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21/11/2010

Palestra: Flores & fetos de Valongo


Gentiana pneumonanthe L. / Simethis planifolia (L.) Gren.

Data e hora: 4 de Dezembro (sábado), às 16h00
Local: sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, Porto

Leitores regulares do blogue ou visitantes ocasionais, estão todos convidados para uma palestra onde daremos a conhecer, com muitas fotos, a flora espontânea das serras de Valongo. Entre árvores, arbustos, flores e fetos, serão cerca de 60 as espécies ilustradas. Muitas são escassas na área metropolitana do Porto, e algumas há que são raridades absolutas em Portugal continental ou mesmo na Europa. Este património único, desconhecido de muitos, está ameaçado pela degradação ambiental que tem sofrido esse território nas últimas décadas.

A sede da Campo Aberto estará aberta a partir das 15h00 para quem queira conversar ou, aproveitando o embalo da quadra festiva, comprar livros, artesanato ou produtos do comércio justo.

Depois da palestra haverá lanche, rifas, um leilão, tudo isso em benefício da Campo Aberto (associação reconhecida de utilidade pública), que não tem subsídios e necessita do apoio financeiro de sócios e amigos.

08/10/2010

Cavalgar rente ao chão




Centaurium scilloides (L. fil.) Samp.

Voltamos às plantas que homenageiam os homens enxertados em cavalos ou vice-versa. O Centarium scilloides foge decididamente ao figurino dos seus congéneres, tanto que, se não fossem as flores, nem desconfiaríamos da sua filiação. Em lugar de se apresentar erecto, o C. scilloides é rastejante, só erguendo o pescoço para hastear as flores. As folhas, em vez de serem sésseis e abraçarem o caule, exibem um breve pecíolo e têm formato arredondado. E, incluída num género quase todo ele formado por plantas anuais ou bienais, a planta tem ainda a originalidade de ser vivaz. Assim, embora a sua parte aérea desapareça durante o Inverno, a subterrânea continua viva, pronta para fazer emergir novo caule quando chegar a Primavera.

Ainda que esteja referenciado em quatro países (França, Grã-Bretanha, Espanha e Portugal, incluindo o arquipélago dos Açores), o centauro-rasteiro não é de modo nenhum vulgar: na Grã-Bretanha surge apenas ao longo da costa oeste do País de Gales; na Península Ibérica concentra-se no norte, embora também haja notícia dele em Cádiz; e em Portugal continental parece ocorrer apenas em alguns pontos do Minho (serras do Soajo e da Peneda, Ponte de Lima, Paredes de Coura...). A sua vulnerabilidade garante-lhe a duvidosa honra de estar incluído no livro vermelho da flora ameaçada da Cantábria.

Conhecem-se duas formas da espécie, mas não tão diferentes, na opinião dos botânicos, que se justifique uma separação taxonómica: as plantas açorianas têm flores brancas (confirme aqui), em contraste com as flores cor-de-rosa das plantas continentais.

As fotos que ilustram o texto foram obtidas em duas ocasiões entre Julho e Agosto, a primeira no Parque Natural das Dunas de Corrubedo (Corunha, Galiza), a segunda na estrada que liga o Soajo à Peneda. Nessa área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, muito perto do Mezio, predominam as plantações florestais de pinheiros e cedros-brancos (Chamaecyparis lawsoniana). Há quem proclame sobranceiramente (leia-se a discussão aqui havida) que o valor conservacionista de zonas como essa é nulo, e que os incêndios que as têm devastado não trazem prejuízo sério ao nosso único Parque Nacional. Que os taludes das estradas por entre esses pinhais alberguem das poucas populações portuguesas de uma espécie globalmente escassa não é coisa que pese em tais argumentos: a ignorância é a melhor garantia de uma consciência tranquila.

04/10/2010

Hércules e o centauro


Centaurium maritimum (L.) Fritsch

A mitologia grega, além de mostrar os deuses movidos por paixões tão caprichosas e irracionais como as que afligem os humanos, oferece-nos, para cada uma das suas narrativas, um emaranhado de versões contraditórias. Dá ideia que o Olimpo não dispunha de porta-vozes nem de centrais de comunicação para propagar versões oficiais que depois os repórteres da época (poetas, dramaturgos, filósofos) se encarregassem de difundir. Assim, cada um usava as fontes que conseguisse reunir; e, na falta de testemunhas oculares dos acontecimentos, inventava.

Assim aconteceu com Quíron, o mais distinto dos centauros: versado em astrologia e reputado curandeiro e naturalista, teve Aquiles e Asclépio entre os seus discípulos. A controvérsia gira à volta da sua morte. Segundo alguns, ela terá resultado de uma flecha envenenada desferida por Hércules. Segundo outros, Quíron, como todos os da sua espécie, era imortal, e não morreu com a seta, mas sim em consequência de um acordo depois firmado com Zeus: Quíron terá oferecido a sua vida em troca da salvação de Prometeu, o mesmo que ensinou os homens a usar o fogo e estava a ser comido vivo por uma águia. Reforçando esta segunda versão, conta-se ainda que Quíron recorreu aos seus amplos conhecimentos de plantas medicinais para se curar da ferida que Hércules lhe causara. Outros contrapõem que Quíron, para sua grande frustração, foi incapaz de se curar a si próprio - e quem sabe se não foram o desgosto e o incómodo, mais do que o altruísmo, que o levaram a sacrificar a vida.

Para efeitos taxonómicos, devemos aceitar que Quíron se auto-medicou com sucesso, e que a planta de que se socorreu é precisamente aquela a que hoje, em sua homenagem, chamamos Centaurium. O mundo e a arte de curar deram entretanto muitas voltas, os centauros e outras criaturas imortais desapareceram da face da Terra, e já ninguém é susceptível ao efeito placebo de uma ervinha desacompanhada de receita médica. Ainda assim, o Centaurium foi tradicionalmente usado, mesmo em Portugal, para preparar infusões que, por serem amargas como o fel, eram obrigadas pela lei das compensações a ter alguma virtude terapêutica. O nome popular da espécie mais comum em Portugal, C. erythraea, é justamente fel-da-terra.

Apesar de essas plantas, inexplicavelmente, quase não serem cultivadas em jardins, o fel-da-terra não é o único Centaurium ao alcance da nossa admiração: das cerca de vinte espécies do género, a maioria delas europeias, pelo menos nove são espontâneas em Portugal. Em geral são herbáceas anuais ou bienais, com flores cor-de-rosa (ou, mais raramente, amarelas ou brancas) dotadas de longos cálices tubulares, e folhas sésseis dispostas aos pares. Ficam-se pelos 20 a 40 cm de altura, florescem na Primavera, e gostam de lugares soalheiros como dunas, prados ou falésias.

O C. maritimum, que encontrámos em Vagos e na foz do Cávado, é especial por ter flores amarelas. O C. tenuiflorum, por sua vez, foi fotografado junto à pequena lagoa de Alvados. Distingue-se facilmente do C. erythraea pelas flores de menor tamanho e de um cor-de-rosa mais intenso.


Centaurium tenuiflorum (Hoffmanns. & Link) Fritsch

02/09/2010

Saudades para a Dona Genciana



Gentiana pneumonanthe L.

Espero pelo verão como quem espera por uma outra vida, diz Ruy Belo. Pelo contrário, para as lagoas de Ponte de Lima, os dias quentes do nosso repouso e novas errâncias são um ensaio da morte. Desde que em 1995 drenaram os canais de escoamento de água - para responder às queixas de quem lavra ou pasta nos campos próximos, que se encharcavam no Inverno - as lagoas quase desaparecem no período estival. Como se deveria ter previsto, a vegetação que era usual encontrar com os pés na água, alguma de natureza excepcional, vive (se é que ainda vive) dias aflitos. Por exemplo, os folhetos de informação relatam que já se registou a presença na lagoa do Mimoso de exemplares do género Utricularia; mas com a lagoa seca, tal como a vimos, a planta dificilmente sobrevive.

Como sempre, há quem ganhe com a desventura dos outros. A bela Gentiana pneumonanthe gosta precisamente destes relvados moderadamente húmidos com solo ácido; e, apesar de as fotos serem de exemplares da serra do Gerês, vimos há poucos dias muitos mais nos terrenos incultos adjacentes às lagoas. Esta herbácea vivaz rizomatosa tem folhas lineares opostas, de cerca de 3 cm de comprimento, que abraçam um caule de altura variável: as plantas do Gerês são baixinhas, as de Ponte de Lima ultrapassam frequentemente os 60 cm. As pétalas, de uns 5 cm, pintalgadas de dourado e plicadas, formam um tubo azul com cinco faixas verdes no exterior; rodeiam cinco estames e um estilete curto com néctar na base. Está na lista de plantas vulneráveis em vários habitats, alguns da Península Ibérica. Num projecto alemão que selecciona uma flor por ano para incentivar o apreço pelas plantas silvestres, o cálice-da-aurora foi a primeira a ser escolhida.

A maioria das cerca de quatrocentas espécies do género Gentiana distribuem-se pelas regiões temperadas da Europa, América e Ásia, preferindo prados de montanha se lhes calha viver em zona mais quente. Em Portugal, além da nortenha G. pneumonanthe, ocorre a G. lutea L., natural do centro e sul da Europa. Se esta genciana esguia de flores amarelas já existiu em todo o território aqui referenciado (o que parece improvável), agora só a podemos admirar na serra da Estrela; e tem já destaque garantido no livro vermelho das plantas ameaçadas, quando ele for publicado. Parte da culpa cabe ao rei Gentius da Ilíria, região dos Balcãs actualmente dividida por vários países (Albânia, Bósnia e Herzegovina, Croácia, Montenegro e Sérvia), a quem se atribui a descoberta de virtudes medicinais nas raízes da G. lutea, ainda hoje utilizadas para aromatizar e tonificar bebidas.

09/07/2010

Dormir a sesta


Blackstonia perfoliata (L.) Huds.

Olhem bem para esta planta. Embora ocorra também, longe do mar, na Estremadura, Ribatejo e Alentejo, não é difícil encontrá-la nas dunas fixas do litoral centro, e quem frequentar essas praias, se estiver atento, há-de vê-la muitas vezes. É um planta que muitas vezes ultrapassa o meio metro de altura, e por isso não a podemos taxar de ervinha insignificante. O modo como as folhas pontiagudas se juntam aos pares para abraçar o caule é inconfundível. E ela não é nada poupada na floração, chegando a juntar dezenas de botões no mesmo pé. O problema é que resiste a mostrar-nos os enfeites que preparou com tanto esmero. Quase sempre a encontramos com as flores severamente resguardadas por sépalas que parecem grades de uma cela. Deve dar-se por muito feliz quem lhe vê as flores de pétalas estendidas ao sol.

Alegam os manuais que a Blackstonia perfoliata só abre as flores em dias de sol radioso, mas diz-nos a experiência que isso é escamotear metade do problema. Mesmo quando o sol cumpre sem falhas o seu papel, ela, por receio de insolação ou por simples avareza, nunca se mantém aberta depois do meio-dia. Assim, poder contar-lhe as pétalas - o seu número varia entre 6 e 10 - exige a conjugação de factores externos propícios com a disposição de acordar cedo. Numa emergência, pode-se ainda fazer batota: agarrar numa flor que ainda esteja a correr as grades para se recolher e forçá-la a revelar-se. Lamentavelmente, foi isso mesmo que nós fizemos.

Uma tal propensão para o isolamento ensimesmado faria prever algumas dificuldades de sobrevivência. Afinal, os bichos polinizadores teriam mais que fazer do que andar às ordens de planta tão caprichosa. Mas a B. perfoliata é uma planta muito disseminada e fácil de encontrar em grande parte da Europa, desde o Mediterrâneo à Península Ibérica e à Grã-Bretanha; e, tratando-se de uma planta anual, essa ubiquidade é prova de amplo e regular sucesso reprodutivo. Saibamos pois, como ela, dormir a sesta tranquilamente: o mundo não acaba já.

06/02/2010

Sociedade Portuguesa de Botânica


Centaurium erythraea Rafn

.....A sul, algo de novo.