Lírio-do-Gerês



Iris boissieri Henriq.
O Parque Nacional da Peneda-Gerês ocupa cerca de 60.000 hectares de área protegida (Decreto-Lei nº 187, de 1971) contígua ao complemento espanhol, Baixa Limia-Serra do Xurés, com mais de 100.000. Os planos de conservação deste Sítio de Importância Comunitária (SIC), aprovado em Conselho de Ministros com o nobre propósito de «valorizar as actividades humanas e os recursos naturais, tendo em vista finalidades educativas, turísticas e científicas», destacam a existência de ecossistemas naturais únicos que a humanização inevitável da paisagem tem de poupar. Entre as muitas preciosidades que ali se deveriam proteger está o lírio-do-Gerês, um endemismo ibérico cuja presença em Portugal se restringe à serra do Gerês. A classificação do parque pressupõe a obrigatoriedade de medidas de preservação que tornem possível, em particular, a convivência desta espécie com o pastoreio. Ora tudo isto se tem cumprido escrupulosamente. No papel. Desse modo, esta e outras plantas raras (como a orquídea Gymnadenia conopsea (L.) R. Br., cujas hastes florais são sobremesa do gado) estão à beira da extinção.
Oleg Polunin relata em Flowers of South-West Europe - a field guide que, nos anos 70 do século passado, se avistava este lírio a partir dos 600 m de altitude, registando colónias numerosas acima dos 1400 m. Hoje não é possível encontrar mais de duas dezenas de exemplares juntos e, para os apreciar, há que calcorrear caminhos ínvios até bem acima dos 1200 m. Esperemos que a desculpa usual - faltam verbas - não chegue para aliviar a consciência dos sucessivos gestores deste nosso património.
Esta planta monóica é bolbosa e aprecia escarpas e fendas em rochas graníticas. As folhas inferiores são mais largas e o caule termina, no Verão, com uma só flor de corola azul-violeta e uma franja amarela na sépala central que a distingue de outras Iris nacionais. A taxa de formação de sementes varia com o ano (ou a chuva), mas é sempre pequena pois ocorre quando a planta já esgotou parte importante das reservas do bolbo com a floração e a componente aérea perdeu a capacidade de fotossintetizar.
A sua beleza ímpar é também razão do seu declínio. O contraste deste azul com a aridez da montanha leva à sua colheita desregrada por coleccionadores, frequentemente para venda. Não existem figuras legais de protecção, mas em Espanha estuda-se a possibilidade técnica de a clonar ou propagar vegetativamente in vitro.
O epíteto (que deve pronunciar-se à francesa) homenageia Pierre Edmond Boissier (1810-1885), botânico (e matemático) suíço a quem se deve a descrição de inúmeras espécies ibéricas.














