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20.5.14

Teoria dos três nervos


Moehringia trinervia (L.) Clairv.

As margens do rio Minho em Melgaço são a secção de perdidos e achados da flora portuguesa. Há uma ervita listada nas floras de Portugal que há anos ninguém vê e que se receia ter desaparecido do nosso país? Então vamos a Melgaço, expomos o nosso problema às águas do rio ou à folhagem rumorejante dos carvalhos, damos uma volta para espairecer, et voilá que sem aviso prévio a desejada se materializa à nossa frente. Aconteceu isso com a Nymphoides peltata, com o Thelypteris palustris, com a Inula salicina, com a erva-dos-três-nervos (nome inventado para a planta de hoje), e com várias outras que ainda havemos de contar. E a milagrosa eficiência do serviço público assim prestado à flora portuguesa não se deve por certo à presença sufocante da mal chamada e daninha erva-da-fortuna (Tradescantia fluminensis), que na verdade é uma máquina de guerra preparada para liquidar toda a concorrência.

A Moehringia trinervia, cujo epíteto específico se refere às três nervuras longitudinais bem visíveis em cada folha, e que se distribui pela Europa, Ásia e norte de África, é uma planta anual, por vezes perene, com hastes ramificadas, erectas ou ascendentes, capazes de atingir os 40 cm de altura. As flores, que aparecem entre Abril e Julho, são pequenas, de 5 a 6 mm de diâmetro, e assemelham-se, pelas suas pétalas inteiras, às de outras cariofiláceas, em especial às do género Arenaria (nos géneros Cerastium e Stellaria, representados na nossa flora por numerosas espécies, as pétalas são fendidas na ponta).

Em Portugal a erva-dos-três-nervos parece restringir-se à metade norte do território continental. Além do Minho e Trás-os-Montes, há registos antigos da sua presença na Beira (Litoral, Alta e Baixa). Frequenta bosques sombrios e, de preferência, bem conservados, o que não é por certo o caso daquele em Melgaço onde a encontrámos. Talvez esteja ali apenas de passagem para a Galiza, antes de abandonar de vez o nosso país.

25.4.14

Cravinho das pesqueiras




Dianthus laricifolius Boiss. & Reut. subsp. caespitosifolius (Planellas) M. Laínz

Como acontece com outras plantas de uso ornamental de que há muitos cultivares produzidos em hortos, os cravos silvestres pouco se parecem com os que se vendem nas floristas. Os ingleses reservam a designação carnation (cravo) para as flores de muitas pétalas (podem chegar a ser 60) que os horticultores preferem, e pink (cravina ou cravelina) para as plantas mais pequenas, de flores com apenas cinco pétalas, algumas fimbriadas ou dentadas na margem, dez estames e dois estiletes longos, por vezes retorcidos. São estas que encontramos em prados, fissuras de rochas, escarpas, clareiras de matos, em zonas secas de montanha ou em afloramentos rochosos em leitos de cheia. As folhas são sempre lineares, estreitas, de ponta aguçada e cor verde-azulado ou acinzentado, com aspecto de enceradas e a formar touceiras anãs. A floração da maioria das nossas cravelinas só está no auge em Maio ou Junho. Mas nas ruas de Lisboa, em Abril de há quarenta anos, havia cravos: eram de estufa, dos farfalhudos e perfumados, que se vendem durante todo o ano e que parte do país, pobre e analfabeta, desconhecia.

O género Dianthus contém cerca de 300 espécies (e uns dez mil cultivares) perenes, anuais ou bienais. Destas, umas 120 são nativas da Europa, uma ocorre só perto do Árctico (D. repens) e as outras distribuem-se pela Ásia e sul de África. A Península Ibérica é terra de cravinas: tem registadas 29 espécies, sem contar com os híbridos, das quais 8 ocorrem em Portugal continental, 3 são endemismos lusitanos e outras três são endemismos ibéricos. Um destes é precisamente o Dianthus laricifolius, de que se distinguem, por minuciosos detalhes morfológicos e pela ecologia, três subespécies: D. laricifolius subsp. laricifolius, do centro da Península Ibérica e que cá encontramos nas Beiras, Minho e Trás-os-Montes; D. laricifolius subsp. merinoi, da região de Orense e Léon; D. laricifolius subsp. caespitosifolius, das bacias do baixo Minho e do rio Sil; e D. laricifolius subsp. marizii, que só ocorre nos rochedos ultrabásicos de Bragança e que, descrita por Sampaio em 1906 como Dianthus graniticus var. marizii, foi mudada em 1986 por Amaral Franco para a designação hoje aceite."

5.4.14

Potências de dois


Moenchia erecta (L.) G. Gaertn., B. Mey. & Schreb. subsp. erecta

Conrad Moench (1744-1805), botânico alemão, elaborou, nos intervalos das suas tarefas académicas, uma lista da flora local presente nos campos e jardins da região onde vivia. Se tivesse um blogue, por certo nos teria legado pequenos trechos descrevendo as plantas que ia encontrando, nomeando inclusive algumas até então desconhecidas. A designação genérica da planta que hoje aqui mostramos foi criada em sua homenagem.

O género Moenchia abriga três espécies de herbáceas anuais, nativas da região mediterrânica, centro e sul da Europa. São plantas frágeis e pequeninas, de folhas opostas e sésseis; as flores de quatro pétalas brancas, cada uma com cerca de 5 milímetros de comprimento por 2 de largura, nascem protegidas por sépalas verdes pontiagudas e de margens hialinas. Apreciam relvados, campos cultivados e, em geral, terrenos arenosos bem irrigados. Como florescem cedo, logo em Fevereiro, é fácil não as vermos quando os dias soalheiros chegam e com eles recomeçam os passeios pelo campo.

Na Península Ibérica ocorre apenas uma espécie de Moenchia, de talos erguidos e pouco ramosa, mas, para compensar, tem uma distribuição ampla e surge em duas formas, que diferem essencialmente no número de estames: 4 na subespécie erecta, a mais frequente por cá, e 8 na subespécie octandra, de que se conhecem populações apenas na metade sul do país. Quanto aos estiletes, o número é igual, 4, em ambas. Como a natureza não tem de se pôr em harmonia com o que nos parece um padrão matemático, o tema não é tão simples como parece: há registo de populações com algumas plantas que dão flores de 4 estames e outras de 8. Resta saber que vantagem retira a planta desta oscilação, ou se ela é resultado de uma mutação fortuita que ainda não estabilizou.


Casal Velho, serra dos Candeeiros

Os exemplares da foto estavam num anfiteatro magnífico em Casal Velho, na serra dos Candeeiros, em companhia de Asplenium ruta-muraria, Arabis sadina e uma população invulgarmente numerosa de Narcissus calcicola, além de uns poucos pés de Barlia robertiana e Orchis mascula (para as restantes orquídeas, todavia, era ainda cedo e teremos de voltar a este monte branco em breve).

4.3.14

Fuscata




Silene fuscata Link ex Brot.

Quando os serviços de meteorologia conspiram com a protecção civil e os telejornais para manter os portugueses fechados em casa, merecem generosa recompensa todos aqueles que, à revelia dos alertas amarelos, vermelhos ou laranja, cometem a temeridade de um passeio ao ar livre. Assim foi com a saída de campo da AOSP ao Horst de Cantanhede, num sábado de Fevereiro em que os profetas das intempéries & borrascas asseveravam com voz tremebunda que o céu cairia sobre as nossas cabeças. Manteve-se porém o dito quase sempre de um azul límpido, e só no final do tarde umas nuvens preguiçosas responderam à convocatória fazendo cair um aguaceiro displicente. À farta colheita (visual e fotográfica) de orquídeas que é de esperar nestas ocasiões, com destaque para a mini-fusca, única que estava em flor, veio adicionar-se a surpresa de uma abundantíssima população de lírios-roxos, uns poucos deles, por cortesia, já adiantados na floração. Na orla deste afloramento calcícola, onde os bosques de pinheiro-manso e mato mediterrânico dão lugar a vinhas e campos de cultivo, algumas ervitas precoces levavam à cena uma ante-estreia da Primavera. Entre elas, tão modesta que quase a confundíamos com congéneres suas bem mais comuns, uma Silene que nunca tínhamos visto, fuscata de seu nome e muito apropriada para servir de contraponto à mini-fusca.

A Silene fuscata é uma pequena planta anual, de não mais que 50 cm de altura (em regra bastante menos), com caules pubescentes e viscosos, quase sempre simples, e flores agrupadas em cimeiras corimbiformes. Frequenta campos e pastagens, preferindo substratos calcários ou margosos. Embora tenha uma distribuição ampla de ambos os lados do Mediterrâneo, e em Portugal e até na Península Ibérica seja de ocorrência muito esporádica, a espécie foi baptizada pelo botânico alemão Johann Heinrich Friedrich Link a partir de exemplares colhidos durante a visita de estudo que, na companhia de Hoffmannsegg, fez ao nosso país entre 1797 e 1799. A sua primeira descrição, publicada por Félix Brotero, apareceu em 1804 no segundo volume da Flora Lusitanica.

Por uma feliz coincidência, esta planta tão pouco vista e de existência tão efémera foi igualmente observada, com poucos dias de intervalo mas uns 160 Km a sul, pelo nosso colega de lides botânicas Francisco Clamote.

29.11.13

Agulha no ribeiro



Bufonia macropetala Willk.

O naturalista francês George Louis Leclerc, conde de Buffon (1707-1788), é o homenageado na designação desta planta, ainda que se tenha perdido um f no processo. Como era frequente naquele tempo, Buffon foi um cientista versátil em vários domínios, não obstante ter errado na sua apreciação da natureza. Entre as suas contribuições mais famosas contam-se livros de História Natural, a participação em inúmeros debates sobre a teoria da evolução - sobre a qual propôs ideias muito válidas enquanto escorregava em deduções irreflectidas -, e a transformação do Jardim do Rei, em Paris, num importante centro de pesquisa em Botânica. Da sua breve passagem pela Matemática conhece-se a experiência com a «agulha de Buffon»: se lançarmos a agulha num papel pautado com linhas paralelas a igual distância entre si (e igual ao dobro do comprimento da agulha), a probabilidade de ela pousar no papel cruzando uma das linhas é 1/\pi, o inverso de um número que, justificadamente, muitos têm em grande apreço.

Buffon, numa abordagem marcada pelo preconceito, acreditava que a falta de sol (ou talvez o seu excesso) e uma dieta inapropriada eram, entre outros factores ambientais, as causas para a diferenciação racial. Além disso, entendia que a humanidade só poderia ter surgido (directamente de Adão) num local acolhedor e soalheiro (mas não em África, claro). Curiosamente, a Bufonia que o recorda parece apreciar afloramentos rochosos em locais onde a temperatura é amena ou mesmo elevada, e por isso ainda exibe flores em Dezembro. É nativa do centro e sul da Península Ibérica e de Marrocos; as plantas das fotos estão na Beira Baixa, nas arribas da ribeira da Isna (em cujos meandros vimos em tempos a Gratiola linifolia) e no solo pedregoso do leito de cheia do rio Ocreza, localizações a cerca de 180 metros de altitude.

Na Península Ibérica ocorrem mais três espécies de Bufonia, todas endemismos europeus ou da região mediterrânica. A B. macropetala é uma herbácea ramificada, lenhosa na base, de 10 a 30 cm de estatura, com as hastes de flores erectas e folhas ciliadas que parecem grãos de arroz-agulha. Talvez por a floração ser tão tardia, quando os possíveis polinizadores já estão a hibernar, emigraram ou cumpriram o seu ciclo de vida, as flores tendem a recorrer à auto-fertilização. A Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco e Rocha Afonso, indica que a espécie ocorre na bacia do rio Tua, no centro montanhoso do país e no centro este. Nunca a vimos nas pedras do Tua e, com a barragem, é mais uma planta que desaparecerá da região.


Sertã: ponte do Charco sobre a ribeira da Isna

Na Isna, que apesar do seu percurso de 45 quilómetros não tem estatuto de rio, havia ainda outra surpresa: esta ponte torta, parecendo descansar o cotovelo numa das margens, que com a sua envolvente quase irreal faz lembrar um cenário de banda desenhada.

7.10.13

Assobio com bagas




Cucubalus baccifer L.

Ainda que sejam em geral esses os atalhos que seguimos, identificar uma planta pelo que tem de comum com outras pode levar a que exageremos as semelhanças, avaliando mal a posição dela na árvore filogenética. É o caso desta herbácea a que os espanhóis chamam orelhas-de-vizinho e outros candelárias. Parece uma trepadeira de folhas pequenas pontiagudas ao formar cortinas junto a margens de arroios ou orlas de bosques. As flores, de Verão, são branco-esverdeadas e as pétalas tão fendidas que cada flor parece ter dez, possuindo de facto apenas cinco. O cálice campanulado, bastante inflado, persiste no fruto, sendo muito parecido com o que vemos na Silene vulgaris (que também é perene). Contudo, os frutos são carnudos, umas uvas redondinhas, pretas quando maduras (em Outubro). Nos meandros destas comparações miúdas, reconhecemos que o método é pouco científico: não sabemos se esta é uma Silene que teve de adoptar outro modo de disseminar os frutos, beneficiando da opção de neles colocar mais alimento; ou se o género mais recente é Silene, que, pelo contrário, emagreceu os frutos, reduzindo-os a cápsulas secas; ou se esta planta nem sequer é parente próxima das Silenes.

O nome comum usado por Plínio, cucubalus (designação que talvez esteja associada ao latim cucubo, que evoca o piar das corujas e dos mochos) ou cuculo (o mesmo, mas agora o cantar é dos cucos), foi promovido em 1753 por Lineu a nome científico, embora, pouco tempo depois, tenha havido quem o quisesse empurrar para o género Silene, sob o nome de Silene baccifera, enquanto outros, lançando achas na controvérsia, chamavam Silene cucubalus à Silene vulgaris.

Na Península Ibérica, tão rica em assobios e cravos, ocorre apenas esta espécie do género Cucubalus, e é rara vê-la na metade sul. Relativamente comum no centro e sul da Europa e na Ásia, por cá foi difícil encontrá-la, talvez porque precisa de sombra e água limpa por perto, um habitat que aqui se vai fazendo escasso.

4.8.13

Fitogeografia





Spergularia azorica (Kindb.) Lebel

Nos verões de 1894 e de 1896, o botânico norte-americano William Trelease (1857-1945), então director do Jardim Botânico do Missouri, visitou as ilhas açorianas numa expedição que também previa a colecta de sementes ou plantas para este jardim. A localização das ilhas era suficientemente remota para que as expectativas quanto a novidades botânicas fossem elevadas. Ali encontraria um habitat isolado, pensou, como a Madeira ou os Galápagos, com um clima favorável à coexistência de vegetação de montanha (nos picos, quase sempre escondidos por nevoeiro e chuva) e de beira-mar (com plantas adaptadas às falésias, ao farelo de pedra vulcânica e às praias de calhau rolado), com alguma flora tropical à mistura.

Trelease publica em 1897 as notas desta viagem, a que junta uma listagem pormenorizada da flora que encontrou nas nove ilhas (e da que, não tendo encontrado, foi descrita pelos seus antecessores). O tom geral é de desapontamento. As ilhas eram afinal frequentemente visitadas por navios da Europa e da América do Norte, e mesmo entre as ilhas mais a ocidente (Flores e Corvo) e as mais orientais (São Miguel e Santa Maria) circulavam demasiadas embarcações para haver diferenças nas respectivas floras. Além disso, a agricultura intensiva (com as vinhas destruídas por doenças, plantava-se milho, batata e batata doce, e cultivavam-se frutos como a banana e o já famoso ananás), os pastos com forragem europeia (por a julgarem melhor do que a nativa) e a invasão da flora exótica (já então o Hedichium gardnerianum liderava as hostes invasoras) pouco espaço deixavam para a flora endémica. Segundo Trelease, esta estaria refugiada em locais de difícil acesso, a salvo de coelhos e cabras mas desse modo também inacessível aos botânicos. Havia os líquenes, é certo, e muitas novas espécies de fungos para nomear, mas não eram esses os objectos do seu estudo. Seguindo a tendência de então, Trelease parecia empenhado em confirmar a teoria de Darwin e queria estudar a adaptação das plantas europeias ou americanas ao habitat açoriano, muito ventoso, extremamente húmido e de influência marítima. Todavia, em Botanical Observations of the Azores, Trelease informa que as ilhas eram demasiado jovens para se notarem indícios da selecção natural: só em Santa Maria eram conhecidos fósseis e só lá não havia vulcões com actividade recente.

A Spergularia azorica foi uma das plantas que Trelease viu floridas, e em todas as ilhas. Começou por se chamar Lepigonum azoricum, nome que o botânico sueco Nils Conrad Kindberg (1832-1910) lhe deu em 1863. Em 1868, o francês Jacques Eugène Lebel (1801-1878) colocou-a no género Spergularia e confirmou-lhe o estatuto de endemismo açoriano. Trelease prefere designá-la Spergularia macrorhiza, seguindo o botânico inglês H. C. Watson (1804-1881), que visitou os Açores em 1840 e a nomeara oficialmente em 1868 (depois de uma outra ida às ilhas em 1865 com o entomologista Frederick du Cane Godman (1834-1919)). Trelease nota como esta planta, exposta a derrocadas e vendavais, parece em harmonia com o ambiente: talos robustos, com que se agarra às arribas; hábito prostrado e aninhado nas reentrâncias rochosas de falésias ou escoadas de lava; uma penugem densa a agasalhá-la; flores grandes (muito maiores do que nas outras plantas do mesmo género) e bem abertas, com o néctar acessível aos polinizadores; e sementes, com uma asa rudimentar, que se disseminam pelo vento.

Santa Maria, onde vimos populações abundantes desta planta, pertence hoje à lista das Zonas Especiais de Conservação (ZEC), e a Spergularia azorica é uma das espécies da flora açoriana listadas no anexo II da Directiva Habitats, na companhia da Azorina vidalii e do Lotus azoricus.

18.7.13

Flor de túnica



Petrorhagia saxifraga (L.) Link

A designação Petrorhagia, formada pelos termos gregos petros (pedra) e rhagas (fissura), indica que as plantas deste género apreciam os habitats rochosos e os solos secos. Não revela que a planta das fotos gosta de substrato ácido e da beira da água, mas todos os exemplares que conhecemos se encavalitam nos penedos xistosos das encostas do rio Douro, muito perto do leito, junto às barragens da Bemposta (em Mogadouro) e de Bagaúste (na Régua).

Saxifraga diz exactamente o mesmo que Petrorhagia mas em latim. Como seria uma desatenção, falha que é rara entre taxonomistas, usar um binómio com uma repetição ao nomear uma planta, o mais certo é que o epíteto saxifraga que se une a Petrorhagia na identificação desta planta queira sublinhar a parecença das suas flores com algumas do género Saxifraga. Porque as flores têm um hábito que lembra o dos cravos, Lineu chamou-lhe, em 1743, Dianthus saxifragus. Mas o género Dianthus foi mais tarde subdividido, e a designação da planta hoje aceite é a que Johann Heinrich Friedrich Link (1767-1851) lhe deu em 1831.

É uma herbácea perene de folhas lineares, serrilhadas e ásperas, com numerosas hastes finas de até 50 cm de altura, no cimo das quais surgem flores solitárias de cálice turbinado, pétalas brancas ou rosadas com cerca de 4.5-10 mm de diâmetro e uma indentação no ápice. É nativa do centro e sul da Europa e sudoeste da Ásia; em Portugal só há registo da sua presença na bacia do Douro.


barragem de Bagaúste, Peso da Régua

5.7.13

Cravinho no caminho



Velezia rigida Loefl. ex L.

Na primeira vez que subimos ao monte Calábria, perto dos rios Douro e Côa, ela ainda não estava lá. Ou estaria, mas, depois de uma caminhada entre vinhas e prados pedregosos e ralos, havia tanto para descobrir e sobrava tão pouco fôlego que não demos por nada. Na segunda visita, com mais calor e secura, e os caminhos mais estreitos pelo avanço da vegetação rasteira que sabe aproveitar a ausência de pisoteio, a subida custou ainda mais mas o vagar compensou. Notámos uns caules rígidos e erectos, com umas folhitas lineares de uns 2 cm de comprimento, encimados por pintinhas cor-de-rosa. Julgámos tratar-se de cravos de cálice longo, debilitados pela falta de água, mas a foto da flor (bastante aumentada, ela não mede mais do que uns 6 milímetros de diâmetro) revelou-nos a sombra de uma flor dentro de outra, e os cravos não costumam ser assim.

Apesar de ter uma distribuição ampla em Portugal (só não há registo dela a sul e no noroeste), onde aprecia bordos de caminhos, matagais rasteiros e terrenos cultivados, não tem nome vernáculo. É anual e bastante viajada, nativa do sul da Europa e parte da região mediterrânica, e floresce entre Maio e Junho. O nome do género é uma homenagem ao boticário e naturalista espanhol Cristóbal Velez (1710-1753), discípulo e colaborador de dois botânicos espanhóis famosos, Juan Minuart (1693–1768) e José Quer y Martinez (1695-1764).

O género Velezia contém actualmente nove espécies das quais apenas duas (a V. rigida L., a única que ocorre na Península Ibérica, e a V. quadridentata Sibth. & Sm.) têm nome assente e não controverso. São ambas miúdas e bonitas; onde existem, convém pisar o chão ao de leve.


Monte Calábria, Almendra, Vila Nova de Foz Côa

8.5.13

Assobio à beira Tua



Silene psammitis Link ex Spreng. subsp. psammitis

Nome comum: não tem
Ecologia: herbácea anual de sítios secos e arenosos (talvez psammo, que significa areia, seja a origem do epíteto da espécie), com solos onde predomina o granito ou o xisto
Distribuição global: endemismo ibérico, do centro e oeste da Península. Está naturalizada na ilha de Santa Maria, Açores
Distribuição em Portugal: Alentejo, Beiras Alta e Baixa, Estremadura e Trás-os-Montes
Época de floração: Março a Junho
Data e local das fotos: 30 de Março de 2013, perto das Caldas de S. Lourenço, no vale do Tua
Informações adicionais: planta ramosa, levemente penugenta, de hábito ascendente e que ronda os 40 cm de altura. Os cálices têm cerca de 18 mm de comprimento. As pétalas são obcordadas e cor-de-rosa, raramente brancas. Além da subespécie típica, exclusivamente peninsular, a Flora Ibérica distingue a subespécie lasiostyla, do sudeste da Península Ibérica e noroeste de Marrocos, de que não há registo em Portugal

6.5.13

Rebolar na areia



Cerastium diffusum Pers.

As plantas que vivem nas dunas nunca estão seguras: foge-lhes o chão debaixo dos pés deixando a raiz a descoberto, ou um golpe de vento as faz soterrar num monte de areia. Às vicissitudes naturais juntam-se os estragos do pisoteio, em especial no Verão; e, mais grave ainda, a destruição irreversível causada por construções ao arrepio de todo o bom senso. Sabe-se que as dunas bem formadas são a nossa primeira linha de defesa contra o avanço do mar; e que são as plantas no seu habitat dançarino que, enquanto rebolam de cá para lá e de lá para cá, ajudam a dar um mínimo de estabilidade e permanência ao cordão dunar. Nos lugares onde as dunas foram obliteradas por vivendas, prédios e hotéis, tenta-se deter o estrago das marés com barreiras caríssimas que afinal se revelam frágeis e efémeras. Muito mais barato e eficaz é respeitar as dunas e as plantas que nelas se acolhem: não escolheram uma vida fácil e ainda assim trabalham para a nossa protecção.

Há plantas exclusivamente dunares e outras, mais versáteis, que tanto aparecem à beira-mar como em lugares secos no interior. Esta orelha-de-rato (nome que pode ser aplicado com propriedade a todas as espécies do género Cerastium) integra o segundo grupo, embora seja bem mais frequente em areais costeiros do que noutros habitats. Distingue-se de congéneres muito comuns como o C. fontanum e o C. glomeratum por ser uma planta mais esguia, com pedúnculos florais bem mais compridos, e pelo número de estames em cada flor, que são 10 nas duas últimas espécies e 4 ou 5 no C. diffusum. O C. diffusum tem um carácter marcado pela indecisão, pois cada planta tanto dá flores com 4 pétalas (e 4 sépalas e 4 estames) como outras com 5 (pétalas, sépalas e estames). No quadrante superior esquerdo da 1.ª foto, pode ver-se, com alguma dificuldade, uma flor do tipo quatro.

O Cerastium diffusum é uma planta anual, coberta por pêlos glandulosos, com flores de cerca de 5 mm de diâmetro, exibindo pétalas brancas fendidas nas pontas, em geral mais curtas do que as sépalas. Floresce de Março a Julho e é nativa de grande parte da Europa e ainda da Turquia e do norte de África. A acreditar na Flora Ibérica, de toda a linha costeira do Minho ao Algarve ela só está ausente do litoral alentejano.