No fojo da serra


Culcita macrocarpa C. Presl
Hoje em dia, em Valongo, parece só sobrar ardósia: é essa a pedra que forma a ossatura da serra, e por isso não exige grandes escavações para ser extraída. Mas regista a história que na época dos romanos era o ouro o minério cobiçado por quem perfurava estes montes. Várias extensas galerias subterrâneas, em Santa Justa e Pias, ficaram como marcas desse labor remoto. Popularmente conhecidas como fojos, servem de esconderijo a animais e plantas para quem a serra invadida por eucaliptos se tornou inabitável. É irresistível o paralelismo entre os refugiados dos fojos e os cristãos nas catacumbas de Roma, mas falta saber se alguma vez em Valongo a vida à superfície voltará a ser possível.
O feto-do-cabelinho, acima retratado, ocorre na Madeira e nos Açores, onde é relativamente frequente em florestas, ravinas e prados naturais. No território continental português, porém, este feto só existe em Valongo, confinado a três poços de acesso a fojos; em cada um deles, os exemplares contam-se pelos dedos duma só mão. Felizmente a situação da espécie em Espanha não é tão desesperada, pois estão referenciadas várias populações no extremo norte da Península. Quanto a nós, imaginem que algum espeleólogo mais arrojado resolvia explorar estes buracos sem pedir licença a ninguém. Com doses iguais de temeridade e inconsciência, e algum azar à mistura, protagonizaria o último acto da vida destas plantas em Portugal continental: a erradicação.
O feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa) é uma planta perene, com grandes frondes bipinadas - próprias para serem fotografadas a uma distância respeitosa - de quase dois metros de comprimento. Uma única outra espécie, Culcita coniifolia, da América Central e do Sul, completa o género Culcita, que está integrado numa família (Dicksoniaceae) onde sobressaem vários fetos arbóreos muito prezados como ornamentais, como os que vegetam no Buçaco ao longo do vale dos fetos.





