


Asplenium scolopendrium L. [sinónimo: Phyllitis scolopendrium (L.) Newman]
E se somos Severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina.
João Cabral de Melo Neto,
Morte e vida severina (1955)
Este poderia ser o n-ésimo fascículo do
Tratado Botânico das Línguas, e o segundo a debruçar-se sobre fetos, mas decidimo-nos por uma abordagem mais pungente. Antes, porém, cumpre-nos denunciar que o
Asplenium scolopendrium roubou o nome comum por que é conhecido, língua-cervina, ao
Elaphoglossum, um feito possibilitado pela deplorável ignorância do grego clássico que por aí grassa.
A língua-cervina é incomum entre os fetos europeus por as suas folhas (ou frondes) não serem divididas; são antes alongadas, capazes de atingir uns 30 a 50 cm de comprimento, e apresentam base cordiforme, ápice estreito e margens onduladas. É um feto sempre-verde que vive em bosques, muros sombrios, margens de riachos e mesmo em paredes de poços e de grutas. Frequente nos Açores e na Madeira, a sua área de distribuição estende-se a quase toda a Europa, e ainda ao norte de África e à América do Norte. Em território continental português tem ocorrência registada no Alto Alentejo, Ribatejo, Estremadura, Beiras, Douro Litoral e Minho. Receamos, contudo, que no nosso país a língua-cervina esteja em regressão acelerada, sobretudo (mas não só) por causa da destruição dos habitats que lhe são propícios.
Ao contrário do que a Câmara Municipal de Coimbra alega
neste texto, já não existe língua-cervina no Jardim da Sereia. Um outro lugar de onde ela desapareceu é o Parque Biológico de Gaia. Uma visita recente ao herbário da Faculdade de Ciências do Porto revelou-nos várias localizações antigas da planta: algures em São Pedro da Cova (Gondomar); num muro próximo do rio Leça em Guifões (Matosinhos); na praia da Memória (Matosinhos); no Areinho de Oliveira do Douro (Gaia); num rego junto ao cemitério de Lordelo (Porto).
Um herbário, já se sabe, é um cemitério de plantas; e, como todos os cemitérios, dá testemunho de vidas passadas. O triste é que, com o vendaval urbanístico que avalassou o Grande Porto nas últimas décadas, dessas vidas talvez não tenha ficado qualquer descendência. Numa tentativa de combater tão desgastante pessimismo, lançamos o
PRIMEIRO GRANDE CONCURSO DIAS COM ÁRVORES
O concurso está aberto até final de 2011, e o prémio é um exemplar do livro
A Árvore de Natal do Senhor Ministro (veja aí na coluna à esquerda). Serão contempladas - com um livro cada uma - as dez primeiras pessoas que descubram, nos concelhos de Espinho, Gaia, Porto, Matosinhos, Maia, Gondomar ou Valongo, alguma população silvestre de língua-cervina (
Asplenium scolopendrium). As regras são as seguintes:
O concorrente deverá enviar, para o endereço dias.com.arvores(at)sapo.pt, um comprovativo fotográfico da sua descoberta, indicando a localização exacta da(s) planta(s) para que o júri (constituído pelos autores deste blogue) a(s) possa visitar. O júri comunicará aos concorrentes, no prazo de uma semana, se a sua descoberta é válida – e, caso o seja, entregará o prémio logo de seguida.
Em nenhum caso, sob pena de desclassificação, deverá o concorrente arrancar uma planta ou parte dela.
Se dois ou mais concorrentes indicarem a mesma localização, só será premiado o primeiro deles.
Se o mesmo concorrente descobrir duas ou mais populações diferentes, será premiado com dois livros. O segundo livro é um exemplar da 3.ª edição de À sombra das árvores com história. Para efeitos do concurso, duas populações consideram-se diferentes se estiverem afastadas uma da outra pelo menos 500 metros.
Todos os vencedores serão publicitados no Dias com Árvores.
- Das decisões do júri não cabe recurso.