Abater árvores para melhorar o ambiente
Já se sabe que ambiente é um termo da mais vasta abrangência; mas o seu uso está a ser esticado a tal ponto que ele corre o risco de se esvaziar de significado. É que nem são precisas grandes acrobacias de retórica para argumentar que uma acção e a sua oposta são ambas em benefício do ambiente; ou, pelo menos, de alguma das múltiplas acepções desse vocábulo - esquecendo momentaneamente, se der jeito, todas as outras. Consideremos, por exemplo, a construção ou não de uma via rápida. Se o seu único traçado possível destruir uma zona de grande valor ecológico, então é bom para o ambiente que a estrada não se faça. Mas, se a estrada desviar o trânsito do centro de uma localidade, então o ambiente vai ser beneficiado com a sua construção, pois as ruas da localidade ficarão mais tranquilas e menos poluídas.
Um outro exemplo, desta vez real. Há pouco mais de dez anos, plantaram-se em Famalicão 26 liquidâmbares; e até as crianças terão percebido que com isso o ambiente em Famalicão melhorou. Quem sabe até se as crianças famalicences não terão sido então incumbidas de compor redacções sobre a árvore e o ar que respiramos - a propósito, justamente, das novas árvores no centro da cidade. As crianças cresceram e saíram da escola, e o seu mundo de certezas infantis vai sendo derruído por sucessivos abalos. Agora a Câmara que há dez anos plantou os liquidâmbares convida-as a acreditar que o ambiente é beneficiado pelo arranque das mesmas árvores.
Abstenho-me de discutir as razões deste abate. O que me incomoda é o uso a despropósito de uma palavra: se em nome do ambiente fazemos uma coisa e o seu contrário, então ambiente não significa nada. É claro que, se os moradores não queriam aquelas árvores (e estão no seu direito), eles vão ficar felizes com a rua despida. Ficando felizes, serão mais cordiais no trato. As relações entre vizinhos serão de uma cortesia exemplar. Haverá pois, sem dúvida, um ambiente de boa vizinhança, o que, por assim dizer, se traduz em bom ambiente tout court. QED