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15/12/2018

Macho desdentado


Dryopteris oligodonta (Desv.) Pic.-Serm.


A própria etimologia da palavra sugere que os fetos do género Dryopteris (que designamos por fetos-machos) só aparecem, ou aparecem preferencialmente, onde existem aquelas formações vegetais a que chamamos bosques. Um bosque é dominado por árvores de tamanho respeitável, enquanto que os matos são formados pos arbustos de crescimento rápido e igualmente rápida combustão. Contudo, mesmo tendo apenas em conta as espécies europeias, a ecologia destes fetos é de facto mais diversificada: nem sempre o bosque faz falta, e o mais importante parece ser um elevado grau de humidade ambiental - um requisito que, a latitudes mais meridionais, só os verdadeiros bosques costumam satisfazer. Nas Canárias e na Madeira, os bosques típicos mais bem formados são os da laurissilva, que (como o nome indica) é composta sobretudo por lauráceas, mas alberga também outras folhosas perenifólias. O carácter da floresta laurissilva nos dois arquipélagos é diferente: a da Madeira é muito mais húmida, com árvores de maior porte; nas Canárias, algumas urzes arbóreas integram-se no coberto vegetal quase em pé de igualdade com as lauráceas.

É por isso que os fetos-machos são na Madeira muito mais abundantes do que nas Canárias. Na primeira ocorrem quatro espécies (Dryopteris aemula, D. affinis, D. maderensis e D. aitoniana), todas elas fáceis de obsevar na laurissilva e às vezes também em plantações florestais. Nas Canárias estão igualmente assinaladas D. aemula e D. affinis (a primeira só em La Gomera, a segunda em La Gomera e Tenerife), a que se juntam duas espécies adicionais: D. guanchica (La Gomera, El Hierro e Tenerife) e D. oligodonta. Com excepção da última, todas estas espécies são muito raras no arquipélago. A D. oligodonta, por seu turno, é uma componente usual da laurissilva de Anaga, em Tenerife; e, a julgar pelos mapas de distribuição no portal Anthos, o mesmo deverá suceder na laurissilva das outras ilhas. Só não aparece nas duas ilhas mais áridas, Lanzarote e Fuerteventura, onde a própria laurissilva não teve condições para se instalar.

O feto-macho ilustrado nas fotos, Dryopteris oligodonta, é pois o único do seu género que o comum dos visitantes ao arquipélago encontrará. É um feto grande, com frondes três vezes divididas, dispostas em tufos, capazes de ultrapassar um metro de comprimento. D. affinis, por contraste, tem as frondes só duas vezes divididas (compare-se a última foto acima com esta); e D. guanchica e D. aemula, além de serem bem menores, têm as pínulas mais recortadas, com dentes muito mais pronunciados (veja-se aqui e aqui). O epíteto oligodonta anuncia precisamente que este feto-macho tem poucos dentes, o que é injusto face a congéneres seus mais desdentados.

Várias fontes garantem que Dryopteris oligodonta é um endemismo das Canárias, contrapondo outras que o mesmo feto existe nas ilhas cabo-verdianas de Santo Antão e do Fogo. Um estudo exaustivo recente [Jacobus P. Roux (2012), A revision of the fern genus Dryopteris (Dryopteridaceae) in sub-Saharan Africa, Phytotaxa 70] confirma a existência da planta em Cabo Verde, embora ela pareça estar agora confinada a Santo Antão, não tendo sido observada na ilha do Fogo desde 1934, ano em que lá foi colhida pela única vez.

04/07/2017

Regresso ao fojo das surpresas



Dryopteris guanchica Gibby & Jermy


Tal como muita gente, este feto tem os seus progenitores na Madeira, mas abandonou a ilha natal para tentar a vida no continente. Só que o fez muito antes de as ilhas atlânticas serem habitadas, e até antes de existir a espécie humana. Um estudo genético permitiu concluir que a Dryopteris guanchica, que existe apenas na Península Ibérica (Galiza, noroeste de Portugal e serra de Sintra) e nas Canárias (Tenerife, La Gomera e El Hierro), é uma espécie tetraplóide que resultou do cruzamento de duas espécies diplóides, a D. aemula (presente nos Açores, Madeira e Canárias e no extremo norte de Espanha, mas não em Portugal continental) e a D. maderensis (exclusivamente madeirense). O acasalamento ter-se-á dado na Madeira, a menos que a D. maderensis tenha tido, noutras eras, uma distribuição mais ampla. Não é impossível, por exemplo, que tenha existido em La Gomera, a única das ilhas Canárias onde hoje se encontram tanto a D. aemula como a D. guanchica. Certo é que a D. guanchica, tenha ela o seu berço na Madeira ou nas Canárias, conseguiu instalar-se no norte da Península Ibérica partindo de ilhas que, geograficamente, são mais africanas do que europeias.

Descrita apenas em 1977, por Mary Gibby e A. C. Jermy, a partir de exemplares colhidos em La Gomera e em Tenerife, a Dryopteris guanchica deve o seu epíteto aos Guanches, antigos habitantes das Canárias subjugados pela colonização espanhola. Até então tinha sido confundida com a D. dilatata, um feto europeu, típico de bosques sombrios, cuja presença nas Canárias é duvidosa. Logo após ter sido descrita a nova espécie, uma revisão de espécimes depositados no herbário de Coimbra permitiu concluir que a D. guanchica já havia sido encontrada em Portugal, na serra de Sintra, em 1839. Em Maio de 1976, Gibby e Jermy, numa visita à serra, confirmaram que ela ainda lá vicejava na companhia da D. dilatata. Pouco depois, foi descoberta no norte de Espanha e no noroeste de Portugal, de modo que em 1982 Franco & Rocha Afonso, no livro Distribuição de Pteridófitos e Gimnospérmicas em Portugal, puderam dar um panorama quase completo da sua presença no nosso país. Os maiores contingentes vivem nas serras xistosas à volta do Porto e em especial nos fojos de Valongo, onde beneficiam de um ensombramento e de uma frescura impossíveis de encontrar nos vastos eucaliptais em redor, e engrossam uma notável colecção de fetos reliquiais que inclui a Culcita macrocarpa e o Trichomanes speciosum.

A história ensina-nos que destrinçar a D. guanchica da D. dilatata não é tarefa para principiantes, e em Portugal, onde as duas coexistem e ocupam habitats semelhantes (embora a primeira seja muito mais rara), é preciso especial cautela. As chaves dicotómicas costumam exagerar pequenas diferenças, postulando uma separação nítida quando às vezes existe uma continuidade de caracteres. Em todo o caso, as pinas basais da D. guanchica, em que as duas pínulas viradas para baixo mais próximas da ráquis são muito maiores do que as que estão viradas para cima (ver penúltima foto), são claramente mais assimétricas do que as da D. dilatata. Outras diferenças são menos óbvias: a D. guanchica é em geral mais pequena, tem as pínulas ligeiramente pecíoladas, e os dentes das pínulas são salientes, meio curvados para a frente (o efeito é visível na 3.ª foto desta página).

11/04/2017

Madeira Fern Fest (7)


Dryopteris aitoniana Pic. Serm.

Os fetos são para quem aprendeu a apreciar a simetria e a simplicidade, e a valorizar os detalhes que marcam a diferença. Fazem um apelo austero ao intelecto, em vez de, como as plantas com flor, seduzirem pela sensualidade do colorido e do perfume. Não foram feitos para estes tempos de atenção distraída e borboleteante, em que somos joguetes de um fluxo ininterrupto de estímulos básicos. Contudo, quem se interesse por plantas deve tentar familiarizar-se com os fetos, pois são muitos os bons encontros que perde se não conseguir reconhecê-los. Se não nos quisermos entregar a um panteísmo acéfalo, convém sabermos distinguir as árvores que compõem uma floresta: nem tudo o que é verde é ouro, e um carvalhal não é o mesmo que um eucaliptal. Ou, falando das ilhas, é imperdoável confundir a laurissilva com um emaranhado de vegetação infestante, como acontece nesta triste foto de São Miguel. Depois de garantirmos que não cometemos tais erros de palmatória, devemos passar ao estádio seguinte, em que somos capazes de discernir os ingredientes que fazem a singularidade de um pedaço de natureza. É enriquecedor saber que os fetos da mágica laurissilva madeirense são, em grande parte, diferentes dos que vemos noutras paragens, e que alguns deles só existem na Madeira.

Juntando-se à Arachniodes webbiana e ao Polystichum falcinellum, a Dryopteris aitoniana é o terceiro feto habitante da laurissilva e endémico da Madeira que aqui apresentamos (um quarto feto endémico, Ceterach lolegnamense, é de pequeno tamanho e prefere os muros soalheiros do sul da ilha à humidade umbrosa da laurissilva). A sua filiação no género Dryopteris é denunciada pelos indúsios reniformes que protegem os esporângios (compare a última foto em cima com esta ou esta). De resto, o formato geral das frondes, o seu tamanho (até 120 cm de comprimento) e a sua disposição em tufos pouco ajudam a diferenciá-la das suas congéneres. Na Madeira ocorrem três espécies adicionais de Dryopteris, todas elas frequentes na laurissilva e até em plantações florestais: D. aemula, D. affinis subsp. affinis e D. maderensis (esta última quase sósia da D. azorica). Se atendermos ao recorte das pínulas (divisão de segunda ordem das folhas), muito mais pronunciado na D. aemula e na D. maderensis, só com a D. affinis se pode a D. aitoniana razoavelmente confundir; e aí as pínulas basais, em regra bastante compridas na D. aitoniana (5.ª foto acima) e muito curtas na D. affinis (veja aqui), ajudam a dissipar as últimas dúvidas. Além disso, a D. aitoniana apresenta folhas mais rígidas e de um verde mais pálido, e tem poucas escamanas na ráquis. Ao segundo dia das nossas deambulações pelas levadas madeirenses já a reconhecíamos ao longe.

Calcula-se em 38 o número de espécies (e subespécies) de Dryopteris que ocorrem na Europa, na zona mediterrânica e na Macaronésia. Estão ligadas por uma complexa teia de relações familiares que têm na hibridação e poliploidia a sua principal génese. Daí que a diferenciação entre taxa ou a sua própria delimitação não sejam assuntos simples. A D. aitoniana tem fortes semelhanças com a Dryopteris oligodonta, endémica das Canárias, motivo para algumas listagens reportarem a presença de uma ou de outra no arquipélago errado.

Falta explicar por que razão o nome do feto madeirense homenageia o primeiro director dos Kew Gardens, William Aiton (1731–1793), que nunca pôs os pés na Madeira nem, que se saiba, alguma vez saiu da Grã-Bretanha. Aiton foi o autor de um Hortus Kewensis (1789) descrevendo 5600 plantas cultivadas em Kew e originárias de muitas partes do mundo. Para muitas dessas espécies, Aiton foi o primeiro a dar-lhes nome científico. Sob o nome, que hoje nos parece absurdo, de Polypodium elongatum, o feto madeirense aparece na pág. 465 do vol. 3 dessa obra. Pelo menos supõe-se que é esse o feto que se pretendia nomear, embora a descrição seja demasiado abreviada e se diga erradamente que ele ocorre também nos Açores. O italiano Rodolfo Pichi-Sermolli, que em 1951 reconheceu a validade da espécie e a transferiu para o género Dryopteris, não pôde conservar o epíteto elongata por ele já ter sido usado noutra espécie do género, e optou pelo epíteto aitoniana para assim registar a prioridade de Aiton.

14/02/2017

Madeira Fern Fest (3)



Polystichum falcinellum (Sw.) C. Presl


Para orientar os aficionados, talvez devesse ser estabelecida uma hierarquia de endemismos que tomasse em conta a área de distribuição e o grau de originalidade. Distribuições restritas seriam valorizadas, mas seria factor de depreciação a existência de espécies muito semelhantes com distribuição mais ampla. Às vezes a semelhança é de tal ordem que o reconhecimento ou não de que certa variante configura uma espécie (ou subespécie) autónoma depende do critério subjectivo de especialistas. Um endemismo de primeiro grau, chamemos-lhe assim, deverá ter distribuição muito restrita (o ideal é existir numa ilha só) e não deve poder ser confundido com outra coisa qualquer por botânicos dignos desse nome. Pese embora a raridade da Arachniodes webbiana na Madeira, ela de facto também existe (mais cromossoma, menos cromossoma) no sudeste de África, o que a impede de atingir esse patamar. É ao Polystichum falcinellum, o feto-das-pequenas-foices (tradução literal de falcinellum), que cabe inaugurar o panteão dos endemismos de primeiro grau no Madeira Fern Fest.

A flora da Madeira inclui dois Polystichum endémicos; o outro é o P. drepanum, quase extinto na natureza, que não tivemos a fortuna de encontrar. A esses soma-se o P. setiferum, comum na Madeira e nos Açores e na metade norte do território continental. O encontro na Madeira da espécie europeia com o P. falcinellum deu origem a um híbrido natural muito raro, baptizado como Polystichum × maderense, assim se comprovando como a arrumação dos dois fetos no mesmo género botânico está correcta, apesar das visíveis diferenças entre eles. A mais óbvia é que as frondes do P. setiferum são duas vezes divididas (bipinatissectas), enquanto que as do P. falcinellum o são apenas uma vez. No entanto, as pínulas (divisões de segunda ordem) do P. setiferum têm a mesma aurícula basal que sobressai nas pinas do P. falcinellum (compare esta foto com a 2.ª e 4.ª fotos acima). Independentemente do grau de divisão das frondes, a aurícula e o formato falciforme das divisões de última ordem são marcas distintivas do género Polystichum, que também podem ser detectadas no P. lonchitis, uma espécie holártica que não ocorre em Portugal.

O Polystichum falcinellum -- cujas folhas erectas e coriáceas, de uns 70 cm de comprimento máximo, se apresentam em tufos -- vive em zonas elevadas no centro e norte da Madeira. Evita as zonas mais húmidas da laurissilva, mas pode aparecer em grandes quantidades no patamar superior da ilha, abrigado em urzais ou em plantações de pinheiros e de outras coníferas. Os exemplares que se prestaram à fotografia moravam na sombra espessa de uma mata de Pseudotsuga menziesii junto à acolhedora Casa de Abrigo do Poiso, a uns 1400 m de altitude. Faziam-se acompanhar pelo P. setiferum (mas não havia híbridos) e por uma sortida amostra de outros pteridófitos que incluía três espécies de Asplenium, duas de Dryopteris e ainda, omnipresente na ilha, a Davallia canariensis. É a Madeira a imitar o padrão já nosso conhecido nos Açores, em que as plantações florestais de coníferas (criptomérias, no caso açoriano), se outro interesse florístico não têm, são fértil terreno de busca para o entusiasta por fetos.

17/01/2017

Madeira Fern Fest (1)


Arachniodes webbiana (A. Braun) Schelpe subsp. webbiana


Férias na última semana do ano por imposição da entidade patronal, entre as luzes dos presépios gigantes, a música melosa embalando ruas e centros comerciais, a promessa de multicoloridos fogos de artifício ao último toque da meia-noite. A Madeira não é o melhor lugar para fugirmos ao espírito da quadra, até porque nos calhou ficarmos hospedados na vila com a maior concentração de presépios do mundo ocidental, mas o clima subtropical proporcionou-nos, mesmo em Dezembro, algumas gratificantes descobertas botânicas. Cabe aqui um tímido protesto por a flora madeirense não ter tirado, a nosso ver, o máximo proveito da amenidade do clima. Vigora ainda um temeroso respeito pela divisão clássica do ano em quatro estações que, com propriedade, só se aplica a latitudes mais agrestes. Não se vislumbra motivo razoável para a opção assumida pela maioria das plantas da ilha de florir naqueles meses que, no continente, chamamos de Primavera. Há flores na Madeira em Dezembro, mas não tantas como seria possível ou desejável. Para compormos o ramalhete de novidades, viramo-nos para os fetos, essas plantas austeras, avessas a enfeites, que se mantêm todo o ano iguais a si próprias.

O primeiro feto a comparecer, de seu nome Arachniodes webbiana, é um habitante da mítica laurissilva que reveste as abruptas encostas da metade norte da Madeira. Este feto de grandes folhas, que podem atingir um metro de comprimento, vive em florestas húmidas e permanentemente ensombradas. O formato pentagonal da folha, com as duas pinas basais muito maiores e mais divididas do que as restantes, pode fazer lembrar o feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa). Este último, contudo, é de maior envergadura (quase 2 metros) e apresenta soros marginais (ver foto), enquanto que no feto madeirense os soros estão distribuídos pela face inferior das pínulas (2.ª foto acima).

No desenho minucioso das suas frondes, a Arachniodes webbiana faz inteira justiça à teia de aranha que o seu nome invoca. Para melhor exibir tão elegante simetria, a estipe, com uns 50 cm de altura, é vertical, fazendo um ângulo quase recto com a lâmina da folha, que adopta a posição horizontal. É quase inexplicável que um feto de tão óbvias qualidades ornamentais não seja cultivado em jardins.

Apesar da abundância de habitats propícios, a Arachniodes webbiana aparece apenas em raros lugares da laurissilva, aproveitando então para formar populações numerosas. Endémica da ilha da Madeira, a raridade torna-a ainda mais vulnerável e preciosa, mas noutras eras ela ou os seus antepassados próximos terão tido uma distribuição bastante mais ampla. De facto, uma sua irmã gémea (Arachniodes foliosa, ou Arachniodes webbiana subsp. foliosa) sobrevive no sudeste de África, numa faixa que vai desde o Uganda e o Quénia até à África do Sul. As duas espécies (ou subespécies), mal se distinguindo na morfologia, são geneticamente distintas, já que a madeirense é diplóide e a africana é tetraplóide. Isso sugere que a estirpe insular é a mais antiga das duas, e sublinha o estatuto único da laurissilva madeirense, refúgio de tantas relíquias do passado da Terra.

06/10/2015

À espera do degelo


Polystichum lonchitis (L.) Roth


Sabemos que a Terra é (aproximadamente) esférica, mas às vezes esquecemo-nos de fazer uso prático desse conhecimento. Por exemplo, o caminho mais curto entre dois lugares situados à mesma latitude não é, em geral, ao longo de um paralelo, a menos que eles estejam perto do equador; e quanto mais subimos para norte mais se estreita a distância entre os continentes. Se partirmos da Península Ibérica e sobrevoarmos o Atlântico, a América parece-nos distante, mas do norte da Suécia ao Alasca passando pelo Pólo Norte é só um pulinho. Nas suas migrações, as plantas há muito que aprenderam a tirar partido dessas circunstâncias geográficas. As espécies vegetais do hemisfério norte que gostam do frio não raro têm uma distribuição circumboreal, ocupando um anel à volta do Árctico que abrange três continentes. Não é um feito extraordinário, pois nessas geladas latitudes os continentes encostam-se uns aos outros como que para se resguardarem do frio. Muito menos numerosas são as espécies de climas temperados que surgem naturalmente nos dois lados do Atlântico.

O Polystichum lonchitis, que gosta de cumes rochosos a grandes altitudes e deve o epíteto lonchitis às folhas em formato de lança, fornece um exemplo paradigmático dessas migrações através do gelo, distribuindo-se desde o Canadá, norte dos EUA e Gronelândia até à Islândia, Suécia e montes Urais. Tendo entrado pelo norte, não desdenha contudo descer até ao sul, aproveitando os lugares onde a neve cai regularmente, como as montanhas da Cantábria e a serra Nevada em Espanha, ou as montanhas do Atlas em Marrocos. Por contraste, o seu congénere P. setiferum, que vive em bosques e desgosta de temperaturas negativas, revelou-se incapaz de transpor as lonjuras do Atlântico, estando confinado à Europa, à região mediterrânica e à Macaronésia.

As nossas montanhas são baixas, demasiado sujeitas à influência moderadora do oceano, com uma neve que nem sempre cai a contento dos esquiadores. Por falta de resposta cabal ao caderno de encargos apresentado, o Polystichum lonchitis preferiu não se instalar no nosso país (se isso serve de consolo, também não quis a Galiza). A fentanha (Polystichum setiferum) é assim a única espécie do género em Portugal continental. Além das preferências ecológicas distintas, os dois fetos têm perfis muito diferentes: o P. setiferum tem folhas largas e grandes (até 1 m de comprimento), duas vezes divididas, enquanto que o P. lonchitis tem folhas estreitas e pequenas (de uns 20 a 40 cm de comprimento), coriáceas, divididas apenas uma vez. O parentesco entre os dois é porém indesmentível, pois em ambos as divisões de última ordem das frondes têm quase a mesma forma, como se pode ver comparando as fotos aí em cima com esta outra. Um outro feto que apresenta arquitectura semelhante, e de facto parece uma versão a traço grosso do Polystichum lonchitis, é o asiático Cyrtomium falcatum, que já se chamou Polystichum falcatum e está naturalizado nos Açores, onde é um invasor temível.


Pico Tres Mares, Cantábria

04/11/2013

O admirável feto das neves




Dryopteris expansa (C. Presl) Fraser-Jenk. & Jermy

Às vezes é mais fácil deixarmo-nos embalar por ideias feitas, mesmo quando a realidade se empenha em contradizê-las. Imaginamos, nós que não esquiamos nem somos adeptos do turismo de Inverno, que a serra mais alta de Portugal continental se reveste invariavelmente, de Novembro a Março, com um manto da mais alva e fofa neve disponível nos cartazes das agências de viagens. Mesmo que o Photoshop seja convocado para acentuar a brancura e preencher as falhas; mesmo que às vezes as fotos nem sejam da serra da Estrela, mas sim dos Alpes; mesmo que na estância de esqui se prefira a neve artificial àquela pouco fiável que tomba do céu - mesmo sabendo disso tudo, acreditamos que a serra é branca no Inverno, e que, além dos sacos plásticos usados na popular prática do scu, há debaixo da neve vidas em suspenso à espera do degelo. E acreditamos que é em Abril que na serra tudo recomeça: em seis ou sete meses há que dar sentido a um ano inteiro.

Foi em Setembro, já a temporada de 2013 declinava, que pudemos finalmente observar, graças à amabilidade de Alexandre Silva, o Dryopteris expansa, ou feto-macho-das-neves como passaremos a chamar-lhe. Era o cromo que nos faltava dos cinco fetos ou aparentados que, em Portugal, são (quase) exclusivos da serra da Estrela: os outros são o Dryopteris oreades, Lycopodium clavatum, Cryptogramma crispa e Asplenium septentrionale, existindo o último também em Bragança e na ilha da Madeira. Se os ordenarmos por grau decrescente de raridade, a medalha de ouro cabe ao Lycopodium clavatum, ficando a prata para o D. expansa e o bronze para o Cryptogramma crispa. Trata-se de um pódio pouco invejável, pois significa, para essas plantas, que elas estão à beira de desaparecer do nosso país. Só nos pontos mais altos da serra da Estrela é que as temperaturas médias são suficientemente baixas para permitir a sobrevivência dessas espécies adaptadas ao frio e aos invernos impenitentes do norte da Europa. E é previsível que o aquecimento global venha agravar as suas condições de vida.

Como é típico do género Dryopteris, o feto-macho-das-neves mantém estreitos laços de família com outros fetos a que muito se assemelha e dos quais se destrinça com dificuldade. Alguns deles estão consabidamente ausentes do continente português, e por isso não nos devem preocupar. Um outro não frequenta altitudes tão elevadas. Resta, para nos confundir, o D. dilatata, que se supõe, apesar dos consideráveis obstáculos geográficos, ser o resultado do matrimónio entre o D. expansa e o D. azorica. (Há quem se dedique a coscuvilhar a vida amorosa dos fetos, fazendo revelações sensacionais em revistas apresentadas como científicas mas com indisfarçável pendor cor-de-rosa.) Se pudéssemos ser francos, admitiríamos que na prática o D. dilatata e o D. expansa são indistinguíveis - ou, pelo menos, que muitas vezes não se pode tirar qualquer conclusão segura examinando apenas uma ou duas folhas. Porém, estando em causa a nossa reputação, nada como transcrever o cristalino receituário dos manuais que ensinam estas coisas. O primeiro passo é examinar o DNA: o D. expansa é diplóide (84 cromossomas), enquanto que o D. dilatata é tetraplóide (168 cromossomas). Na falta de equipamento de campo para proceder a tal contagem, a morfologia das plantas pode dar alguma ajuda: o D. expansa tem, em geral, as pínulas basais mais próximas da ráquis muito desenvolvidas, de comprimento pelo menos metade do da pina correspondente; além disso, as pínulas do D. expansa costumam ser planas, enquanto que as do D. dilata são algo convexas. Para quem tiver a paciência de esperar, há ainda a bonita cor alaranjada que as folhas do D. expansa adquirem em Setembro, antes de secarem e desaparecerem: ao D. dilatata, por ter folhas persistentes no Inverno, está vedada essa variação cromática.

Na serra da Estrela, o D. expansa ocorre acima dos 1700 m, em populações dispersas e escassas, com uma ou duas dezenas de indivíduos nos melhores casos. Em contraste, o seu congénere D. oreades é frequente e aqui e ali abundante nas cumeadas da serra. Para visitarmos o D. expansa, vimo-nos obrigados a descer uma cascalheira vertiginosa próxima dos Cântaros e a regressar esbaforidamente pelo mesmo caminho. Logo depois estava-nos reservado um prémio pelo esforço, pois encontrámos um novo núcleo da espécie (meia dúzia de plantas) na zona das Salgadeiras, de muito mais fácil acesso.

04/10/2013

Feto de imitação




Dryopteris aemula (Aiton) O. Kuntze

Não sendo este feto menos genuíno do que outros que por aqui têm desfilado, e muito menos sendo feito de plástico, por que o acusamos de ser um feto de imitação? É que a palavra latina aemulus, da qual deriva o epíteto aemula, significa «que procura imitar». Fica então estabelecido que, na opinião de quem primeiro baptizou o feto - o escocês William Aiton (1731-1793), que lhe chamou Polypodium aemulum -, ele é culpado de alguma tentativa de imitação. Imitação de outros fetos, entenda-se. Ele será pois especialmente confundível com certos outros fetos, sem que, misteriosamente, esses outros sejam no mesmo grau confundíveis com ele. Mas é melhor não aprofundarmos o assunto, pois a taxonomia botânica não é um ramo das ciências exactas e não tem obrigação de se subordinar à lógica.

Nas ilhas açorianas há bons motivos para o feto-de-imitação ser confundido com alguns dos seus congéneres, especialmente com aqueles a que está ligado por laços de seiva (equivalente vegetal dos laços de sangue). Do matrimónio do D. aemula com o endemismo açoriano D. azorica nasceu um outro feto endémico do arquipélago, o arrepiado D. crispifolia. Os três apresentam folhas com formatos semelhantes, e o D. aemula, como documentam as fotos acima, não está livre de arrepios, embora se mostre bastante menos espasmódico do que o seu descendente. Contudo, as frondes do D. aemula, com 30 a 60 cm de comprimento, são mais curtas do que as dos outros dois, que podem medir até 90 cm (as do D. crispifolia) ou 1,5 m (as do D. azorica); são, além disso, de um verde claro e baço, em contraste com o tom mais escuro e brilhante do D. azorica. E há um detalhe morfológico importante para distinguir os dois consortes: nas pinas basais do D. aemula, a primeira pínula inferior junto à ráquis é mais comprida do que as restantes (confira na 3.ª foto), enquanto que, no D. azorica, a segunda e terceira pínulas são mais compridas do que a primeira (veja aqui).

Embora em algumas ilhas seja pouco comum, o D. aemula faz o pleno do arquipélago açoriano, no que está acompanhado pelo D. azorica. A parceria desfaz-se no resto da área de distribuição do primeiro (Península Ibérica, desde a Galiza ao País Basco, costa atlântica francesa, Grã-Bretanha e Irlanda, Turquia, Cáucaso, Madeira e Canárias), pois o segundo, em obediência ao seu estatuto de endemismo açoriano, está proibido de emigrar para outras paragens. Com o resultado de o D. aemula, qual marinheiro de longo curso, ter ensaiado outras aventuras amorosas nos seus vários portos de abrigo. Um desses casos aconteceu com o D. maderensis, endémico da ilha da Madeira, e deu origem ao D. guanchica - um feto que, tal como o seu progenitor mais viajado, tem poiso nas ilhas atlânticas (Madeira e Canárias) e no continente europeu (só Península Ibérica).

20/11/2012

Lagoa dos fetos



Dryopteris azorica (Christ) Alston

É perfeitamente possível, e é mesmo a experiência mais comum do forasteiro, visitar os Açores sem nunca pôr os olhos em plantas açorianas. A paisagem dominante das ilhas, aquela que é reproduzida em cartazes e publicações turísticas, compõe-se de um mosaico de pastagens delimitadas por sebes de hortênsias (Hydrangea macrophylla) e por matas de criptomérias. Tanto o arbusto como a árvore, ambos tão marcantes na iconografia açoriana, foram importados do Japão. E da Austrália veio a soberba araucária erguida como um mastro em jardins de vilas e cidades. O verde dos Açores parece natural, e é certamente repousante, mas quase todo ele é postiço, por ter sido moldado por mão humana. O verde original das ilhas, banhado em nevoeiro, acantonou-se em montes e ravinas inacessíveis e sem préstimo agrícola.

Desvalorizar por completo a vegetação introduzida é, contudo, uma atitude maniqueísta que convém rejeitar. O exótico e o autóctone interpenetram-se, e numa mata de criptomérias podem surgir boas amostras de plantas nativas ou mesmo endémicas. Há anos, escrevendo sobre a lagoa das Patas, na Terceira, disse que a única coisa que lá havia eram criptómerias, e que da vegetação própria da ilha só sobravam fetos. Regressando, anos depois, com um olhar mais educado, encontrei, nas margens do ribeiro, pequenas populações da Tolpis azorica, Sanicula azorica e Myrsine retusa. E os fetos, que me envergonho de ter desdenhado e não são menos valiosos que as demais plantas, faziam-se representar pelo feto-pente (Blechnum spicant), pelo feto-do-botão (Woodwardia radicans), pelo feto-do-cabelinho (Culcita macrocarpa) e pelo feto endémico que é hoje cabeça de cartaz, Dryopteris azorica. Este último era mesmo o mais abundante, vicejando à sombra das criptomérias e formando um bonito sub-bosque numa inesperada plantação de bétulas.


Dryopteris azorica (Christ) Alston

Se o tufo de grandes folhas arqueadas e o formato das pínulas não deixam dúvidas sobre a inclusão deste feto no género Dryopteris, já apontar-lhe a espécie requer alguns cuidados. Ajuda saber que o único outro feto existente na Terceira que se pode confundir com o D. azorica é o D. aemula, que é mais pequeno (frondes até 60 cm, contra 1,5 m ou mais do D. azorica) e exibe, no pecíolo das folhas, escamas de um castanho claro uniforme, quando as da D. azorica costumam ter o centro escurecido. Com a escolha assim reduzida a dois candidatos, a identificação é segura. Mas ver-nos-íamos atrapalhados, mesmo com o manual à mão e a lupa encaixada no olho, se tivéssemos, por exemplo, de distinguir o D. azorica do D. dilatata.

A principal razão para a complexidade do género Dryopteris, com miríades de espécies que são pequenas variações de outras, é a facilidade com que elas se combinam para produzir novas espécies por poliploidia. O Dryopteris azorica, que ocorre em todas as ilhas do arquipélago, também interveio nesse jogo, cruzando-se com o D. aemula para dar origem a um outro endemismo açoriano, D. crispifolia.

21/09/2012

Macho arrepiado



Dryopteris crispifolia Rasbach, Reichst. & G. Vida

Nisto de fetos há uma tradição, que remonta a Lineu, de distinguir machos e fêmeas, numa separação de todo fantasiosa que não se baseia no papel de cada um na reprodução por via sexual. O feto-fêmea (Athryium filix-femina) não tem comércio com o feto-macho (Dryopteris filix-mas) e, mesmo que tivesse, dificilmente tal interacção daria origem a uma nova planta. Com todas estas ressalvas, e na ausência de nomes comuns em português para a maioria das espécies, dá jeito tratar todos os fetos do género Dryopteris, em geral plantas de envergadura respeitável que vivem em bosques e lugares húmidos, pelo nome de feto-macho. Ao endemismo açoriano de que hoje nos ocupamos, com as suas folhas retorcidas, assenta bem a designação de feto-macho-arrepiado. A temperatura nas ilhas não justifica, em geral, aspecto tão friorento, mas o nosso feto, que ocorre em apenas cinco ilhas (São Miguel, Terceira, Pico, Faial e Flores), prefere as altitudes mais elevadas, acima dos 350 metros. E nas Flores, ultrapassada a fasquia dos 600 m de altitude, o Inverno pode acontecer em qualquer dia do ano. Curiosamente, o outro feto crispado que já por aqui passou, Cryptogramma crispa, é uma especialidade de alta montanha, o que reforça a ideia de que, tanto num como noutro caso, os arrepios que afligem as folhas são uma reacção às baixas temperaturas.

Salvo pelo seu aspecto peculiar do anonimato em que, por inépcia nossa, se perdem grande parte dos fetos açorianos, do Dryopteris crispifolia podemos garantir que é presença assídua nas florestas liliputianas de zimbro com turfeira que preenchem a zona central da ilha das Flores. Mesmo o turista que se apeia do seu carro para a visita obrigatória ao miradouro das lagoas tê-lo-ia em abundância à mão de fotografar, caso as ditas lagoas, uma escura e redonda e a outra azul e estreita, não lhe monopolizassem a atenção.

Com frondes triangulares de não mais que 90 cm de comprimento, dispostas em tufos, o feto-macho-arrepiado aparece em ravinas e bosques naturais mas também, ocasionalmente, em antigas plantações de criptomérias.


Lagoa Negra e Lagoa Comprida - ilha das Flores

21/11/2011

Eis o macho



Dryopteris filix-mas (L.) Schott

- Este é o meu marido. Não sei se já se conhecem, suponho que não.

Fingindo tratar-se de um encontro imprevisto, embora de facto (sem ele o saber) estivesse tudo combinado desde a semana anterior, a senhora Athryium filix-femina, num roçagar de frondes sopradas pela brisa, conduziu-me à presença do feto robusto a quem estava ligada por um improvável matrimónio.

- Como vai? O meu nome é Dryopteris filix-mas. Eu e a Athyrium nem parece que formamos um casal, pois não? Mas nenhum taxonomista moderno tem poder para separar o que o grande Lineu uniu.

Retribuí o cumprimento e disse algumas banalidades. Depressa porém me afastei, perturbado pela ideia de que afinal já antes tinha encontrado o senhor D. filix-mas e receando cometer algum deslize. Não fora ele que eu vira entre as fragas da serra, bem longe do aconchego do lar conjugal? E já antes não me aparecera ele numa espécie de acampamento hippie para grandes fetos nos umbrosos bosques do Gerês? Há uma tácita solidariedade masculina que seria imperdoável quebrar, e a nenhum homem cabe denunciar as escapadelas de outro.

Concluí depois que a minha comoção fora injustificada. Dentro do género Dryopteris os traços de família podem ser tão vincados que a distinção entre espécies não se faz sem observação minuciosa. É perfeitamente perdoável counfundir, como eu fizera, o feto-macho Dryopteris filix-mas com dois dos seus irmãos gémeos: o falso-feto-macho (Dryopteris affinis) e o feto-macho-de-altas-montanhas (Dryopteris oreades). Machismo à farta que tentaremos desenredar parcialmente.

O D. filix-mas e o D. affinis são fetos de grande tamanho: os exemplares adultos que vegetam em solos ricos em húmus têm frondes com mais de um metro de comprimento, agrupadas em elegantes penachos. O D. filix-mas, contudo, tem hastes e ráquis muito menos escamosas, e as suas pínulas (segmentos de última ordem das frondes) são, ao contrário das do D. affinis, arredondadas e nitidamente dentadas a toda a volta. Ecologicamente também há diferenças: além de frequentar bosques, o D. filix-mas pode aparecer (como sucede na serra de Estrela) em lugares pedregosos, e por vezes chega mesmo a despontar em fendas de muros. Em Portugal dá-se também uma distinção geográfica: ainda que ambos surjam sobretudo na metade norte do país, o D. filix-mas é muito escasso a baixa altitude, e só é fácil encontrá-lo nos maciços montanhosos do interior; o D. affinis, por seu turno, é comum nos bosques nortenhos, mesmo nos que estão perto do litoral.