste,

para as dobrar pela cintura.
Invulneráveis - assim nuas.

Eugénio de Andrade (Rente ao Dizer, 1992)

*Tal como o jacarandá do Viriato, também as 63 araucárias (Araucaria heterophylla) e as 28 palmeiras (Phoenix canariensis) do Jardim do Passeio Alegre foram classificadas de interesse público em Janeiro passado.
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18/04/2005

Quinta de Villar d'Allen em Abril

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Fotos: mdlramos 0504- Glicínia (Wisteria sinensis) em flor


Araucária-da-Austrália (Araucaria bidwillii), Palmeira-do-Chile (Jubaea chilensis) e Rododendro (Rhododendron sp.)

Já aqui falamos das Palmeiras de Villar d'Allen, mas não é apenas por esses magníficos exemplares de "príncipes do reino vegetal" -como lhes chamavam Alfredo Allen e os amigos- que vale a pena ir à Quinta de Villar d'Allen - depois das magnólias, estão agora em flor os rododendros, as azáleas, as glicínias; e as japoneiras, com exemplares raros, continuam a florir.

(Fui lá na semana passada e vim carregada de margaridas, prímulas, e amores-perfeitos. Não tenho um jardim, nem uma quinta, mas tenho uma varanda ;-)
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09/03/2005

As sete magníficas

......................................from above and from below.



Fotos: mdlramos 2004
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As sete palmeiras do Palácio de Cristal -a que gostamos de chamar "as sete magníficas"- são da espécie Washingtonia robusta, uma das duas únicas espécies da América do Norte que constituem o género criado em 1879 por H. Wendland para abrigar estas palmeiras anteriormente incluídas no género Pritchardia (de W.T. Pritchard, missionário protestante envolvido na colonização do Taiti). A designação do género pretendia homenagear G. Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.
aqui falámos de dois belíssimos exemplares destas palmeiras, vulgarmente denominadas palmeiras-do-México ou palmeiras-de-leque mexicana (em língua inglesa Mexican fan palm e também Skyduster palm) consideradas por alguns botânicos uma variedade da Washingtonia filifera, a palmeira da Califórnia (de que no Porto também existem belos exemplares). Diferencia-se desta pelo seu espique mais esbelto e mais alto, e pela maior robustez do seu crescimento, daí o designativo da espécie. As suas folhas costapalmadas (em forma de abano) estão dispostas numa coroa mais estreita e apresentam muito poucos filamentos brancos ao contrário da sua congénere W. filifera.
A sua introdução na Europa foi mais tardia e deve-se ao intrépido botânico checo Benedikt Roezl *(1824-1885) que enviou as suas sementes depois de ter encontrado a espécie nas margens do rio Sacramento em 1869. Árvore ornamental de eleição é bastante rústica e muito resistente ao vento.

No Jornal de Horticultura Prática que amiúde mencionamos, e que constitui uma fonte preciosa para a história da Horticultura e da Jardinagem em Portugal, a referência à espécie Washingtonia robusta surge em 1888, num interessante artigo de Jules Daveau, na altura jardineiro chefe do Jardim Botânico da Escola Politécnica de Lisboa, cargo que ocupou de 1876 a 1892**. Nesse texto, intitulado simplesmente "Washingtonia", o autor que, vem a propósito lembrar, é o responsável pelo traçado da emblemática "rua das Palmeiras" desse jardim, depois de discorrer acerca da Washingtonia filifera, «introduzida no mercado em 1871», e informar sobre a constituição do novo género para acolher estas palmeiras anteriormente classificadas como Pritchardia, descreve detalhadamente a espécie tão bem representada no Palácio de Cristal.
Esta era então uma novidade que entusiasmava os amadores e profissionais por exceder «a sua congénere em elegância, vigor e rusticidade» segundo as palavras do distinto jardineiro que nos dá conta também das suas experiências: «Cultivando esta bela aquisição em Lisboa só há poucos meses, nada podemos dizer por experiência, a não ser que, em menos de oito meses, as nossas plantas se desenvolveram com um vigor que as tornou desconhecidas (sic).» (Ob. cit., p.117)

* Ler Benedikt Roezl - botánico y explorador ; Benedikt Roezl- Portrait d'un fou
**Ler por C.N. Tavares a História do Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa (in O Reino das Plantas, Triplov)

(Post-scriptum: estava desde Setembro para escrever sobre estas palmeiras ;-) após a leitura duma entrada publicada por Jorge Ricardo Pinto quando ainda animava o Avenida dos Aliados. Este apontamento é apenas um pretexto para fazer uma ligação para o referido texto e manifestar as nossas saudades.)