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24/10/2017

Cárice peluda


Fuirena pubescens (Poir.) Kunth


Porque o deserto não é uma praia esticada até ao infinito, os beduínos preferem envergar grossos capotes em vez de optarem pelo traje sumário dos banhistas. O mesmo princípio leva certas plantas adaptadas à secura extrema (como este cacto) a cobrirem-se de pêlos para se protegerem do sol e minimizarem as perdas de água. Inversamente, as plantas que vivem em ambientes alagados pouca necessidade têm de tal resguardo, esperando nós, por essa razão, que elas sejam glabras ou a caminho disso. Esta ciperácea, amante de charcos como tantas outras da sua família, não parece estar de acordo com tal dedução, embora também não seja dos contra-exemplos mais eloquentes. A parte hirsuta da planta, a que se refere o epíteto pubescens, concentra-se na bainha das folhas, nos pedúnculos e nas inflorescências, enquanto que a parte por vezes submersa, que é a base do caule, fraca pilosidade apresenta.

O nome Fuirena homenageia o médico e botânico dinamarquês Jorgen Fuiren (1581-1628), ainda que esse género, englobando umas 60 espécies, seja predominantemente tropical e do hemisfério sul. Dessa lista, a F. pubescens é a única espécie (tangencialmente) europeia, por surgir na Península Ibéria, Itália e algumas ilhas do Mediterrâneo (Córsega, Sardenha, Baleares, Chipre, etc.), mas de resto tem uma distribuição vastíssima, abrangendo quase toda a África, o Médio Oriente, a Ásia tropical, a Austrália, a Papua Nova Guiné e muitas outras ilhas do Pacífico. Em Portugal aparece sobretudo nos charcos e represas que pontuam as grandes extensões arenosas do Ribatejo e do Alto Alentejo.

Se o habitat não ajuda a diferenciar a F. pubescens de outras espécies semelhantes (Bolboschoenus glaucus e Schoenoplectus lacustris, por exemplo), podemos notar que ela, além de ser peluda como as outras não são, é uma planta de menor envergadura, não ultrapassando, em regra, os 75 cm de altura (o Bolboschoenus atinge facilmente 1 metro de altura, e o Schoenoplectus lacustris mais que duplica essa marca).

22/08/2017

Águas entubadas



Bolboschoenus glaucus (Lam.) S. G. Sm.



Desde os humildes regatos aos grandes rios, os cursos de água assumem os mais variados tamanhos, mas todos eles porfiam por alcançar o mar. Alguns fazem-no directamente, outros entregam-se como afluentes aos que já romperam caminho para a costa. Com o crescimento das cidades, as ribeiras de pequeno caudal que as atravessavam foram sendo entubadas, por serem incompatíveis com o cimento e o asfalto ininterruptos sobre os quais nos habituámos a fazer a nossa vida. Uma vez escondidas dos nossos olhos, podiam ainda, ignominiosamente, ser convertidas em esgotos. Os lugares onde as águas, finalmente a descoberto, chegavam ao mar (ou a um rio que, pela sua dimensão, não pudesse ser ocultado) tornavam-se então focos de sujidade e de cheiros pestilentos. Porque a espécie humana sente uma repugnância paradoxal pela porcaria que ela própria produz, não é essa a vizinhança preferida de quem vai à praia para banhos de sol ou de mar. A solução era prolongar o entubamento pelo mar fora, fazendo com que a água choca saísse a umas centenas de metros da praia.

Felizmente muito mudou nas últimas décadas, e essa é uma conquista civilizacional que merece ser celebrada. Em Gaia e em Matosinhos, muitas ribeiras foram despoluídas e (parcialmente) desentubadas, desaguando agora no areal sem incómodo para os veraneantes e sem lhes pôr a saúde em risco. É até didáctico: às crianças que se entretêm a fazer castelos de areia podem agora os pais mostrar um rio em miniatura chegando à foz. Entre a flora dunar beneficiada por esta melhoria conta-se a Honckenya peploides, que vive em areias de beira-mar mas precisa de molhar as raízes em água doce. Em Matosinhos não é invulgar encontrá-la debruçada nestes ribeiritos que meandram preguiçosamente pelo areal. A sul do Douro ela rareia, e há dois ou três anos que não conseguimos detectá-la nos pontos do litoral gaiense onde costumava existir. Oxalá reapareça. Em compensação, na Aguda, onde um curso de água recém-libertado forma um pequeno charco na areia, surgiu uma população, concentrada mas numerosa, de uma das ciperáceas mais raras do país, o Bolboschoenus glaucus. Trata-se de uma planta com caules com cerca de 1 m de altura, de secção triangular, encimados por espiguetas dispostas em fascículos longamente pedunculados; no seu congénere B. maritimus, bastante mais comum em Portugal, todas ou quase todas as espiguetas são sésseis. As duas espécies vivem sempre com um pé na água, mas o Bolboschoenus glaucus é exclusivo de águas doces e o B. maritimus (que existe com abundância, por exemplo, na lagoa de Paramos) dá-se bem em águas salobras.

Se as plantas se conformassem com o que os estudiosos escrevem sobre elas, o Bolboschoenus glaucus nunca apareceria em Gaia, pois a Flora Iberica apenas reporta a sua ocorrência no centro e sul do país. Mas, para uma espécie cuja área de distribuição natural vai da Europa até à Índia, não custará muito transpor as curtas distâncias dentro deste nosso ocidental rectângulo.

09/05/2017

Praias de pouco andar



Cyperus capitatus Vand.


O regresso da chuva -- amaldiçoada por aqueles que desejam que ela só caia de noite ou, se tiver mesmo de cair a horas menos amigáveis, apenas onde faça falta (campos, albufeiras) -- obriga os portugueses a interromper temporariamente os ensaios para as férias de Verão. Com estas tépidas Primaveras a que nos vamos afeiçoando, a época balnear ocupa no mínimo metade do ano, e os areais que costumavam encher-se apenas em Agosto acolhem agora banhistas de Abril a Setembro. Talvez se deva lamentar o fraco empenho dos portugueses em diversificar as suas (in)actividades de lazer, mas quem mais sofre com o assalto contínuo às praias são as plantas dunares. Embora o problema seja atenuado pela instalação de passadiços nas praias mais concorridas, há plantas que se fizeram raras e poucas oportunidades terão de se reinstalar nos lugares de onde foram (involuntariamente) extirpadas.

A junça-da-praia (Cyperus capitatus), que é nativa de toda a região mediterrânica e, em Portugal, deveria aparecer do Minho ao Algarve, fez-se entre nós bastante esporádica. A crer no portal Flora-On, praticamente desapareceu a norte do Douro. As praias do litoral centro onde ainda persistem bons contingentes da espécie são aquelas que, pelos maus acessos e pela ausência de rede de telemóvel, são evitadas pelos veraneantes comuns. Planta de proporções modestas, com hastes que não ultrapassam os 40 cm, a junça-da-praia destaca-se da família a que pertence, em grande parte formada por espécies pouco vistosas, pela atraente folhagem glauca, semelhante à do narciso-das-areias (Pancratium maritimum). Tal como outras espécies que vivem em areias móveis, é dotada de um rizoma comprido, às vezes com vários metros de comprimento, podendo uma mesma planta lançar hastes bem afastadas umas das outras.

O nome junça pode ser dado a qualquer uma das dez espécies de Cyperus na flora portuguesa, das quais nove são tidas como autóctones e uma (Cyperus eragrostis) é exótica e assaz invasora. As três brácteas muito compridas onde se aninha a inflorescência são um distintivo traço comum a todas elas. Com a notória excepção da junça-da-praia, são plantas de terrenos húmidos, amiúde encharcados. A mais famosa espécie do género, que não pertence à flora portuguesa mas é cultivada em jardins aquáticos, é o Cyperus papyrus, originária de África e usada no antigo Egipto para produzir o papiro, suporte de escrita que foi um dos primeiros antepassados do papel.

13/09/2016

Lagoas de Cantanhede

Que resta de natureza num concelho como Cantanhede, onde todos os metros quadrados de terreno parecem ter sido avaramente aproveitados para algum fim? Entre pinhais, eucaliptais, vinhas, campos de cultivo, fábricas, armazéns, povoações desordenadas e vivendas avulsas, numa paisagem plana, sem maciços rochosos e sem recantos, haverá ainda lugar para o que é espontâneo? A resposta, já se adivinha, é enfaticamente positiva. Basta lembrar que os pinhais da Tocha, embora infestados por acácias, dão abrigo a camarinhas, samoucos, giestas variadas, sargaços amarelos e brancos, salgueiros-anões, meia dúzia de espécies de orquídeas, e até a um verbasco endémico da costa portuguesa. Beneficiando das estradas em estado calamitoso, da ausência de redes de telemóvel e de outros inconvenientes que afugentam os veraneantes, certos pontos do cordão dunar apresentam uma flora em muito bom estado. Avançando para o interior, e já perto da sede de concelho, o Horst de Cantanhede é uma pequena ilha calcária que, a somar a uma invejável colecção de orquídeas, logrou reunir uma mão-cheia de raridades (como esta, esta ou esta), algumas delas no limite norte da sua distribuição em Portugal.

E, rodeadas por matas de produção ou por campos agrícolas, muitas são as lagoas e charcos que pontuam as imagens aéreas do concelho. Antes da invenção do Google Earth, só quem consultasse os mapas militares se aperceberia dessa fartura de águas paradas. Não havendo diferenças de altitude, ou sendo elas quase insignificantes, as águas não se esforçam por chegar ao mar a não ser nas épocas de muita chuva. Artificiais ou naturais, essas lagoas acabam por ser o refúgio de plantas que desapareceram das zonas do país onde os habitats palustres se fizeram raros. Em Cantanhede, as populações de Utricularia australis, uma planta carnívora aquática com flores amarelas que fazem lembrar as das linárias, devem ser as maiores do país.

A freguesia de Cantanhede com maior número de pequenas lagoas talvez seja a de Febres; um dos lugares da freguesia tem precisamente o nome de Lagoas. Será apenas coincidência que uma terra com tantas lagoas e charcos se chame Febres? O senso comum considera (ou considerava) tais lugares como viveiros de mosquitos transmissores de infecções - ou seja, causadores de febres. Mas, como o nosso clima não é tropical e a água faz falta, e como um ecossistema em equilíbrio raramente é fonte de pragas, é preferível deixar as lagoas em paz em vez de tentar secá-las. Além do mais, mesmo não se aconselhando mergulhos, as lagoas são bonitas, com margens agradavelmente providas de sombras para acolher famílias merendantes.



Schoenoplectus lacustris (L.) Palla


O Schoenoplectus lacustris, popularmente conhecido como bunho (embora o mesmo nome se dê a uma espécie de menor porte, Scirpoides holoschoenus, comum em todo o país), é uma ciperácea de quase três metros de altura que guarnece profusamente duas das mais recatadas lagoas de Febres. Como planta rizomatosa que é, forma densos aglomerados na borda das lagoas, suprindo a falta do caniço (Phragmites australis), que talvez prefira substatos mais arenosos. As hastes deste bunho, quase destituídas de folhas (que estão em regra reduzidas a bainhas), são grossas, com uns 2 cm de diâmetro, e têm secção perfeitamente circular. As inflorescências, formadas por várias dezenas de espiguetas cada uma com 1 ou 2 cm de comprimento, surgem como cabeleiras despenteadas no topo das hastes, e a floração, que começa na Primavera, prolonga-se pelo Verão dentro. De acordo com a Flora Ibérica, a espécie deveria estar presente em todas as províncias portuguesas, mas no portal Flora-On só se dá conta de ocorrências no centro e sul do país. A mesma Flora Ibérica considera, além da subespécie nominal (representada nas fotos), a subsp. glaucus, que vive em sapais e em estuários e tem dimensões menores.

O nome galego (e espanhol) do Schoenoplectus lacustris, que é antela, recorda um dos piores actos de destruição da natureza levados a cabo no país vizinho ao longo do século XX. A planta deu nome à lagoa de Antela, uma das mais extensas zonas húmidas da Península Ibérica: com 40 Km^2 de área, era várias vezes maior do que a nossa Pateira de Fermentelos. Situada na província de Ourense, a cerca de 600 m de altitude, a lagoa foi drenada em 1959 por ordem do governo de Franco, que justificou o ecocídio pelo aproveitamento agrícola dos terrenos e como medida para erradicação dos mosquitos.

02/02/2016

Segredos da Pipa (2)


Lamarosa, Coruche
Continuamos nas margens da represa da Pipa, cautelosos para não pisotear aquilo que as vacas, retidas pela cerca de arame, não tiveram oportunidade de estragar. A mesma cerca deveria ter-nos impedido a aproximação, mas já se sabe que isto de botanizar é um regresso aos livros de aventuras juvenis, em que uma porta fechada é um convite a entrarmos pela janela.


Cyperus flavescens L. [= Pycreus flavescens (L.) P. Beauv. ex Rchb.]
São duas as ciperáceas hoje na montra, ambas amareladas e a primeira denunciando isso mesmo no epíteto flavescens. Incluída por Lineu no género Cyperus, foi transferida pelo naturalista Palisot de Beauvois (1752-1820) para um novo género a que chamou Pycreus, mas a proposta não teve acolhimento unânime. Ambos os géneros são caracterizados por espiguetas achatadas, com os florículos organizados em duas fiadas opostas, mas no género Pycreus, tal como delimitado por Beauvois, os aquénios não são marcados por um sulco dorsal, ao contrário do que sucede no género Cyperus sensu strictu. É uma diferença imperceptível a olho nu e que, para ser confirmada, exige a colheita da espigueta e o uso de uma boa lupa. Em todo o caso, o Pycreus (ou Cyperus) flavescens, que tem uma ampla distribuição por três continentes (Europa, África e América) e em Portugal faz o pleno do continente, Madeira e Açores, é fácil de reconhecer pelo seu pequeno porte (7 a 30 cm de altura) e pelo molho de espiguetas amarelas. Muito parecido, mas com espiguetas de um castanho quase negro, é o Cyperus fuscus, que vive também em habitats temporariamente encharcados.

Pycreus é um óbvio anagrama de Cyperus. Outros exemplos do mesmo teor que mostram como os botânicos gostam de brincar com as palavras são Mantisalca (anagrama de salmantica) e Logfia (anagrama de Filago).


Fimbristylis bisumbellata (Forssk.) Bubani
Baptizada com o polissilábico nome de Fimbristylis bisumbellata, esta ciperácea fica, com os seus 15 cm de altura máxima, muito aquém da grandeza que o nome promete. Traduzido à letra, Fimbristylis significa estilete fimbriado ou franjado, enquanto que bisumbellata se refere, presumivelmente, à nada evidente disposição das espiguetas em dupla umbela (já que estamos em maré de anagramas, bilambuzata seria um bom adjectivo para uma criança com um chupa-chupa na boca). Ainda que tenha alguma semelhanças com os Cyperus / Pycreus, a Fimbristylis diferencia-se bem pelas espiguetas arredondadas (não achatadas) com os florículos dispostos em espiral.

Em Portugal, a Fimbristylis bisumbellata é muito pouco comum (veja aqui o mapa de distribuição) e só aparece em território continental. Trata-se porém de uma espécie quase cosmopolita, presente como nativa nos dois hemisférios e, a julgar por esta página, muito disseminada pelas regiões tropicais ou subtropicas da Ásia, África e Austrália.

04/08/2015

O charco na pedra


Isolepis setacea (L.) R.Br.



As ciperáceas, como as gramíneas, são feitas para não serem notadas. Mesmo quando cobrem vastas superfícies, a nossa ignorância e desatenção fazem delas uma esbatida imagem de fundo que designamos por nomes imprecisos como "ervas", "juncos" ou "canas". Além de serem pouco chamativas, algumas destas plantas anónimas, em especial os "juncos" (verdadeiros ou falsos), ocupam habitats aquáticos ou paludosos nos quais só com dificuldade conseguimos mover-nos. A planta de hoje até vegeta em lugares acessíveis, mas, pelo seu tamanho diminuto, faz da discrição um ponto de honra. As espiguetas florais, solitárias ou aglomeradas em grupos de duas ou três, têm uns 5 mm de comprimento, e surgem em hastes finas, não ramificadas, de 5 a 20 cm de altura; as folhas, que parecem ausentes, estão reduzidas a bainhas na base dos caules. De entre as três espécies do género que ocorrem nos Açores (todas de ampla distribuição europeia ou até mundial), a Isolepis setacea singulariza-se por as espiguetas parecerem emergir da parte lateral da haste em vez de saírem da extremidade. Contudo, aquilo que parece ser o prolongamento da haste é na verdade uma bráctea, que nesta espécie é muito comprida (pode chegar aos 3 cm) e, quando a planta já está bem desenvolvida (não é esse o caso dos exemplares fotografados), ultrapassa claramente as espiguetas.

As Flores, que são uma esponja em forma de ilha, proporcionam inúmeros recantos favoráveis à instalação da Isolepis setacea. Além do mais, o tamanho exíguo da planta permite-lhe vegetar onde quer que a água se acumule, nem que seja uma poça numa cavidade da rocha. Foi numa pia escavada na pedra, visível na 1.ª foto mas impossível de adivinhar para quem contempla da estrada o maciço erecto da rocha dos Frades, que tivemos ocasião de a observar. Por perto, e aproveitando o abrigo das escarpas para fugir à voracidade de vacas e cabras, havia algumas das especialidades da flora endémica açoriana: Cardamine caldeirarum, Centaurium scilloides, Leontodon hochstetteri, Platanthera micrantha, Ranunculus cortusifolius, Scabiosa nitens. Por muito gratificante que seja encontrar reunidas tantas preciosidades, a sua presença era perfeitamente normal. O que surpreende é o modo como as plantas certas conseguem colonizar micro-habitats isolados como este de dois ou três metros quadrados, em que a acumulação fortuita de água cria uma descontinuidade absoluta com o habitat envolvente. Quem lhes deu (às plantas) notícia de que o lugar lhes convinha, e como chegaram elas até lá?



FÉRIAS

Regessamos na última semana de Agosto. Até lá, sugerimos a quem habitualmente nos visita que vá espreitar o recente Wild Iberia.

20/06/2015

Encontro das águas (3.ª parte)


Schoenus nigricans L.


Ao contrário das espécies que figuraram nos capítulos anteriores da série, as ciperáceas de hoje são polivalentes, não vivendo exclusivamente à beira-mar nem tendo preferência declarada por águas salobras. A primeira delas nem sequer exige muita água: a sua presença pode simplesmente assinalar locais onde, na época das chuvas, se formam charcos que secam com a estiagem. Nos pinhais litorais do centro oeste, entre Mira e Figueira da Foz, é frequente vê-la ocupar depressões dunares e orlas de pequenas lagoas. De seu nome Schoenus nigricans (o que pode traduzir-se por junco-negro), é uma herbácea rizomatosa com caules até uns 80 cm de altura, folhas exclusivamente basais, quase cilíndricas por causa das margens enroladas, e inflorescências compactas formadas por cinco ou mais espiguetas de um castanho negrusco, envoltas por duas brácteas, uma delas muito comprida. Nas fotos acima, tiradas em meados de Março, as flores só deixam ver a sua faceta feminina, mas elas são bissexuais, contendo cada uma três estames e três estigmas. À semelhança do que acontece com outras ciperáceas, é uma planta muito viajada, cidadã de muitos países e continentes, desde a Austrália à América do Norte, passando pela Europa, Ásia e África.


Eleocharis palustris (L.) Roem. & Schult.
Não menos viajada é esta outra ciperácea, que compensa a falta de passaporte australiano por uma mais ampla cobertura do continente euro-asiático. O nome Eleocharis dá em português qualquer coisa como encanto-dos-pântanos e, não sendo o encanto visível aos olhos de todos, é um bom exemplo de como gostos não se discutem. Ou de como eles, discutindo-se (afinal que fazem os críticos de arte ou de literatura senão tentar moldá-los?), podem ser radicalmente intransmissíveis. O nosso povo, em qualquer caso, não se deixou seduzir pela planta, pois ao invés de lhe reconhecer o encanto resolveu castigá-la com o nome junco-marreco.

Não adianta explicar pela enésima vez ao dito povo que uma ciperácea não é um junco, pois é na língua comum, com as suas lacunas e os seus absurdos, que nos temos de entender. Seja, então. O junco-marreco, como todos os seus congéneres (são cinco as espécies de Eleocharis espontâneas em Portugal), não possui verdadeiras folhas, mas apenas umas bainhas que abraçam a base dos caules cilíndricos, cada um deles rematado por uma espigueta solitária. Distingue-se (com dificuldade) dos seus congéneres pelas hastes mais altas (em geral até 60 cm, mas podem atingir os 100 cm), pelas espiguetas mais compridas, com maior número de flores, e pelo carácter rizomatoso que lhe permite ocupar grandes extensões de terrenos alagados e justifica o nome creeping spike-rush que lhe foi dado pelos anglo-saxónicos. As flores são bissexuais, e a foto deixa já entrever as suas partes masculinas (estames com anteras) e femininas (estigmas).

A julgar pelo mapa de distribuição no portal Flora On, o junco-marreco faz o pleno do nosso território continental, e aliás estende-se com igual abundância pela Europa fora. Qualquer lagoa ou charco é para ele um habitat propício. Na foto em baixo, captada numa clareira do maior sobreiral de Trás-os-Montes, temos um exemplo (encantador?) dos lugares de que gosta.


charcos temporários em Romeu, Mirandela

30/05/2015

Encontro das águas (1.ª parte)


Bolboschoenus maritimus (L.) Palla


Como criaturas terrestres, incapazes de sobreviver debaixo de água sem equipamento apropriado por mais que dois ou três minutos, a nossa atracção pelo mar talvez seja explicada pela inveja. Afinal, os bichos e plantas do mar têm à sua disposição um mundo muito mais vasto do que o nosso. E assim passamos as nossas férias, de olhos postos na grandeza inacessível do oceano, ignorando os mistérios banais da terra firme nas nossas costas. Recusamos o que nos é natural em favor daquilo que não podemos alcançar, e ficamos encravados na fronteira entre dois mundos, mais limitados nos nossos movimentos do que todas as descomplexadas criaturas do mar e da terra.

Embora, por certo, sejamos únicos no modo voluntário como a ele nos submetemos, não estamos sozinhos nesse aperto. Iniciamos aqui uma curta (e intermitente) série sobre as plantas que vivem no encontro das águas, naquela fronteira movediça onde a água doce dos rios que terminam o seu curso é temperada pelo sal das marés. Essas areias lodosas, ricas em nutrientes, são bem diferentes das areias limpas e enxutas que os veraneantes gostam de pisar com os pés descalços; se atraem gente, são pescadores à cata de marisco. A vegetação cerrada e algo agressiva, dominada por aquilo a que, sem grande precisão, chamamos juncos, não sobressai pelo colorido, ainda que possa haver excepções. Aos juncos e afins, o vento basta-lhes como polinizador, por isso não há flores recheadas com néctar, e os insectos que se entretenham noutras paragens.

É quase inevitável que o nosso primeiro «junco», fotografado no (chamemos-lhe assim) juncal da foz do Coura, em Caminha, não o seja de verdade. Contudo, se traduzirmos do grego o nome genérico Bolboschoenus, obtemos qualquer coisa como junco-bolboso, o que se explica por a planta apresentar rizomas intumescidos semelhantes a bolbos. Em contraste com as flores claramente individualizadas dos legítmos juncos, o Bolboschoenus tem as flores (ou florículos) dispostos em espigueta: são as estruturas sésseis, de formato elipsoidal e de um tom castanho carregado, que se podem observar na terceira foto aí em cima. Herbácea vivaz que por vezes ultrapassa 1 m de altura e que floresce desde a Primavera até ao Outono, o junco-bolboso está presente em regiões temperadas de todos os continentes e em boa parte do litoral da Península Ibérica. Acontece-lhe por vezes optar por uma dieta sem sal, seguindo então por algum rio acima até se instalar longe da costa. As suas ligações familiares, se o afastam dos juncos, aproximam-no dos cárices (género Carex) de que há tempos aqui falámos.

14/10/2014

Introdução à caricologia

Carex viridula Michx. subsp. cedercreutzii (Fagerstr.) B. Schmid

As ciperáceas, tal como as gramíneas, são plantas adaptadas à polinização pelo vento. Não dependendo das boas graças dos insectos e de outros bichos, não têm que os atrair nem recompensar os seus serviços, e por isso não produzem néctar nem têm flores apelativas. O género Carex é o mais populoso da família, contando com cerca de 2000 espécies, em geral perenes; dessas, cinquenta fazem parte da flora portuguesa, duas são endémicas dos Açores, e duas outras são endémicas da Madeira. A planta que ilustra este texto, e que foi fotografada na caldeira do Faial, ocorre nos Açores e na Madeira, e é tida por alguns autores como pertencendo a uma subespécie endémica da Macaronésia. O reconhecimento de tal carácter endémico não é contudo unânime, havendo quem considere que Carex viridula subsp. cedercreutzii é sinónimo de C. viridula subsp. oedocarpa, que tem uma distribuição europeia bastante ampla. Se continuarmos a desfiar o rol de sinonímias, verificamos que outra fonte assevera que esta última é o mesmo que Carex demissa, espécie que, de acordo com a Checklist da Flora de Portugal, não ocorre nos nossos arquipélagos atlânticos. Para que a confusão fique perfeita, a mesma checklist informa que nos Açores existe uma coisa chamada Carex oederi subsp. pulchella, que segundo várias autoridades não é senão a Carex viridula.

Um tal labirinto taxonómico ilustra bem as dificuldades do estudo das Carex. Numa primeira abordagem, já ficaremos satisfeitos se pudermos afirmar com segurança que uma dada planta pertence a esse género, deixando a determinação exacta da espécie para gente mais versada na matéria. Falávamos então das flores despojadas de enfeites e de atractivos, e reduzidas àquilo que é essencial para a reprodução. As flores dos Carex são unissexuais e aparecem dispostas em espigas, sendo frequentes os casos em que cada espiga é formada exclusivamente por flores de um dos sexos: nesta foto, por exemplo, vê-se uma espiga masculina encimando duas espigas femininas. No entanto, não é incomum surgirem espigas andróginas, com flores de ambos os sexos, de que é exemplo a espiga central nesta imagem, com flores masculinas no topo e femininas na base. A mesma androginia, embora menos evidente, é ilustrada pela primeira imagem acima, em que as flores femininas já se converteram em frutos. São aliás os frutos que definem o carácter distintivo do género Carex, aparecendo envolvidos por uma cápsula (chamada utrícula) com o formato aproximado de uma garrafa de Mateus Rosé ou de um cantil militar (veja a 2.ª foto em cima e também os exemplos nesta página). Atender à forma peculiar desse «cantil» - se é mais ou menos bojudo, se tem «gargalo» curto ou comprido - é essencial para a determinação correcta da espécie observada.

Além dos frutos, que só surgem com a Primavera já avançada, devemos também prestar atenção à forma e à cor das glumas. Que quer dizer esse palavrão? Trata-se da bráctea modificada que protege cada uma das flores da espiga; em regra, as glumas são acastanhadas e têm uma banda central verde. Particularmente importantes para o diagnóstico são as glumas das flores femininas, que permanecem frescas durante mais tempo (veja exemplos de glumas masculinas na 3.ª foto ao fundo da página e de glumas femininas aqui). Finalmente, há que levar em conta as provas circunstanciais: num género tão versátil como este, a ecologia é um dado importante. As espécies de sítios húmidos ou encharcados são as mais numerosas, mas também há as que vivem em lugares secos, e dentro desta categoria algumas preferem os calcários (é o caso da C. hallerana aí em baixo, fotografada no Horst de Cantanhede) e outras não dispensam os substratos ácidos.

Estas indicações gerais de pouco servem se o leitor não tiver à mão um manual onde possa conferir, para cada espécie, todos estes detalhes. O melhor livro que conhecemos sobre o assunto - o de Francis Rose, com o título Grasses, Sedges, Rushes and Ferns of the British Isles and north-western Europe, ilustrado com desenhos primorosos - não está inteiramente adaptado à nossa flora, mas apanha a larga maioria das espécies que cá ocorrem.


Carex hallerana Asso

07/10/2014

Rio das ervas sem nome


Carex elata All.


Todas as nossas experiências sensoriais - o que vemos, cheiramos, ouvimos, saboreamos, tocamos - podem, acreditamos nós, ser traduzidas por palavras. Há quem leve tão longe essa crença que ache mais enriquecedor ler um relato sobre um certo lugar, em especial se o autor tiver firme reputação na bolsa de valores da cultura, do que visitá-lo com os sentidos bem abertos. Pablo Neruda chamou Confesso que Vivi ao seu livro autobiográfico. Se algum desses leitores fervorosos publicar uma autobiografia honesta, há-de intitulá-la Confesso que Li.

Essa vida em segunda mão, mediada pelas palavras dos outros, tem vários inconvenientes. O primeiro é que, se não tivermos experiência directa dos objectos ou seres que as palavras descrevem, as imagens mentais que formamos ou são lacunares ou têm fraca semelhança com aquilo que é descrito. Um pinheiro é diferente de um carvalho, um pinhal é diferente de um carvalhal, não há uma coisa indiferenciada e uniforme que se chame «floresta», há sim muitas florestas, cada uma com os seus cheiros e jogos de luz. Mas, se só tivermos uma noção vaga de floresta como uma formação mais ou menos extensa de árvores anónimas, então é o mesmo cenário que nos vem à cabeça quer estejamos a ler sobre os bosques da Noruega ou sobre a mata atlântica do Brasil. As descrições cuidadosas dos mais finos escritores deixam apenas um reflexo baço e irreconhecível no espelho do nosso cérebro.

Essas limitações do leitor podem, no entanto, ser em parte ultrapassadas se houver humildade em reconhecê-las. Passando do receptor ao emissor, um outro problema que afecta a transmissão de experiências através das palavras é a incompletude do nosso léxico. Em suma, não há palavras para tudo. Quem muito palavrosamente tentar descrever um perfume inédito, saberá que quem o ouve não fica habilitado a reconhecer tal perfume e muito menos a recriá-lo: em vez de palavras, fazem falta tubos de ensaio e fórmulas químicas. E há insuficiências que são próprias de determinadas línguas, reflectindo vivências ancestrais em que certas coisas, por não terem importância assinalável, era como se não existissem.

As quase 50 espécies de Carex que ocorrem em Portugal não existem na nossa língua: não há qualquer palavra em português para as designar. Outras línguas europeias são isentas dessa lacuna: os nomes «sedge» (em inglês) e «laîches» (em francês) indicam quaisquer plantas do género Carex, em geral bastante frequentes em zonas húmidas ou inundadas, mas não exclusivas desses habitats. Quem quiser traduzir para português um texto de um autor anglo-saxónico ou francófono que fale destas plantas não o pode fazer sem erro ou sem perda de informação. Se usar junco ou junça comete um erro, pois essas plantas, embora ocupem habitats semelhantes, são diferentes das Carex e, no caso dos juncos, nem pertencem à mesma família botânica. Em alternativa, pode usar um nome generalista e impreciso (como «erva» ou «capim») ou, como último recurso, não tentar sequer dar um nome a tais plantas (traduzindo por exemplo «sedge fen» por «brejo»).

Ficamos então sem palavras para descrever com rigor, e em português de lei, um rio como há muitos na metade norte do país, com o leito pontuado por grandes tufos de verdura compostos por hastes e folhas elegantemente arqueadas. Uma tal descrição impressionista poderá satisfazer alguns, mas não aqueles que prezam uma informação exacta. Assim, a planta ilustrada nas fotos tem o nome científico de Carex elata, em inglês é conhecida como tufted sedge, e os tufos por ela formados podem ultrapassar um metro de altura. Se ao habitat ribeirinho adicionarmos o aspecto geral e as espigas das inflorescências, visíveis de Março a Maio, é de admitir que a identificação da planta não ofereça dificuldades de maior. Não é esse o caso da maioria das espécies do género Carex, em que a distinção pode depender de diferenças subtis na forma dos frutos. De facto, o género Carex é tão intrincado que o seu estudo mereceu um nome à parte dentro do universo da botânica: trata-se da caricologia. Contrariando as suposições fáceis, um caricólogo não colecciona caricas nem compila estatísticas sobre campeonatos de sameirinha, mas dedica-se, em vez disso, ao estudo e classificação das Carex.

Faremos uma breve (e trapalhona) introdução à caricologia num dos próximos fascículos.


Parada de Pinhão, Sabrosa