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6.7.10

Lírio-do-Gerês



Iris boissieri Henriq.

O Parque Nacional da Peneda-Gerês ocupa cerca de 60.000 hectares de área protegida (Decreto-Lei nº 187, de 1971) contígua ao complemento espanhol, Baixa Limia-Serra do Xurés, com mais de 100.000. Os planos de conservação deste Sítio de Importância Comunitária (SIC), aprovado em Conselho de Ministros com o nobre propósito de «valorizar as actividades humanas e os recursos naturais, tendo em vista finalidades educativas, turísticas e científicas», destacam a existência de ecossistemas naturais únicos que a humanização inevitável da paisagem tem de poupar. Entre as muitas preciosidades que ali se deveriam proteger está o lírio-do-Gerês, um endemismo ibérico cuja presença em Portugal se restringe à serra do Gerês. A classificação do parque pressupõe a obrigatoriedade de medidas de preservação que tornem possível, em particular, a convivência desta espécie com o pastoreio. Ora tudo isto se tem cumprido escrupulosamente. No papel. Desse modo, esta e outras plantas raras (como a orquídea Gymnadenia conopsea (L.) R. Br., cujas hastes florais são sobremesa do gado) estão à beira da extinção.

Oleg Polunin relata em Flowers of South-West Europe - a field guide que, nos anos 70 do século passado, se avistava este lírio a partir dos 600 m de altitude, registando colónias numerosas acima dos 1400 m. Hoje não é possível encontrar mais de duas dezenas de exemplares juntos e, para os apreciar, há que calcorrear caminhos ínvios até bem acima dos 1200 m. Esperemos que a desculpa usual - faltam verbas - não chegue para aliviar a consciência dos sucessivos gestores deste nosso património.

Esta planta monóica é bolbosa e aprecia escarpas e fendas em rochas graníticas. As folhas inferiores são mais largas e o caule termina, no Verão, com uma só flor de corola azul-violeta e uma franja amarela na sépala central que a distingue de outras Iris nacionais. A taxa de formação de sementes varia com o ano (ou a chuva), mas é sempre pequena pois ocorre quando a planta já esgotou parte importante das reservas do bolbo com a floração e a componente aérea perdeu a capacidade de fotossintetizar.

A sua beleza ímpar é também razão do seu declínio. O contraste deste azul com a aridez da montanha leva à sua colheita desregrada por coleccionadores, frequentemente para venda. Não existem figuras legais de protecção, mas em Espanha estuda-se a possibilidade técnica de a clonar ou propagar vegetativamente in vitro.

O epíteto (que deve pronunciar-se à francesa) homenageia Pierre Edmond Boissier (1810-1885), botânico (e matemático) suíço a quem se deve a descrição de inúmeras espécies ibéricas.

28.11.09

Carmim ou carmesim?


Gladiolus carmineus C. H. Wright

For many cultures red is both death and life - a beautiful and terrible paradox. In our modern language of metaphors, red is anger, fire, the stormy feelings of the heart, love, the god of war and power.
Victoria Finlay, Colour (The Folio Sociey, 2009)

O carmesim é uma tonalidade de vermelho com algum azul, intermédia, digamos, entre o púrpura e o escarlate. É a cor de uma tinta extraída das fêmeas prenhes do quermes (Kermes vermilio), um insecto de países da zona mediterrânica que vive no carrasqueiro (Quercus coccifera L.) e no azevinho (Ilex aquifolium L.). Este corante terá sido usado pelos fenícios, mas foi no Império Romano que granjeou fama; e com as regras que o Papa Paulo II decretou em 1467 sobre a indumentária dos cardeais, passou a ter também significado religioso: representa um apego à fé que nem a ameaça de morte enfraquece. Felizmente surgiram entretanto corantes sintéticos idênticos, e este modo cruel de produzir vermelho caiu em desuso.

Outro pigmento de origem animal, igualmente famoso e caro, é o carmim, matiz que se confunde com o vermelho-rubi. Retira-se das fêmeas de cochinilha (Dactylopius coccus), um insecto mexicano, branquinho como algodão, que se alimenta de um cacto de frutos comestíveis, a Opuntia ficus-indica (L.) Mill.. Há provas de este corante vermelho, mais estável à luz que o carmesim, ter sido utilizado pelos Astecas e Incas. Foi depois divulgado na Europa pelos espanhóis, que guardaram ciosamente durante anos o segredo do seu fabrico. Ainda hoje se produz em plantações de Opuntia na América do Sul e ilhas Canárias.

O carmim, conhecido em linguagem técnica como Natural Red 4, é o aditivo E120 usado em cosméticos, tintas, xaropes, comprimidos, iogurtes, compotas, gelatinas, bebidas alcoólicas ou carnes fumadas.

A flor das fotos, apesar do nome, é de cor magenta.

26.11.09

Gladíolo de flores arrepiadas


Gladiolus undulatus L.

O género Gladiolus - do latim gladio, espada, em alusão ao formato das folhas - contém cerca de 250 espécies e muitos híbridos de jardim. Dez delas são europeias ou asiáticas, mas a maioria (163 espécies) provém da região do Cabo, na África do Sul. Os gladíolos são plantas perenes mas de folha caduca: como belas adormecidas, hibernam no Inverno, ou quando há condições adversas, alimentando-se então de cormos. Um cormo parece mas não é um bolbo; é um caule subterrâneo inchado e de textura homogénea (como uma batata), envolvido por uma película feita de folhas transformadas para o proteger, no qual há um botão de flor e, na Primavera, rebentos de folhas novas e raízes; um bolbo, pelo contrário, tem camadas carnudas de folhas dispostas como numa cebola. Para não impacientar o leitor, não distinguiremos agora estas estruturas dos tubérculos e dos rizomas.

Os gladíolos dão-se bem em socalcos rochosos, perto de pântanos ou em terreno arenoso, preferindo solos que lhes asseguram períodos de secura alternados com outros de maior irrigação. Por isso não foi surpresa encontrar um com os pés quase mergulhados na água salgada da ria de Aveiro. Vimo-lo no Verão, ou, sem a flor, não o teríamos reconhecido.

As flores do G. undulatus são bissexuais, perfumadas, de cor creme, e dispõem-se em espigas de 4 a 6 botões virados mais ou menos para o mesmo lado, num arranjo das inflorescências menos formal do que nos cultivares de horto. Cada flor tem 2 brácteas verdes e 6 tépalas onduladas e torcidas (3 a formar o cálice, as outras a corola) que se unem em tubo: a tépala dorsal é maior e arqueia-se sobre os 3 estames; há duas laterais, como asas, e três inferiores, cada uma com uma manchinha púrpura; e vê-se apenas um estilete, embora ramificado em três.

A alguns horticultores basta saber quantas flores numa espiga estão abertas ao mesmo tempo para identificar a espécie, ou cultivar, do género Gladiolus, que catalogam em três grandes grupos: Grandiflorus, Nanus e Primulinus. «Tudo é número», dizia Pitágoras (ou alguém por ele).

17.5.08

Bandeira amarela


Iris pseudacorus - Ponte de Lima

O esbelto lírio-amarelo, habitante de zonas alagadiças por toda a Europa, emigrante de sucesso na América do Norte, é uma das plantas que na Primavera avivam a paleta de cores da reserva das Lagoas, em Ponte de Lima. Muito popular também como ornamental, este lírio foi usado medicinalmente pelas suas propriedades eméticas, graças talvez ao mesmo princípio que o torna venenoso para o gado. Mas redimem-no a beleza e outras valiosas qualidades: é importantíssimo na manutenção de habitats húmidos na Europa; e, capaz como é de absorver metais pesados através das raízes, dá uma preciosa ajuda à despoluição das águas.

Há cerca de 250 espécies de Iris espalhadas pelo hemisfério norte; dessas, só seis ou sete são espontâneas em Portugal, e uma delas, a Iris boissieri, é um raro endemismo da Serra do Gerês. (Veja nesta página uma foto do lírio-do-Gerês.)

20.12.07

Em brasa


Crocus serotinus

.... A verdade é que nunca soube o nome
.... dessa flor que nalguns olhos
.... abre logo de madrugada.
.... Agora para saber é tarde.

Eugénio de Andrade, Branco no branco (1984)

31.7.07

Dieta a duas cores


Mórea

Esta é uma herbácea rizomatosa sul-africana que já se chamou Moraea bicolor Steud. (abreviatura de Ernest Gottlieb von Steudel, 1783-1856) em homenagem ao botânico inglês Robert More (1703-1780) mas que, em obediência à regra que manda adoptar o nome mais antigo, é agora Dietes bicolor Sweet ex G. Don (de Robert Sweet, 1783-1835, e George Don, 1764-1814). Nome tão antigo que, como não se encontra dicionário que saiba justificá-lo, pode apenas supor-se nele (erradamente) uma relação com dietas alimentares.

As folhas são espadas altas que se agrupam em leque e a flor é formada por seis tépalas, três das quais tigradas, e três petalóides ao centro. É conhecida em inglês como Spanish iris.

25.4.07

3 x 10 + 3


Libertia grandiflora

«Sem enraizamento e sem memória, os povos, como os homens, são apenas náufragos.»

Manuel António Pina
(JN, 24 de Abril de 2007)

2.4.07

Romúlea



A Romulea bulbocodium é uma das plantas bolbosas que sobreviveram à progressiva redução dos carvalhais portugueses. Espontânea em outeiros de solos arenosos ou pedregosos, mas húmidos, do Mediterrâneo, esta iridácea é baixinha (não vai além dos 30cm de altura) e tem flores tubulares de pétalas violeta e centro amarelo de onde sobressai um estilete longo com três garfinhos na ponta que fazem lembrar as flores do género Crocus. As folhas parecem as do cebolinho (Allium schoenoprasum), cilíndricas e fininhas. Diz-se que a designação do género alude a Rómulo, um dos fundadores de Roma e irmão de Remo.

O exemplar da foto é do Carvalhal de Valinhas, em Santo Tirso, um notável conjunto de carvalhos alvarinhos (Quercus robur) centenários, vizinhos de sobreiros (Quercus suber) igualmente imponentes e vetustos, e das Quedas de água de Fervença, onde o rio Leça galopa ruidoso e puro. Segundo a publicação Árvores isoladas, maciços e alamedas de interesse público, um dos carvalhos deste povoamento está classificado desde 1940, mas a Câmara de Santo Tirso informa no seu site que a classificação abrange todo o conjunto.

24.11.06

Não são só amores-perfeitos

- flores nos jardins do Porto

Palestra pelos autores deste blogue amanhã
(25 de Novembro, sábado), às 18h00, na sede da Campo Aberto
- rua de Santa Catarina, 730 - 2º dir., Porto -


(Esta é só uma das muitas actividades mais ou menos natalícias
que a Campo Aberto lhe propõe para amanhã; consulte
aqui o programa completo.)

RESUMO. Desde há uns anos que muita gente no nosso país deu em desdenhar as flores, por serem pirosas e de modo nenhum compatíveis com um gosto depurado e moderno. Alguma dessa rejeição é genuína, pois afinal há quem abomine sinceramente tudo quanto é vegetal; mas boa parte dela é por ignorância e por mal-avisado espírito de imitação. Um dos sintomas do fenómeno é a crença de que nesses detestados canteiros quase só há amores-perfeitos, que seriam o epítome do decorativismo bacoco. Importa combater tais ideias falsas e preconceituosas - que, no Porto, quase levaram à extinção das flores em espaços públicos (e mesmo em jardins!). As fotos desta palestra - mais de uma centena - são os argumentos que usamos para repor a verdade, aqui sumariada em quatro pontos:

1) a beleza de uma flor não deve ser avaliada à luz dos padrões da arte moderna, pois uma coisa é a natureza e outra a sua representação;

2) os amores-perfeitos também são belos;

3) nos canteiros da cidade (os que foram poupados à destruição) revezam-se ao longo do ano, entre plantas anuais e perenes, centenas de diferentes variedades de flores;

4) o viveiro municipal do Porto é um dos maiores e melhores do país, e a cidade deveria ter orgulho nele; em vez disso, expulsou as flores dos seus espaços públicos mais emblemáticos.

(Foto: Watsonia sp., herbácea sul-africana da família Iridaceae)

14.11.05

Açaflor


Foto: pva 0511 - pé de Crocus serotinus entre folhas secas de Quercus rubra

A flor lilás do açafrão, uma planta bolbosa de aroma requintado, está a despontar agora em terrenos montanhosos, bem drenados e em meia-sombra. Dos seus estigmas e estiletes, filamentos de cor vermelha que quando secos amarelecem, faz-se a especiaria mais cara no mercado: para um quilo deste saboroso condimento amarelo são usadas mais de cem mil flores, colhidas à mão entre Outubro e Novembro, o que se traduz em cerca de 3 euros por cada meio grama de açafrão. Os cozinheiros exigentes, que o usam em molhos, paellas - prato típico do primeiro produtor mundial -, bolos ou sopas de peixe, denunciam a sua frequente substituição pelo açafrão-da-Índia (Curcuma longa), de preço irrisório. Por isso não é certo que alguma vez o tenha provado.

Da família das Iridaceas, a espécie Crocus (a que a mitologia grega se refere como um pastor que o deus Hermes imortalizou numa flor) sativus (porque se semeia) é endémica na Península Ibérica, Ásia Menor e China. O interesse no seu cultivo parece ter chegado até nós acompanhado pelo termo árabe az-zaHafran.

28.5.05

Furto de flor

«Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida. Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la ao jardim, nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me:

- Que idéia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!»

Carlos Drummond de Andrade, Contos plausíveis (s/ data)

Foto: pva 0505 - Ixia flexuosa