11.1.06
10.11.05
As árvores e os livros
As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)
Foto: pva - bétula no Largo D. João III, Porto, em Dezembro de 2004
Publicada por
Maria Carvalho
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10.11.05
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Etiquetas: Betulaceae , Jorge Sousa Braga , poesia , poesia-árvore
23.9.05
Carpa-europeia



Fotos: pva - Carpinus betulus nos jardins do Palácio de Cristal
A Carpinus betulus, de que ontem mostrámos a semente, é, como indica o seu nome vulgar, de origem europeia, pertencendo, tal como as bétulas, as avelaneiras e os amieiros, à família das betuláceas. As folhas com as margens serradas fazem lembrar as das bétulas, mas, pela sua forma oval e venação, assemelham-se mais às das faias. Também o tronco, de ritidoma claro e pardacento, se poderia confundir com o das faias, não fosse apresentar-se retorcido e sulcado, como uma escultura em bruto.
Ensinam os livros que a copa da carpa-europeia pode atingir grandes dimensões, com mais de trinta metros de diâmetro, mas os exemplares do Palácio de Cristal ainda não fazem jus a essa fama. No Jardim Botânico do Porto, existe um exemplar avantajado que cobre de sombra uma vasta área sujeita ao constante atroar da VCI. Mas foi nos Kew Gardens, em Londres, que me pude abrigar debaixo de uma destas árvores como quem entra numa tenda.
Em suma, uma bonita árvore que precisa de espaço para crescer e que, se fosse mais usada entre nós, traria maior diversidade a uma arborização pública tão propensa à monotonia.
Publicada por
Paulo Araújo
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23.9.05
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Etiquetas: Betulaceae , Palácio de Cristal
22.9.05
Recomeço



Fotos: pva 0509 - frutos de Acer pseudoplatanus, Acer campestre,Tilia tomentosa e Carpinus
betulus (colhidos nos jardins do Palácio de Cristal, Porto)
O fim do Verão é inevitavelmente época de exibições: de bronzeados com etiqueta de praias exóticas, de rostos corados fruto de já saudosos repousos, de fotografias acaloradas por risinhos em ambiente de festa, de postais de lugares que parecem inacessíveis em outras épocas do ano, de comprovantes de viagem em formato de pequeninos presentes trazidos em malas com pouca folga. Entretanto, por cá, algumas árvores afadigaram-se em preparar a sua primeira exibição do Outono: veículos aéreos arrojados para levar longe as suas sementes recém-nascidas. Estes meios de transporte começam por ser de tom verde e textura encorpada, ainda incapazes de planar, e só levantam voo quando secos, leves e ágeis.
A viatura espacial para transporte de sementes mais frequente na cidade, pela grande percentagem de áceres em lugares públicos, é a sâmara. Com duas asas quase transparentes, que formam um ângulo variável (180º no Acer campestre, próximo de 0º no Acer pseudoplatanus) e suportam duas sementes ao centro, esta estrutura oscila como uma borboleta e espalha-se facilmente. Não tardará que muitos rebentos de ácer arrebitem cabeça em jardins e beiradas.
As tílias adoptaram também um transportador inusitado: uma pala em cuja face anterior se segura um pézinho de sementes de pedúnculo longo como o das cerejas. Lembra um avião de longo curso que acaba de deixar a pista do aeroporto. O equilíbrio de pesos, com a frente da pala levantada para manter o conjunto de pé, é espectáculo a não perder.
Mas foi a opção das carpas (Carpinus betulus) que mais nos surpreendeu: uma asa-delta que leva uma semente aninhada no dorso e rodopia freneticamente até atingir o solo, aproveitando o movimento para se afastar da árvore-mãe. Houvesse um prémio para a criatividade, eficiência e elegância, e estaria atribuído.
Publicada por
Maria Carvalho
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22.9.05
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Etiquetas: Acer , Betulaceae , Malvaceae
