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25/08/2010

Alfacinha do rio


Samolus valerandi L. - rio Coura, Caminha (fotos de M. M. F.)

É uma planta comum em estuários e outros ambientes húmidos e salobros. Há que procurá-la durante o Verão, quando floresce, pois de outro modo passa despercebida. As suas minúsculas flores brancas, levantadas num frágil cacho, são tudo quanto possui para nos chamar a atenção. Apesar das insistentes referências à ocorrência desta planta, só a conhecia de a ver mencionada em listas de espécies e representada em livros. Mas poderei chamar a isso conhecer?

Encontrei-a uma noite destas, agigantada, com flores do tamanho de punhos fechados, de um branco faiscante. Apesar de disforme, não hesitei em reconhecê-la: aqui estás, Samolus valerandi, até que enfim! Quando acordei, um único impulso me tomou, apesar do calor extremo do dia: procurá-la no sítio mais à mão, a junqueira do Coura próximo de Caminha, onde tinha andado em pleno Inverno a registar plantas adormecidas. Quase como no sonho, ali estava ela à minha espera, multiplicada numa pequena população em flor, enraizada na vasa e nas paredes do antigo valado que atravessa a junqueira, à sombra dos caniços e das austrálias. Só estando ali se percebe o que não vem nos livros: que aquele milagre de delicadeza é suficientemente firme para suportar duas vezes por dia a submersão pela água da maré (pode mesmo apreciar-se o efeito da tensão superficial da água, à medida que os cachos erectos vão sendo submersos). Um implacável vai-vem de água salobra liga esta humilde planta à força gravítica da Lua.

Creio que não foi um acaso que me levou até lá, embora não saiba bem o que foi. Antes de sair dali, uma restolhada súbita pôs-me alerta: viria alguém pelo valado fora, naquele sítio de tão difícil acesso? Uma pessoa? Um cão? Uma cabeça castanha espreitou do outro lado do tronco da árvore a que estava encostado: focinho escuro, longos bigodes, olhos salientes. Ali estava uma lontra a olhar tranquilamente para mim. Mergulhou, reapareceu, continuou a olhar para mim, mergulhou de novo e foi à sua vida.

Compreendi que por vezes a realidade pode ultrapassar certos sonhos. Na junqueira do Coura ainda está (quase) tudo por descobrir.


Manuel Miranda Fernandes
Agosto de 2010


Samolus valerandi L. - Mindelo, Vila do Conde

26/10/2007

Violet queen


Cleome sp. - Sintra (fotos gentilmente cedidas por Paulo)

«Não sei que coisa estranha e pobre existe na substância íntima dos jardins citadinos que só a posso sentir bem quando me não sinto bem a mim. Um jardim é um resumo da civilização - uma modificação anónima da natureza. As plantas estão ali, mas há ruas - ruas. Crescem árvores, mas há bancos por baixo da sua sombra. No alinhamento virado para os quatro lados da cidade, ali só largo, os bancos são maiores e têm quase sempre gente. (...)

Mas há dias em que esta é a paisagem que me pertence, e em que entro como um figurante numa tragédia cómica. Nesses dias estou errado, mas, pelo menos em certo modo, sou mais feliz. Se me distraio, julgo que tenho realmente casa, lar, aonde volte. Se me esqueço, sou normal, poupado para um fim, escovo um outro fato e leio um jornal todo.»

Fernando Pessoa, Livro do desassossego (Assírio & Alvim, 2001)

08/09/2007

Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas


Vidago

A propósito das obras que decorrem no Parque das Termas e no Hotel Palace de Vidago, recebemos do Eng. Jorge Moreira da Costa [contacto: jmfcosta(at)fe.up.pt] um artigo que merece a mais ampla divulgação:

........Era uma vez uma empresa chamada Vidago, Melgaço e Pedras Salgadas. Embora fossem todas estâncias termais, Melgaço estava ali, no meio, provavelmente por soar melhor. Vidago e Pedras – como era coloquialmente conhecida – eram, sem dúvida, as jóias da coroa. Pedras, pelas suas águas que já faziam parte da fraseologia popular, Vidago também pelas águas mas, muito mais, pelo seu parque, pelo Palace Hotel, pelo ambiente de serenidade que criava. Eram jóias mas Vidago, sem dúvida, era o diamante.
........A Vidago existiu numa época em que as empresas tinham caras, tinham donos, eram mais que simples cotações de bolsa. A Vidago era de algumas pessoas, entre as quais o Conde de Caria Bernardo Mendes de Almeida, António Carneiro Pacheco e, particularmente, de Raul de Oliveira, conhecido empresário do Porto e do Dr. João Serôdio, de família igualmente ilustre e com raízes transmontanas, por sinal próximas de Pedras Salgadas.
........Raul de Oliveira e João Serôdio olhavam para Vidago e Pedras com olhos diferentes da maior parte dos seus sócios. Eram donos, mas sentiam que as vicissitudes da vida que lhes levara estas termas às mãos traziam algo mais que uma mera forma de gerar dinheiro; traziam também a responsabilidade de cuidar da cultura, da memória e da história daqueles lugares que mais de meio século de vida fazia circular entre aquelas árvores de copas gigantescas, deixando marcas em todos os que tinham a felicidade de ali entrar e estar.
........Pelos acasos que acontecem, aqui e ali, no final da década de 1950 conheceram um arquitecto jovem, na casa dos 30, que contrataram para realizar alguns projectos de remodelação das unidades de engarrafamento. Mas depressa repararam que o feitiço que os agarrava a Vidago e Pedras, levando-os a discutir energicamente com os outros sócios sobre as verbas a destinar à manutenção das instalações termais e dos hotéis, também se apoderara desse Arquitecto Jorge Moreira da Costa. E dos trabalhos mais rotineiros passou-se a outras obras de maior fôlego: remodelar os Hotéis Avelames e do Parque em Pedras, do Hotel do Golfe já em Vidago e tratar da manutenção do Palace.
........No Palace, que fechava durante o Outono e Inverno, o trabalho era quase de relojoaria: recuperar frisos e gessos de tectos, apainelados, soalhos e caixilharias de carvalho, a imponente escadaria do átrio de entrada. Também tinha algo de arqueologia, quando aqueles donos mais especiais, o Arquitecto e um funcionário dedicado chamado Senhor Canelas, que até vivia numa casa dentro do parque, se aventuravam nas enormes caves do hotel descobrindo pianos Bechstein empilhados a um canto, ânforas de alabastro, candeeiros do início do século e garrafas da reserva do hotel, sem rótulo e só com data longínqua, que iam acompanhar o jantar a quatro no enorme salão, sozinhos mas satisfeitos, antes da viagem de regresso ao Porto.
........O Palace era um hotel para aquistas mas também para famílias. Muitas vezes avós que procuravam as águas das buvettes, em copos graduados de forma oval, nada parecidos com o copo do Rei D. Carlos (ou D. Luís, já não me lembro) que estava numa vitrine na exótica Fonte Vidago I. Avós que traziam os seus netos e que precisavam de divertimento para eles. E surgiu a piscina do Palace.
........Atrás e à direita do hotel havia um espaço onde o monte parecia descansar. Mais plano, com menos árvores, o local ideal para construir uma piscina de formas arredondadas, suaves, ajustando-se ao terreno e contornando o arvoredo, própria para crianças e adultos, discreta e respeitosa perante a majestosidade do Palace, ali a 20 metros. Há locais onde apenas se entra convidado e, nesses, é de bom tom não fazer barulho.
........Durante mais de duas décadas, Vidago, o Palace e a sua piscina foram dos maiores símbolos do termalismo português. O parque, santuário de flora exuberante com algumas espécies únicas; o campo de golfe de montanha, também ímpar e estimado pelos jogadores que ali se deslocavam de propósito para defrontarem um original desafio às suas capacidades; o hotel sempre primoroso e remodelado para ampliar o número de quartos no último andar, permitindo acessibilidade a bolsas menos recheadas mas que precisavam, também, das águas, dos banhos, da paz, do descanso. O Palace não seria para todos mas também não deveria ser só para uns poucos privilegiados.
........Mas, como sempre acontece, o tempo correu e as coisas foram mudando. Os donos especiais foram partindo, os interesses dos restantes, que sempre tinham olhado para Vidago e Pedras com fito no lucro e pouco mais, voltaram-se para outros negócios, como a Fruto Real, que queria concorrer com a Sumol, a Cergal que queria ser a nova Sagres. As estâncias passaram a servir praticamente só para recolher e engarrafar água, o maná. Os hotéis, os parques, as piscinas, foram decaindo e deixadas ao abandono. O Arquitecto continuou a procurar convencer os donos da importância de manter Vidago e Pedras, mas já estava sozinho.
........Nessa altura, a VMPS foi vendida ao empresário Sousa Cintra. O Arquitecto Moreira da Costa, que ainda esteve em algumas reuniões onde se falava de grandes investimentos, de fazer isto e mais aquilo, cedo percebeu que eram palavras ocas. Vidago e Pedras continuavam quase desertas, os hotéis arriscavam-se até a perder as suas estrelas. Era demais. Nunca mais lá voltou.
........Mais recentemente, pela viragem do milénio, leu que a VMPS tinha sido comprada pela Unicer. Empresa de rosto novo, dinâmico, com ideias para revitalizar as jóias tão esquecidas por tanto tempo. Já não seria ele a tratar disso mas eram notícias interessantes. E viu escrito que um Colega de renome, Álvaro Siza Vieira, tinha sido contratado para liderar o projecto.
........Nunca soube nada sobre o que se passava. Nenhum telefonema, nenhuma pergunta, nenhuma interrogação, nenhuma curiosidade em ouvir o seu saber, um pedido para mergulhar nos arquivos de milhares de desenhos que contavam as suas histórias, a história de Vidago e das Pedras. Até que partiu também, em 2006, um ano antes de surgir numa revista uma maquete onde, no lugar onde a piscina que o seu traço tinha desenhado, com as linhas empurradas pela aragem que a floresta deixava passar, surgia um novo edifício, um SPA, mais de acordo com as modas de pendor elitista de hoje. Um edifício com a traça do mediático profissional, onde as linhas curvas e fluidas eram substituídas por outras rectas, angulosas. Ao contrário da piscina do Arquitecto Jorge Moreira da Costa, que quase pedia desculpa à montanha por se intrometer, este é um edifício que parece querer afirmar, alto e bom som, que aquele lugar é o seu, o resto que se afaste.



........Quem ainda cá está e partilhou muitas viagens, muitas tardes a conhecer os recantos da montanha, a explorar os caminhos escondidos, viu a fotografia e procurou perceber o porquê de destruir, o porquê de cortar com a memória, o porquê de fazer tábua rasa da bandeira agora tão frequentemente agitada, e ainda bem: reabilitação. Conseguiu uma entrevista com o projectista. E, nessa conversa… Porque não havia mais espaço, para não deitar árvores abaixo… A piscina estava em mau estado embora pudesse ser recuperada… Mas aquele era o único lugar. Foram as justificações. Apesar de saber que o local mais livre era, exactamente, do lado oposto, à esquerda do Palace, não discutiu. Agradeceu o tempo disponibilizado e veio embora.
........No dia seguinte, do secretariado dos novos proprietários disseram-lhe que a piscina já tinha sido demolida. Incrédulo, correu para Vidago. Mesmo com o parque vedado recordou-se dos carreiros que percorrera e que o levavam a todo o lado e foi ver, de cima do monte, o local da piscina. E era verdade. A piscina desaparecera. Várias das árvores com ela. Da estalagem, construída para manter a estância aberta na época baixa e onde existia uma sala de jantar com paredes de xisto e também um fio de água que escorria pela montanha, apenas a recordação.
........Como muitas outras histórias, esta teve um fim triste. Nem as regras da deontologia profissional nem a obrigação moral de uma empresa que não é, propriamente, a mercearia da esquina, serviram para, pelo menos, procurar encontrar o autor de uma peça de época, bela, excepcionalmente integrada, e ter um acto de cortesia, de nobreza. Dar-lhe a conhecer, em primeira mão, o que se planeava e porquê daquele modo. Ao contrário dos antigos donos que telefonavam ao Arquitecto de madrugada e diziam “Vamos para Vidago!”, nenhum dos novos senhores ainda percebeu o privilégio e a responsabilidade que têm nas suas mãos. E basta sentarem-se na escadas do Palace, voltarem-se para o lago, fechar os olhos, respirar fundo, ouvir e sentir…
........Resta a certeza que no futuro, talvez não tão longínquo como isso, a montanha vai voltar a recuperar o espaço que abriu para a Piscina do Palace. As árvores que a aconchegaram e adoptaram e, mais tarde, a acompanharam no seu abandono e final, vão acabar por ser mais fortes que o bloco urbano que ali se vai intrometer, forçando a entrada, querendo elevar-se e destacar-se, sem concorrência. Que presunção… Ninguém nem nada é mais forte que a Natureza.

........PS: O Arquitecto Jorge Moreira da Costa, mesmo com a discrição que caracterizou toda a sua vida profissional, tem direito a quatro referências no Inquérito à Arquitectura Portuguesa do Século XX, realizado pela Ordem dos Arquitectos no ano passado, infelizmente apenas uma correctamente atribuída - as Piscinas Municipais de Santa Maria da Feira. São também seus os projectos da Biblioteca Municipal da mesma cidade e de duas outras obras, cuja correcção de autoria já foi pedida por várias vezes à OA e que, parece, finalmente vai ser efectuada.
........As outras duas obras são de Vidago e Pedras. Em Vidago, o Posto de Turismo do centro da Vila, que ainda se encontra em utilização, embora a precisar de alguns cuidados. E, em Pedras, a segunda piscina que projectou para as termas. A Piscina do Palace não está mencionada, por mais estranho que pareça.
........A Piscina de Pedras é, também, uma obra de época. Aproveitou parte de um lago, tinha mais condicionantes, afastada dos hotéis, havia menos com que trabalhar. Não tem o carisma da de Vidago mas ainda lá está. Sozinha, a precisar de restauro, mas igualmente com memórias guardadas nas suas paredes e plataformas, vizinha de um minigolfe em terra batida e percursos originais, cujas formas ainda se conseguem vislumbrar, por quem o conheceu, sob as camadas de anos de folhas e vegetação caída. Se foi a insensibilidade que levou à destruição da pérola de Vidago, pelo menos que algum rebate de consciência possa levar a salvar esta.»

21/05/2007

Sobreiro de S. Geraldo



Fotos de Eduardo Basto

«Não me estou a fazer à publicação no DcA, (...) mas achei que se calhar vos interessaria. A árvore, aparentemente mais acarinhada que o costume, fica em Veiros, que é uma terrinha mais ou menos entre Estarreja e a Murtosa -- até há uma placa na estrada a dizer "árvore monumental" ou algo parecido, já não me lembro bem. Não sei cá PAPs nem coisas nenhumas dessas, mas a árvore tem um aspecto invulgar, bastante curioso, com o tronco curto mas ainda assim muito irregular.»

Claro que nos interessa e muito, Eduardo. É um exemplo do que nós gostaríamos que fosse feito com todas as árvores de interesse público no país: divulgadas e acarinhadas. No Porto, onde nem uma só dessas árvores tem placa, quase ninguém repara nelas ou sabe da sua existência. Estão pois de parabéns a população de Veiros, a sua paróquia (que é proprietária da árvore) e ainda, por promoverem este sobreiro multi-centenário como património local digno de ser visitado, a Junta de Freguesia de Veiros e a Câmara de Estarreja.

02/05/2007

A cochonilha que não é praga


Tamariz no Largo de Cadouços, Foz do Douro - Abril de 2007

Trabutina mannipara é o nome científico do insecto que produz uma melada que foi chamada maná (Êxodo 16:1-35). «Javé disse a Moisés "farei chover para vós pão do Céu" (…) De manhã havia uma camada de orvalho ao redor do acampamento. (…) Quando a camada de orvalho se evaporou, na superfície do deserto apareceram pequenos flocos, como cristais de gelo. Moisés disse: "Isto é o pão que Javé vos dá para comerdes. Cada um apanhe quanto lhe baste para comer".»

Trabutina mannipara tem a seguinte classificação: pertence ao reino animalia, phylum artropoda, classe insecta, ordem hemiptera, superfamília coccoidea, família pseudococcidae, género trabutina. O nome vulgar para todos os insectos desta superfamília é cochonilha.

As cochonilhas são pequenos insectos que geralmente têm algum tipo de protecção para o corpo. Os jovens imaturos são móveis; as fêmeas adultas não têm asas e são quase totalmente imóveis. Os adultos machos têm um par de asas, mas são delicados e a sua vida é curta. Para se alimentarem, as cochonilhas inserem os estiletes na planta de modo a obterem, por absorção, o alimento de que necessitam. Excretam então a melada, uma substância rica em açucares, aminoácidos, amidas, proteínas e vitaminas. A melada está na origem de diversos tipos de relações tróficas, podendo envolver formigas colhedoras de melada e insectos fitófagos, predadores ou parasitóides que complementam a sua dieta com melada. Pode também servir, como no caso da melada produzida por T. mannipara, para complemento da alimentação humana. Sobre a melada é frequente desenvolver-se um complexo de fungos de cor escura, a fumagina, causa de depreciação de plantas ou frutos. Por causa da fumagina as cochonilhas são consideradas inimigas das culturas, obrigando à monitorização e à aplicação de meios de protecção. As cochonilhas são pragas das culturas agrícolas e das plantas ornamentais.

Tamarix mannifera é a planta que vegeta na Península do Sinai e é hospedeira de Trabutina mannipara. O género Tamarix (tamariz em português) engloba 75 espécies espalhadas pela Europa ocidental e mediterrânica e Ásia oriental. É um arbusto com ramos finos e longos de cor castanha; as folhas, muito pequenas, são escamiformes imbricadas, medem alguns milímetros, e são muito parecidas com as do cipreste, mas moles e caducas. As flores são brancas ou rosa e estão agrupadas em espigas cilíndricas. O tamariz é muito usado como planta ornamental pela sua graciosidade e diversidade cromática ao longo do ano (rosa, depois verde e mais tarde castanha). É também usada para fixação de dunas no litoral.

No arbusto Tamarix mannifera vive a cochonilha Trabutina mannipara, produtora de melada que, uma vez solidificada pelo frio da noite no deserto, pode ser recolhida e servir de alimento. Uma cochonilha que não é praga!


Texto e foto de Ana Aguiar (Eng. Agrícola)
Maio de 2007

24/04/2007

O tojo de Boímo


Ulex europaeus - Parque Biológico de Gaia

Pelo caminho fora já o tojo se mostrava bonito, mas a partir dos Arcos tornou-se esplendoroso. Toda a serra estava em flor. E o amarelo do tojo deita luz. Deve ser porque a flor sendo labiada se fecha sobre si mesma, e guarda lá a luz. De certeza é um pedacinho de sol que lá se esconde e o tojo ilumina a própria atmosfera que o rodeia. A planta em si tesinha, orgulhosa, com os seus ramos elegantes e fortes, anuncia a Primavera antes de tempo, qual arauto alegre e vaidoso. As flores de Verão foram-se há muito, mas quando já nos esquecemos delas, outras vieram para nos alegrar! Primeiro os crisântemos, com seu cheiro seco e as pétalas em “cabeleira”; e, quando a nossa lembrança os deitou fora, (...) chega o tojo de picos muito ruins depois de secos, mas bem menos agressivos quando verdes. E o verde da planta é tão forte de seiva e cor! Aqui só dois ou três pés, além uma leirita meia cheia, mais adiante um campo grande pejado daquele amarelo de sol. Alguns gostam de socalcos e então é vê-los em escadinhas, umas mais esvaídas, outras tontas de cor! Uns espreitam medrosos, outros escondem-se atrás das giestas, porque para elas ainda não chegou a hora. Vê-los de perto é ter a noção da força do agreste vestido de cor pujante e lisinha para amparar o Sol radioso da flor. A bem dizer a Primavera já diz alguns segredos a certas plantas amigas. Os salgueiros são talvez os primeiros a ter rebentos, a couve galega empertigada deita a sua flor branca, fresca e bonita, cheia de alegria, os chorões até já tem folhinhas, e tudo nos lembra o milagre que acabou de acontecer há tão pouco tempo: o milagre das magnólias. Aqui e além ainda se vêem restos das suas flores, e elas deixam-nos as suas pétalas côncavas descansando pelo chão fora para se fazerem lembradas. Como se fosse possível esquecê-las! É neste ninho de alegria e promessas que o tojo mostra a sua flor.

Ai tojo “meu” de Boímo, por que és tão bonito e viçoso? Visita-nos todos os anos. Mas por que te «calas» tão depressa e não ficas connosco até vir a chuva de Inverno?


Março de 2006
Maria de Lourdes Álvares Ribeiro [kiki-ribeiro(at)sapo.pt]

15/04/2007

As magnólias


Magnólia em Santo Tirso, 3 de Março de 2007

Há magnólias de folhas vivazes, grossas, revestidas de verniz brilhante, espesso e seco. As folhas vão caindo aos poucos, e pelo ano fora deixam no chão um desenho de cores com amarelo, castanho, verde, algumas até mesmo de preto se vestem. A sua ramagem é frondosa, e a árvore chega a ser enorme. As flores brancas fazem-se um pouco rogadas pois é preciso procurá-las com os olhos para as encontrarmos no meio daquela floresta de folhas verdes e duras. Às vezes apetece colhê-las só para as desgarrar daquela ramagem imensa e linda. Na mão parecem mais lindas ainda, o que não acontece com as magnólias de folha caduca, pois a essas temos quase medo de lhes tocar. São estas últimas que anunciam o milagre da Primavera. E vingam-se das suas irmãs dando flores antes mesmo de chegarem as folhas. Em Fevereiro conseguem fechar a porta do tão triste Inverno para nos alegrar. Quem as conhece espreita-lhes a chegada como se faz com as andorinhas: vai-se à janela, pergunta-se ao Sol se está quentinho, rogam-se pragas à chuva que dá viço à planta mas mela as flores… Porém a expectativa é grande, sobretudo porque a vinda da floração não tem dia marcado. Os rebentos vão crescendo compridos bicudos, compactos, mas os ramos sem folhas ainda cheiram a Inverno! Só que os botões não tomam conhecimento e vão procurando antecipar a Primavera alojando-se aconchegados e felizes. Um dia lá vem uma corzinha de flor surgindo do miolo do rebento. É a certeza de que virá breve aquele milagre de espanto, e para isso basta esperar um pouquinho. A árvore cobre-se de flores brancas ou arroxeadas. Pétalas côncavas, primeiro fechando-se numa quase bola, que depois se vai abrindo lentamente. Pétalas que perdem a força, mas não perdem a cor que levam para o chão quando caem. Talvez para se vingarem do Inverno. E cobrindo os ramos sem folhas as flores das magnólias tornam o espectáculo mais milagroso ainda. No Porto vale a pena fazer uma peregrinação visitando as magnólias em flor e tantas ali há!

Vivido desde que há magnólias, escrito em 21-04-2006 por
Maria de Lourdes Álvares Ribeiro [kiki-ribeiro(at)sapo.pt]
Texto enviado por Ana Aguiar

04/04/2007

Castanheiro centenário- Pussos

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«Este pequeníssimo bosque de castanheiros, carvalhos, sobreiros, pinheiros e pilriteiros, no Carvalhal de Pussos, concelho de Alvaiázere (Leiria), nasceu de um abandono.
Todo o palmo de terra, nesta terra, tem dono, e a propriedade é condição exigente de rentabilidade, num povo que foi (é?!), sem demagógicos discursos, pobre e iletrado.
São três os destinos possíveis para um palmo desta terra: uma habitação, junto às rodovias que atravessam a localidade, ou uma horta, nos solos regados do vale ou no sopé das colinas suaves, ou um eucaliptal, monocultura maioritária que cobre os montes. Do abandono de uma horta, há cerca de 50 anos, e porque o processo de herança, após o falecimento da velha agricultora, havia ficado difuso, foi a Natureza quem, legitimamente, recuperou o que lhe pertencia. Com a mestria de uma artista criadora, ela desenhou um habitat selvagem, tornou-o de difícil acesso, e camuflou-o das atenções humanas.
Em 2006, aos 25 anos, um rapaz que morava a 300 metros da floresta, na colina contrária, arriscou seguir os trilhos dos animais, abrindo caminho pelos silvados densos. Na clareira do bosque ergue-se o coração protegido da floresta: um castanheiro centenário, da espécie comum Castanea sativa (Mill.), com um perímetro circunferencial máximo de 13 metros. De copa e altura comuns (entre 12-14 metros estimados de altura), a invulgar característica desta árvore é a sua forma: tem 9,50 metros de “anca” (junto ao solo), 7 metros de “cintura”, e cerca de 13 generosos metros de “peito” – em boa forma física, portanto. Acima do “peito” erguem-se, como serpentes na cabeça da Medusa, uma dúzia de troncos secundários que formam a copa.

Um simpático casal de esquilos comuns foi adoptado pelo velho ancião castanheiro e vivem todos felizes.

[O castanheiro centenário é desconhecido pela maioria dos habitantes da aldeia, e aguarda resposta para classificação de Património de Interesse Público, pela Direcção-Geral dos Recursos Florestais ] »


Texto de Alexandre Inácio e fotos de Catarina Mendes

01/02/2007

Parsifal

melrofoto e texto © MLR
Melro num tamariz

«Encontro-me com o melro às 7 e dez da manhã, na Avenida do Brasil. Desde há muitas semanas, espera-me sempre num galho descarnado que sobra, bem mais alto, dum arbusto, apontado ao mar. Ouço-o antes de o ver. Já tentei fotografá-lo, mas é ainda muito escuro. Trina como um profissional. Entremeia agudos e graves com toda a elegância e por vezes, como se lhe falhasse a voz, gorjeia como um meso-contralto. Mas está ali, mancha negra de bico amarelo, senhor do mar e das redondezas, cantando à beleza da vida, cabecita voltada para o céu como se apontasse uma estrela, no seu diálogo com o Criador. E eu julgo perceber o seu canto de alegria, de plenitude. Que está frio, muito frio e que ele só tem as penas negras do Inverno e o calor da sua voz. Que amanhã poderá estar mais frio ainda e que poderá partir para longe do mar em direcção à sua estrela, num começo de eternidade. Mas há-de continuar a gorjear o seu hino à beleza da vida, à alegria de estar vivo num dia belo como o de hoje sem se interrogar sobre esta banalidade do viver.

Isto foi há dias. Hoje ainda ia com esperança de voltar a encontrar-me com o meu Caruso pois tem falhado o nosso encontro. Temo que as últimas noites de zero graus lhe tenham calado o pio: penas negras em repouso com um traço amarelo num ninho escondido. Será a última fotografia dele que te envio ?»

15/12/2006

Escada abaixo


Foto de Francisco Oliveira

Num comentário aqui deixado há precisamente uma semana, Francisco Oliveira falou destes ginkgos numa escadaria de acesso à nova alameda das Antas - dos quais teve entretanto a amabilidade de nos enviar a foto. Para além do fenómeno do desfasamento de cores - um só ginkgo permanece verde numa afirmação de personalidade, enquanto os outros se conformam com o amarelo -, o que se vê na foto é aquilo que Francisco Oliveira já tinha observado: cercadas como estão pelo granito (no chão) e pelo cimento (no muro), os dias de estiagem hão-de ser um suplício para estas árvores. As caldeiras, de tão minúsculas, também não lhes auguram grande futuro. Uma delas já morreu. É triste assinalar como no Porto se vem dando um retrocesso tão acentuado nas boas práticas com árvores, pois os ginkgos que se plantaram há anos na avenida da Boavista (junto ao Hospital Militar) e em 2001 nas ruas Galeria de Paris e Cândido dos Reis beneficiaram de caldeiras muito mais generosas. No caso desta escadaria não foi obviamente a falta de espaço que ditou tal asneira: foi inépcia dos projectistas, que por timidez ou negligência os serviços camarários não quiseram corrigir. Se as árvores pudessem crescer normalmente, este alinhamento descendente sublinhando a geometria quebrada do muro comporia em poucos anos, mesmo descontando os borrões na parede, um quadro digno de admiração.

29/09/2006

Flores de papel



As inflorescências das herbáceas do género Celosia, da família Amaranthaceae, são o ideal dos aficcionados das flores secas, as que duram nas jarras por longos anos sem serem falsas, de plástico ou pano. As flores não têm pétalas e as brácteas aveludadas têm textura de papel engelhado. Podem apreciar-se agora - até que o frio as obrigue a recolherem-se a estufas de ambiente tropical - nos canteiros de algumas ruas do Porto, alternando com begónias, zínias, tagetes ou escovinhas (Ageratum houstonianum). Como são híbridos cujo genoma tem mais cromossomas do que o usual, exibem grande diversidade morfológica; para poupar confusões, os horticultores agrupam-nas em quatro classes identificáveis pelo formato das inflorescências:
- Spicata: são espiras cónicas, e as flores abrem da base para o topo;
- Cristata: são achatadas e retorcidas como cristas-de-galo;
- Plumosa: parecem plumas erectas de cor berrante;
- Childsii: redondas como cabeças.
O termo Celosia deriva do grego kéleos, queimado, seco; Amaranthacea tem origem em amárantos, o que não murcha.


[A 3.ª foto foi cedida pelo desNorte e tirada no Jardim Botânico de Munique.]

24/08/2006

Jardim Botânico de Munique



Fotos cedidas pelo desNorte (clique para aumentar)

O Jardim Botânico de Munique foi fundado em 1812, mas só em 1914 se fixou na sua actual localização, um parque de 22 hectares nos arredores da cidade, contíguo ao palácio de Nymphenburg. Um jardim botânico com notáveis colecções, excelentemente planeado e mantido. As fotos que hoje publicamos (e outras que ficarão a aguardar melhor oportunidade) servem para aguçar o apetite a quem, como nós, nunca lá foi.

A árvore da segunda foto é um Acer sieboldianum, árvore de pequeno porte originária da China e da Coreia que tem a elegância característica dos áceres orientais; não nos recordamos de alguma vez a ter visto em Portugal. Na última foto aparecem prímulas de uma espécie (Primula vialii) pouco comum nos nossos jardins.

25/07/2006

Provérbios- S. Tiago

,

Foto joaoRedrose ( at gotaepinga.blogspot)

No S. Tiago pinta o bago.
No dia de São Tiago, a velha vai ao bago.
Pelo São Tiago, vai à vinha e prova o bago.
Pelo São Tiago, pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.
Pelo S. Tiago na vinha acharás bago, se não for maduro será inchado.

Mais "Provérbios de Julho" - Os provérbios populares

20/06/2006

Os metrosíderos do Castelo do Queijo


Metrosideros excelsa

Quem os plantou não sabia que a mão de Deus ali estava.
Quantos anos se esperou por aquele deslumbramento?
Quantas gerações ali foram aguardando o milagre da Natureza?
Ninguém sabe? nem é preciso!
O importante é o presente que nos pertence e o privilégio de o vivermos.
Passar lá com sol, é enfiar os olhos no verde meio claro da ramagem que a luz viva embrulha!
Olhar as folhas com a luz rouca e cinzenta da chuva é também um espanto!
Quando paramos para ouvir a música do vento fustigando as folhas (seja ele norte ou suão), nasce um concerto de luz e de dança deslumbrante.
São árvores? Não! São arbustos centenários que o tempo agigantou com uma imensidão de altura e uma copa enorme e densa impossível de medir.
Mas com o vento suão e a chuva a acompanhar, os ramos cantam e?
Choram acompanhados pelas gotinhas de água caindo.
Os metrosíderos do Castelo do Queijo são mesmo inexplicáveis. Nasceram para as gentes que passam.
Entendê-los? Só o tempo o consegue!
Primeiro manda-lhe um verde perene e variado. Porque a folha pela frente é mais viva e tem mais cor, mas pelo avesso é esbranquiçada. E assim fica linda e espessa com o passar das estações.
Mas quando o Verão se aproxima vamos lá para espreitar o que está a preparara-se.
Um dia nada se vê; depois o botão verde começa a chegar, e com o tempo vai-se abrindo até nos trazer uns fios rubros que afinal são a flor. De longe vêem-se aqueles chapeletes bem vermelhos deslumbrando quem olha e quem vê!
O Verão chegou! E os metrosíderos acharam pouco mostrar o seu porte enorme e lindo, e quiseram dar-nos aquele espectáculo que une a Terra ao Céu. A maravilha daquelas manchas extraordinárias aconchega-se em nós até ao próximo Verão. Quase não é preciso esperar porque aquele espectáculo da Natureza se enraíza na nossa alma e a imagem ao vivo volta intermitentemente pela mão da nossa imaginação.


Maria de Sousa
Passeio Alegre, Junho de 2006
(texto enviado por Ana Aguiar)

11/06/2006

Tílias de uma vida

Roubaram a minha Tília
Hoje voltei a fazer um percurso que me era habitual e que há bastante tempo não fazia. Ao subir a Rua Álvares Cabral (Porto) já só pensava em ver a minha Tília, ali no alto da Rua, no Jardim da Praça da República. Era uma Tília Perfeita, um exemplar maravilhoso. Dei-a a conhecer às minhas filhas e a alguns dos meus netos. Eles já sabiam que aquela era uma das árvores da Avó. Um dia, com grande desgosto, mostrei-lhes a poda que tinha sofrido a minha Tília. Uma poda incompreensível pois, naquele sítio, os seus ramos não eram estorvo para ninguém. Mesmo assim, era uma Bela Árvore. Hoje estou de luto. Há muito que não passava por ali e estava ansiosa por voltar a ver a minha Tília. Nem queria acreditar!! Porque mataram a Tília? Porque roubaram a minha Tília??



Fotos manueladlramos: a Tília e o Carvalho de Lordelo do Ouro - Abril 2006
Não lhe façam mal!!
Há outra Tília que também é minha e faz parte dos meus percursos actuais. Fica em frente ao Ipanema (Lordelo do Ouro, Porto). Precisava no entanto que a libertassem de outros arbustos e árvores pequenas que a rodeiam. Então, ficaria ela só, a reinar em toda a sua beleza e esplendor. Não lhe façam mal!! Um pouco mais acima do Ipanema há um belíssimo carvalho (Quercus coccinea?). Também é meu. Os meus netos sabem-no bem. Nunca passam por ali indiferentes. Não lhe façam mal!!


Avó Mixu, 6 de Junho de 2006
(textos enviados por Ana Aguiar)
Mais tílias

30/05/2006

Invasão de traças

«Quase ninguém ficou indiferente à invasão de traças que este fim-de-semana aconteceu na região do Porto. Tratou-se, entre outras, da espécie Autographa gamma, um lepidóptero da família Noctuidae. O batimento de asas é tão rápido que torna impossível ver o bonito desenho que as asas anteriores apresentam: uma ornamentação prateada em forma de gama sobre fundo em vários tons de castanho pode ser uma explicação para o nome científico dado a esta espécie identificada por Linneu em 1758 (na altura recebeu o nome Phalaena gamma).

A rápida subida da temperatura destes dias poderá ser a causa da concentração em poucos dias da emergência destes noctuídeos migrantes. Nos próximos dias tudo voltará à normalidade e a vida destes indivíduos acabará, mas não sem antes terem deixado milhares de ovos cuidadosamente colocados nas páginas inferiores de folhas de diferentes espécies de plantas. Alguns dias depois haverá lagartas a alimentarem-se vorazmente das folhas de árvores como bétulas ou salgueiros, plantas herbáceas cultivadas como os cereais trigo, aveia ou cevada, e ainda em muitas plantas espontâneas da flora portuguesa como as urtigas, cardos ou trevos.

E para quem pensava que estas traças iam fazer buracos nas camisolas de lã e cobertores, pode ficar descansado. As traças da roupa são também borboletas que, tal como estas, tendem a voar à noite mas tratam-se de espécies dos géneros Tinea e Tineola da família Tineidae. São mais pequenas (9 a 16mm de envergadura contra 45mm da Autographa gamma) e geralmente preferem ficar em casa do que voar pelas ruas à volta de candeeiros e árvores.

Quanto a esta traça Autographa gamma, para o ano, por esta altura, quando a temperatura subir, teremos outra invasão nas nossas ruas, casas e árvores, para surpresa de muitos e gáudio de morcegos e aves insectívoras. Afinal, mesmo na cidade, as folhas das árvores também são importantes para criar biodiversidade.

Sites propostos:
http://ukmoths.org.uk/show.php?bf=2441
http://ftp.funet.fi/pub/sci/bio/life/intro.html
http://www.inra.fr/Internet/Produits/HYPPZ/RAVAGEUR/3autgam.htm
http://www.leps.it/SpeciesPages/AutogGamma.htm »
Texto de Ana Aguiar (Eng. Agrícola)

Foto de manueladlramos: "A minha palhinha é melhor do que a tua..."
Borboleta alimentando-se do néctar da flor de goivo (Cheiranthus cheiri)

04/04/2006

«Um plano mui elegante»

«Foi, como nos descreve Carlos de Passos no seu Guia Histórico e Artístico do Porto, publicado em 1935 pela Casa Figueirinhas, "debaixo de um plano mui elegante", que no dia 4 de Abril de 1834 foi aberto ao público aquele que ainda hoje permanece como uma das jóias verdejantes da cidade do Porto: o Jardim de S. Lázaro, ou, na sua designação oficial, Jardim de Marques de Oliveira. Apesar de ter sido concluído somente em 1841, o mais antigo jardim público portuense foi inaugurado no ano em que se iniciaram as suas obras, em 1834, no dia do aniversário de D. Maria II, Rainha de Portugal. Tido durante muitos anos como local de reunião por excelência de numerosas famílias do Porto, e apesar de estar, hoje em dia, diferente dos seus anos iniciais, este aprazível recanto verde, cujo traçado se deve ao jardineiro municipal João José Gomes, conserva ainda algumas das suas frondosas espécies arbóreas, como as esplêndidas magnólias (Magnolia grandiflora), as tílias (Tilia argentea), ou as camélias (Camellia japonica), bem como outros vestígios da sua época áurea, como o lago, o coreto, e a fonte de mármore vinda do Convento de S. Domingos, pontuado ainda por várias esculturas, como a de autoria de Soares dos Reis dedicada ao pintor João Marques da Silva Oliveira (1853-1927), que dá o nome ao jardim. Com o pretexto dos seus 172 anos de existência, fica então aqui o convite para uma visita a esta magnífica obra municipal.»

Texto e fotos da Arq. Paula Morais
(... a quem muito agradecemos a lembrança e o valioso contributo. Sobre as magnólias, apenas uma nota: quando escrevemos o livro À sombra de árvores com história, a consulta de documentos camarários da época permitiu-nos concluir, sem grande margem de erro, que essas árvores foram plantadas em 1911, data em que o jardim sofreu importantes modificações.)

29/03/2006

De Coimbra vêm flores (2.ª parte)




É outra vez ao Eduardo que devemos estas notáveis fotos tiradas no Jardim Botânico de Coimbra. A magnólia agora em destaque é mesmo um caso especial, e vale uma ida urgente a Coimbra para admirar as suas maravilhosas flores: trata-se de uma Magnolia liliflora var. nigra, arbusto originário da China que, tendo o hábito de brotar rebentos das raízes, acaba por formar autênticas touceiras. A variedade nigra distingue-se da forma típica da espécie por as suas flores serem púrpura por fora e por dentro (na outra as flores têm essa mesma cor por fora mas são brancas por dentro). Mas qualquer das versões é uma raridade nos nossos jardins.

24/03/2006

Aditamento specioso



Magnolia x soulangiana var. speciosa no Jardim Botânico de Coimbra (Quadrado Central). Fotos de Eduardo.
(PS. A folhagem e as bagas vermelhas talvez não sejam da mesma árvore, mas de uma outra magnólia no mesmo local.)

18/02/2006

Camélias e pássaros


Foto: pva 0602 - Mathotiana rubra, mãe de Augusto L.G.P.

«Linda, a camélia da manhã. Puríssima. Eu entrava no horto quando era miúda e sim, lembro-me das camélias por serem das minhas flores preferidas, ainda não tinham nome de "Lavinia" ou "Margaret". Por isso é que hoje ao vê-las aqui, é como folhear um album de gente conhecida e amiga. Acho que, na verdade, as conheço bem. E por saber que não "cheiravam a nada", cheirava-as todas. Chamavam Japoneiras às árvores; eu também era bastante virada a Oriente pelo que nelas até o nome me atraía! Ali era, então, o horto, em frente ao Museu. A casa existe (é linda por dentro), ficou emparedada pelo "Cristal qualquer coisa". Ao fundo desse CC sentei-me algumas vezes, de coração partido, a olhar para os melros e as poucas árvores que aí restam. Os quintais vizinhos, também. Como fazem as lojas ou os cafés tão escuros quando há pátios e trepadeiras nos velhos jardins! Como se fecham, com tanto sol e ar e céu e mar! A pêra que ainda hoje é o logotipo do horto, estava na parede do lado do Carregal e dizia "Plantai as nossas sementes e colhereis melhores frutos", talvez... Eu gostava muito daquele anúncio, uma pêra grande. Assustava-me um pouco o imperativo - Plantai; tomai e comei; Olhai - parecia-me um pouco como o dedo ameaçador de Deus no catecismo (eu só gostava daquele Jesus que expulsava os vendilhões do templo, esse é que me dava gozo). Iamos lá, ao horto, eu e o Senhor Juvandes (incrível como me lembrei deste nome) quando havia alguma "festa" no Museu - seria isso? Não sei bem, sei que um jardim e plantas e árvores e bolbos e flores eram o meu encantamento, sempre. Pois, o Senhor Luís J era o porteiro do Museu Soares dos Reis. Eu morava perto e era pequena, levava-me com ele para brincar nos jardins. Ao fundo, tenho a certeza de que havia vacas a pastar. Um pórtico em pedra, árvores enormes. Gárgulas, miosótis (forget-me-not) e musgo macio. Escadinhas com heras. Pedras trabalhadas abandonadas pelos canteiros. Leões nas fontes e nenúfares rosados. O rei D.Afonso Henriques estava no átrio, estátua imponente (para mim) com a sua cota e espada. Tirando o D. Dinis que lavravra e fazia poesia, esse era o rei que de quem eu gostava antes de o aprender na Escola. Eu andava pelo museu e pelos jardins, livre com uma abelha. Todas aquelas estátuas, muitos quadros, instrumentos musicais, faianças, vestuário antigo bordado, em tudo isso eu podia mexer porque eu era "a menina bem comportada". Quando pedi, há um ano ou dois, a um segurança, para me deixar ver o jardim lá atrás, fiquei chocada. Não explico porquê. Foi mais um arranjo modernaço.

Não há sítio de romance. (Romances só nos Centros Comerciais, nas Praças da Alimentação, com árvores e comida plástica). Isto é o que te queria contar da camélia, do horto e do museu. Há um pássaro que aparece, fugidio, nos prédios das traseiras. Não é pomba, nem pardal, nem gaivota, nem rola, nem melro. É um pássaro esbelto, saltitante, com duas manchas brancas nas asas. Vai, determinado, a um sítio. Num segundo pousa e no outro voa. Quando voa para baixo, o pátio, faz uma curva graciosa. Quando abre as asas e foge como uma seta vêem-se manchas côr de laranja. Algums homens são como alguns pássaros. São coisas que eu às vezes cogito - há tempos que não escrevo esta palavra... mas é uma coisa que faço muitas vezes: não só pensar, cogitar, que me parece mais completo e controverso.»


Carta de E.P. (16/II/2006)