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09/02/2016

Jogo de cores


Prunella laciniata (L.) L.
Em grandes populações de orquídeas é frequente verem-se gradações na cor das flores e, por vezes até em percentagem elevada, plantas com flores completamente brancas ou hipocromáticas. Não se trata de plantas albinas (aquelas em que uma mudança genética impede qualquer parte de realizar a fotossíntese) pois os talos e a folhagem são verdes. Nesta família, em que há muitas espécies cujas flores não têm néctar e que atraem os polinizadores seduzindo-os ardilosamente, crê-se que as variações na cor fazem atrasar a aprendizagem dos polinizadores. É que os insectos, tal como nós, desenvolvem preferências com base em experiências anteriores e, portanto, os que são sistematicamente iludidos aprendem a evitar as flores enganadoras. No ano seguinte, as flores surgem ligeiramente diferentes, nos matizes de cor ou perfume, e o logro funciona de novo entre os polinizadores mais jovens. Todavia, para lidar com os insectos mais experientes, as orquídeas precisam de ser mais hábeis. É nesse contexto que as plantas de flores brancas são essenciais: elas criam contraste e distraem os polinizadores que estão em dúvida, levando-os a descurar o que já sabiam. Alguns estudos de campo comprovam que, nas populações com flores brancas ou com variações da quantidade de pigmento na corola, a produção de sementes é maior.

Não podemos concluir deste arrazoado que há neste procedimento um propósito, um plano prévio de evolução na natureza. O mais certo é que as mutações que dão origem ao polimorfismo cromático sejam ocasionais, ou resultado de hibridação, mantendo-se nas populações porque são benéficas em termos evolutivos — até porque tais mudanças são, em geral, geneticamente recessivas, logo os descendentes de plantas com flores brancas podem dar depois flores com a coloração padrão.

Uma população que surgiu de uma mutação e que só dá flores brancas pode isolar-se num habitat, tornar-se estável e ganhar autonomia como espécie, ainda que o processo possa levar milhares de anos a completar-se. Terá sido isso o que separou estas duas espécies de Serapias? Ou estas duas espécies de Cephalanthera? Ou a Prunella grandiflora da Prunella laciniata? Para complicar a tarefa dos cientistas, não há um só modo de se criarem espécies com flores brancas que são, em tudo o resto, semelhantes às que dão flores com outras cores. E até pode ter acontecido o contrário, ser a Prunella de flores roxas a descendente; ou terem as duas um progenitor em comum, a P. vulgaris.

A Prunella laciniata ocorre no sul e centro da Europa, norte de África e parte da Ásia. É uma planta pequena mas de base lenhosa. Os talos são penugentos e as folhas divididas, com uma a duas lacínias de cada lado (veja-se a segunda foto). A Flora Ibérica regista que a corola branca por vezes nasce púrpura. Os exemplares que vimos estavam junto a um regato em Campo de Víboras, Vimioso, um habitat notável em vegetação herbácea.


Campo de Víboras

06/02/2016

Tomilhos mil


Thymus praecox subsp. britanicus (Ronniger) Holub


Três dias e duas noites na Cantábria forneceram-nos assunto florístico para quatro meses, mas tudo tem um fim e a nossa incursão espanhola termina hoje no trigésimo capítulo. O Thymus praecox é uma daquelas espécies alegadamente existentes em Portugal que encontrámos na Cantábria e nunca vimos por cá, seja por não as termos procurado com suficiente empenho, seja porque desapareceram ou estão em vias de desaparecer. De acordo com a Flora Ibérica, o tomilho-precoce deveria existir na serra da Estrela, e o mesmo se aplica ao Sedum candollei, mas ambos têm paradeiro desconhecido. O nome "tomilho-precoce", tradução à letra do nome científico, é mal justificado por uma época de floração que, estendendo-se de Maio a Setembro, não é especialmente temporã. Distribuído por grande parte da Europa central e ocidental, este tomilho é ecologicamente versátil, frequentando orlas de bosques, prados de montanha e fissuras de rochas, tanto em substratos ácidos como básicos.

Os tomilhos são perfumados, dão sabor à comida, e fazem boa figura num vaso ou no jardim. Não espanta serem muitos os tomilhos silvestres que foram domesticados pelo comércio hortícola. Entre eles conta-se o Thymus praecox — que, pelo seu porte rasteiro, abundante floração e resistência a condições atmosféricas adversas, é uma boa escolha para forrar canteiros ou para um jardim de plantas alpinas. Outro tomilho que forma tapetes rosados não menos atraentes é o Thymus caespititius, frequente na Madeira e nos Açores e nas serras xistosas da metade norte de Portugal.

Não fosse tratar-se de uma planta arrumadinha e compacta, o T. praecox poderia confundir-se, na folhagem e na forma das inflorescências, com o T. pulegioides, que aparece aqui e ali em Trás-os-Montes ao longo da fronteira com a Galiza. Mas o tomilho-das-pulgas tem hastes bem mais altas (20 a 30 cm contra uns 8 cm do T. praecox) e, por culpa do ar desgrenhado e da floração mais rala, é menos vocacionado para jardins.

05/01/2016

O regresso da memória

Não somos apenas o nosso corpo, e cada vez mais delegamos em artefactos a construção da nossa identidade mais íntima. A memória interna, aquela que carregamos no cérebro, enferruja por falta de uso, e parece que a sua capacidade de armazenamento diminui à mesma velocidade a que aumenta a dos periféricos onde vamos arrumando as nossas lembranças. Mensagens trocadas, contactos, fotos, o itinerário das férias, efemérides pessoais ou alheias, mapas e indicações de percursos, o nome desta planta, o nome daquela cara, a cidade onde havia este jardim, a praia sem rede e sem nadador-salvador: tudo o que estava dentro de nós e transferimos para a máquina, e que só ressuscita quando a ela nos ligamos. Para não notarmos o vazio, estamos sempre ligados.

E se a máquina se apagasse por acidente, e não existisse cópia de segurança? Foi essa amnésia tecnológica que nos atingiu faz agora seis semanas, quando uma actualização não solicitada do sistema operativo do computador limpou o disco externo onde guardávamos as fotos. Onze anos de passeios, de lugares, de nomes: milhares de memórias que de um instante para o outro deixaram de existir, consumidas por um incêndio sem chamas. Que fazer? Pedir uma indemnização à Microsoft? Solicitar os serviços de um mago das novas tecnologias? A solução foi usar um programa que por cem dólares nos pareceu uma pechincha e que, depois de escavar durante 12 horas em busca dos MB desaparecidos, trouxe à superfície, mais ou menos intactas, todas as fotos que alguma vez tiráramos e quem sabe se mais algumas. O óbice é que os nomes das fotos se tinham em grande parte perdido, e da meticulosa organização por pastas só sobrava um esqueleto sumário. Mas a matéria-prima estava lá, e à tarefa de reconstruir a memória nos entregámos neste Dezembro de 2015. Plantas, lugares, pessoas e bichos voltaram a ter nome. Ficaram de fora algumas pedras do Gerês que só conseguiremos nomear quando as reencontrarmos.

Esta nossa estreia em 2016 faz-se pois dessas memórias resgatadas, com duas plantas do género Stachys, ambas com fama medicinal e ambas presentes no nosso país, mas uma delas fotografada na Cantábria. Muito a propósito, a Stachys officinalis foi outrora usada para tratamento de problemas nervosos e de dores de cabeça e como tónico para avivar a memória.


Stachys officinalis (L.) R.Trevis. (fotografada em Cantanhede)


Lineu chamou-lhe Betonica officinalis, querendo com a escolha do epíteto assinalar-lhe a utilidade nas artes do boticário. Florindo entre Maio e Julho, a betónica (o nome lineano sobreviveu no vernáculo em várias línguas europeias) aparece aqui e ali de norte a sul do continente português, em clareiras de matos ou orlas de bosques sobre solos siliciosos. Mesmo no estado vegetativo, é facil de reconhecer pelas folhas de margens crenadas, formando uma roseta basal algo caótica. As suas hastes são finas e altas (até 90 cm), não ramificadas, com as flores reunidas em espiga na extremidade ou dispostas mais abaixo em verticilos esparsos.


Stachys sylvatica L. (fotografada na Cantábria)
A S. sylvatica, que em Portugal só parece ocorrer em Trás-os-Montes, prefere lugares abrigados e húmidos, e tem flores maiores e mais vistosas do que a sua congénere, resultado da necessidade de dar nas vistas e atrair polinizadores entre a competição cerrada das plantas de sub-bosque. Não tão versátil como planta curandeira, era usada e cultivada para tratar feridas, e por isso os britânicos lhe chamam woundwort.

05/12/2015

Erva do capuz rosado


Teucrium pyrenaicum L.


Não há certezas sobre como e quando apareceram os primeiros olhos no planeta, mas registos fósseis com muitos milhões de anos comprovam que começaram por ser muito simples, meros cristais sensíveis à luz e ao brilho ambiente, sem um orgão óptico de suporte. Após várias etapas evolutivas mais ou menos longas, atingiram a complexidade que hoje lhes reconhecemos e adoptaram a posição anatómica cimeira, frequentemente emparelhados, que ocupam em quase todos os organismos que os têm. Terão surgido ainda a vida não tinha colonizado habitats em terra e, por isso, tiveram de se adaptar a novos comprimentos de onda, a diferentes níveis de luminosidade, à necessidade de determinar a direcção da luz, de detectar formas ou o vazio a partir da informação visual, de distinguir as cores e o perto do longe, de reconhecer objectos em movimento e de se proteger da radiação ultravioleta. Depois houve quem aproveitasse a vantagem de se orientar ou caçar guiado pela visão. Este controle de um sem número de pormenores aperfeiçoou os olhos e o cérebro, incentivando as conexões entre eles e garantindo-nos um modo eficiente, quase perfeito, de processarmos imagens e interpretarmos o que vemos.

Surpreendentemente, as plantas ficaram de fora desta história de sucesso, bastando-lhes a capacidade de orientarem a folhagem para a luz, de reconhecerem o dia e a noite, de sentirem calor ou frio, de estruturarem harmoniosamente um ciclo de vida. É como se não precisassem de tanta sofisticação anatómica: afinal, por viverem imóveis, teriam para apreciar sempre a mesma paisagem; e, tendo olhos mas não braços, como afastariam as poeiras da vista, aliviariam o incómodo de um cisco ou o risco de um insecto voar rente a um olho? Estamos a ser simplistas, claro, alguma coisa nos está a escapar: como conseguiram as orquídeas imitar a morfologia dos polinizadores para os atrair sem nunca os ter visto? E, afinal, como sabem as plantas que cores mais lhes convêm, sejam elas arrojadas, com matizes ou em combinações sedutoras, se nunca viram um azul marinho, um amarelo torrado, um verde azeitona ou um vermelho púrpura?

As flores deste Teucrium, que na morfologia seguem o figurino usual no género, singularizam-se pelo arranjo bicolor: uma cor quente para o capuz, contrastando com o branco luminoso do labelo, marcado com veios sinalizadores, onde os polinizadores devem aterrar. Tratando-se de uma herbácea perene (quase lenhosa na base) que tem de sobreviver ao frio da Cantábria, as flores nascem no Verão e agrupam-se em rosetas terminais rasteiras, com o cálice protegido por uma penugem densa. As folhas, de margem crenada e igualmente lanudas, têm pecíolo curto, não vá o vento arrancá-las. É um endemismo do norte da Península Ibérica e sudoeste de França, frequente em pastos secos e fendas de rochas calcárias da Cantábria. A Flora Ibérica distingue duas subespécies, o T. pyrenaicum subsp. pyrenaicum, com flores bicolores, e o T. pyrenaicum subsp. guarensis, com corolas de uma só cor (branco, amarelo ou creme), que, segundo se crê, só ocorre no nordeste montanhoso espanhol.

21/04/2015

Tomilho das areias


Thymus carnosus Boiss.


O suiço Pierre Edmond Boissier (1810-1885) é dos autores botânicos que mais assiduamente nos visita, embora o faça discretamente, usando a abreviatura Boiss. em vez do nome completo. Há duas semanas, porém, ao falarmos desta linária miniatural, nomeámo-lo por extenso. Agora que repetimos a dose convém recordar aos distraídos que o icónico lírio-do-Gerês recebeu o nome de Iris boissieri em homenagem a Edmond Boissier.

Pelo que pudemos respigar em livros e páginas da Internet, Boissier não parece ter alguma vez assumido qualquer cargo oficial ou académico. A fortuna familiar permitiu-lhe dedicar a vida às expedições botânicas e à escrita e edição dos livros em que descrevia as plantas descobertas por si e pelos seus colaboradores. Com uma vincada predilecção pelo Mediterrâneo e pelo sul da Europa, grande parte das 6000 espécies que lhe são creditadas foram colhidas em Espanha ou em Portugal. Desse grupo faz parte o tomilho de hoje, baptizado no tomo II do seu Voyage botanique dans le midi de l'Espagne pendant l'anné 1837. Boissier sublinha que este Thymus carnosus, já anteriormente assinalado nas praias de Setúbal mas atribuído então a uma outra espécie, se singulariza, entre outras coisas, pela consistência carnuda das suas folhas.

Habitante de dunas e de pinhais litorais, este pequeno arbusto, que exibe hastes erectas de não mais que 40 cm de altura e folhas com margens muito enroladas, ocorre apenas na Península Ibérica, e só a oeste do estreito de Gibraltar. A presença na província de Huelva desqualifica-o, por escassa margem, como endemismo lusitano, mas é na costa portuguesa desde a Arrábida até Vila Real de Santo António que se encontra o grosso das suas populações. Fazendo parte da pequena lista de plantas legalmente protegidas em Portugal, a sua inclusão nos anexos da Directivas Habitats é plenamente justificada, embora raramente lhe assegure a protecção que merece. A sua (cada vez mais esporádica) presença nas praias do Algarve nunca fez refrear a construção de hotéis ou de aldeamentos turísticos, nem motivou o impedimento de acesso dos veraneantes a algum areal mais vulnerável.

Vimos o tomilho-carnudo na ilha de Tavira, perto da praia do Barril, e também no Vale do Garrão, num dos fragmentos de pinhal que os espampanantes bairros de vivendas com palmeiras ainda não engoliram. Era aí que um pequeno arbusto, enchendo-se de brios por saber que morava num dos metros quadrados de areia mais caros do país, fazia desabrochar, adiantando-se ao calendário, as duas ou três primeiras flores da temporada.


Vale do Garrão

31/03/2015

Candeias de veludo


Phlomis purpurea L.


Há algum tempo comprámos uma lupa pequena para levar no bolso durante os nossos passeios pelo campo. Veio numa caixinha que se desdobra e, desse modo, nos permite segurar a lupa sem tocar no vidro. É frequente usá-la, por exemplo, para identificar as espécies de Cheilanthes, cuja destrinça é tarefa delicada. Bem, esse é o uso sério da lupa. Nos intervalos, ela deixa-nos entrever um mundo de coisas minúsculas que não sabíamos que existiam e que raramente investigamos.

Veja-se, por exemplo, o aspecto sedoso da planta das fotos. Quando tocamos e espiamos à lupa o veludo que recobre quase totalmente as folhas, os caules e os capuchos das flores, notamos que ele é feito de pêlos estrelados e rijos. Esta herbácea alta, de floração primaveril, habita essencialmente o sul do país (Algarve, Baixo Alentejo e Beira Litoral; e, mais geralmente, é nativa do terço sul da Península Ibérica e do noroeste de África), onde as temperaturas são amenas quase todo o ano. Não se exclui, porém, a necessidade de algum agasalho das flores nos dias mais frios e sobretudo de muita sombra que refresque no Verão. E, à semelhança das pesadas roupas de quem vive no deserto, um indumento denso é um mecanismo hábil para controlar a temperatura e a perda de água por evaporação.

Mas será só por isso que tantas plantas são hirsutas e têm pêlos aparentemente tão agressivos? Decerto uma camada desta penugem também garante protecção das partes mais frágeis e vitais da planta (folhas e flores, hastes das inflorescências) contra insectos que, se tentam andar sobre ela ou dar-lhe uma dentada, tropeçam na malha de pêlos, ficam de patas presas, picam-se, escorregam em glândulas com goma tóxica ou têm de mastigar uma lã crespa e espinhosa. Alguns insectos acabam por aprender a lidar com estes entraves, e há os que sabem caminhar na planta devagar e em segurança, ou os que têm tromba longa para debicar a planta sem terem de penetrar até à seiva pelo arame farpado. E não será apenas para afastar perigos que as plantas se cobrem de pêlos: quando já há frutos, os pêlos estão também mais secos e fácilmente se agarram a quem passa, garantindo desse modo uma dispersão mais eficiente para novos habitats.

Em Fevereiro, é muito improvável que a marioila esteja em flor. Contudo, no Barrocal algarvio, em orlas de matos ou lugares soalheiros com solo básico, as populações desta Phlomis são tantas e tão abundantes que a probabilidade de encontrar pelo menos uma haste florida é já significativa. E cá está ela: as fotos mostram as folhas decussadas de nervuras salientes; os andares de cerca de oito flores em cada verticilastro a rodear o caule (de que a penugem esconde a secção quadrada); o cálice de brácteas imbrincadas; o lábio superior da flor (com cerca de 13 mm) protegendo a entrada; e o lábio inferior largo e quase horizontal, a oferecer uma pista de aterragem confortável aos polinizadores.

O nome da planta, do grego chama, alude ao aspecto das hastes florais que lembram as torcidas das lamparinas (acesas, diríamos, no caso da Phlomis lychnitis). Não sabemos se, de facto, terá tido este uso, como alega a Flora Ibérica, mas alguns estudos recentes de cientistas espanhóis confirmam a relevância de um outro uso tradicional da Phlomis purpurea: ela contém substâncias com efeito anti-inflamatório bastante eficiente contra problemas intestinais. Bom seria que um tal benefício não se ficasse pelas cobaias de laboratório.

20/01/2015

Erva das feridas


Stachys palustris L.
Se um botânico com um conhecimento enciclopédico da flora europeia fosse largado, sem instrumentos de orientação, num bosque ou prado algures na Europa, ele deveria ser capaz, observando o mundo vegetal à sua volta, de indicar com razoável aproximação o país e a província onde se encontrava. Claro que, para o teste ser viável, teria que se tratar de uma zona pouco ou nada alterada pelo homem, sem espécies introduzidas que tivessem roubado espaço às plantas indígenas. Também conviria que as plantas observadas fossem as mais frequentes e características da região em causa, pois um nicho ecológico pejado de raridades poderia induzir conclusões erradas. Se, por exemplo, esta Stachys palustris estivesse visível, então o nosso botânico poderia deduzir, com alguma segurança, que não se encontrava em Portugal. A espécie está, de facto, presente no nosso país, mas de um modo tão escasso e residual que a probabilidade de darmos de caras com ela por acaso é ínfima. Indica Franco na Nova Flora de Portugal que ela ocorre apenas no Baixo Mondego, o que é confirmado pelo único registo da espécie no portal Flora On. Sabedor dessas circunstâncias, o nosso povo, segundo a Flora Iberica, ter-se-á apressado a chamar-lhe rabo-de-raposa-do-Baixo-Mondego. É um nome tão quilométrico que até cansa pronunciá-lo, mas felizmente são raras as oportunidades para o fazer.

No resto da Península Ibérica, a Stachys palustris é pouco frequente, estando confinada ao extremo norte ou nordeste, mas se ultrapassarmos os Pirenéus o caso muda de figura: na Europa central e nas ilhas britânicas ela é ocupante habitual de bosques e terrenos húmidos, valetas, margens de rios e até orlas de campos cultivados. Observando que a planta da foto se abrigava numa mata de avelaneiras (Corylus avelana), fazendo-se acompanhar por herbáceas como Anemone nemorosa, Ajuga reptans e Lysimachia nemorum, e fetos como Dryopteris dilatata, talvez o nosso botânico apostasse que se encontrava na ilha de Sua Majestade. E foi na verdade em Loder Valley, uma área de reserva natural gerida pelos Kew Gardens, que estas imagens foram captadas em Agosto de 2009.

Não sendo macia e felpuda como a teutónica Stachys germanica, que apesar do nome é abundante nos calcários do centro e sul de Portugal, a Stachys palustris, se atentarmos nela com imparcialidade, leva clara vantagem na beleza das flores. Destoando da família que integram, e que inclui tomilhos, lavandas e oregãos, as plantas do género Stachys são pouco ou nada olorosas, falha compensada pela farta produção de néctar que as torna muito populares entre as abelhas. Marsh woundwort é como chamam os anglo-saxónicos à Stachys palustris, o que denuncia antigos usos medicinais. De floração estival, é uma herbácea perene, rizomatosa, dotada de hastes não ramificadas capazes de atingir uns 70 cm de altura.

10/01/2015

Alfazema cabeçuda


Lavandula stoechas L.
Gostar de plantas espontâneas é um passatempo solitário, tão desligado da vivência urbana como da vida ancestral das nossas aldeias. O camponês tradicional não é um naturalista nem preza especialmente as flores silvestres, sobretudo quando elas insistem em ocupar, às vezes de forma avassaladora, os terrenos cultivados de onde tira o seu sustento. Os pássaros que debicam cereais e frutos também não lhe são especialmente simpáticos. A natureza é para ser desbastada e vencida, não para ser admirada num estado de embevecimento só possível a quem não sabe o que a vida custa. Dar nome às plantas inúteis ou "daninhas" que crescem em montes e vales é uma ideia que só pode ocorrer a citadinos ociosos. E, ainda assim, a um tipo especial de citadino ocioso de que em Portugal há escassos representantes, daí a nossa solidão que esta partilha virtual não disfarça nem ameniza.

Até que chega a altura de falar do rosmaninho, e então sentimo-nos em comunhão com o país urbano e o país rural, unindo a linda serra da neve a brilhar com a rua do Capelão cantada por Amália. O mesmo arbusto elegante e aromático que cobria, com as suas espigas de flores roxas e folhagem verde-prateada, os cerros pedregosos em volta da aldeia (à qual se jurou nunca mais voltar) acompanhou a migração para as grandes cidades, enfeitando de igual modo canteiros urbanos e quintais nos subúrbios. Nas prateleiras dos supermercados alinham-se sabonetes, detergentes e ambientadores perfumados com lavanda, rosmaninho ou alfazema: três nomes para a mesma coisa, prova de como uma língua reflecte os amores e predilecções de um povo.

No meio de tudo isto houve algumas substituições, porque nem todas as lavandas são iguais, e aquelas que são mais cultivadas em jardins e mais usadas na indústria de perfumaria, que são a Lavandula angustifolia e a L. dentata, nem sequer ocorrem naturalmente no nosso território, ficando-se a primeira pela metade leste da Península Ibérica e não indo a segunda além da costa mediterrânica. As nossas lavandas não lhes são nada inferiores em perfume ou beleza, mas não podem competir em prestígio com aquelas que o garden center importa de França ou sabe-se lá de onde. Dito isto, esclareça-se que no nosso país há quatro espécies nativas de Lavandula, duas de distribuição restrita (L. multifida na serra de Arrábida, L. viridis no Algarve e Baixo Alentejo) e duas outras, L. pedunculata e L. stoechas, que quase fazem o pleno das províncias portuguesas. Estas duas últimas são muito parecidas, a ponto de alguns autores terem considerado que a L. pedunculata não seria mais que uma subespécie da L. stoechas. Ambas correspondem à ideia tradicional de rosmaninho, com as inflorescências compactas coroadas por vistosos penachos cor-de-rosa. Ainda assim, a L. stoechas, que é a menos frequente das duas, distingue-se com facilidade por ter as folhas um pouco mais largas, a inflorescência mais comprida, e sobretudo um pedúnculo que em geral é mais curto do que a inflorescência. Por contraste, a L. pedunculata, fazendo jus ao nome, tem um pedúnculo muito comprido, nunca menos que duas vezes o comprimento da inflorescência.

A Lavandula stoechas das imagens foi fotografada no maciço calcário de Sicó, perto de Pombal, onde estava bem acompanhada pelas suas iguais. Dir-se-ia que, apesar da preferência por solos ácidos ou neutros que lhe é imputada, esta espécie de lavanda não é de grandes esquisitices quanto ao pH do solo.

20/12/2014

Os pés da cama

Clinopodium vulgare L.
O estranho título aí em cima é uma tradução à letra da palavra grega Clinopodium, nome que, desde a antiguidade, terá sido dado a esta planta porque as suas flores dispostas em patamares fariam lembrar os pés daquelas camas muito enfeitadas pela arte dos marceneiros. A comparação é forçada, mas nisto de nomes de plantas há sempre quem puxe pela cabeça num esforço quase redentor de justificação, como se a botânica aspirasse ao rigor das ciências exactas. Em qualquer caso, são essas densas e regulares aglomerações de flores que nos ajudam a diferenciar o clinopódio, muito vulgar em clareiras de bosques e de matas na metade norte do país, da ainda mais vulgar Calamintha nepeta, em que as flores não se encostam de modo tão friorento umas às outras. Outra diferença está nas folhas: as do Clinopodium tendem a ser lanceoladas, enquanto que as da Calamintha são mais largas, quase triangulares. E, para quem não esteja constipado, o olfacto fornece um tira-teimas infalível, já que o Clinopodium é quase inodoro e a Calamintha deita um forte perfume algures entre menta e orégão.

Amplamente distribuído no hemisfério norte, nativo de quatro continentes e de muitas mais ilhas, naturalizado na Austrália e na Nova Zelândia, o Clinopodium vulgare é uma das plantas do nosso dia a dia que há mais de 250 anos mantêm os nomes com que Lineu, o pai da taxonomia, as baptizou. Neste caso, porém, não foram poucas as tentativas de destronar o binómio lineano: uma lista muito incompleta de sinónimos inclui nomes tão variados como Acinos vulgaris, Calamintha clinopodium, Faucibarba clinopodium, Melissa vulgaris, Satureja clinopodium e Thymus clinopodium. Tamanha inflação nomenclatural não se explica pela vontade de contrariar Lineu, nem pelas variações morfológicas, afinal pequenas, a que uma planta cosmopolita como esta está sujeita ao passar de um continente para outro. A dificuldade está mesmo em arrumá-la dentro da família das lamiáceas, por revelar traços comuns a muitos outros géneros, vários deles (como Satureja, Thymus ou Melissa) bem menos controversos do que o género Clinopodium. A mesma indefinição e consequente profusão de nomes marcaram o percurso taxonómico da Calamintha nepeta, mas aí Lineu perdeu a disputa com a posteridade, pois o nome por ele escolhido, Melissa nepeta, é hoje de todo obsoleto.

Embora, pelo seu défice oloroso, o clinopódio não deva ser chamado de erva aromática, é certo que infusões com as suas folhas são usadas em medicina popular. Erva melífera com créditos firmados, florescendo desde a Primavera até ao Outono, é à grande capacidade de atrair abelhas e demais polinizadores que deve o seu sucesso reprodutivo.

06/12/2014

Iva aumenta


Ajuga chamaepitys (L.) Schreb.
O título pode trazer-nos um pico de visitantes, mas apressamo-nos desde já a desfazer equívocos: este texto não fala de impostos, embora muitos botânicos (não é essa a nossa prática) tratem as plantas como simples matéria colectável. Acontece que a planta de hoje é uma versão algo aumentada da iva, ou Ajuga iva se lhe quisermos dar o nome completo, uma diminuta planta de base lenhosa que ocorre com assiduidade nos terrenos calcários secos do centro e sul de Portugal. A Ajuga pyramidalis e a A. reptans, a última também usada como ornamental, completam o quarteto destas labiadas presentes no nosso país. Os traços de parentesco mais evidentes em todas elas são as flores pequenas, dotadas de um lábio inferior proeminente mas destituídas de lábio superior, e as brácteas grandes, semelhantes às folhas, bem maiores do que as flores.

A Ajuga chamaepitys, que tem a reputação de ser uma erva ruderal mas ultimamente se tem feito muito rara, revelando fraca adaptabilidade às mudanças nas práticas agrícolas e no uso dos solos, é uma planta anual (ou bienal, segundo alguns) que, pela nossa curta experiência (vimo-la apenas duas vezes), parece preferir terrenos descampados e secos sobre substratos calcários ou margosos. É uma planta ramificada e peluda, de não mais que 20 cm de altura, com flores amarelas de cerca de 2 cm de diâmetro. As folhas, que são divididas em três segmentos compridos e estreitos, quase lineares, dispõem-se de forma muito densa e dão à planta uma vaga semelhança com um rebento de pinheiro. Assim se explica o epíteto chamaepitys, palavra grega composta de chamae, que significa rasteiro, e de pitys, pinheiro. A mesma comparação é retomada no nome ground-pine que os britânicos dão a esta espécie. Curiosamente, a própria planta parece ter interiorizado a analogia, esforçando-se por torná-la mais completa, já que, ao que consta, as suas folhas rescendem a pinho quando esfregadas.

21/10/2014

Sabor de hortelã


Mentha cervina L.
Há gestos que nos parecem insignificantes e que desaparecem sem darmos por isso. Ficamos mais pobres e nem notamos. Houve uma última vez em que alguém, no Alentejo, foi ao rio colher uns pés de erva-peixeira para temperar a caldeirada ou a açorda. Tão abundante era ela em rios, ribeiras e charcos, e agora só sobrava aquela mísera amostra. Para o ano nem isso haveria, porque entretanto a barragem começaria a encher. Se quisesse voltar a comer peixe com aquele fino travo de hortelã, teria de ir a Lisboa, às lojas de iguarias gourmet, para comprar a peso de ouro uma magra embalagem de folhas secas.

Mais a norte a história só não se repete porque, com as variações regionais de hábitos culinários, a erva-peixeira (ou hortelã-da-ribeira, outro nome pelo qual a Mentha cervina é conhecida) nunca teve, em Trás-os-Montes, o prestígio gastronómico de que gozou no Alentejo. Daí que na província nortenha as populações espontâneas de Mentha cervina não tenham estado sujeitas à colheita imoderada que, a par da destruição dos habitats, quase levou no Alentejo ao desaparecimento da espécie. Além disso, a degradação ambiental associada às práticas da agricultura intensiva, em especial a eutrofização dos cursos de água, é muito menos grave em Trás-os-Montes do que no sul do país. No que as duas regiões se equiparam é nos efeitos catastróficos da construção das barragens sobre a vegetação que, vivendo ao pé da água, nunca aprendeu a nadar. O enchimento da barragem de Alqueva destruiu talvez os últimos núcleos de erva-peixeira nas margens do Guadiana. E quando, até final do ano, a barragem do Sabor entrar em funcionamento, vão ser afogadas algumas das mais importantes populações da espécie em Trás-os-Montes: a que existe junto à ponte de Remondes (foto em baixo) e todas as outras que subsistiram até hoje nos últimos 60 Km do curso do rio antes de se juntar ao Douro.

Talvez pareça exagerado este lamento por uma simples erva aromática quando tantas outras coisas tidas como mais importantes, entre elas grandes maciços de Buxus sempervirens, para já não falar das árvores e dos campos agrícolas, se perderão com a subida do nível das águas. Mas é esta soma de perdas, pequenas ou grandes, que se chama "destruição da biodiversidade", e todas as parcelas contam no balanço dos prejuízos. Ainda sobram contigentes importantes de Mentha cervina noutras paragens transmontanas, e tão cedo ela não desaparecerá de Portugal, mas a circunstância de não ter qualquer prioridade em acções de conservação, assim como a vulnerabilidade dos seus habitats, indicam que o caminho de diminuição progressiva por ela iniciado não tem retrocesso possível. Em toda a sua área de distribuição, que abrange a Península Ibérica, o sul de França, Argélia e Marrocos, é a mesma má sina que a persegue, a ponto de ela ter sido incluída, como vulnerável, na lista vermelha da IUCN.

Nas inflorescências semelhantes a pompons e até no perfume intenso, a Mentha cervina lembra a sua congénere M. pulegium, popularmente conhecida como poejo, bastante comum de norte a sul do país e também nos Açores. As diferenças estão porém à vista: as folhas da M. cervina são muito mais estreitas, quase lineares, e as suas flores são em geral brancas, enquanto que as da M. pulegium são rosadas ou violáceas. As preferências ecológicas são também distintas: a M. cervina ocupa charcos temporários, margens inundáveis de rios ou leitos de cursos de água temporários; a M. pulegium, sem desdenhar tais lugares, consegue tolerar ambientes mais secos.


ponte de Remondes, rio Sabor

11/10/2014

Quatro irmãs portuguesas


Cleonia lusitanica (L.) L.


Segundo a Flora Ibérica, o nome vernáculo desta herbácea anual de floração efémera é o supreendente «cuatro hermanas portuguesas». A referência a quatro irmãs entende-se: a inflorescência tem um arranjo em pelourinho com quatro flores em redor, numa posição simétrica que lembra, por exemplo, a configuração da estátua que homenageia as quatro irmãs Guedes à entrada do Quinta da Aveleda. Memórias de outros tempos, em que as famílias eram numerosas. Mas o rigor do «portuguesas» deixa-nos perplexos. Tudo indica que se trata de um acrescento de cientistas influenciados pelo epíteto lusitanica que Lineu escolheu, tanto na primeira edição do Species Plantarum, em 1753 (em que a designou Prunella lusitanica), como na segunda, de 1763, em que corrigiu a mão, optando por Cleonia lusitanica (por isso o nome científico termina com a dupla menção a Lineu, (L.) L.). Pior só se alguém afirmasse que o povo a trata por cliónia. Mas não, não há qualquer menção de um nome vernáculo em português, e, de facto, em castelhano ela tem outra designação mais plausível: cañamillo, algo como cana-de-painço ou cana-de-milho-miúdo, decerto aludindo à postura erecta dos talos, ao formato da haste floral e às brácteas das inflorescências.

As flores não deixam dúvidas: esta planta, que em geral se fica pelos 20 a 30 cm de altura, pertence à família Lamiaceae e ao seu ramo mais vistoso, aquele que no início do Verão exibe corolas violáceas, com um matiz mais claro, ou mesmo branco, no interior. (Informa a Flora Ibérica que, em Málaga, há uma população onde ocorrem espécimes de flores amarelas.) Gosta de prados em clareiras de matos abertos, matagais ou azinhais, sobre solo calcário. Vimos os exemplares das fotos em Pombal, na companhia de algumas centenas mais que formavam um extensa manta lilás numa ladeira de terra argilosa, avermelhada e seca, entremeada com rochas e calhaus. Dias depois, reencontrámos a planta nas margas do Horst de Cantanhede.

De acordo com a Plant List, o género Cleonia inclui esta única espécie C. lusitanica, que é nativa do centro e sul da Península Ibérica e do norte de África.

11/05/2014

Uma salva ibérica


Salvia sclareoides Brot.


Nesta ocasião, em que todos parecem saber o que é fundamental para a salvação do país, que só por destino não consegue ser salvo por tão habilidosas ideias, vem a propósito mostrar uma Salvia, nome derivado talvez do latim salvus, que significa "salvo", "livre de perigo e dano", e que assim regista a sua fama como remédio. Outrora esteve mesmo em uso uma beberagem de Salvia que se administrava a tardos e a insensatos, para alívio comunitário.

Nos nossos passeios, encontramos em geral apenas duas das seis espécies do género Salvia que ocorrem por cá: a Salvia verbenaca, planta perene e vulgar, presente em quase todas as províncias; e a S. sclareoides, um endemismo da Península Ibérica, bienal ou perene e de ecologia mais exigente, preferindo nitidamente solos calcários; dela só há populações conhecidas na Beira Litoral, Estremadura e Algarve.

Há nelas muito em comum e a S. verbenaca tem tendência a gerar variantes locais, o que nos dificulta a tarefa de as identificar. Para nosso benefício, as Floras reúnem uma lista de dados morfológicos que as distinguem:
  1. Ambas têm uma roseta basal de folhas mas as da S. verbenaca são laciniadas enquanto as da S. sclareoides são crenadas ou serradas, muito rugosas, com aspecto bolhoso e a face inferior penugenta.
  2. Os caules da S. scaleroides são viscosos na parte inferior; na S. verbenaca é a parte superior do caule que pode apresentar pêlos glandulíferos.
  3. A S. verbenaca pode atingir os 80 cm de altura; pelo contrário, a S. sclareoides não costuma ultrapassar os 40 cm.
  4. As inflorescências de S. verbenaca têm mais flores e estas são lilacíneas ou azuladas, um pouco menores do que as de S. sclareoides, que têm corola violácea.
Desafortunadamente, nem sempre as plantas cumprem a diferenciação cromática que os manuais prescrevem. E, pior, raramente encontramos as duas espécies juntas para conseguirmos fazer uma comparação judiciosa. Por isso, na prática, atentamos num outro pormenor. A corola das salvas é bilabiada, com o lábio inferior dividido em três lóbulos, sendo o do meio mais largo. Face a uma salva, notamos se este lóbulo central se dobra vincadamente para trás e se os outros dois estão descaídos, como braços em descanso. Nesse caso, trata-se de um exemplar de S. sclareoides, uma vez que na S. verbenaca o labelo é patente e os lóbulos laterais estão erguidos como orelhas de burro.

No entender de quem regista estas coisas, o nosso povo há muito que não tem dúvidas sobre esta distinção: chama salva-dos-caminhos ou erva-crista à S. verbenaca, mas reserva os nomes salva-do-sul e salva-viscosa-dos-montes para a S. sclareoides.

22/02/2014

A florir de Janeiro a Dezembro


Calamintha nepeta (L.) Savi
De acordo com um código internacional, a nomenclatura botânica segue regras estritas ao nomear novas plantas para que se atribua o mérito aos seus primeiros descobridores, se garanta que as novas designações estejam correctas e se acautele a compatibilidade com as denominações das outras espécies já conhecidas. Até 2011, sempre que era descrita uma nova planta, os autores da descoberta tinham de propor um nome e, para validar a descoberta, inciar o seu relato em revista científica da especialidade (destinada a dormir em volumes de capa dura no silêncio das bibliotecas) por um parágrafo em latim com os traços gerais da planta e do seu habitat. Agora, um tal resumo pode ser escrito em latim ou inglês, mas não noutras línguas, e a revista pode não ter existência em papel mas apenas on-line, embora os nomes sugeridos tenham ainda de ser latinizados. Talvez a alguns agradasse se, no próximo congresso mundial de botânicos em que se discutirá este código, a realizar na China em 2017, este último reduto do latim fosse desfeiteado e se enterrasse de vez uma língua morta.

O género Calamintha foi proposto em 1754 pelo botânico escocês Philip Miller (1691-1771), e talvez queira dizer «menta formosa», do grego kalos e minthe. Um ano antes, Lineu deu à planta das fotos o nome Melissa nepeta, mas, numa arrumação taxonómica de 1798, o botânico italiano Gaetano Savi (1769-1844) mudou-a para o género Calamintha. Quanto aos nomes comuns, por cá é conhecida como erva-das-azeitonas (por se usar/ter usado para curtir azeitonas), e também por nêveda, palavra que, dizem os dicionários, tem origem no latim nepeta (que, crê-se, se refere à povoação italiana Nepi). Em espanhol, tanto é erva-dos-pastores como erva-pastora, e este último nome é o que julgamos que lhe assenta melhor: com uma distribuição ampla, seja em taludes, orlas de bosques ou olivais, prados ou sítios nitrificados, é frequente depararmos com este pequeno arbusto aromático, viloso, perene e em flor quase todo o ano, a acompanhar-nos como uma cabrinha a pastorear todos os recantos verdinhos.

A Flora Ibérica menciona duas subespécies desta herbácea, C. nepeta subps. nepeta e C. nepeta subsp. sylvatica (cujas folhas exibem margens com um recorte mais fundo), de que só a primeira, que é nativa do centro e sul da Europa, noroeste de África e ilhas Canárias, está assinalada em Portugal. Na Península Ibérica ocorrem mais duas espécies de Calamintha, ambas muito raras.