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13/12/2010

Avenkga


Adiantum capillus-veneris L.

Aprendi o que é a sucessão ecológica muito antes de saber o nome do fenómeno. Na varanda da nossa casa, fechada com uma marquise de alumínio na boa tradição suburbana, a minha mãe mantinha uma colecção de plantas envasadas que eu me incumbia de regar com uma assiduidade letal. A falar verdade, a dita colecção, mesmo no seu apogeu, nunca foi muito variada: lembro-me dos cactos, das begónias e da avenca. E lembro-me, também, como definhavam os cactos e as begónias - sei hoje que por culpa minha - e como os luxuriantes pés de avenca acabavam por invadir todos os vasos. No habitat húmido hiper-saturado que eu criava só uma planta especialmente adaptada poderia sobreviver. Às outras plantas cumpria apenas preparar o terreno (sem elas não se teriam comprado os vasos) para o triunfo final da avenca.

Não sei se essa avenca ornamental era a mesma que por aí cresce espontânea. Talvez não fosse, pois as floristas tinham o seu brio e, tal como hoje ainda acontece, preferiam vender produtos importados. Mas as avencas são todas bonitas, seja num muro ou num vaso, e a avenca europeia até pediu o nome emprestado à deusa do amor: capillus-veneris significa exactamente cabelos-de-Vénus. Os cabelos são as hastes finas e negras, longamente pendentes, de onde saem os folíolos (ou pínulas) de um verde brilhante. Tudo isto em miniatura para treinar e gratificar a observação paciente.

Os aficionadas dos fetos têm o costume desagradável de lhes levantar as frondes para os espreitar do avesso, como se fossem médicos a sondar as intimidades de um paciente. Acontece que os esporângios costumam estar na face inferior das folhas, e o modo como se dispõem é importante para a identificação correcta da espécie. Uma característica do Adiantum capillus-veneris, que ajuda a diferenciá-lo das avencas exóticas, é que os esporângios estão protegidos por uma dobra na margem das pínulas, visível na terceira foto lá em cima. Ressalve-se, contudo, que só algumas pínulas, e só em certos períodos do ano, é que exibem tais dobras e produzem tais esporângios.

Assim como outros fetos, a avenca é ideal para um botânico sedentário que, no Inverno, não queira chafurdar por caminhos enlameados. Qualquer muro de pedra antiga num recanto esquecido da cidade é um possível habitat.


Adiantum capillus-veneris L. / Ginkgo biloba L.

Apesar do amarelo outonal e da desproporção dos tamanhos, as fotos explicam cabalmente por que razão os anglo-saxónicos tratam o ginkgo e a avenca pelo mesmo nome: o feto é o maidenhair fern, a árvore a maidenhair tree. (Por que se terá Vénus convertido em donzela (maiden) na passagem do latim para o vernáculo? Parece obra de vitorianos receosos de explicar coisas inconvenientes às criancinhas.) As folhas, de facto, parecem ter sido desenhadas pelo mesmo artista gráfico; ou então Deus, por cansaço criativo, repetiu formas na esperança de que ninguém notasse o auto-plágio.

A semelhança foliar entre a avenca e o ginkgo aparece num episódio que mereceria figurar no Livro Verde do Imperialismo e do Preconceito, se a obra existisse. O nome científico Ginkgo, que adopta a designação japonesa da árvore, foi oficializado por Lineu em 1771. Mais tarde, em 1797, o botânico inglês James Edward Smith, fundador da Linnean Society londrina, considerou que o nome oriental era bárbaro e inapropriado - apesar de a árvore ser ela própria oriental -, e propôs que em vez dele se usasse Salisburia adiantifolia. O epíteto significava, está bom de ver, com folhas de adiantum, mas o Salisburia era uma homenagem de J. E. Smith ao seu amigo Richard Salisbury. Contra todas as regras da precedência taxonómica, o nome espúrio teve uma voga de pelo menos um século, e não apenas em Inglaterra. Em Portugal, mesmo depois do ultimato britânico de 1890, o Jornal de Horticultura Prática continuava, obsequiosamente, a falar da Salisburia adiantifolia.

(Imperialistas são os que podem ditar regras; os outros, quando muito, são aprendizes.)

21/03/2010

Aos desarvorados

A Plataforma por Monsanto lançou um abaixo-assinado, dirigido ao presidente da Câmara de Lisboa e ao seu vereador dos espaços verdes, para que cessem as tropelias que têm sido cometidas contra o parque florestal de Monsanto: abate indiscriminado de árvores, continuação da actividade do campo de tiro, instalação de equipamentos e de actividades com impactos elevados. Os fundamentos do abaixo-assinado estão sintetizados neste documento. Quem quiser subscrever o protesto, pode fazê-lo aqui.
Ginkgo biloba L. - árvore nascida de semente em 1754 - Kew Gardens

Em Espanha, aqui há uns anos, estava em andamento o projecto de cortar as árvores que ladeiam as estradas, com o objectivo de diminuir o número de acidentes graves na circulação automóvel. Um sujeito, em vez de ir bater no tronco, voaria até ao campo e com isso, certamente, muita vida seria poupada. Foi por diante o projecto? Não sei. Só sei que me pareceu uma ideia tonta, talvez porque ainda não morri contra uma árvore...

Não deixar as árvores «virem» à estrada que resolve, afinal de contas? Haverá outras maneiras menos selvagens de poupar vidas: aperfeiçoar a mecânica dos carros, melhorar (ou açaimar) os cérebros dos condutores, etc.

Hoje, que é o Dia da Árvore, pensemos nas árvores que foram sacrificadas pela nossa colectiva e sôfrega tontaria. Qual de nós não terá uma querida ausente sob a forma de uma árvore que lhe acena de muito longe no tempo? Do recanto de jardim em que havia aquela árvore, lembras-te? Caducada a folha daqueloutra, recordas-te do fino desenho invernal que os teus olhos dela recortavam contra a lividez do céu? Pois olha, olha: agora, no lugar dessa árvore, desencaixotaram um novo prédio. Conta-lhe as janelas, dá pasto melancólico aos teus tristes olhos de citadino encarcerado. Tens candeeiros. Que queres mais?

A Primavera já está a acender as suas árvores. Põe qualquer coisa como uma flor em qualquer coisa como uma lapela e sai de assobio para a rua. Sê atrevido - e levanta, nem que seja só em imaginação, a tua própria árvore, nos sítios mais inesperados. E principalmente que ela atravanque tudo, suspenda a lufa-lufa dos negócios, se oponha, escandalosa, aos frenéticos automobilistas e os obrigue a fazer grandes desvios, para não baterem nela e nela acabarem por apodrecer encaixotados, como pobres mortais que são!


Alexandre O'Neill, Já cá não está quem falou (Assírio & Alvim, 2008)

21/11/2007

Situação



Nas ruínas de novembro,
a triste jardinagem dos poemas
por abrir.


José Miguel Silva, O sino de areia (Gilgamesh, 1999)

14/11/2007

Jardim do Liquidambar

«Este jardim, localizado no lado poente da casa, recebe esta designação devido ao notável exemplar de liquidâmbar (Liquidambar styraciflua) aqui existente. É um espaço onde se encontram diversas azáleas e rododendros e é também um espaço de referência no conto de Sophia "O Rapaz de Bronze".» (aqui)

Em cima, à esquerda: o liquidâmbar visto do fundo do Jardim dos Jotas


Para além das referidas plantas, neste jardim mora também um enorme Quercus robur e um jovem exemplar de Ginkgo biloba que está no apogeu da sua "doirada exuberância".

15/12/2006

Escada abaixo


Foto de Francisco Oliveira

Num comentário aqui deixado há precisamente uma semana, Francisco Oliveira falou destes ginkgos numa escadaria de acesso à nova alameda das Antas - dos quais teve entretanto a amabilidade de nos enviar a foto. Para além do fenómeno do desfasamento de cores - um só ginkgo permanece verde numa afirmação de personalidade, enquanto os outros se conformam com o amarelo -, o que se vê na foto é aquilo que Francisco Oliveira já tinha observado: cercadas como estão pelo granito (no chão) e pelo cimento (no muro), os dias de estiagem hão-de ser um suplício para estas árvores. As caldeiras, de tão minúsculas, também não lhes auguram grande futuro. Uma delas já morreu. É triste assinalar como no Porto se vem dando um retrocesso tão acentuado nas boas práticas com árvores, pois os ginkgos que se plantaram há anos na avenida da Boavista (junto ao Hospital Militar) e em 2001 nas ruas Galeria de Paris e Cândido dos Reis beneficiaram de caldeiras muito mais generosas. No caso desta escadaria não foi obviamente a falta de espaço que ditou tal asneira: foi inépcia dos projectistas, que por timidez ou negligência os serviços camarários não quiseram corrigir. Se as árvores pudessem crescer normalmente, este alinhamento descendente sublinhando a geometria quebrada do muro comporia em poucos anos, mesmo descontando os borrões na parede, um quadro digno de admiração.

08/12/2006

Febre amarela



Ginkgo na Rua Nova da Alfândega; tílias no Largo da Lapa (Porto)

Outono estranho este que agora vai chegando ao fim. Incentivadas pelas temperaturas amenas e pela chuva generosa, algumas árvores fizeram brotar novas folhas na altura em que deviam começar a largá-las: é vê-las agora despindo-se à pressa quando o frio aperta e as nuvens se derramam em dilúvio ininterrupto. Nunca como este ano as camélias madrugaram tanto na floração; e as magnólias, que o calendário só manda enfeitarem-se em finais de Janeiro, vão-se já cobrindo de flores, assim se redimindo por excesso dos atrasos de anos recentes.

Apesar de tamanha balbúrdia, ainda nos ficaram alguns postais em tons de amarelo de um Outono-como-deveria-ser. Nesta altura talvez já tenham caído as últimas folhas do ginkgo e das tílias que se vêem em cima, fotografadas há dias num intervalo entre insistentes aguaceiros. Despiram-se essas árvores - e assim terminou para elas o momento outonal de glória. Mas é de justiça enaltecê-las pelo modo escrupuloso como cumpriram o seu dever, e marcar com elas um novo e feliz encontro no declinar de 2007.

05/12/2005

Alerta amarelo



É também no cumprimento de um serviço público como este que reside a razão de ser do nosso blogue: a Ginkgo do Jardim das Virtudes (Porto), que é de longe a maior e mais bonita da sua espécie no país (e, quem sabe, na Europa), e por isso, além de ter sido declarada de interesse público, é detentora do título honorífico Rainha das Virtudes - bom, como eu dizia, a Ginkgo estava ontem, tal como há um ano, esplendorosamente amarela. A visitar com urgência, pois o espectáculo termina já esta semana.

25/11/2005

Árvores da Casa do Passadiço

.
Há dois anos, tive que "fazer horas" na zona mais antiga de Braga e deambulei como é meu costume nas cidades: procurando as árvores das quais avisto apenas o cimo da copa ou os ramos entre as casas. As descobertas são sempre agradáveis: casas antigas, jardins, pequenos largos.

Nessa tarde cinzenta de Novembro o resultado foi surpreendente e começou logo no pequeno Largo São João do Souto onde, em vez de castanheiros ou carvalhos, encontrei duas magníficas árvores na chamada Casa do Passadiço: um tulipeiro (Liriodendron tulipifera) no auge da sua beleza outonal e uma Ginkgo biloba com a folhagem ainda verde. (ver outra foto aqui)

Na Casa do Passadiço pode mesmo... passar-se e por isso não há entraves à fruição das árvores que aliás se avistam perfeitamente do Largo. (Esta casa senhorial do XVIII que deve o seu nome ao facto de nela existir uma passagem pública está actualmente transformada numa loja de decoração.)



Tulipeiro (Liriodendron tulipifera) Braga- 11.2003

De copa de árvore em copa de árvore fui dar a outro tulipeiro* de porte invulgar nos Jardins do Museu dos Biscainhos , árvore que deverá ter mais de 200 anos. Como já se aproximava a hora de encerramento ao público não tive tempo de visitar o Jardim mas simpaticamente deixaram-me ir espreitar o tulipeiro, não sem antes me advertirem que não poderia tirar fotografias. Nem à árvore? Nem à árvore. Só com autorização. A minha reacção actual para estas directivas provincianas dos nossos ciosos zeladores do património é um grandessíssimo encolher de ombros e só não publico a foto que tirei porque realmente a luz já estava fraquíssima (e entretanto ainda n. lá voltei). .

* Ver algumas fotos desse magnífico tulipeiro e do Jardim (da autoria dum nosso amigo também do Norte).

08/12/2004

Os nomes das árvores - Ginkgo

(Família: Ginkgoaceae)
Nome científico: Ginkgo biloba
Nomes vulgares: Ginkgo, gincgo, nogueira-do-Japão
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Originária da China, esta árvore considerada um "fóssil vivo"- termo utilizado por Darwin para designar sobreviventes de um longínquo passado- aparece mencionada pela primeira vez na Materia Medica chinesa, Ri Yong Ben Cao (ca. 1350) e é posteriormente descrita em obras tanto chinesas (por ex. Ben Cao Gang Mu de Li Shi-Zhen, 1596), como japonesas.
Os europeus descobriram-na apenas no início do séc. XVII graças ao alemão Engelbert Kaempfer, botânico e médico que permaneceu no Japão (entre 1690 e 1691, ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais) e a quem se deve não só a primeira descrição científica ocidental da árvore, como provavelmente a sua introdução na Europa, mais particularmente na Holanda, onde o primeiro exemplar semeado dizem ainda se poder hoje admirar no jardim botânico de Utrech.
Também a Kaempfer devemos o nome corrente, pois ginkgo é a sua transcrição (1711) de "ginkyo", uma das denominações japonesas da árvore- mais concretamente o termo usado na literatura da época- cujos caracteres, idênticos aos que em chinês a designam, significam "alperce (ou amêndoa) de prata".


Fotos: mdlr
Em 1771, Lineu adopta a palavra para o género e utiliza o termo biloba (com dois lobos) para designar a espécie, devido à característica forma indentada das folhas. Note-se no entanto que nem todas as folhas têm esta particularidade (glosada por Goethe no seu conhecido poema).
...
No século XIX, a ginkgo também foi conhecida por Salisburia adiantifolia, designação pro­posta em 1797 por Sir James E. Smith, fundador da Linnean Society de Londres -que achava o nome de origem oriental "uncouth and barbarous" (cf. Hui-Lin Li)- em homenagem ao seu amigo Richard A. Salisbury, botânico como ele, para além de horticultor.
Também neste caso, o desig­nativo da espécie exprime as características morfológicas da folhagem, semelhante às avencas, do género Adiantum, plantas conhecidas em língua inglesa per "mai­den hair fern", sendo um dos nomes comuns da ginkgo, em inglês, justamente "maiden hair tree".
..
Inicialmente classificada como conífera e incluída na família das Taxaceae, a ginkgo é -desde as descobertas do botânico japonês Hirase em 1898, sobre as peculiares características dos núcleos das células reprodutoras masculinas- considerada a única representante viva das Ginkgoales, ordem de que se conhecem apenas vestígios fossilizados.

São admiráveis alguns dos sítios dedicadas a esta árvore na WWW. O mais completo, Ginkgo Pages, é da autoria de Cor Kwant, uma holandesa que reuniu um conjunto fabuloso de informações, nomeadamente fotografias de ginkgos do mundo inteiro, inclusivé Portugal. (A propósito faz-se aqui um pedido: se conhecer alguma ginkgo de algum modo notável, envie essa informação para o mail de Cor Kwant).
Ver também Ginkgo-"living fossil" (1 e 2), "product of Brian Chandler's fevered imagination"

07/12/2004

Uno e duplo

Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), figura máxima da literatura alemã, escreveu em 1815 um poema sobre a Ginkgo biloba que dedicou a uma sua antiga amante. As folhas da árvore, com dois lobos, simbolizam o tema "uno e duplo" desenvolvido pelo poeta. O poema foi publicado em 1819 no livro West-östlichen Divan (Divã ocidental-oriental na tradução portuguesa); além da versão original, encontram-se nesta página traduções do poema em seis línguas, mas não em português. Para suprir a lacuna, transcrevemos de seguida a tradução de Paulo Quintela na antologia poética de Goethe publicada pela Universidade de Coimbra em 1958.

Ginkgo biloba

A folha desta árvore que de Leste
Ao meu jardim se veio afeiçoar,
Dá-nos um gosto de um sentido oculto
Capaz de um sábio edificar.

Será um ser vivo apenas
Em si mesmo em dois partido?
Serão dois que se elegeram
E nós julgamos num unidos?

P'ra responder às perguntas
Tenho o sentido real:
Não vês por meus cantos como
Sou uno e duplo, afinal?

06/12/2004

Golden time - Ginkgo

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Fotos: manueladlramos-0412
Terapia pela cor: debaixo da Ginkgo biloba do Jardim das Virtudes, podem sentir-se os efeitos benéficos e absolutamente fascinantes do amarelo-dourado (últimos dias).
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Jardim das Virtudes (Porto)
...
Outro aspecto da Ginkgo (vista dos Jardins da "Árvore")

25/11/2004

Estátua de Brotero - Jardim Botânico de Coimbra


Foto: mdlr 0005 - Brotero entre Ginkgos
Se estivesse na capital de certeza que arranjava maneira de ir ao Jardim Botânico da Universidade de Lisboa que, como já aqui noticiámos, comemora os duzentos anos da publicação da Flora Lusitanica, hoje, dia do nascimento de Felix de Avelar Brotero (1744-1828).

Assim limito-me a publicar a fotografia da estátua deste ilustre botânico. Da autoria de Soares dos Reis (1867) , magnificamente enquadrada por dois exemplares de Ginkgo biloba, tornou-se por assim dizer o "ex-libris" do Jardim de que Avelar Brotero assumiu a direcção botânica a partir de 1791 (Ler "História e vocação do Jardim Botânico de Coimbra" aqui) .