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24/04/2018

A avidez dos burros


Onobrychis viciifolia Scop.


Há quem veja em cada flor precoce um anúncio da Primavera e um motivo de regozijo. Aos olhos inocentes desses panteístas, as plantas que florescem normalmente no Inverno, como os narcisos ou as camélias, cometem um erro de calendário com o único intuito de nos encher de alegria. Quem pratique essa admiração ingénua pelas obras da natureza há-de embevecer-se ao contemplar, em Janeiro ou Fevereiro, as margens de um rio pintadas do amarelo das mimosas em flor, ou um prado brilhando com o amarelo pálido das azedas (Oxalis pes-caprae). O equívoco, nesse caso, é duplo: tão exuberante floração não é sinal de Primavera, mas sim de Inverno, que é a estação em que tais flores aparecem; e essas invasoras em flor não são uma amostra da força regeneradora da natureza, mas sim uma prova dolorosa do estado de degradação a que nós, humanos, reduzimos essa mesma natureza.

Mesmo nesta coisa de flores silvestres, há pois que aprender a desconfiar dos efeitos fáceis. Podemos, num primeiro instante, admirar os campos revestidos de flores todas iguais, mas depois convém saber de onde elas vieram, se deveriam estar ali, e se a sua presença massiva não significa afinal uma perda de biodiversidade. Em Maio do ano passado, entre Reinosa e Fontibre, na Cantábria, tivemos oportunidade de pôr à prova estes ensinamentos. A planta que tentou seduzir-nos pelo vermelho artificioso das suas flores pintava muitos quilómetros de berma de estrada. Resistindo estoicamente a tão desbragado assédio, parámos para uma sessão fotográfica que serviria de base ao posterior auto de identificação. Lavrou-se de seguida (quase um ano depois) a competente nota de culpa, que se transcreve abaixo.

Culpa afinal moderada, e com várias circunstâncias atenuantes. A Onobrychis viciifolia, planta perene de uns 70 cm de altura, é talvez exótica na Península Ibérica, mas não há certeza disso. É uma daquelas plantas que durante séculos foram cultivadas para forragem e das quais não se sabe a origem exacta, admitindo-se que seja nativa da bacia mediterrânica, daquela região onde a Europa se vai confundindo com a Ásia. Ao contrário do que sugere o nome científico, a planta não era consumida só por burros: gado de todos os tamanhos e feitios considerava-a um pitéu delicioso. Não foi por os bichos se queixarem dela que a planta deixou de ser cultivada em meados do século XX, mas por se ter dado preferência a outras leguminosas forrageiras (sobretudo trevos e luzernas) de maior produtividade. Como podemos levar a mal que uma planta apátrida, mas certamente europeia de origem, se tenha naturalizado, a uma escala afinal modesta, naqueles países europeus onde foi um importante recurso agrícola? Assim sendo, já estamos autorizados a declará-la bonita e a sentirmo-nos felizes quando a vemos florir numa berma de estrada.

27/03/2018

Super-chícharo das altas montanhas



Lathyrus laevigatus subsp. occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Breistr.
[sinónimo: Lathyrus occidentalis (Fisch. & C. A. Mey.) Fritsch nom. illeg.]


As altas montanhas onde vive o super-chícharo são os Alpes, os Pirenéus e a cordilheira cantábrica. Não é nos cumes gelados que ele encontra o seu lugar, mas no aconchego reconfortante dos bosques das encostas e do sopé dos montes: segundo a Flora Iberica, a sua zona de conforto altitudinal situa-se entre os 400 e os 2100 metros. E foi a uns 1000 metros de altitude, numa estrada sinuosa ensombrada por faias (Fagus sylvatica), que o aviso laranja dos seus cachos de flores nos obrigou a uma paragem de emergência.

O nome super-chícharo que atribuímos a este Lathyrus justifica-se pelo espanto de boca aberta que ele nos provocou. Só uma demorada consulta dos manuais nos permitiu enquadrá-lo num género ao qual nunca suporíamos que pertencesse. As espécies de Lathyrus em Portugal (confira aqui), ainda que muito variadas, não têm flores desta cor, nem dispostas em espigas como velas acesas. As folhas compostas pinadas, desprovidas de gavinhas, são tão grandes que fazem lembrar as das glicínias (Wisteria sinensis). E os caules erectos e robustos não são guarnecidos pelas membranas laterais que caracterizam muitos dos nossos chícharos (exemplos: 1, 2).

Tratando-se de planta tão vistosa, quem viva em climas temperados mas frescos pode até encomendar sementes para com ela ajardinar o bosque nas traseiras de casa. A fama e do proveito não a livram contudo da controvérsia taxonómica, havendo quem a subordine, como subespécie, a Lathyrus laevigatus, e outros que a promovem a espécie autónoma, sob o nome de Lathyrus occidentalis. A primeira opção parece mais razoável, porque as diferenças entre a subsp. occidentalis (de que aqui tratamos) e a subsp. laevigatus (que ocorre na Europa do Leste e na Rússia ocidental) são de pouca monta, resumindo-se à indumentação (a primeira é algo pubescente, a segunda quase glabra), à largura dos folíolos (os da segunda são um pouco mais largos) e ao comprimento dos dentes do cálice. A Flora Iberica alinhou pelos autonomistas, mas o nome que escolheu padece de ilegalidade: Karl Fritsch, ao chamar em 1895 Lathyrus occidentalis a esta planta, repetiu um nome que tinha sido usado em 1838 por Thomas Nuttall para designar uma espécie completamente diferente (tida hoje como sinónimo de Lathyrus palustris L.). Quando um mesmo nome é usado para coisas diferentes, o Código Internacional de Nomenclatura Botânica (ICBN) impõe que só é aceite o uso validado pela publicação mais antiga. Resumindo: para poder apresentar-se como espécie independente, falta a este super-chícharo um nome válido à luz do ICBN.

03/05/2017

Maias da Madeira

Este é um mês venturoso para as giestas, piornos e tojos. Com folhagem nova, alindam os taludes das estradas com racimos de flores de um amarelo sedoso. No campo, de espinhos afiados (os que os têm) para evitar o gado predador, rescendem a frutos verdes. E por todo o lado, mas em murmúrio, a tradição atribui-lhes o poder de esconjurar o mal. Noutros tempos, os ramos unidos eram também ágeis vassouras ou boa lenha para o fogão, e havia ainda espécies usadas no fabrico de tinta. Algumas, muito melíferas, constituem no início das Primavera fonte importante de alimento para as abelhas que, agradecidas, nem notam que as flores se abrem como se explodissem, soltando uma chuva de pólen que aterra no dorso dos polinizadores. Um truque que talvez justifique o sucesso destas fabáceas, de que a Península Ibérica e a região mediterrânica abrigam dezenas de espécies.

A giesta-da-Madeira (Genista tenera, a que a Flora de JT Press e MJ Short chama giesta de piorno) é um arbusto endémico da ilha da Madeira, ocorrendo em lugares soalheiros e secos de ravinas perto do mar e penhascos de montanha. Perene e coberto por um indumento acetinado, não cresce além dos 2,5 metros mas exibe flores grandes entre Março e Julho. Os frutos são vagens espalmadas, com um gancho na ponta e contendo muitas sementes acastanhadas.



Genista tenera (Jacq. ex Murray) Kuntze


A segunda leguminosa que vos mostramos hoje é também endémica da Madeira (e da Deserta Grande) — e, tal como a primeira, é conhecida na ilha pelo nome popular de piorno. Já se chamou Genista maderensis (Webb & Berthel) Lowe, assim como Cytisus maderensis (Webb & Berthel.) Masf., e com razão. De facto, as suas flores têm o cálice como os do género Genista, mas a semente é mais parecida com as do género Cytisus. Por isso, houve quem propusesse que deveria pertencer, com outras espécies das Canárias, a um género próprio, Teline.

Esta maia da Madeira (Teline maderensis) é um arbusto perene que pode chegar aos 6 metros de altura, de ramos penugentos e folhas trifoliadas, com folíolos mucronados de cor verde acinzentada. Prefere a laurissilva, mas também se encontra em escarpas junto ao mar, especialmante na Fajã da Ovelha e em São Vicente. As versões marítima e de montanha diferem sobretudo na cor do indumento, de prateado a castanho, e no tamanho do ápice aguçado dos folíolos. Pormenores que levam alguns taxonomistas a distinguir duas variedades, Teline maderensis var. maderensis e Teline maderensis var. paivae.


Teline maderensis Webb & Berthel.

30/08/2016

Lotus x 2

Entre as erupções que lhes deram origem e o mar que metodicamente as vai desgastando, o destino das ilhas (medido numa escala de milhões de anos) é virem do nada para ao nada regressarem. A ilha do Porto Santo, mais velha do que a Madeira e muito mais do que todas as ilhas dos Açores, já foi bem maior do que é hoje, mas a erosão prossegue e o mar só terá descanso quando não sobrar uma pedra à superfície. Não será porém durante as nossas vidas, e o mais certo é que então a humanidade já não exista.

A velhice tem prerrogativas que ninguém pode negar, como a de ter feito tudo ou quase tudo antes dos jovens que hoje mandam no mundo. Falando de ilhas e das plantas que nelas vivem, se uma espécie é comum a duas ilhas vizinhas, então a suposição natural (nem sempre confirmada na prática) é que ela tenha tido o seu berço na mais idosa das duas. Ou seja, a ilha mais velha terá criado a planta para a deixar de herança à mais nova. A dificuldade é que as espécies vegetais das ilhas não surgem por geração espontânea, mas têm origem em estirpes vindas dos continentes. Se a distância da Madeira e do Porto Santo às massas continentais africana e europeia é praticamente a mesma (o Porto Santo está ligeiramente mais próximo), a Madeira, sendo muitas vezes maior do que o Porto Santo, teve maiores probabilidades de captar as sementes colonizadoras trazidas pelos pássaros, pelos ventos ou pelas marés. Assim, e até que a ciência tire o assunto a limpo, não há modo de decidir em qual das ilhas se originaram as espécies endémicas partilhadas entre a Madeira e o Porto Santo.

Duas dessas espécies, ambas do género Lotus, figuram hoje no cartaz. É um género em que o Porto Santo leva vantagem, uma vez que detém em exclusivo a terceira espécie endémica do arquipélago, L. loweanus. Além disso, tanto o L. macranthus como o L. argyrodes, adaptados a climas áridos e a solos rochosos, são bem mais frequentes e fáceis de encontrar no Porto Santo do que na Madeira. Não seria surpresa se se concluísse serem eles originários da menor das duas ilhas.


Lotus macranthus Lowe


Que diferenças há a assinalar entre estes dois Lotus, fotografados não muito longe um do outro na subida para o Pico Branco? O L. macranthus (em cima), apesar do epíteto que significa "flor grande", não se distingue pelo maior tamanho das flores, mas antes pela cor verde que contrasta com o tom acetinado que a penugem mais densa empresta ao L. argyrodes. Além disso, o L. macranthus tem folíolos menores e algo carnudos, e a indumentação do cálice é feita de pêlos curtos, aplicados, enquanto que os do L. macranthus são compridos e patentes (compare a quarta foto em cima com as duas últimas em baixo). A diferente coloração das flores, observável nas fotos, não é um indicador fiável, já que tanto o L. macranthus como o L. argyrodes podem dar flores claras ou escuras.



Lotus argyrodes R. P. Murray


Ambas estas espécies foram uma vez ou outra assinaladas, com alto grau de incerteza, no arquipélago dos Açores, até que em 1968 P. W. Ball entendeu que as plantas açorianas eram diferentes das madeirenses e endémicas dos Açores; chamou-lhes Lotus azoricus. O assunto parecia encerrado, mas em 2006, num artigo intitulado A taxonomic survey of Lotus section Pedrosia (Leguminosae, Loteae), um grupo de botânicos a trabalhar nas universidades de Moscovo e de Perth concluiu não haver diferenças mensuráveis entre o L. argyrodes e o L. azoricus, tratando-se portanto de uma única espécie. A ser aceite tal opinião, os Açores e a Madeira partilhariam mais um endemismo, quando nos últimos anos a regra tem sido separar, em duas ou mais espécies, taxónes que antes se supunha existirem em ambos os arquipélagos. De facto, as fotos que tirámos de ambas as espécie parecem corroborar a sinonímia, havendo porém ligeiras diferenças no indumento do cálice e na forma dos folíolos. Parece-nos também, pelo que observámos no Pico e em Santa Maria, que as plantas açorianas formam tapetes muito mais extensos do que as madeirenses. Só um estudo genético, que já tarda, permitirá tirar conclusões seguras.

03/06/2016

Flora endémica do Porto Santo: Lotus loweanus



Lotus loweanus Webb & Berthel.



Todas as fontes consultadas — e que foram, por ordem cronológica inversa, Flora Endémica da Madeira de Roberto Jardim & David Francisco (2000), Flora of Madeira de J. R. Press & M. J. Short (1994), e A Manual Flora of Madeira de Richard Thomas Lowe (1868) — informam que este endemismo porto-santense é comum, um pouco por toda a ilha, em dunas, falésias costeiras e encostas pedregosas até uns 150 m de altitude. Os 130 anos que medeiam entre o mais antigo e o mais recente desses livros pareciam ser garantia de que o Lotus loweanus ultrapassara quase incólume o mais destrutivo dos séculos. No entanto, só o encontrámos na última manhã da nossa estadia, e para isso tivemos que percorrer, no sudoeste da ilha, os 2 Km de areal entre a Ponta da Calheta e o Cabeço da Ponta. Talvez a dificuldade se deva à nossa inépcia, mas há a possibilidade de o Lotus loweanus estar a ser vítima do surto de construções turísticas ao longo da praia e, sem que ninguém dê oficialmente por isso, em lugar de ser comum se vá tornando raro e ameaçado. E não é tranquilizador que nesta página se diga que ele apenas existe nos ilhéus do Porto Santo: se esperarmos uns anos e nada se fizer, talvez essa informação falsa se converta em verdadeira.

Há uma linhagem de Lotus macaronésios em que este do Porto Santo (popularmente chamado de cabeleira-de-coquinho) claramente se insere, e de que também faz parte o açoriano Lotus azoricus. Três outros representantes da mesma estirpe, que a seu tempo aqui mostraremos, vivem na ilha, seja na costa (caso de um deles) ou nos picos (os outros dois). São plantas perenes, acetinadas, rasteiras, formando vastos tapetes, com flores geralmente solitárias e de cor escura. O Lotus loweanus singulariza-se por ter uma base lenhosa bem desenvolvida, com as plantas mais idosas a assemelharem-se a arbustos liliputianos (comprove na 1.ª foto). As folhas, como é típico nos Lotus, são formadas por cinco folíolos que, neste caso, são estreitos e têm um vinco longitudinal bem evidente. As flores, não sendo embora das mais pequenas do género (têm de 1 a 1,5 cm de diâmetro), são pouco conspícuas por causa da sua cor escura e por estarem quase sufocadas pelo cálice. Apesar da modéstia da floração, que apenas decorre entre Março e Junho, esta cabeleira-do-coquinho, como testemunham as fotos acima, é muito decorativa graças à sua arquitectura geral e à folhagem glauca com reflexos prateados.


Ponta da Calheta, ilha do Porto Santo

27/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Vicia costae


Vicia costae A. Hansen


Há plantas que podem tirar um período sabático de vários anos antes de regressarem ao activo. Em lugares sujeitos a secas periódicas, ficam as sementes adormecidas à espera de um bom ano de chuva. Quando ela vem, é tempo de agarrar a vida e renovar o banco de sementes para enfrentar nova travessia do deserto.

No Porto Santo, a chuva este ano tem sido pouca, e escolheu cair toda na semana da nossa visita. O resultado é que não pudemos observar a Vicia ferreirensis, nem ficámos para ver se a chuva ainda foi a tempo de a despertar. Essa ervilhaca, que é endémica de um ou dois picos do Porto Santo (fotos aqui e aqui), só aparece em anos de grande pluviosidade. Podem passar-se anos sem que ninguém a veja: não está extinta, está apenas à espera. Eis o que o padre José Gonçalves da Costa, um estudioso da flora do arquipélago da Madeira e o primeiro a notar o fenómeno, escreveu sobre o assunto em 1946 no Boletim do Museu Municipal do Funchal:

«Parece que as sementes destas espécies têm a propriedade de conservarem a força germinativa durante diversos anos e a prudência de não germinarem em anos de estiagem, em que pereceriam à seca, germinando somente nos anos de chuvas abundantes. Esta tendência para a ombrometria fá-las germinar apenas nos anos em que as águas das chuvas penetraram profundamente no subsolo e há a humidade necessária assegurada para o seu desenvolvimento e frutificação. Esta propriedade ombrométrica torna-as sobremodo cientificamente interessantes! A Vicia portosanctana Menezes [= Vicia ferreirensis Goyder], que descobri na encosta sul do pico da Ana Ferreira em Abril de 1923, ano em que fiz no Porto Santo a minha primeira pesquisa botânica para coleccionar plantas para o herbário do Seminário, parece poder considerar-se, neste ponto, uma espécie típica; porquanto em Março e Abril de 1939, procurei-a cuidadosamente no referido local onde a tinha descobrido, mas não vi o mínimo vestígio dela, de maneira que a reputei extinta. Nos mesmos meses de 1940, depois de chuvas abundantes, observei-a lá em grandes e verdejantes tufos, a fazer latada sobre os moledos ou enleada na Crambe fruticosa L. f. e na Euphorbia piscatoria Ait. "Figueira do inferno".»

Privados de ver a Vicia ferreirensis, foi nosso prémio de consolação encontrarmos noutros picos (Pico Branco, Pico do Facho, Pico do Castelo) a segunda ervilhaca anual que é endémica da ilha, e cujo nome (Vicia costae) homenageia justamente o padre Costa, que foi quem primeiro a descreveu. Gozando de uma distribuição mais ampla, embora sempre exígua dada a dimensão da ilha, esta Vicia costae não será, em anos secos, tão absentista como a sua congénere, até porque, nos pontos mais altos da ilha, a condensação atmosférica compensa a falta de chuva. O padre Costa chamou-lhe Vicia atlantica, mas esse nome foi considerado inválido por ter sido anteriormente atribuído a uma espécie africana. O nome hoje aceite foi proposto em 1974 pelo botânico dinamarquês Alfred Hansen, que exprimiu então a convicção de que a Vicia costae (como lhe chamou) era "sem dúvida uma espécie bem definida e autónoma, relacionada com a Vicia benghalensis".

Comparando as fotos acima com as do Flora-On, o leitor poderá constatar que, na forma e cor das flores e no indumento do cálice, a V. costae e a V. benghalensis são de facto próximas uma da outra. As diferenças, porém, são ainda mais notórias do que as semelhanças: a V. costae tem em geral duas flores por haste, muito raramente três ou mais, enquanto que a V. benghalensis costuma ter cachos de dez ou mais flores. E, ao passo que na V. costae os dentes inferiores do cálice têm metade do comprimento do tubo da flor, na V. benghalensis esses dentes são tão ou mais compridos do que o tubo.

Estar com estas minudências é como explicar, com entediante detalhe, porque é que um cão e um gato, tão diferentes aos olhos de quem vê, são também diferentes à "luz da ciência". Mas o exercício justifica-se quando, em nome de uma ciência que ignora o senso comum, alguém nos quer fazer acreditar que cão e gato são animais da mesma espécie. Dessa arrogância foi culpada a (de resto notabilíssima) Flora of Madeira de J. R. Press & M. J. Short, publicada em 1994, ao considerar a V. costae como sinónimo de V. benghalensis. Nessa obra, a descrição da V. benghalensis (que, embora rara, de facto ocorre na ilha da Madeira) foi suficientemente alterada em relação ao que é usual para abranger também a V. costae. É um facto que, se definirmos intervalos de variação suficientemente amplos, conseguimos meter tudo no mesmo saco — mas, num caso como este, era impossível não notar como as duas espécies artificialmente unificadas caíam sempre em extremos opostos de tais intervalos.

A proposta, felizmente, não fez escola, e hoje em dia (veja-se por exemplo aqui e aqui) ninguém considera que V. costae seja sinónimo de V. benghalensis.


O Pico do Facho, com 516 m de altitude, é o ponto mais elevado do Porto Santo

22/04/2016

Filódios & cladódios


Lathyrus ochrus (L.) DC.
O chícharo (Lathyrus sativus) é o mais famoso representante do género, mas estas leguminosas que se enrolam noutras plantas para chegarem mais alto aparecem em muitas cores e feitios, especialmente em áreas de clima mediterrânico, e são um dos sinais mais firmes de que a Primavera já não volta atrás. Não fosse o prestígio de Lineu, seríamos tentados a afirmar que as flores do Lathyrus ochrus são brancas, e não amarelas como indica o epíteto por ele escolhido. Trata-se, em qualquer caso, de um amarelo muito pálido, que precisa de uma boa demão de Photoshop (inexistente à época em que viveu o patriarca da botânica) para se manifestar. Se não se destaca pela cor das flores, este chicharão vale como acepipe para o gado (é ocasionalmente cultivado como forragem) e singulariza-se pelo aspecto peculiar: o caule parece agasalhado pelas folhas, como quem se encolhe dentro da gabardina para se resguardar da intempérie. O exemplar das fotos era ainda jovem; à medida que cresce, esta planta anual liberta-se um pouco do seu ar friorento. Quanto ao agasalho em si, esclareça-se que ele não é formado por folhas normais, mas sim por filódios. Um filódio é uma folha incompleta, reduzida ao pecíolo, que para compensar a falta vai alargando até tomar o aspecto da (inexistente) lâmina foliar. Algo de semelhante se passa com a gilbardeira (Ruscus aculeatus), onde aquilo que nos parece ser uma folha é na verdade outra coisa (chamada cladódio) indevidamente inchada para se disfarçar de folha. Estas minudências taxonómicas não têm porém grande relevância para a vida da planta: desde que sejam verdes, filódios e cladódios cumprem com lealdade, como se fossem folhas, a função fotossintética que lhes é confiada.

Quando a planta está desenvolvida, as folhas superiores do Lathyrus ochrus, embora ainda apresentem os pecíolos intumescidos, dispõem já de um ou dois pares de folíolos (foto). Todas as folhas, completas ou reduzidas, são rematadas por gavinhas sempre à espreita de um pau para se agarrarem. Florescendo entre Março e Junho, com flores solitárias ou (raramente) aos pares, e com caules muito ramificados capazes de atingir 1,5 m de comprimento, o Lathyrus ochrus distribui-se por toda a Europa mediterrânica e pelo norte de África (Marrocos, Argélia e Tunísia); nativo de Portugal continental, está naturalizado nos Açores (ilhas de São Miguel e Santa Maria) e na Madeira.

29/03/2016

Dança das ervilhas


Pisum sativum L.


A ervilheira, cujas vagens contêm filas de sementes esféricas muito leves, é uma planta anual que aprecia o frio e que entrou tardiamente, depois de muitos outros vegetais, na cozinha europeia. Entretanto, teve outros usos pois há mais de dois séculos que as ervilhas colaboram com a ciência. Depois de, pela mão experimentada de Mendel, terem sugerido as leis gerais da genética, ajudam agora os biólogos a entender como é que as plantas comunicam entre si e de que modo conseguem processar a informação que lhes chega do ambiente.

Neste âmbito, a discussão (e a controvérsia) centra(m)-se nas questões seguintes: os neurónios, que as plantas não têm, constituem uma solução muito engenhosa para guardar e gerir informação; mas haverá outras? As plantas têm consciência do que as rodeia, ainda que por mecanismos distintos dos dos animais? O problema é complicado porque temos, naturalmente, uma visão antropomórfica do mundo. Parece-nos que, sem um cérebro que pense, memorize, aprenda, comunique, interaja, se emocione, tenha consciência de si e dos outros, e saiba coordenar tudo isto, não se é inteligente. Repare-se que, se em vez da palavra «plantas» usarmos «computadores», estas perguntas não são novas (e as respostas resumem-se a: um computador pode ser capaz de muitas tarefas complicadas, mas não tem consciência de que as realiza nem sente satisfação por isso).

A combinação de qualidades que usámos para definir ser inteligente é discutível mas, se devidamente adaptadas ao mundo vegetal, talvez haja indícios de algumas delas entre as plantas. Nestas, aos nossos ouvidos silenciosas, que precisam de se defender, de ter sempre à mão água e nutrientes, e de um meio eficiente e controlável que transporte o pólen entre duas flores impedidas de se tocar, reconhecemos sinais de uma notável adaptação aos habitats e aos polinizadores. E vêmo-las capazes de inúmeras decisões (em que direcção crescer, quantas folhas novas devem nascer neste ramo, quando florir, como encontrar água, quando abrir os frutos e largar as sementes, etc.) que são demasiado difíceis de realizar quase em simultâneo sem algum grau de inteligência.

Mas, afinal, que provas nos apresentam os cientistas de que as plantas são capazes de comportamentos inteligentes? É aqui que intervêm as trepadeiras, como as que dão ervilhas. Elas usam gavinhas para se segurar enquanto ascendem em busca de luz e espaço. Para isso, precisam de saber localizar lugares onde se possam agarrar, mas não têm olhos para identificar postes. Contudo, neste vídeo, podemos observar como as plantas orientam a gavinha para um poste, revelando uma percepção do ambiente com que não contávamos. Além disso, repare-se como, mal uma das trepadeiras se enrola no pau, a outra planta pressente-o e, vencida, procura alternativas. Como foi possível transmitir essa informação de uma planta a outra? Que órgãos as fazem tão sensíveis a tantos estímulos? O aparato sensorial das plantas contém versões dos nossos cinco sentidos (sentem diferenças químicas no ar, na água ou no solo; reagem de modo distinto a diferentes comprimentos de onda da luz; as gavinhas sabem quando encontram um objecto em que se enrolar; e, acredite-se ou não, em alguns testes parecem saber interpretar sons), mas é muito mais completo e minucioso. Os cientistas estão convencidos de que se trata de uma comunicação química ou por sinais eléctricos, que podem ser emitidos por toda a planta. Além disso, as experiências destes neurobiólogos parecem indicar que as plantas memorizam informação, e com essa aprendizagem são capazes de resolver problemas que ponham em causa a sua sobrevivência (como se conta neste documentário).

A teoria mais bem aceite é a de que as células de cada planta funcionam como colónias de formigas ou abelhas, em que um número muito grande de indivíduos, cada um deles sem inteligência digna de nota, trabalha eficientemente em grupo, tal qual uma rede de ligações optimizada. De resto, toda a planta é feita de módulos, alguns descartáveis sem qualquer risco, e cada um coopera, seja a comunicar, a evitar ameaças ou a disseminar-se. Ora, tal como na Internet, para conseguir isto não é preciso um cérebro; basta estar vivo e pertencer a uma estrutura com tarefas bem distribuídas e devidamente coordenadas.

Mas os cientistas são teimosos, e animam-se precisamente com os desafios mais difíceis. Inspirados pela obra The power of movement in plants, de Charles Darwin, têm procurado nas plantas uma estrutura análoga a um cérebro. E, de facto, localizaram em cada raiz uma região muito mais bem oxigenada que as demais e sem a qual, embora cresça, a raiz perde a habilidade de seleccionar a direcção privilegiada em água, nutrientes e solo. É um pedaço minúsculo de raiz perto da ponta, enterrado para reduzir o risco de ser comido ou destruído, mas multiplique-se esse bocadinho pelo número de raízes e teremos, não um cérebro, mas um conjunto de células que funciona como um gigantesco sistema nervoso central, cuidadosamente empenhado na sobrevivência da planta e da espécie. Talvez o leitor aprecie ouvir mais detalhes nesta palestra (que dura cerca de 15 minutos e pode ser acompanhada por legendas em português se escolher essa língua em «Subtitles»), com o testemunho de um desses cientistas.