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18.7.09

Cana de outras índias


Canna limbata Roscoe [sin. Canna indica var. limbata Peters. / Canna patens (Roscoe) Tb. Tanaka]

Originária do continente americano, desde a Carolina do Sul ao norte da Argentina, a Canna é um género de plantas rizomatosas tropicais ou subtropicais, aparentadas com a bananeira, a estrelícia e a alpínia. Houve um tempo em que o género englobava quase cem espécies, mas, nas últimas décadas do século XX, esse número foi reduzido para cerca de vinte - não em resultado da extinção de espécies, mas por efeito de revisão taxionómica, que disciplinou a profusão de sinónimos. A planta na foto, vizinha no Jardim Botânico do Porto de um lago com nenúfares, é conhecida no Brasil, de onde é natural, como beri-silvestre ou bananeirinha. Canna limbata era a sua designação científica antes dessas convulsões na nomenclatura, mas o nome agora aceite é Canna patens.

No Brasil o beri-silvestre é uma planta de folhagem perene, mas em países mais frios passa anualmente por um período de dormência. Atinge um metro e vinte de altura, tem folhas brilhantes, e as flores, situadas nas extremidades das hastes erectas, surgem ao longo de vários meses na Primavera e no Verão - e são, ao que consta, atraentes para colibris, coisa que por cá não temos como comprovar.

Além das espécies silvestres, existem inúmeras variedades hortícolas de Canna adaptadas a climas temperados ou frios; chamadas popularmente canas-da-Índia, produzem vistosas flores vermelhas, amarelas ou alaranjadas. Em Portugal, onde os jardins são em regra pobres em cor e em variedade, essas plantas pouco se vêem, mas há uns anos era fácil encontrá-las no Porto. Antes das últimas obras de manutenção - as quais, apesar de terem tido aspectos muito positivos, alinharam pela cromofobia que tem prevalecido em jardins públicos -, as canas-da-Índia vermelhas, ladeando a sucessão de espelhos de água no jardim central, eram uma das imagens mais fortes do Parque de Serralves. Mas quem quiser ter um relance delas ainda as encontra, amarelas e vermelhas, na avenida de Sidónio Pais, à sombra de castanheiros-da-Índia que também não são da Índia, logo antes de o passeio para peões terminar abruptamente e a via se transformar em auto-estrada.

Adenda. Também há muitas canas-da-Índia vermelhas no Jardim do Passeio Alegre, à Foz.

3.7.09

Falso pau-Brasil


Caesalpinia spinosa (Mol.) Kuntze

Caro leitor,

Como vai? Já em férias? Nós andamos enredados em caesalpinias, assunto espinhoso - e olhe que não é apenas porque algumas destas espécies têm tronco aculeado. As fotos que aqui lhe mandamos, e que fará o favor de analisar quando lhe sobrar tempo dos seus preciosos afazeres, são de mais um arbusto deste género que mora no Jardim Botânico do Porto e que, quem diria, conseguimos identificar correctamente.

Estará o leitor já de semblante desconfiado, mas, descanse, desta vez não há placa no Jardim a etiquetar a planta, não há risco de tombo. Observámos demoradamente o tronco (rugoso, cinzento, com espinhos de barriga gordinha), as folhas (alternas e bipinadas, como é característico no género Caesalpinia), os folíolos (sendo os secundários opostos, glabros e com base assimétrica), as inflorescências espiciformes, as flores a abotoar e as já abertas (com a sépala maior, canoa com um bordo de dentinhos-de-crocodilo, a envolver completamente os estames), os frutos do ano passado (vagens de cor de tijolo, já maduras) e até, pasme amável leitor, vimos as sementes à lupa, uns berlindes achatados de casca enrugada e cor castanho-cinza. Depois compulsámos bibliografia fiável e concluimos: trata-se de um exemplar de Caesalpinia spinosa. Assim, munidos de ciência e olho vivo, não há erro que nos deslustre.

O falso pau-Brasil, ou tara, é originário do Peru, mas vegeta com agrado noutros países da América Central e do Sul. É planta produtora de taninos e, diz-se, a infusão dos frutos é aconselhada em casos de amigdalite e excesso de mau colestrol.

Leitor atento, ainda aí está? Já não demoramos. Queremos deixar-lhe o desafio de identificar a outra espécie de Caesalpinia que julgámos, por aceitar ingenuamente como indubitável tudo o que os jardins botânicos nos contam, ser o pau-Brasil. É exercício meramente académico porque os «jardineiros» do Jardim Botânico do Porto reduziram, com uma poda histórica, um arbusto de 2m de altura e cerca de 3 de diâmetro de copa a um toco esquálido de 20cm que uma folhagem rala tenta a custo recobrir. Tão cedo não produzirá sementes que nos permitam decifrar o nome e a origem desta planta. Naturalmente, a placa que a identifica foi zelosamente renovada, mantendo-se contudo bem visível, talvez por apego à história ou o usual desvelo pela ignorância atrevida, a inscrição errada.

Conhece o viajado leitor outro jardim botânico que assim (des)cuide do seu acervo? Que detore as plantas para melhor as armazenar, e saiba tão pouco de taxinomia? Nós também não.

Com os melhores cumprimentos para si e para a família,

(assinatura ilegível)

29.6.09

Pau-Brasil



Caesalpinia sp.

A espécie echinata do género Caesalpinia* é nativa da América Central e do Sul, preferindo lugares secos do interior da floresta atlântica. É abundante no este do Brasil (e ali carinhosamente chamada pau-Brasil), particularmente no sul da Bahia, mas está em perigo de extinção no seu habitat natural. A folhagem é perene e aromática, sendo as folhas bipinadas, com folíolos de formato rombóide de ponta achatada. As flores, muito populares entre as abelhas e importante fonte de néctar para borboletas e colibris, têm 5 sépalas desiguais que, apesar disso, formam um cálice funcional pois uma delas envolve quase completamente as outras. Das 5 pétalas destaca-se a posterior pintalgada de vermelho e de menor tamanho. O tronco é espinhoso (o que o epíteto echinata realça), mas os espinhos são moles, como se feitos de cortiça. A madeira é pesada, dura, compacta, muito resistente, de textura fina, com alburno cinzento pouco espesso e diferenciado do cerne rosado. Outrora usada intensamente na construção naval e para extracção da brasileína (um corante retirado do lenho e ingrediente da tinta de escrever), serve actualmente para o fabrico de arcos de violino.

Julgámos tê-la visto no Jardim Botânico do Porto, onde um exemplar de Caesalpinia, o que as fotos documentam, está identificado como tal. Mas a Lúcia alertou-nos para o erro nesta placa: o pau-Brasil tem os folíolos alternados e a pétala manchada de vermelho é mais vistosa. Na sua opinião, o exemplar das fotos é da espécie C. spinosa.

* nome que homenageia Andrea Cesalpini (1524/25-1603), naturalista italiano, autor da obra De Plantis

18.4.08

Mirtilo-americano


Vaccinium corymbosum

Nas nossas visitas ao Jardim Botânico não costumamos levar cesta para ir apanhando fruta, mas talvez devêssemos fazê-lo. Cientes de que nem tudo se come, tomaríamos as devidas cautelas para evitar intoxicações. Não seríamos culpados de avidez gulosa, e nenhum pássaro passaria fome por nossa causa. Mas a passarada não come tudo, e dói ver apodrecer no chão coisas com que nos poderíamos deliciar. Falamos por exemplo dos frutos deste arbusto, chamados blueberries nos EUA, onde são, no seu género, dos mais consumidos e apreciados. A espécie mais disseminada na Europa e na Ásia é a Vaccinium myrtillus, dando-se entre nós o nome de mirtilo tanto ao arbusto como ao fruto. No norte da Europa essa espécie é de tal modo abundante que colher mirtilos é passatempo vulgar; mas, pela mesma razão, não é compensador cultivá-la. O clima português, menos frio, não é tão propício ao seu desenvolvimento, e só na Serra do Gerês ela sobrevive na forma espontânea; e aí, por motivos óbvios, a colheita dos frutos está proibida. Por contraste, a produção comercial de mirtilos no nosso país, iniciada há poucos anos, parece ser bom negócio, embora o seu consumo não se tenha ainda generalizado.

Os arbustos do género Vaccinium são estimados tanto pelos frutos como pelas qualidades ornamentais. Entre as mais de 400 espécies, a maioria delas das zonas mais frias do hemisfério norte, contam-se arbustos grandes e pequenos, uns de folhagem caduca e outros perenifólios. Os mais populares em cultivo são de origem norte-americana, mas uma espécie endémica em território português, a caducifólia açoriana V. cylindraceum, tem ganho adeptos pelo mundo fora. Na Madeira é endémica a espécie V. padifolium, de folhas persistentes, conhecida na sua ilha natal como uveira ou uva-da-serra, nomes que servem igualmente à sua prima açoriana.

1.2.08

Roteiro de ninfas



Acmena smithii

Acmena deriva do grego akmaios que significa «no máximo vigor». Mas Acmenae é também outro nome para Afrodite, a deusa grega do amor que, como a palavra indica, nasceu da espuma do mar, filha de Zeus e Dione, a deusa dos carvalhos. E num banho de espuma é onde parecem estar mergulhados durante todo o Verão os espécimes de Acmena smithii: as inflorescências são paniculadas, as flores têm quatro ou cinco pétalas minúsculas e, como é usual nas mirtáceas, exibem numerosos estames em penachos. Esta exuberância alva e perfumada dá lugar no Inverno a mini-rabanetes suculentos, comestíveis mas ácidos, que mancham a árvore de roxo.

Das cerca de quinze espécies do género Acmena, nativas da Austrália e do sul da Ásia, a A. smithii (ali tratada carinhosamente por lilly pilly) é das mais rústicas, servindo mesmo como quebra-vento. No Porto há exemplares de grande porte no Palácio de Cristal, no Colégio de N.S. de Lurdes e no Jardim Botânico (foto em cima). A placa que identifica este último tem ainda inscrito o nome Eugenia smithii, designação que os cientistas revogaram em 1938: com excepção de uma, as espécies de Eugenia foram transferidas para os géneros Acmena, Acmenosperma, Syzygium e Waterhousea.

Sir James Edward Smith (1759-1828) foi botânico inglês, um dos fundadores da Linnean Society e autor da obra English Botany, em 36 volumes.

31.1.08

Invasão amarela


Sedum praealtum

Por falta de concorrência, as plantas que florescem no Inverno gozam de maior visibilidade, qualidade mediática hoje em dia muito prezada. E uma das que mais agora se vê - seja nas dunas, nos bosques, nas bermas de estrada ou em qualquer jardim menos cuidado - é o trevo-azedo (Oxalis pes-caprae), que dá justamente flores amarelas. Mas, como aquelas figuras públicas que nos cansam de tanto aparecerem, também a Oxalis, em vez de nos alegrar a vista, acaba por desgostar-nos. Seja como for, é a ela que devemos a hegemonia do amarelo no panorama floral da estação. Embora não saindo da mesma cor, trazemos hoje uma outra planta que, pelo menos por cá, se mantém educadamente confinada aos espaços que lhe foram destinados.

O género Sedum conta com cerca de 280 espécies de herbáceas suculentas no hemisfério norte, incluindo algumas que são espontâneas em Portugal, como o arroz-dos-muros e a erva-pinheira (Sedum sediforme) das dunas. A espécie S. praealtum é mexicana e chega a atingir metro e meio de altura, o que é invulgar para o seu género e explica o epíteto específico, que significa muito alta. Este exemplar foi fotografado há dias no Jardim Botânico do Porto, e os muitos insectos em volta dele davam testemunho do seu apreço por quem os sustenta em época de flores magras.

Há uma peculiaridade que as plantas do género Sedum partilham com a generalidade dos membros da família Crassulaceae: os seus estomas (poros por onde as plantas «respiram», absorvendo dióxido de carbono e libertando oxigénio e vapor de água) só abrem à noite, o que diminui as perdas de água por transpiração e reforça a sua adaptação a ambientes áridos.

15.1.08

Aeonium arboreum



Aeonium arboreum

Tal como a Crassula ovata, que pertence à mesma família botânica, também esta planta floresce nos meses frios, dando uma viva pincelada amarela no desmaiado canteiro das suculentas do Jardim Botânico do Porto. Não que a Aeonium arboreum, marroquina de origem, aprecie particularmente o frio - mas, desde que tenha abundante exposição solar e vegete em terreno bem drenado, lá vai aguentado este nosso (cada vez mais) ameno Inverno. Em climas mais quentes, como o do seu seu habitat de origem, este arbusto pode superar um metro de altura. É muito ramificado, tem as folhas dispostas em roseta na extremidade dos ramos, e as flores compõem vistosas panículas piramidais. O Portugal Botânico de A a Z atribui-lhe o nome vulgar de saião ou ensaião (segundo a mesma fonte, a Crassula ovata seria o ensaião-branco); mas, a menos que a planta seja comummente cultivada no sul do país, não nos parece que tal nome seja muito usado.

11.12.07

A nova geração



O assunto previsto para este texto era legitimamente botânico, mas a Opuntia, planta da família das cactáceas, fotografada há dias no jardim das suculentas do Botânico, já faz tempo que encerrou a temporada de floração; como aliás fizeram quase todas as suas companheiras. Mesmo com temperaturas desvairadas e chuva irregular, todo o Jardim Botânico se rendeu já ao Inverno improvável que chegará a 21 de Dezembro. Escaparam à letargia geral as camélias, que aqui já explicámos sobejamente, e os gatos, a que não temos prestado a atenção que merecem. Estes dois jovens membros da família já aqui assinalada nem queriam acreditar que era à planta espinhenta e agressiva que eu queria fotografar, e não a eles, meigos, bonitos e pedinchões. Não os enganou a vaidade: de todas as fotos que tirei aos cactos nessa tarde, só se aproveitam aquelas onde eles aparecem. Eis pois a beleza de um jardim sem flores à entrada do Inverno. Ou parte dela.

6.12.07

Desavenças familiares




Carpinus betulus

Com as obras de remodelação do Jardim Botânico do Porto, um dos caminhos que seguia quase encostado à auto-estrada, exposto ao constante atroar dos motores, foi desviado e serpenteia agora entre o arvoredo. Não que o trânsito tenha deixado de se ouvir, mas já não se vê tanto; e, se algum carro se despistar, furando a rede de protecção, o risco de atropelamento de quem passeia no jardim é menor. E o visitante acaba por habituar-se à banda sonora do trânsito: o som é permanente, mas oscilante e indistinto como o das ondas do mar, só que desacompanhado da maresia e do horizonte aberto.

O novo caminho põe em destaque as copas magníficas de três ou quatro carpas-europeias: nunca como agora pudemos apreciá-las na sua inteireza, com os longuíssimos ramos, quase horizontais, atravessando-se sobre as nossas cabeças. Como antes já aqui referimos, talvez essa desmesura da copa explique a raridade desta árvore em Portugal: é que os nossos jardins e parques são acanhados; e, em todo o caso, preferimos árvores comedidas - ou que, se o não forem, possam ser reprimidas à força de podas. (Diga-se que há um cultivar fusiforme da Carpinus betulus, tão compostinho que parece feito sob encomenda portuguesa, que começa a ser comum nas nossas cidades: já o vimos em Guimarães na avenida Alberto Sampaio e, no Porto, na estação da Trindade e no Parque da Cidade.)

A que vêm as desavenças familiares do título? É que os livros aqui em casa colocam o género Carpinus em nada menos que três famílias botânicas distintas: ora ele ficaria sozinho na família Carpinaceae, ora se juntaria aos géneros Corylus (avelaneiras) e Ostrya para formar a família Corylaceae, ora, finalmente, optaria, com esses mesmos companheiros, por engrossar a família Betulaceae, onde seria recebida pelas bétulas e pelos amieiros (géneros Betula e Alnus). Não nos cabe, como simples amadores, emitir juízos sobre o assunto, mas apenas registar que o tribunal botânico a quem cabe decidir sobre adopções e parentescos parece inclinar-se de vez para a última hipótese.

14.11.07

Jardim do Liquidambar

«Este jardim, localizado no lado poente da casa, recebe esta designação devido ao notável exemplar de liquidâmbar (Liquidambar styraciflua) aqui existente. É um espaço onde se encontram diversas azáleas e rododendros e é também um espaço de referência no conto de Sophia "O Rapaz de Bronze".» (aqui)

Em cima, à esquerda: o liquidâmbar visto do fundo do Jardim dos Jotas


Para além das referidas plantas, neste jardim mora também um enorme Quercus robur e um jovem exemplar de Ginkgo biloba que está no apogeu da sua "doirada exuberância".

1.11.07

Árvore-da-princesa



Paulownia tomentosa

A autora do mais recente projecto de recuperação do Parque de Serralves não deve gostar muito de árvores - ou então é uma republicana da cepa sanguinária dos regicidas, e abomina não só a monarquia mas todas as plantas que a ela ficaram ligadas pelos acasos da taxonomia. A única árvore-da-princesa (Paulownia tomentosa) que existia no Parque, e uma das três que conhecíamos no Porto, caiu às ordens da arquitecta, com o pretexto de não ser a companhia certa para o arvoredo autóctone que se queria valorizar. Na mesma ocasião, e por serem igualmente culpadas de exotismo, só não se derrubaram duas sequóias (Sequoia sempervirens) porque alguém refilou a tempo. Quem então refilou penitencia-se hoje por não ter também intercedido em defesa da Paulownia e das muitas azáleas que na altura se perderam.

De modo que quem no Porto quiser conhecer uma destas árvores chinesas - que são vulgares e muito apreciadas nos países de clima temperado - terá que ir ao Jardim Botânico. Antes havia lá duas, vizinhas uma da outra, mas uma terá caído com o vento, e só sobrevive a da foto; com o rumo azarado que as coisas levam, é bom que os nosso dendrófilos se apressem a visitá-la.

Embora de famílias botânicas diferentes, a Paulownia e a Catalpa têm marcadas semelhanças: as folhas descomunais (no caso da Paulownia, elas são penugentas na face inferior - daí o epíteto tomentosa - e atingem os 35 cm de comprimento por 25 de largura), a forma tubular das flores, e o facto de os frutos persistirem na árvore quando ela se despe no Inverno. A floração da Paulownia ocorre antes de as folhas abrirem: o deslumbre da mancha rosa-lilás da sua copa coloca-a a par das magnólias e logo abaixo dos jacarandás. É uma árvore de crescimento muito rápido, e a sua madeira é usada no Japão em marcenaria fina. O nome Paulownia vem de Ana Paulowna (1795-1865), princesa russa, filha do czar Paulo I.

O outro nome comum desta árvore em inglês (além de princess-tree) é foxglove-tree, o que em português daria árvore-dedaleira. A semelhança das suas flores com as da vulgar dedaleira (Digitalis purpurea) é evidente, mas a relação entre as duas plantas é mais profunda: até há poucos anos ambas integravam a família Scrophulariaceae; a Paulownia era mesmo a única árvore dessa família maioritariamente constituída por herbáceas. Como explica este artigo da Wikipedia, a família Scrophulariaceae foi desmembrada, e com isso a Digitalis e a Paulownia cortaram entre si todos os laços familiares. Hoje a Paulownia tem uma família só sua (chamada por isso monogenérica), o que mostra que a botânica também dá lições de sociologia.

23.10.07

Jardim de memórias



Hydrocleys nymphoides / Sagittaria latifolia

Durante cerca de um ano o Jardim Botânico do Porto esteve a aformosear-se. Quando reabriu encontrámos um espaço mais arrumado, com novos percursos e alguns recantos associados às obras de Sophia de Mello Breyner Andresen e de Ruben A. Estes nichos, onde além das plantas há sugestões de leitura, formam um jardim de ler e propõem uma aventura que complementa com boa dose de fantasia as visitas científicas ou de carácter mais académico.

Um deles é inspirado no livro O rapaz de bronze, em cujas noites as flores conversam, passeiam, dançam e se enleiam em amizades - e, numa especial, de lua cheia, organizam uma festa como as que vêem acontecer entre pessoas. Neste jardim contado havia «um lago redondo sempre cheio de folhas. No centro do lago havia uma ilha muito pequena feita de pedregulhos e onde cresciam fetos. E no centro da ilha estava uma estátua que era um rapaz feito de bronze

No jardim real a decoração é outra. O rapaz de bronze é de facto uma senhora elegante que guia um repuxo airoso, a taça do chafariz não está coberta de fetos e o lago não tem só folhas. Com os pés na água flutuam duas espécies com flores de três pétalas: a papoila-de-água (Hydrocleys nymphoides), sul-americana, de folhas circulares semi-caducas e flores cor-de-limão; e a erva-seta (Sagittaria latifolia), da América tropical, de folha perene, triangular, com dois lóbulos, formato que a taxonomia relaciona com a nona constelação do Zodíaco.

Mas o jardim encantado ainda perdura. E no «lugar de suspiros» de Ruben A o vento insiste em espalhar perfumes e flores, num eterno eco do antigo convite para a festa.

27.9.07

Notícias da Pavonia


Pavonia spinifex

Está em flor desde a Primavera e, embora não tão ornamental quanto a P.x gledhillii, atrai borboletas e chilreios, e até os colibris da América tropical de onde é originária. Os estames unidos lembram os dos hibiscos e localizam esta planta facilmente entre as malváceas. O fruto é farpado, e os espinhos prendem-no ao pêlo de animais que assim o disseminam involuntariamente. O exemplar da foto está no terraço do lago dos nenúfares do Jardim Botânico do Porto; há ali sapos, talvez encantados, mas a planta aposta mais na colaboração de uma família de gatos que por lá se passeia.

14.8.07

Duas eufórbias


Euphorbia neriifolia

Poucos serão os géneros botânicos com tão grande variabilidade morfológica como o género Euphorbia: há eufórbias que são pequenas herbáceas (algumas até espontâneas no nosso país), outras que formam arbustos espinhentos, outras que atingem porte arbóreo, e outras ainda, atarracadas ou esguias, que facilmente se confundem com cactos. Distribuem-se por climas tropicais, sub-tropicais e temperados de todos os continentes. O que há de comum a todas elas é a seiva leitosa e irritante que segregam (e torna dolorosos os arranhões por elas provocados) e a estrutura peculiar das flores.

A primeira das eufórbias de hoje é a E. neriifolia, fotografada no Jardim Botânico do Porto: trata-se de um arbusto suculento, ramificado, de grossas pernadas verticais, originário da Índia e da Malásia; o seu nome comum em inglês (hedge euphorbia) informa que ele é usado para formar sebes; e o epíteto neriifolia refere-se à suposta semelhança das suas folhas com as do Nerium (loendro).

A segunda Euphorbia, mais humilde, pertence à flora portuguesa e é uma presença comum nas nossas dunas; o exemplar da foto é da Aguda. Trata-se da E. paralias, que em vernáculo recebeu o curioso nome de morganheira-da-praia. Alguém sabe explicar porquê?


Euphorbia paralias

23.7.07

Gatice


Isotoma axillaris

À entrada do Jardim Botânico do Porto, em frente à casa Andresen, está uma mini-rotunda muito florida onde, desde a reabertura do jardim, se exibem vários pés de Isotoma axillaris. A floração durará até Outubro e, se as plantas não forem removidas, esse recanto ficará talvez a ser a sua casa. É que a Isotoma axillaris multiplica-se com facilidade por semente, e é vulgar encontrarem-se rebentos junto da planta mãe: vinda com malas e bagagens da Austrália, ela faz de qualquer jardim onde se sinta bem o seu habitat natural.

As flores são perfumadas e têm um tubo muito longo, com um narizinho junto às pétalas; as folhas são estreitas, penugentas e dentadas. Estas plantas precisam de muito sol e terra bem drenada, gostando mesmo, como nós, de morar entre pedras. O seu manuseio requer cuidado porque se suspeita que a seiva provoque irritações de pele.

20.7.07

Dedaleiras



Digitalis purpurea / Digitalis lutea

Que tristeza tão inútil essas mãos
que nem sequer são flores
que se dêem:
abertas são apenas abandono,
fechadas são pálpebras imensas
carregadas de sono.

Eugénio de Andrade, As mãos (in Os amantes sem dinheiro, 1950)

17.7.07

Tristânia


Lophostemon confertus - Jardim Botânico do Porto

Em 1982 o género australiano Tristania foi revisto e dividido em três, Tristania, Lophostemon e Tristaniopsis. O exemplar das fotos tem uma placa com a menção Tristania conferta mas é de facto da espécie Lophostemon confertus. Estes géneros (cuja designação inicial homenageia o naturalista francês Jules de Tristan (1776-1861)) são, a par do Eucalyptus, dos mais valiosos para a economia australiana associada à exploração de madeiras. O tronco dos espécimes de Lophostemon confertus cresce a prumo, podendo atingir 40m de altura e 3m de diâmetro; com a copa densa, formam árvores de porte muito elegante.

O ritidoma é rugoso e acinzentado na base, mas liso e rosado no topo, como o dos eucaliptos, sendo a madeira cor-de-rosa. Por ser tão bonita é popular em decoração; foi mesmo usada nos soalhos do Teatro de Ópera de Sydney. A folhagem agrupa-se em conjuntos acamados (confertus) no extremo dos ramos, parecendo espiralar. As flores têm numerosos estames, como é usual nas mirtáceas, mas aqui distribuem-se em cinco vistosos penachos (lophos).

Uma nota para os nossos zelosos «jardineiros»: vários livros sobre flora australiana, como Forest trees of Australia de D. J. Boland et. al. (CSIRO Publishing, 1999), consideram esta espécie apropriada para formar zonas de sombra e sobretudo para ornamentar parques e ruas: é que resiste bem a podas violentas e repetidas. Talvez por isso o nome tristânia lhe assente tão bem.

12.7.07

O deserto aqui tão perto



Pereskia grandifolia - Jardim Botânico do Porto

É um deserto povoado e até denso, feito de amostras dos muitos desertos que há no mundo, este em miniatura do Jardim Botânico do Porto. Lá ninguém se perde ou morre à sede: é um deserto só oásis, colorido de flores e variado nas formas, que reúne, em canteiros onde o revestimento de seixos substitui a tradicional areia, plantas suculentas ou xerófilas de todos os continentes. A planta nas fotos é um cacto arbóreo, com cerca de três metros de altura, originário das regiões áridas do nordeste brasileiro. As suas flores valeram-lhe no país de origem o nome de cacto-rosa. Se não há rosa sem espinho, este cacto, eriçadamente espinhoso como nunca roseira alguma sonhou ser, ainda mais reforça a validade do provérbio.

Com as precauções que a sua acutilância recomenda, esta é uma ocasião a não perder para apreciar de perto as flores de uma árvore nada comum nos nossos jardins (pelo menos no norte do país). Também por isso, no domingo, lá estaremos no Botânico.

P.S. Por se ter esgotado a lotação prevista, encerraram já as inscrições para o almoço biológico.

9.7.07

Faia-de-cobre


Fagus sylvatica var. purpurea

Há quatro anos, uma hecatombe varreu as faias do Jardim Botânico do Porto: a primeira delas caiu quebrada pelo vento; feitas as análises, soube-se que um fungo mortífero lhe havia atacado as raízes; atingidas pela mesma enfermidade, as outras faias acabaram por ser cortadas. Só uma das faias adultas estava saudável, e só essa foi poupada: é a que vemos nas fotos com a folhagem cor-de-cobre a refulgir ao sol. Agora, no jardim renovado, há um caminho que parece ter sido rasgado com o propósito de a admirarmos, abrindo-se para uma clareira onde ela, com desculpável vaidade, se mostra de corpo inteiro.

Com um convite destes, haverá quem recuse visitar o Jardim Botânico? E, já agora, faça-o no próximo domingo na companhia da Campo Aberto.