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23/05/2017

Abróteas de todo o ano


Asphodelus serotinus Wolley-Dod


Há quem diga, brincando, que todos os cogumelos são comestíveis, só que alguns apenas uma vez. Os cogumelos não são a melhor escolha para os suicidas que optam pelo envenenamento, pois a dolorosa agonia prolonga-se por vários dias. Em qualquer caso, movidos pela morbidez ou desejando apenas uma boa refeição, convém saber o que levamos à boca. Há plantas venenosas (e até letais) cuja perigosidade é neutralizada pela cozedura ou por algum outro modo de preparação, e que são parte importante da dieta de certos povos. É esse o caso da mandioca, omnipresente na culinária brasileira. E o mesmo poderia suceder na região mediterrânica com as plantas do género Asphodelus, conhecidas colectivamente como abróteas.

As abróteas contêm asfodelina, um alcalóide tóxico que acelera o ritmo cardíaco e pode provocar a morte. Certo é que o gado, pressentindo o perigo ou simplesmente desdenhando-as pela fraca palatibilidade, não lhes põe o dente, e por isso elas se vêem aos milhares em zonas intensamente pastoreadas e sujeitas a fogos frequentes. Uma vez cozidas, contudo, as abróteas são inofensivas; e, diz quem lhes provou as folhas tenras condimentadas com azeite e sal, francamente saborosas. Também as raízes, engrossadas em tubérculos, são susceptíveis de aproveitamento culinário, como substitutas das batatas.

São oito as espécies de Asphodelus recenseadas em Portugal continental. Com excepção da abrótea-fina (Asphodelus fistulosus), muito mais pequena do que as outras, são todas muito parecidas. Só não são indistinguíveis porque os frutos variam bastante de formato. O A. serotinus acima no escaparate, fotografado no final de Abril algures a sul do Tejo, tem os frutos pequenos e algo pegajosos, em forma de pêra e de um verde brilhante. Também ajuda ter em conta a distribuição e a época de floração: as espécies que encontramos no norte do país (basicamente duas: A. lusitanicus e A. macrocarpus) não são as mesmas que existem no centro e no sul; e há aquelas que florescem muito cedo (A. ramosus, de Fevereiro a Março), outras na Primavera (A. lusitanicus, A. serotinus), e outras ainda no Verão (A. aestivus). Temos abróteas para o ano inteiro, mas não sempre as mesmas nem em todos os lugares ao mesmo tempo.

21/11/2010

Palestra: Flores & fetos de Valongo

Gentiana pneumonanthe L. / Simethis planifolia (L.) Gren.
Data e hora: 4 de Dezembro (sábado), às 16h00
Local: sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, Porto

Leitores regulares do blogue ou visitantes ocasionais, estão todos convidados para uma palestra onde daremos a conhecer, com muitas fotos, a flora espontânea das serras de Valongo. Entre árvores, arbustos, flores e fetos, serão cerca de 60 as espécies ilustradas. Muitas são escassas na área metropolitana do Porto, e algumas há que são raridades absolutas em Portugal continental ou mesmo na Europa. Este património único, desconhecido de muitos, está ameaçado pela degradação ambiental que tem sofrido esse território nas últimas décadas.

A sede da Campo Aberto estará aberta a partir das 15h00 para quem queira conversar ou, aproveitando o embalo da quadra festiva, comprar livros, artesanato ou produtos do comércio justo.

Depois da palestra haverá lanche, rifas, um leilão, tudo isso em benefício da Campo Aberto (associação reconhecida de utilidade pública), que não tem subsídios e necessita do apoio financeiro de sócios e amigos.

12/07/2010

O curral do paraíso



     Presently, the cow’s audience-appeal began to wane. It was a fine cow, as
cows go, but, like so many cows, it lacked sustained dramatic interest.

P. G. Wodehouse, The custody of the pumpkin
Achamos que as vacas são animais lerdos e quebradiços, sempre em risco de desabar sob o seu próprio peso. Os cumes rochosos do Gerês fizeram-se para corços, cabras e — vá lá — para cavalos, não para bovinos pachorrentos. Mas se, depois de três ou quatro horas a saltar de pedra em pedra em troços onde o equilíbrio e a agilidade são duramente testados, deparamos com um curral ocupado por um pacífico rebanho, ocorre-nos perguntar como é que os animais lá chegaram. Terão sido baixados de helicóptero? Não é porém crível que os pastores da serra disponham dos celebrados meios aéreos que são notícia todos os verões. Somos forçados a admitir que vacas, touros e vitelos se deslocaram para o local pelos seus próprios meios.

Aliás, não é preciso ser-se zoólogo para adivinhar a proveniência dos grossos poios que, aqui e ali, encontramos pelo caminho. Recomenda-se até que lhes prestemos tão grande atenção como às mariolas que nos indicam o rumo. E às provas indirectas vem juntar-se o testemunho dos sentidos, quando vemos uma vaca perseguida encosta acima, é verdade que a velocidade moderada, por um jovem touro. Encosta essa, diga-se, onde nós bípedes dificilmente arriscaríamos os ossos.

Esses quadrúpedes que se vêem a pisotear as intragáveis abróteas são pois acrobatas de respeito. Dominam a serra e merecem bem o descanso no curral a que, sem grande exagero, chamaríamos paradisíaco. Pois o paraíso — ou a terra prometida — não se faz só das suas qualidades intrínsecas, mas também do contraste com a envolvente e da maior ou menor dificuldade em lá chegarmos. Os cumes rochosos em volta não têm árvores nem abrigos, são impiedosamente agrestes na sua grandeza tingida pelo roxo das urzes. Mas bastam uma nascente de água e uma nesga de solo para que surja um prado verdejante à sombra de grandes carvalhos.


Curral do Conho — Serra do Gerês

09/06/2010

Não é para pastar

Asphodelus lusitanicus Cout.
Um dos enigmas da flora nacional é a profusão de abróteas (género Asphodelus) em terrenos mais ou menos montanhosos onde há muito gado a pastar. Tirando estas herbáceas altaneiras (podem exceder o metro e meio de altura), fica tudo aparado à escovinha pela mastigação incansável de cabras, ovelhas e vacas. Claro que o enigma não é de grande calibre, nem exige penetração de espírito para ser desvendado. A opinião unânime da confraria herbívora é que as abróteas não são prato que se apresente. Como quase toda a concorrência é comestível, ficam elas sozinhas em campo e podem espalhar-se à vontade. Fazem-no de uma ponta à outra do nosso território, desde a serras do norte às planícies do Alentejo. E, adaptando-se bem a solos depauperados, conseguem mesmo, como sucede em Valongo, dar uma pincelada de cor às orlas dos eucaliptais.

O Asphodelus lusitanicus, que é o mais comum do seu género no noroeste do país, apresenta-se frequentemente ramificado: a haste central termina com uma inflorescência em forma de espiga, mas pode haver duas ou três inflorescências laterais mais curtas (visíveis na foto da direita). Outro traço distintivo é que a membrana acastanhada (ou bráctea) na base de cada flor é quase tão longa como o pedúnculo (no A. aestivus ela é bastante mais curta, e no A. fistolosus é igualmente diminuta).

O Asphodelus lusitanicus é um endemismo ibérico, presente sobretudo na metade norte de Portugal e na Galiza.

02/06/2010

Um mês na estrada

Asphodelus fistulosus L.
O esforço de rapar a vegetação das bermas de todas as estradas, desde as novíssimas auto-estradas às velhas estradas nacionais ou mesmo municipais, esbarra com a enormidade da empreitada. Não é apenas falta de mão de obra para formar equipas que actuem em todo o território nacional. É que é preciso repetir a tarefa inúmeras vezes nos mesmos troços de estrada. Quando, a muito custo, com máquinas roçadoras e bidões de herbicida, se avançou até ao quilómetro cem da A-não-sei-quantos, já ao quilómetro zero as ervinhas despontam novamente. É inevitável concluir que nunca as brigadas antiverde irão conseguir erradicar as plantas que vegetam junto às estradas. Pelo menos não todas as plantas, já que as mais sensíveis há muito que desapareceram. Sobram, livres da concorrência, aquelas que se dão bem com tais perturbações cíclicas.

Uma delas é a abrótea-fina (Asphodelus fistulosus), que, entre Março e Abril, se dá a ver nas auto-estradas do centro e sul do país. Como não é esse o nosso território, só este ano é que a vimos, quando descemos a sul de Leiria na A1. Mas tranquilize-se o leitor: embora se justificasse, não parámos na auto-estrada para lhe tirar o retrato, pois ela também teve a gentileza de se mostrar na EN 361, perto de Alcanena. É uma planta de aspecto delicado, com uma haste florida de uns 40 cm de altura e um denso tufo basal de folhas cilíndricas e estreitas. Os entendidos em terminologia médica associarão o epíteto fistulosus às fístulas — as quais, segundo o dicionário da Porto Editora, são «orifícios ou canais anormais, congénitos ou acidentais, que ligam dois órgãos entre si ou um órgão ao exterior». De facto, o caule desta abrótea é oco, e terá servido, às crianças de outros tempos, para improvisar flautas rudimentares.

Se falamos da abrótea-fina, é obviamente porque outras abróteas mais corpulentas existem em território nacional. A seu tempo elas aqui subirão ao palco. Para concluir, diga-se que a Asphodelus fistulosus é nativa do sul da Europa e do sudoeste asiático, numa faixa que vai de Portugal à Turquia.

Adenda. Pode espreitar aqui mais algumas fotos da A. fistulosus.

31/05/2008

Seis, do latim sex


Bulbine frutescens (6 pétalas, 6 estames)

«Trazia um ramo de areia julgando trazer um ramo de flores. De noite olhou para o fim do braço e assustou-se: a mão era um ramo de cinco dedos como há ramos de cinco rosas. E se cinco mulheres amas a quem darás os dedos?

Olhando atentamente para a mão o número seis é inconcebível.»

Gonçalo M. Tavares, Jorge Luis Borges (Biblioteca, 2006)

27/10/2007

Cravo-do-monte


Simethis planifolia

Durante o Verão vimos com frequência esta herbácea europeia em bosques e recantos umbrosos, mas só recentemente a conseguimos identificar. Os nossos leitores terão de desculpar a demora e pacientemente esperar pela floração de 2008 - e desde já se aceitam reservas para o espectáculo.

O que a foto não mostra: a planta adulta tem cerca de 30 cm de altura, as folhas são longas e finas como é usual nas liliáceas (família a que já pertenceu), e as tépalas são roxas na face exterior.

O nome vulgar que o texto Portugal Botânico de A a Z lhe atribui é ouropeso, o que pode querer dizer que vale-em-ouro-o-que-pesa, ou outro lugar-comum igualmente prosaico.

11/07/2007

Smiley

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Kniphofia uvaria (em Touguinhó/Beiriz)
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Eu até já lhe podia chamar outros nomes (e são tantos e interessantes os que tem: foguetes; tritoma; faux aloès , tison de satan, tritome, tissonnier; torch lily, red hot poker, etc..) mas "smiley" é a alcunha com que este em particular ficará. Pois sempre que o avisto ao longe, e por ele depois passo, no caminho que diariamente faço para a escola, provoca-me um largo sorriso, de tão insólito que me aparece entre o muro e o campo de milho, a crescer a olhos vistos.