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6.12.14

Iva aumenta


Ajuga chamaepitys (L.) Schreb.

O título pode trazer-nos um pico de visitantes, mas apressamo-nos desde já a desfazer equívocos: este texto não fala de impostos, embora muitos botânicos (não é essa a nossa prática) tratem as plantas como simples matéria colectável. Acontece que a planta de hoje é uma versão algo aumentada da iva, ou Ajuga iva se lhe quisermos dar o nome completo, uma diminuta planta de base lenhosa que ocorre com assiduidade nos terrenos calcários secos do centro e sul de Portugal. A Ajuga pyramidalis e a A. reptans, a última também usada como ornamental, completam o quarteto destas labiadas presentes no nosso país. Os traços de parentesco mais evidentes em todas elas são as flores pequenas, dotadas de um lábio inferior proeminente mas destituídas de lábio superior, e as brácteas grandes, semelhantes às folhas, bem maiores do que as flores.

A Ajuga chamaepitys, que tem a reputação de ser uma erva ruderal mas ultimamente se tem feito muito rara, revelando fraca adaptabilidade às mudanças nas práticas agrícolas e no uso dos solos, é uma planta anual (ou bienal, segundo alguns) que, pela nossa curta experiência (vimo-la apenas duas vezes), parece preferir terrenos descampados e secos sobre substratos calcários ou margosos. É uma planta ramificada e peluda, de não mais que 20 cm de altura, com flores amarelas de cerca de 2 cm de diâmetro. As folhas, que são divididas em três segmentos compridos e estreitos, quase lineares, dispõem-se de forma muito densa e dão à planta uma vaga semelhança com um rebento de pinheiro. Assim se explica o epíteto chamaepitys, palavra grega composta de chamae, que significa rasteiro, e de pitys, pinheiro. A mesma comparação é retomada no nome ground-pine que os britânicos dão a esta espécie. Curiosamente, a própria planta parece ter interiorizado a analogia, esforçando-se por torná-la mais completa, já que, ao que consta, as suas folhas rescendem a pinho quando esfregadas.

28.10.14

Dueto de umbelíferas

Todos sabemos como os elogios nos fazem falta. Não nos basta o mérito se os outros não reparam nele, sendo que reparar é equivalente a expressar publicamente o apreço e contribuir para que a glória não seja esquecida. Descontadas a lisonja e a ganância, o processo nem é inteiramente pernicioso: é a opinião dos outros, e a competição entre nós, que nos espevita o talento e nos estimula a inovar. As mudanças que induzimos ou criamos em inúmeros domínios são parte dessa incessante busca de qualidade. Sem elas, talvez o tédio acabasse connosco. Nisto diferimos bastante das plantas, que parecem viver num descansado tempo sem imaginação nem anseios, apenas a cumprir ordens. De resto, se mudam, é porque a natureza, esse estranho oleiro de cujas mãos queremos também fazer parte, as vai moldando aos requisitos do mundo. Claro que, sem protagonismo, não têm capacidade de controlar o guião. Mas há que reconhecer benefícios nessa opção pela irresponsabilidade. Senão vejamos o caso destas duas herbáceas.



Bupleurum lancifolium Hornem.


Bupleurum gerardi All.

O género Bupleurum é um dos que abriga maior número de espécies, cerca de 150, nativas do hemisfério norte, com uma excepção (B. mundtii, da África do Sul). Contudo, a maioria tem área de distribuição reduzida, como aliás acontece ao B. lancifolium e ao B. gerardi. São notórias as semelhanças entre estas duas espécies, em pormenores relevantes para os respectivos ciclos de vida. Ambas gostam de solo calcário, embora uma seja mais frequente em searas e terrenos incultos e a outra em sítios pedregosos. As folhas são perfoliadas e com nervuras densas e finas (daí o nome Bupleurum), o que talvez lhes permita poupar água. As inflorescências em umbelas, apostando num conjunto numeroso de flores ainda que estas tenham por isso de ser minúsculas, formam arranjos que atraem muitos polinizadores, no que constitui um exemplo engenhoso de trabalho comunitário. As flores são amarelas (a maioria das umbelíferas têm-nas brancas), cor que todos os insectos parecem apreciar, com as pétalas reviradas a expôr ao sol os potes de mel brilhante. Mas há também diferenças. E, pesando-as, provavelmente os avaliadores ousariam afirmar que a mais baixa mas de porte mais robusto (B. lancifolium), com folhagem de uma linda cor verde-alface e bractéolas grandes, é mais bonita e, numa apreciação redutora, a mais bem sucedida.

Mas por que há duas espécies em habitats tão próximos, tendo uma delas uma morfologia aparentemente tão mais vantajosa? Não há resposta que nos convença, mas é certo que as diferenças são bastantes para garantir a ambas polinizadores e nichos de solo para colonizarem com sucesso. O preço é pago em duas vias: têm uma vida curta, pois são plantas anuais; e, uma vez concedida a licença para existirem, devem assegurar farta descendência e uma dispersão eficiente. Isto não lembra o mundo populoso e bom, eternamente grato ao criador, que algumas religiões propõem como perfeito?

Há (pelo menos) dois botânicos de nome Gerard homenageados através da taxonomia. O inglês John Gerard (1545-1612) levou Lineu a criar o género Gerardia. O francês Louis Gérard (1733-1819), cuja correspondência com Lineu pode ser lida (em latim) aqui, é o referido por Carlo Allioni (1728-1804) ao nomear em 1774 o Bupleurum mais delgado. Temos a certeza deste detalhe porque, curiosamente, cabe a Allioni a prioridade nesta designação precisamente por ter citado, em vez de apenas copiar, a Flora Gallo-Provincialis de Louis Gerard ao descrever esta planta. A propósito, pelas regras de hoje, a designação correcta é Bupleurum gerardii All.

25.10.14

Um Ammi para as ocasiões




Ammi majus L.

Apesar da tristeza monocromática que aflige os jardins públicos em Portugal, obra de uns tantos arquitectos que declararam guerra ao colorido das flores, há ainda quem se guie pela ideia antiquada de que um jardim, para ser visualmente estimulante, deve combinar todas as cores do arco-íris e mais algumas. É aqui que entra o branco, soma de todas as cores, que os ingénuos desprovidos de ciência julgam estar ausente do arco-íris só porque não se vê, quando na verdade está lá mas decomposto nas suas parcelas. A incapacidade dos nossos olhos em refazer a soma leva-nos a exigir o branco que se vê, como contraponto ao garridismo insinuante das cores do círculo cromático. E para acrescentar ao jardim um branco limpo e luminoso, com um efeito que evoca laboriosos trabalhos de renda, nada melhor do que uma umbelífera como o Ammi majus, que em Portugal é planta sem eira nem beira, infestante de cultivos e ruderal de bermas de estrada, mas noutros países é muito valorizada para ornamentar canteiros floridos.

Planta anual de floração primaveril, capaz de atingir um metro de altura, o Ammi majus, alegadamente chamado âmio-maior por um povo incapaz de a reconhecer, tem fortes semelhanças com outras umbelíferas de flores brancas, em particular com a cenoura-brava (Daucus carota). Distingue-se desta pela folhagem (compare a 5.ª foto aí em cima com as desta página), por não ser áspera ao tacto (a cenoura-brava é muito rugosa), e pelas inflorescências menos compactas. Amplamente distribuído pela bacia mediterrânica, o Ammi majus ocorre em quase todas as províncias portuguesas, sendo talvez mais frequente na faixa litoral. As plantas nas fotos moravam em Cantanhede, na orla de vinhedos e de outros campos cultivados.

Por mérito da flora açoriana, o género Ammi, que contém um total de seis espécies, é um bom amigo dos botânicos portugueses. Enquanto que os outros países europeus ou mediterrânicos se contentam com duas ou no máximo três espécies de Ammi, em Portugal ocorrem nada menos que quatro, duas delas endémicas dos Açores: A. seubertianum e A. trifoliatum.

4.3.14

Fuscata




Silene fuscata Link ex Brot.

Quando os serviços de meteorologia conspiram com a protecção civil e os telejornais para manter os portugueses fechados em casa, merecem generosa recompensa todos aqueles que, à revelia dos alertas amarelos, vermelhos ou laranja, cometem a temeridade de um passeio ao ar livre. Assim foi com a saída de campo da AOSP ao Horst de Cantanhede, num sábado de Fevereiro em que os profetas das intempéries & borrascas asseveravam com voz tremebunda que o céu cairia sobre as nossas cabeças. Manteve-se porém o dito quase sempre de um azul límpido, e só no final do tarde umas nuvens preguiçosas responderam à convocatória fazendo cair um aguaceiro displicente. À farta colheita (visual e fotográfica) de orquídeas que é de esperar nestas ocasiões, com destaque para a mini-fusca, única que estava em flor, veio adicionar-se a surpresa de uma abundantíssima população de lírios-roxos, uns poucos deles, por cortesia, já adiantados na floração. Na orla deste afloramento calcícola, onde os bosques de pinheiro-manso e mato mediterrânico dão lugar a vinhas e campos de cultivo, algumas ervitas precoces levavam à cena uma ante-estreia da Primavera. Entre elas, tão modesta que quase a confundíamos com congéneres suas bem mais comuns, uma Silene que nunca tínhamos visto, fuscata de seu nome e muito apropriada para servir de contraponto à mini-fusca.

A Silene fuscata é uma pequena planta anual, de não mais que 50 cm de altura (em regra bastante menos), com caules pubescentes e viscosos, quase sempre simples, e flores agrupadas em cimeiras corimbiformes. Frequenta campos e pastagens, preferindo substratos calcários ou margosos. Embora tenha uma distribuição ampla de ambos os lados do Mediterrâneo, e em Portugal e até na Península Ibérica seja de ocorrência muito esporádica, a espécie foi baptizada pelo botânico alemão Johann Heinrich Friedrich Link a partir de exemplares colhidos durante a visita de estudo que, na companhia de Hoffmannsegg, fez ao nosso país entre 1797 e 1799. A sua primeira descrição, publicada por Félix Brotero, apareceu em 1804 no segundo volume da Flora Lusitanica.

Por uma feliz coincidência, esta planta tão pouco vista e de existência tão efémera foi igualmente observada, com poucos dias de intervalo mas uns 160 Km a sul, pelo nosso colega de lides botânicas Francisco Clamote.

1.3.14

Mini fusca


Ophrys pintoi M. R. Lowe & D. Tyteca

As flores das orquídeas do género Ophrys, sem néctar ou outra recompensa para os polinizadores, apostaram em certo momento da sua evolução na mimetização de insectos, aproveitando-se do pequeno lapso de tempo entre o fim da hibernação dos insectos-macho e o das fêmeas para atraírem os primeiros e, através de falsas cópulas, lhes entregarem pólen ou receberem o que eles trazem de outras flores. Para além da aparência enganosa, com zonas no labelo que, quando brilham ao sol, parecem asas, as flores produzem feromonas quimicamente muito semelhantes às exaladas pelos insectos-fêmea, e distribuem de modo adequado o veludo e a penugem no labelo para que a semelhança táctil seja perfeita. Algumas orquídeas dependem inteiramente do sucesso deste mecanismo para produzirem sementes, e por isso o ardil tem de ser exímio: há que garantir que a planta se destaca na profusão de sinais químicos e visuais da natureza, como um canto de soprano rompendo a massa instrumental de uma orquestra. O resultado é uma especialização tão hábil das flores que raramente este emparelhamento entre a morfologia da flor e um insecto envolve espécies distintas. Mas acontece. O mesmo insecto pode visitar flores de diferentes espécies, e da troca de pólen nascerem híbridos. Isso não é de todo mau se as mudanças na morfologia continuam a ser apreciadas pelo polinizador, e até pode constituir uma vantagem: se o insecto burlado jura a patas juntas que não volta àquela flor, no ano seguinte visita ingenuamente o híbrido, e assim se perpetua o logro; ou então surge outro insecto que se adapta melhor à nova morfologia da flor e que, substituindo o polinizador original, aumenta as oportunidades de disseminação da planta.

Quando isto sucede, é natural que as alterações genéticas se tornem estáveis e se formem orquídeas que se distinguem claramente dos progenitores. É então legítimo propor que, na taxonomia, elas se tornem espécies independentes. Foi o que fizeram os autores deste artigo (Michael R. Lowe & Daniel Tyteca, Two new Ophrys species from Portugal, J. Eur. Orch.44 (1): 207 – 229. 2012) relativamente a duas formas de Ophrys do centro do país que à primeira vista pareceriam ser de incluir em Ophrys fusca (espécie altamente polimorfa) mas que exibiam características muito distintas. Uma delas, a que aparece nas fotos, assemelha-se a uma versão anã da O. fusca; a outra é alta, mais profusa na floração, e prevê-se que tenha um polinizador distinto. Para a primeira, Lowe e Tyteca propuseram a designação Ophrys pintoi, homenageando o botânico português António Rodrigo Pinto da Silva (1912-1992); à segunda chamaram Ophrys lenae, aludindo o epíteto específico ao rio Lena, da serra dos Candeeiros, onde foi colhido o holótipo da nova espécie.


Pinheiros-mansos (Pinus pinea L.) no Horst de Cantanhede

Vimos muitos exemplares de O. pintoi no Horst de Cantanhede, durante uma saída de campo organizada pela AOSP (Associação de Orquídeas Silvestres - Portugal). Ali o solo é branco de tanto calcário, margoso e escorregadio, a entremear rochas com belos fósseis do Jurássico. O horst é um pedaço longo de terra, do Zambujal até Lemede, que se ergueu quando apertada por duas placas da crosta da Terra que chocaram, provocando um desfasamento do chão. A fauna e a flora deste raro ecossistema, e a sua importância geológica e paleontológica, justificam e exigem dos responsáveis um programa de conservação exemplar.