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12.12.11

Bem feitas



Asplenium onopteris L.

Partir as palavras aos pedacinhos para lhes adivinhar o sentido é a solução de recurso, ainda que falível, quando os dicionários se abstêm de nos ajudar. Dissecando o epíteto onopteris, vemos que ele é formado por duas palavras: ono, que em grego significa asno; e pteris, nome que os gregos davam aos fetos em geral. O Asplenium onopteris haveria pois de ser, por razões que só Lineu poderia elucidar, o feto-dos-burros. O vernáculo, porém, nem sempre está disposto a acatar lições de etimologia clássica, e em português a planta recebeu a designação algo incolor de feito - não do verbo fazer, mas da mesma raiz etimológica que feto. O Asplenium onopteris é assim o feto-feto, o exemplo mais típico da classe vegetal a que pertence, o protótipo de todos os fetos.

É pelo menos um feto muito frequente em lugares húmidos e umbrosos, em Portugal e em toda a região mediterrânica. Vive em rochas e paredes musgosas, mas não é incomum vê-lo brotar directamente do chão dos bosques. As suas frondes verde-escuras, de formato distintamente triangular, rematadas por uma espécie de cauda, têm até 50 cm de comprimento; dotadas de pecíolo comprido, glabro e quase negro, surgem agrupadas em tufos densos ou esparsos. É um feto que não tem descanso e se mantém verde e fértil o ano inteiro, num exemplo de produtividade nada meditterrânico muito do agrado das troikas deste mundo.

11.10.11

Feto dos garfos



Asplenium septentrionale (L.) Hoffm.

Calcorreámos montes e escarpas, guiados pelo Alexandre Silva do CISE, para ver este feto pequenino, uma relíquia do tempo em que só havia Inverno. Vive em fissuras de rochas graníticas ou ultrabásicas, por vezes ricas em metais, de zonas montanhosas. Em Portugal, as colónias são escassas e de baixa densidade: está listado apenas na serra da Estrela, nos arredores elevados de Bragança, em Vinhais e na ilha da Madeira. É nativo da América do Norte, Europa e parte da Ásia.

É uma planta vivaz, com um rizoma curto. As frondes são achatadas, coriáceas, com cerca de 2 cm de largura máxima; nascem em tufos densos e têm pecíolos longos e avermelhados na base. Parecem garfos irregulares (daí a designação forked spleenwort) e não ultrapassam em geral os 15 cm de comprimento. Os esporângeos estão dispostos linearmente, protegidos por indúsios que prolongam a dobra das folhas, e formam a camada castanha que se nota na face inferior (e que o Paulo não fotografou com receio de estragar a planta).

Na Europa, estão citados vários híbridos em que um dos progenitores é o A. septentrionale, como o A. × alternifolium Wulfen, resultado do cruzamento com o A. trichomanes.

11.7.11

Três lagoas, três bicos


Margens turfosas, revestidas de Sphagnum, da Lagoa Branca (ilha das Flores)

Há molhas que vêm por bem. O dia até começara promissor, embora o pequeno-almoço no hotel, servido só a partir das 8h00, me atrasasse a saída. Menos de uma hora depois já estava eu no táxi a caminho do miradouro das lagoas. De lá de cima contemplar-se-iam, rodando a vista, nada menos que três lagoas: a Comprida, a Negra e a Branca. O nevoeiro, porém, zangado por não ser tido em conta, resolveu fazer das suas: encurtando o raio de visibilidade para cerca de 10 metros, conseguiu a proeza de ocultar não só todas as três lagoas como o próprio miradouro. Ao fim de meia dúzia de passos, já não sabia de pontos cardeais e duvidava até que ainda pisasse terra firme. O taxista desconfiara dos meus preparos, mas lá me havia largado onde eu lhe pedira. Prometera-lhe que o chamaria depois do almoço para me ir buscar à Fajã Grande.

Ao nevoeiro veio juntar-se a chuva. Mansa e miudinha para começar, logo depois mais intensa, mas enfrentei-a com determinação: afinal vinha prevenido com capuz e capa impermeáveis; e, ainda que as lagoas estivessem em greve de zelo, ia dando para esquadrinhar a vegetação em redor à cata de plantas rasteiras. Só tinha que limpar os óculos e depois olhar em volta antes que, contados 30 segundos, novamente eles ficassem tão úteis para auxiliar a visão como se viessem com lentes opacas. Consegui ver e fotografar (mal, as fotos aceitáveis tirá-las-ia dois dias depois) algumas orquídeas e ranúnculos (ou bafos-de-boi) antes de a chuva se agravar a tal ponto que seria parvoíce continuar. Já não tinha comigo nada enxuto com que limpar os óculos. As roupas, se as espremesse, dariam para encher vários baldes. As botas de montanha haviam-se revelado eficientíssimas esponjas para absorver a água da chuva e das muitas poças do caminho. Foi este espantalho encharcado que o taxista recolheu, pouco passava do meio-dia, num cruzamento ainda longe da Fajã Grande.

Banho de chuveiro, troca de roupa, almoço no hotel, visita de emergência às lojas de Santa Cruz das Flores para comprar sapatos e galochas, eis que são três da tarde, já não chove e ainda há dia para gastar. Decido-me por uma visita à Fajã de Lopo Vaz, na costa sul da ilha, onde um folheto distribuído no posto de turismo anuncia um trilho que se pode fazer em duas ou três horas. Mais um táxi, mais uma corrida. É verdade que a ilha é exígua - são só 17 km de uma ponta à outra - mas, como as estradas não são planas nem a cruzam em linha recta, não é prático percorrê-la toda a pé.

A visita à Fajã de Lopo Vaz confirmou que, no litoral da ilha das Flores, os estragos da vegetação infestante (incenso, canas, conteiras, feto-azevinho) não são menos sérios do que no resto do arquipélago. Antes de iniciar a descida, porém, resolvi espreitar a velha plantação de criptomérias no cimo da escarpa. E foi então que vi, pela primeira vez, o muito apropriadamente chamado feto-de-três-bicos.



Asplenium hemionitis L.

Este feto singular, com folhas de 10 a 30 cm de diâmetro que fazem lembrar as da hera, bem poderia ser um dos nossos símbolos nacionais: ocorre nos Açores e na Madeira e tem, em Sintra e em Mafra, as suas únicas populações conhecidas em todo o continente europeu. Embora também presente nas Canárias, em Cabo Verde e no norte de África, é clara a responsabilidade de Portugal na preservação de uma espécie que vive dias difíceis, e que só na Madeira parece ter um futuro risonho.

É patente a afinidade do feto-de-três-bicos com a língua-cervina: ao contrário dos fetos mais comuns, estes dois têm folhas inteiras, não divididas em pinas ou pínulas. Além do mais, comungam a preferência por lugares umbrosos e húmidos. Tanto assim é que na mesma mata de criptomérias era possível vê-los lado a lado. Contudo, numa ilha tão pluviosa como as Flores os requisitos de humidade são satisfeitos mesmo num muro exposto ao sol: foi nesse habitat que, dias depois, reencontrei ambos os fetos noutros locais da ilha. (Infelizmente, a distância a que me encontrava do Porto não permitiu que me habilitasse aos prémios do Grande Concurso Dias com Árvores.)

O epíteto hemionitis, atribuído por Lineu ao feto-de-três-bicos, justifica-se pela semelhança com um feto da América tropical a que o mesmo Lineu chamou Hemionitis palmata. Já o nome deste último tem uma explicação enigmática: hemionos em grego significa mula, que é um bicho estéril. O feto Hemionitis (informa William T. Stearn) encorajaria a esterilidade, e terá sido usado por mulheres como amuleto contra a gravidez.

7.5.11

Notícias da cervina


Choupos (Populus nigra L.) nas margens do rio Gonde em Avanca / Asplenium scolopendrium L.

Ao contrário do que as aparências sugerem, o Primeiro Grande Concurso Dias com Árvores tem registado um êxito retumbante. Apesar de ele decorrer até final do ano e de o primeiro semestre ainda estar longe de terminar, é com gosto que anunciamos desde já o primeiro vencedor. Rui Soares, professor, morador em Avanca (Estarreja), apaixonado por fetos e um grande conhecedor do património natural da sua região, indicou-nos não uma nem duas, mas sim quatro grandes populações de língua-cervina distribuídas por Avanca e Válega, nos concelhos de Estarreja e Ovar. O feito de Rui Soares foi já devidamente recompensado com a entrega de dois livros (a que juntámos um terceiro de bónus).

É verdade que o regulamento do concurso exclui esses concelhos, mas Ovar fica aqui mesmo ao lado, e até hoje não se anunciou ninguém que tenha descoberto a cervina em Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo. Não desista o leitor de procurar, pois ainda há lugar para mais nove premiados.

A língua-cervina vive em lugares húmidos e com sombra quase permanente: como ilustra a imagem abaixo, as paredes de poços e outros lugares artificializados são o seu refúgio de eleição.

21.2.11

Arruda da pedra partida



Asplenium ruta-muraria L.

Foi motivo de regozijo darmos de caras com este feto entre as fissuras das rochas onde foi esculpido o portentoso anfiteatro da Fórnea. Em Portugal, a arruda-dos-muros (Asplenium ruta-muraria) pouco se vê, e o maciço calcário do centro-oeste é talvez a zona do país que concentra maior número de populações; mas mesmo por lá nunca ela chega a ser vulgar. O seu pequeno tamanho e a especificidade do seu habitat fazem da busca uma prazenteira caça ao tesouro: sem ser trivial observá-la, é quase certo que a paciência há-de por fim ser gratificada. Bem mais difícil - embora mais compensador, visto que dá direito a prémio e tudo - parece ser encontrar a língua-cervina nalgum município do Grande Porto.

Noutros países europeus, um botânico amador que fizesse idêntica descoberta talvez se limitasse a encolher os ombros. A raridade não é uma medida universal, e o que é escasso num país pode ser abundante nos países vizinhos. Distribuindo-se por grande parte do hemisfério norte - Eurásia desde a Península Ibérica até à China, metade oeste da América do Norte, Marrocos -, a arruda-dos-muros é comum na Europa (mais no norte do que no sul) mas tida como vulnerável ou ameaçada nos EUA. Como indicam os seus nomes, ela não se limita a colonizar fendas de rochas calcárias, mas também aparece em muros, sobretudo os que levaram uma camada de argamassa.

As frondes da arruda-dos-muros são glabras, de cor verde-baça, atingem não mais que 15 cm de comprimento, e aparecem dispostas em tufos densos e emaranhados. Têm um formato peculiar, com três a cinco pares de pinas que se dividem, por sua vez, em duas a cinco pínulas de recorte romboidal. Com algum esforço de abstracção, concede-se que elas têm alguma semelhança com a folhagem da arruda-comum (Gruta graveolens), o que talvez explique as designações, tanto a científica como a vernácula, deste feto fissurícola.

(Fissurícola é uma daquelas palavras bonitas, não dicionarizadas, que os botânicos gostam de usar. Não é preciso ser-se muito perspicaz para lhe adivinhar o sentido. E, para dar bom uso ao vocábulo, assinalamos que na primeira foto aparece também o Ceterach officinarum, um feto não menos fissurícola do que o Asplenium ruta-muraria.)

17.1.11

Língua tropical


Asplenium nidus L.

Pelas suas grandes dimensões, este feto tropical de folhagem perene faz figura de irmão mais velho da língua-cervina [a propósito, não se esqueça do Grande Concurso que vai decorrendo por este meses], e por isso o juntamos ao nosso já populoso plantel linguístico-vegetal. Terá de ser porém um animal bem agigantado a receber essa língua que, em condições favoráveis, pode atingir metro e meio de comprimento. Dinossauro? Baleia? Ficam os zoólogos convidados a opinar sobre o assunto.

O Asplenium nidus, cujas folhas lembram as da bananeira pela forma e pelo tamanho, é nativo da África oriental, sudeste da Asia, Austrália e Polinésia. Vive empoleirado em árvores nas florestas húmidas, com as suas frondes dispostas em coroa formando um ninho resguardado onde se acumulam água e matéria orgânica. Não sabemos se há pássaros que ocupem tais ninhos pré-fabricados, mas é bem provável que sim, e aliás o Asplenium nidus é conhecido em inglês como bird's nest fern. Na mesma linha de ideias, alguns horticultores (entre eles José Marques Loureiro, já em 1865) optaram por completar o nome científico do feto para Asplenium nidus avis.

José Marques Loureiro recomendava o Asplenium nidus para cultivo em vaso e adorno de salões. Hoje em dia, com os invernos amenizados que vamos tendo, talvez ele se aguente ao ar livre em boa parte do litoral do país. De facto, o exemplar das fotos, embora envasado, é mantido sem qualquer protecção no exterior de uma das estufas do Jardim Botânico de Coimbra.

10.1.11

Morte e vida da cervina



Asplenium scolopendrium L. [sinónimo: Phyllitis scolopendrium (L.) Newman]

E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina.

João Cabral de Melo Neto,
Morte e vida severina (1955)

Este poderia ser o n-ésimo fascículo do Tratado Botânico das Línguas, e o segundo a debruçar-se sobre fetos, mas decidimo-nos por uma abordagem mais pungente. Antes, porém, cumpre-nos denunciar que o Asplenium scolopendrium roubou o nome comum por que é conhecido, língua-cervina, ao Elaphoglossum, um feito possibilitado pela deplorável ignorância do grego clássico que por aí grassa.

A língua-cervina é incomum entre os fetos europeus por as suas folhas (ou frondes) não serem divididas; são antes alongadas, capazes de atingir uns 30 a 50 cm de comprimento, e apresentam base cordiforme, ápice estreito e margens onduladas. É um feto sempre-verde que vive em bosques, muros sombrios, margens de riachos e mesmo em paredes de poços e de grutas. Frequente nos Açores e na Madeira, a sua área de distribuição estende-se a quase toda a Europa, e ainda ao norte de África e à América do Norte. Em território continental português tem ocorrência registada no Alto Alentejo, Ribatejo, Estremadura, Beiras, Douro Litoral e Minho. Receamos, contudo, que no nosso país a língua-cervina esteja em regressão acelerada, sobretudo (mas não só) por causa da destruição dos habitats que lhe são propícios.

Ao contrário do que a Câmara Municipal de Coimbra alega neste texto, já não existe língua-cervina no Jardim da Sereia. Um outro lugar de onde ela desapareceu é o Parque Biológico de Gaia. Uma visita recente ao herbário da Faculdade de Ciências do Porto revelou-nos várias localizações antigas da planta: algures em São Pedro da Cova (Gondomar); num muro próximo do rio Leça em Guifões (Matosinhos); na praia da Memória (Matosinhos); no Areinho de Oliveira do Douro (Gaia); num rego junto ao cemitério de Lordelo (Porto).

Um herbário, já se sabe, é um cemitério de plantas; e, como todos os cemitérios, dá testemunho de vidas passadas. O triste é que, com o vendaval urbanístico que avalassou o Grande Porto nas últimas décadas, dessas vidas talvez não tenha ficado qualquer descendência. Numa tentativa de combater tão desgastante pessimismo, lançamos o

PRIMEIRO GRANDE CONCURSO DIAS COM ÁRVORES

O concurso está aberto até final de 2011, e o prémio é um exemplar do livro A Árvore de Natal do Senhor Ministro (veja aí na coluna à esquerda). Serão contempladas - com um livro cada uma - as dez primeiras pessoas que descubram, nos concelhos de Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo, alguma população silvestre de língua-cervina (Asplenium scolopendrium). As regras são as seguintes:
  1. O concorrente deverá enviar, para o endereço dias.com.arvores(at)sapo.pt, um comprovativo fotográfico da sua descoberta, indicando a localização exacta da(s) planta(s) para que o júri (constituído pelos autores deste blogue) a(s) possa visitar. O júri comunicará aos concorrentes, no prazo de uma semana, se a sua descoberta é válida – e, caso o seja, entregará o prémio logo de seguida.
  2. Em nenhum caso, sob pena de desclassificação, deverá o concorrente arrancar uma planta ou parte dela.
  3. Se dois ou mais concorrentes indicarem a mesma localização, só será premiado o primeiro deles.
  4. Se o mesmo concorrente descobrir duas ou mais populações diferentes, será premiado com dois livros. O segundo livro é um exemplar da 3.ª edição de À sombra das árvores com história. Para efeitos do concurso, duas populações consideram-se diferentes se estiverem afastadas uma da outra pelo menos 500 metros.
  5. Todos os vencedores serão publicitados no Dias com Árvores.
  6. Das decisões do júri não cabe recurso.

20.12.10

Ao mar pleno


Asplenium marinum L.

Há vários bons livros que tratam da aventura das plantas; ou, se quisermos ser precisos, da aventura do homem em busca das plantas e também das plantas que viajaram pela mão do homem. Ainda nenhum, que eu saiba, falou da vida aventurosa das plantas sem nela imiscuir o «factor antrópico». Enfim, terá havido tratados científicos ou livros de divulgação, mas o que falta é um romance da vida vegetal em que os heróis sejam plantas e não pessoas.

Porque, muito antes de a espécie humana existir à face da Terra, já as plantas eram grandes viajantes. Continuaram a sê-lo na infância da humanidade, quando nós estávamos limitados a curtas e laboriosas deslocações. Hoje elas viajam sobretudo à nossa custa, e com isso o equilíbrio dos ecossistemas ficou em risco. Mas as plantas que são nativas de locais muito distantes uns dos outros nunca precisaram de boleia nossa. Uma delas é este feto, que ocorre em rochas do litoral oeste europeu e que, muitos milhares de anos antes dos navegadores portugueses, descobriu por si próprio o caminho (marítimo ou aéreo) para os Açores. Fui-lhe levar notícias dos primos continentais que conheci em visitas às falésias da nossa costa. O habitat açoriano é o mesmo, só a rocha mudou de cinzento para negro. Mas consta que nas ilhas o feto pode subir as encostas expostas ao mar até uma altitude de 500 metros.

Para além da vocação marinheira, o que melhor distingue o Asplenium marinum de outros congéneres seus é a textura coriácea das frondes, que atingem uns 30 cm de comprimento e surgem agrupadas em tufos. As minhocas na face inferior das pínulas (foto acima) são os esporângios, num arranjo linear típico do género Asplenium. Mais minhoca menos minhoca, o feto pode ser admirado o ano inteiro por quem o souber procurar - seja no Continente ou nos Açores.

24.2.10

Às paredes com feto


Asplenium trichomanes L. subsp. quadrivalens D. E. Mey.

Há espécies vegetais que, se não co-evoluíram com a espécie humana, pelo menos adaptaram-se muito bem à nossa quase sempre devastadora presença. Antes do betão armado e das modernas fachadas de vidro, construímos muros pelo simples processo de empilhar pedras, juntando-lhes ou não argamassa para reforçar a estabilidade do conjunto. E, por entre os interstícios dessas rudes construções, romperam plantas como se a pedra fosse para elas terra fértil.

Segundo Hanno Shäfer, no livro Flora of the Azores - a Field Guide (Margraf Publishers, 2.ª edição, 2005), o Asplenium trichomanes, apesar de nativo dos Açores, subsiste nessas ilhas quase exclusivamente em habitats criados pelo homem. No continente a situação não diferirá muito dessa, e é fácil encontrar esta avenca entre os adereços vegetais que recobrem velhos muros. Pode, no entanto, ser problemático decidir, em locais onde a actividade humana há muito cessou, se aquele arranjo de pedras fez ou não parte de algum muro entretanto desaparecido.


Asplenium adiantum-nigrum L. Asplenium billotii F. W. Schultz [e também Umbilicus rupestris]

O género Asplenium, presente em todos os continentes com excepção da Antárctida, inclui mais de 700 espécies de fetos em geral sempre verdes. Uma das características diferenciadoras que exibem, visível na foto acima, é que os esporângios se dispõem em formações lineares mais ou menos paralelas entre si, direccionadas para a extremidade dos folíolos.

É provável que o epíteto adiantum do feto-negro se deva, não às suas propriedades intrínsecas, mas apenas à sua semelhança com algum feto do género homónimo. Se assim for, não é muito pertinente saber que a palavra provém do grego adiantos, que significa não molhado. É que os fetos com o nome genérico Adiantum, depois de mergulhados na água, saem tão secos como um pato que acabasse de sacudir as penas. Um deles, o Adiantum capillus-veneris, é a avenca habitualmente cultivada em vasos, e por isso o leitor talvez tenha à mão todo o material necessário para comprovar o fenómeno.

Errata. As fotos acima são do Asplenium billotii e não do A. adiantum-nigrum. Ambos frequentam fissuras de muros e de rochas silícicas em lugares sombrios e frescos, mas o primeiro distingue-se do segundo por ter, em geral, as pinas das frondes mais arredondadas.

12.2.10

Erva-de-ouro


Asplenium ceterach L. [sinónimo: Ceterach officinarum DC.]

As flores atraem não só insectos como fotógrafos - mas, se o fotógrafo insiste em visitar os espaços naturais mesmo quando as flores escasseiam, por alguma outra coisa se há-de ele interessar. E por que não pelos fetos? Essas plantas discretas, ditas primitivas, dispensam a cooperação dos insectos na sua propagação, e por isso flores não é com elas. Em contrapartida, não se fazem rogadas em aparecer: indiferentes ou quase à sucessão das estações, mostram o que têm para mostrar durante o ano inteiro.

Os fetos têm um método de reprodução que é um modelo de castidade. Não que se trate de reprodução assexuada. O que se passa é que a planta adulta delega a parte promíscua do processo numa plantícula (o gametófito) que morre depois de consumada a fecundação. No verso das folhas (ou frondes) da maioria dos fetos encontram-se, isolados ou em grupos, os esporângios, minúsculas cápsulas que contêm grande número de esporos. Os esporos, expelidos pelo feto adulto e disseminados pelo vento ou pela água, podem ficar dormentes durante um longo período. Só na presença da humidade é que germinam, dando origem aos tais gametófitos a quem cabe o acto vergonhoso. A humidade é necessária porque os anterozóides fecundantes produzidos pelo gametófito deslocam-se na água até aos orifícios (arquegónios) onde se escondem os óvulos.

(Não vá este arranjo nupcial sair furado, muitos fetos têm ainda a opção de se reproduzirem vegetativamente, quer através de rizomas, quer largando plantinhas embrionárias que se formam na extremidade das frondes.)

Um dos fetos mais bonitos da nossa flora espontânea, com as suas frondes pinadas de margens redondas e prateadas, é a erva-de-ouro ou douradinha. Está presente em rochas e muros de norte a sul do país, mas - talvez para não gastar beleza à toa - não parece ser nada abundante.