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17/04/2014

Família feliz


Orchis x bivonae Tod. (híbrido de O. anthropophora (L.) All. e O. italica Poir., ambas à direita)

Como se reconhece um híbrido e de que modo se podem descobrir os progenitores? A cautela justifica-se porque o olho do amador tende a valorizar pequenas diferenças, de cor, tamanho ou forma, que afinal não dão lugar ao reconhecimento de uma espécie nova. Vejamos um exemplo.

Há dias, na serra de Sicó, encontrámos a orquídea em flor que se vê nas duas primeiras fotos. Chamou-nos a atenção o tom rosa escuro dos labelos, que lembram os rapazinhos das flores de Aceras anthropophorum embora estes sejam geralmente amarelo-esverdeados. Nesta espécie, a flor não tem esporão (o termo grego aceras alude precisamente a essa ausência), mas recompensa os polinizadores com néctar que guarda em bolsinhas situada por baixo do capuz. Por isso, só recentemente, depois de apurados testes genéticos, foi esta espécie integrada no género Orchis: chama-se agora Orchis anthropophora. Pois bem, o leitor pode confirmar na foto, junto ao pedúnculo de cada flor, que os rapazinhos cor-de-rosa têm esporão. Desconfia-se, pois, que, ainda que descendam da Orchis anthropophora, têm outro progenitor, e esse terá de ser de espécie cujas flores nasçam providas de esporão. Mas qual? Uma vistoria aos arredores sugeriu-nos um candidato: os campos e prados próximos estavam repletos de magníficos exemplares em flor de O. italica, de permeio com muitos outros de O. anthropophora. Naturalmente, os polinizadores circulam sem hesitar entre as flores das duas espécies, misturando inadvertidamente o pólen das várias plantas. E, sim, a flor de O. italica tem esporão, curto e rechonchudo como o que vemos no híbrido. As flores são rosadas com um chapéu aberto e de pontas mais longas que na Aceras; além disso, o labelo é mais dividido, formando um menino de aparência irrequieta que, além das duas pernas, tem uma cauda. Este apêndice não é herdado pelo híbrido, ou surge nele muito reduzido.

Não fomos nós os primeiros a observar este filhote de O. anthropophora e O. italica. Do arquivo de fotos Orquídeas Silvestres Portuguesas, consta uma imagem da mesma orquídea encontrada em Ansião. E aqui há menção a vários locais onde se avistaram outros exemplares deste híbrido. Porém, o primeiro registo foi feito em 1840 pelo botânico italiano Agostino Todaro (1818-1892), um estudioso das orquídeas da Sicília. Chamou-lhe Orchis x bivonae, referindo-se certamente o epíteto a Bivona, terra siciliana de pêssegos famosos, na província de Agrigento.

29/03/2014

H, II ou X

Ophrys incubacea Bianca
Orquídeas silvestres outra vez?, pergunta o leitor de testa franzida. Pois, ainda não falámos desta. Só recentemente a vimos no Parque Natural da Arrábida, em sítios soalheiros ou a meia sombra, e estava no início da floração. Não ocorre no norte do país, embora haja populações no norte da Península Ibérica. É uma planta mediterrânica e, mau grado os poucos registos da sua presença em Portugal, não será assim tão rara no Alentejo e na Estremadura. Amaral Franco, na Nova Flora de Portugal, garante que também ocorre no maciço calcário do centro do país. O botânico italiano Giuseppe Bianca (1801-1883), que a nomeou em 1842, terá avistado exemplares diminutos na Sicília (o nome incubacea alude precisamente a essa pequenez), mas os caules erectos podem chegar aos 60 cm de altura.

Em algumas flores nota-se, na ponta do labelo, um apêndice amarelo redondinho cuja função desconhecemos. Para outros detalhes há, porém, explicação. As flores têm um estigma escuro e o labelo é peludo, em tom castanho avermelhado, próximo da cor do vinho tinto, no centro do qual se destaca uma mancha violácea brilhante que, para mais bem contrastar, tem por vezes um rebordo ocre ou esverdeado. A alguns, a flor lembra uma aranha, a outros uma vespa ou um moscardo. No polinizador (Andrena morio) suscita a grata memória de uma mosquinha-fêmea de tamanho aproximado ao do labelo, igualmente escura e com asas estreitas que, juntas, parecem formar um X. O desenho no labelo da flor imita quase perfeitamente este formato, embora a letra saia por vezes mal desenhada, lembrando antes um H ou um duplo I.

Alguns naturalistas, botânicos e especialistas em orquídeas evocam várias diferenças morfológicas para não seguirem a norma da Flora Ibérica (e, portanto, do Flora-On) de designar esta orquídea como Ophrys sphegodes Mill., nome atribuído em 1768 a uma planta que, se aceitarmos essa opinião, não existe por cá. É certo que as variações morfológicas aleatórias numa mesma população de orquídeas podem ser muito benéficas à espécie, mas algumas das que observamos hoje têm por ventura ainda um carácter efémero. Entende-se, assim, a hesitação em formalizar esses cambiantes em múltiplas espécies sem o apoio de estudos genéticos aprofundados. Contudo, o género Ophrys hibrida com frequência, o que complica consideravelmente a tarefa da ciência mas é fonte de legítimo regozijo para quem descobre tais híbridos.


Castelo de Palmela

01/03/2014

Mini fusca


Ophrys pintoi M. R. Lowe & D. Tyteca
As flores das orquídeas do género Ophrys, sem néctar ou outra recompensa para os polinizadores, apostaram em certo momento da sua evolução na mimetização de insectos, aproveitando-se do pequeno lapso de tempo entre o fim da hibernação dos insectos-macho e o das fêmeas para atraírem os primeiros e, através de falsas cópulas, lhes entregarem pólen ou receberem o que eles trazem de outras flores. Para além da aparência enganosa, com zonas no labelo que, quando brilham ao sol, parecem asas, as flores produzem feromonas quimicamente muito semelhantes às exaladas pelos insectos-fêmea, e distribuem de modo adequado o veludo e a penugem no labelo para que a semelhança táctil seja perfeita. Algumas orquídeas dependem inteiramente do sucesso deste mecanismo para produzirem sementes, e por isso o ardil tem de ser exímio: há que garantir que a planta se destaca na profusão de sinais químicos e visuais da natureza, como um canto de soprano rompendo a massa instrumental de uma orquestra. O resultado é uma especialização tão hábil das flores que raramente este emparelhamento entre a morfologia da flor e um insecto envolve espécies distintas. Mas acontece. O mesmo insecto pode visitar flores de diferentes espécies, e da troca de pólen nascerem híbridos. Isso não é de todo mau se as mudanças na morfologia continuam a ser apreciadas pelo polinizador, e até pode constituir uma vantagem: se o insecto burlado jura a patas juntas que não volta àquela flor, no ano seguinte visita ingenuamente o híbrido, e assim se perpetua o logro; ou então surge outro insecto que se adapta melhor à nova morfologia da flor e que, substituindo o polinizador original, aumenta as oportunidades de disseminação da planta.

Quando isto sucede, é natural que as alterações genéticas se tornem estáveis e se formem orquídeas que se distinguem claramente dos progenitores. É então legítimo propor que, na taxonomia, elas se tornem espécies independentes. Foi o que fizeram os autores deste artigo (Michael R. Lowe & Daniel Tyteca, Two new Ophrys species from Portugal, J. Eur. Orch.44 (1): 207 – 229. 2012) relativamente a duas formas de Ophrys do centro do país que à primeira vista pareceriam ser de incluir em Ophrys fusca (espécie altamente polimorfa) mas que exibiam características muito distintas. Uma delas, a que aparece nas fotos, assemelha-se a uma versão anã da O. fusca; a outra é alta, mais profusa na floração, e prevê-se que tenha um polinizador distinto. Para a primeira, Lowe e Tyteca propuseram a designação Ophrys pintoi, homenageando o botânico português António Rodrigo Pinto da Silva (1912-1992); à segunda chamaram Ophrys lenae, aludindo o epíteto específico ao rio Lena, da serra dos Candeeiros, onde foi colhido o holótipo da nova espécie.


Pinheiros-mansos (Pinus pinea L.) no Horst de Cantanhede
Vimos muitos exemplares de O. pintoi no Horst de Cantanhede, durante uma saída de campo organizada pela AOSP (Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal). Ali o solo é branco de tanto calcário, margoso e escorregadio, a entremear rochas com belos fósseis do Jurássico. O horst é um pedaço longo de terra, do Zambujal até Lemede, que se ergueu quando apertada por duas placas da crosta da Terra que chocaram, provocando um desfasamento do chão. A fauna e a flora deste raro ecossistema, e a sua importância geológica e paleontológica, justificam e exigem dos responsáveis um programa de conservação exemplar.

23/12/2013

A dança das orquídeas


Platanthera pollostantha R. M. Bateman & M. Moura / Erica azorica Hochst. (ilha de Santa Maria)

Na quarta-feira, dia 11 de Dezembro, deu-se na imprensa escrita portuguesa um fenómeno nunca visto: dois jornais (o Público e o Diário de Notícias) fizeram chamadas de primeira página com uma orquídea silvestre portuguesa. A notícia era a descoberta, por uma equipa de botânicos composta por dois britânicos (Richard Bateman e Paula Rudall, dos Kew Gardens) e uma portuguesa (Mónica Moura, da Universidade dos Açores), de uma nova espécie de orquídea nos Açores, a terceira do género Platanthera endémica do território. A nova orquídea, de que se encontraram apenas 250 exemplares em flor numa única ilha do arquipélago, a de São Jorge, foi de imediato alçada pelos seus descobridores à categoria da mais rara da sua família em toda a Europa. E foi essa distinção — que, muito mais do que um dúbio galardão, deve servir de alerta aos organismos regionais e nacionais de protecção da natureza — que fez convergir a atenção dos jornais. As fotos da raridade (uma haste singela armada com flores discretas, pequenas e verdes) terão provocado a perplexidade dos muitos leitores para quem as orquídeas são aquelas coisas vistosas e multicoloridas originárias dos trópicos. Haverá quem tenha aprendido alguma coisa lendo a notícia, mas outros, instalados no conforto de uma ignorância empedernida, quiseram partilhar connosco o seu vácuo mental, comentando assim a notícia no DN:

«Muita feia. Nem flor tem. A orquidea mais bonita é a Tailandesa.»

«Pois. Avancem já umas verbas prá protecção. Temos que deslocar uma equipa de vinte pessoas, mais o equipamento, o hotel e a alimentação para 6 meses (pelo menos). E, hã... as ajudas de custo, claro. Até fica barato, tendo em conta que vamos fazer mais quatro doutoramentos. Quanto à orquídea... [expressão de baixo calão].»

«Leiloa uma mudinha, algum colecionador vai querer pela raridade, apesar de na minha opinião não ser tão bonita assim. Com o dinheiro dá para investir na preservação da espécie.»

É bom esclarecer, antes que alguém se deixe empolgar por tão luminosa ideia, que as orquídeas europeias não têm qualquer interesse para coleccionadores. Passam 11 meses em cada ano reduzidas a tubérculos subterrâneos, só se deixando ver na época de floração; e, como dependem de micorrizas para a sua subsistência, são incapazes de sobreviver num jardim ou noutro meio artificial, morrendo rapidamente quando transplantadas. Colher estas orquídeas com intenção de as cultivar em vaso é uma idiotice e uma destruição pura e simples. O único modo de conservar a «orquídea mais rara da Europa» é (como sucede com todas as suas irmãs açorianas ou continentais) cuidar do habitat onde ela escolheu morar.

Ainda não dissemos que nome tem a nova Platanthera açoriana, e de facto até temos medo de pronunciá-lo. O feliz anúncio da descoberta de uma nova orquídea endémica, e para mais uma que se distingue claramente (sobretudo no tamanho e morfologia das flores) das suas duas conterrâneas, vem embrulhado numa revolução taxonómica capaz de provocar uma balbúrdia épica. Assim, a nova espécie fica a chamar-se Platanthera azorica; a espécie que antes tinha esse nome chama-se agora Platanthera micrantha; e aquela que se chamava Platanthera micrantha foi agora rebaptizada como Platanthera pollostantha (ilustrada nas fotos; o epíteto significa «a menor das flores»). Resumindo: há uma nova espécie e um novo nome, mas este não foi atribuído àquela; e nenhuma das espécies anteriormente conhecidas manteve o nome que tinha.

Ninguém propõe tal dança de nomes por gosto ou simples recreação. Richard Bateman et al. tiveram o maior cuidado em explicar, no artigo em que relatam a descoberta (Systematic revision of Platanthera in the Azorean archipelago: not one but three species, including arguably Europe’s rarest orchid, publicado on-line em 10 de Dezembro de 2013), que a responsabilidade do imbróglio cabe ao há muito falecido Moritz August Seubert (1818-1878), autor da primeira Flora Azorica (1844). Seubert, que nunca pôs os pés nos Açores, baseou as suas descrições no material de herbário recolhido pelos Hochstetter pai e filho, que percorreram o arquipélago em 1838. Essas descrições são, de um modo geral, pouco minuciosas ou mesmo vagas. Seubert descreveu e ilustrou duas Platantheras (embora tenha usado o nome genérico Habenaria), a P. micrantha e a P. azorica, que posteriores estudiosos da flora insular sempre acreditaram ser as duas espécies que, até ao passado dia 9 de Dezembro, ostentavam esses nomes, e que ocorrem na maioria das ilhas açorianas. Em Junho de 2011, em visita a São Jorge, Mónica Moura descobriu uma população de Platantheras bem diferentes daquelas que já conhecia. Richard Bateman, botânico especializado em orquídeas, confirmou tratar-se de uma nova espécie. A história só não ficou por aí porque os cientistas insistiram em ver os espécimes (ou holótipos) em que Seubert baseou as suas descrições. Ao receberem o material de herbário (enviado da Universidade de Tubinga, na Alemanha), Bateman et al. constataram serem três e não duas as espécies de Platanthera de que Karl Hochstetter (o filho) havia recolhido amostras; que a espécie encontrada por Mónica Moura em São Jorge (e que Hochstetter, não tendo visitado São Jorge, terá colhido em alguma outra ilha) tinha servido de base à descrição da P. azorica por Seubert, mas há 173 anos que não era vista; que a espécie que foi durante um século (erradamente) conhecida como P. azorica tinha afinal servido de base à descrição da P. micrantha; e que a espécie que foi durante um século (erradamente) conhecida como P. micrantha (de longe a mais comum no arquipélago) não tinha servido de base a qualquer descrição publicada por Seubert, e por isso, face ao código internacional de nomenclatura botânica (ICBN), não dispunha de nome válido.

Queixam-se os autores de que foram os ditames desse mesmo inflexível ICBN que os obrigaram, com «grande relutância», a uma revisão taxonómica que por certo se revelará fértil em trapalhadas e equívocos. E é de fraca ajuda que, em 2011, seguindo o exemplo de vários autores que nunca viram as plantas na natureza, a IUCN, ao actualizar a sua lista de espécies em perigo, tenha decidido que as duas Platantheras até então conhecidas no território formavam afinal uma única espécie, a que chamou P. micrantha, correspondente à actual P. pollostantha. Por ironia, das três espécies que agora sabemos existirem nos Açores, a P. pollostantha é a única cuja sobrevivência não suscita preocupações.

23/05/2013

Orquídeas pálidas

Ophrys apifera Huds. var. chlorantha


Talvez mais do que outros grupos de plantas, as orquídeas são susceptíveis a mutações genéticas que lhes provocam assinaláveis variações morfológicas ou de coloração. Os indivíduos afectados são conhecidos, pouco carinhosamente, como aberrações; e, embora haja quem os valorize como peças de colecção, um verdadeiro orquidófilo prefere apreciar as plantas bem formadas. Nenhum pastor ficaria feliz se no seu rebanho nascessem regularmente ovelhas com cinco patas e duas cabeças; um só desses fenómenos, garantindo-lhe fama efémera e espaço nos telejornais, seria mais do que suficiente para uma vida inteira.

Embora tecnicamente certas variações de cor também sejam aberrações, elas não são vistas, de um modo geral, como defeitos. Uma orquídea pálida é tão bonita como a sua irmã colorida, e a surpresa de a encontrarmos ainda mais lhe realça a beleza. Nos dois exemplos aqui ilustrados a palidez deve-se à falta de antocianos, que são os pigmentos responsáveis pelos tons vermelhos, violeta e azuis tanto da flor como de outras partes da planta. Não se deve à falta de clorofila: as plantas sem clorofila, a que com justeza poderíamos chamar albinas, são incapazes de fotossíntese e só podem sobreviver se parasitarem outras. Tanto a Ophrys como a Serapias, apesar de anómalas, são mais verdes do que brancas e não têm défice de clorofila.

Uma anomalia genética não deve, em princípio, ter reconhecimento taxonómico, pois os indivíduos mutantes continuam a ser sexualmente compatíveis com os indivíduos normais e a mutação pode não ser herdada pela descendência. No entanto, com a Ophrys apifera as coisas passam-se de modo algo diferente. Como todas as espécies do género Ophrys, o formato das suas flores evoluiu para se assemelhar a algum insecto (uma abelha ou besouro, digamos) e atraí-lo com promessas lúbricas para a (involuntária) tarefa da polinização. Mas o polinizador específico da O. apifera parece ter-se perdido numa curva da estrada evolutiva, obrigando a planta a socorrer-se da auto-polinização. Poucas horas depois de a flor abrir, os sacos de pólen (polínias) caem sobre o labelo e a auto-fecundação está consumada. Os descendentes têm forte tendência a ser cópia exacta do seu único progenitor, e as mutações genéticas adquirem carácter estável. Não admira, pois, que a versão pálida da O. apifera possa, nos poucos lugares onde ocorre, igualar ou suplantar em número a versão normal. Assim sucedeu no lugar onde a vimos, embora a quantidade de orquídeas presentes (umas dez, oito das quais pálidas) não permita conclusões estatisticamente robustas. É portanto desculpável que a esta variante hipocromática da erva-abelha tenha sido dado um nome: Ophrys apifera var. chlorantha. Um botânico purista alegará com razão que tal nome não segue os mandamentos actuais da taxonomia; mas não deixa de designar uma planta claramente reconhecível e capaz de se reproduzir, mesmo que o faça apenas por autogamia.

Muito do que acima se escreveu poderia ser verdade para a Serapias parviflora, já que esta espécie também pratica a auto-fecundação. De facto, as flores abrem-se-lhe apenas por desfastio, pois quando o fazem já foram fecundadas. No entanto, não parece que o fenómeno da palidez seja tão frequente na espécie ou que ela passe de pais para filhos. A única Serapias parviflora hipocromática que alguma vez vimos (a das fotos) estava desacompanhada por outras semelhantes, e foi-nos mostrada por Luísa Borges há uns anos, algures num carvalhal mágico em Sicó.

Serapias parviflora Parl.

08/04/2013

Barlia Douro

Barlia robertiana (Loisel.) Greuter [= Himantoglossum robertianum (Loisel.) P. Delforge]
Antes de se decidirem instalar nalgum local, as orquídeas apresentam um caderno de encargos detalhado: a natureza do solo, o maior ou menor grau de exposição solar e a competição de outras espécies são outras tantas exigências que têm de ter a resposta certa sob pena de elas recusarem a localização proposta. Some-se a isto que o grau de perturbação deve ser mínimo: o uso de herbicidas e as mobilizações frequentes do solo são incompatíveis com a sua permanência. Assim, a presença de orquídeas, além de motivo de regozijo estético, é testemunho de um habitat bem conservado.

Graças às suas minúsculas sementes, facilmente transportadas pelo vento a grandes distâncias, as orquídeas estão continuamente a tentar expandir o seu território. Se não é fácil reunir as condições para uma colonização bem sucedida, as probabilidades aumentam se o âmbito de experimentação for muito vasto. Pode não haver orquídeas em todo o lado, mas não é por falta de tentativas.

Dito isto, não é excessiva surpresa reencontrar na margem sul do Douro, perto de Barca d'Alva, uma boa população da salepeira-grande, orquídea perfumada e robusta, capaz de ultrapassar os 90 cm de altura, que só conhecíamos dos maciços calcários entre Coimbra e Setúbal. É um facto que, nesta migração de 150 Km, ela terá trocado o solo alcalino onde tradicionalmente se acolhe por um substrato ácido; mas, embora os calcários sejam propícios a uma maior variedade e abundância de orquídeas, eles não constituem um requisito essencial para boa parte das nossas orquídeas silvestres.

Foi André Carapeto, um dos mais activos colaboradores do Flora-On, quem em 2009 descobriu a Barlia robertiana nesse retalho do Alto Douro. As plantas que encontrámos no início de Março, talvez umas quarenta, moravam a 5 Km daquelas que Carapeto avistou. E não é essa a única espécie de orquídea que lá ocorre, pois observámos outras, ainda na forma de rosetas, que não pudemos identificar.

rio Tua em Caldas de S. Lourenço / rio Douro em Almendra
A mais recente divisão do país em provincías nunca teve, ao que consta, qualquer relevância administrativa. Contudo, as floras de referência (e, em particular, a Flora Ibérica) usam-na para descrever a distribuição das diversas espécies em Portugal. Só por isso tem algum interesse constatar que as estações de Castelo Melhor e de Almendra, na linha do Douro, calham na província de Trás-os-Montes e não da Beira Alta. O que é de todo objectivo, porém, é que ainda nos faltava ver a Barlia robertiana a norte do Douro, bem no coração de Trás-os-Montes. Um rio, mesmo um rio tão respeitável como o Douro, aqui e ali pachorrentamente engordado pelas muitas barragens, é obstáculo de somenos à propagação de orquídeas. Verdade essa que confirmámos no vale do rio Tua, ao encontrarmos, junto à estação de S. Lourenço, uma população numerosíssima da salepeira-grande, que só não nos encheu de alegria porque sabemos que ela, assim como o caminho de ferro, está condenada ao afogamento a breve prazo.

17/11/2012

Flora desprotegida do litoral de Vila do Conde



Sábado, 24 de Novembro, às 16h00
Salão Nobre da Junta de Freguesia de Santo Ildefonso, Porto
(Rua Gonçalo Cristóvão, 187-2.º, junto ao edifício do JN)

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Herdeira da histórica Reserva Ornitológica de Mindelo, a Paisagem Protegida Regional do Litoral de Vila do Conde foi criada em Outubro de 2009 pela Assembleia Metropolitana do Porto. Desde então nada foi feito para contrariar o estado de abandono e de efectiva desprotecção dessa valiosa área natural. Para tentar sacudir a letargia oficial, faremos uma apresentação fotográfica comentada da preciosa flora do litoral de Vila do Conde, que inclui várias plantas ameaçadas e outras endémicas de distribuição restrita.

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Esta apresentação insere-se na já tradicional Quermesse de Natal da Campo Aberto, que decorre no mesmo espaço entre as 15h00 e as 19h00, e para a qual estão convidados todos os nossos leitores.


Matthiola sinuata (L.) R. Br. / Spiranthes aestivalis (Poir.) Rich.

19/05/2012

Orquídeas do Azibo

Dactylorhiza insularis (Sommier) Ó. Sánchez & Herrero
A um olhar desatento, esta orquídea amarela e pálida pode parecer a D. sulphurea (Link) Franco, mas, embora pequenas, as diferenças são decisivas para as separar em duas espécies. Note o leitor que a inflorescência da D. sulphurea é mais densa, cada flor tem um esporão longo e fininho virado para cima (o da D. insularis é mais curto e robusto e um pouco curvado para baixo) e, se ainda resiste alguma dúvida, veja as pintas vermelhas (que podem ser manchas) no labelo, que a D. sulphurea não tem (mas há registo de uma variedade siciliana inteiramente rubra).

Crê-se que a D. insularis teve origem numa hibridação entre a D. sambucina (L.) Soó e a D. romana (Sebast.) Soó, duas orquídeas de que não se conhecem populações portuguesas. Morfologicamente são todas semelhantes, mais salpico, menos matiz, mas a floração dos progenitores, que se inicia em Março, é em geral mais temporã. Toda a família aprecia a meia sombra, orlas de bosques e prados de montanha, sem demasiadas exigências quanto à acidez e secura do solo.

A D. insularis ocorre no sudoeste da Europa e é frequente em Espanha. Mas por cá é muito rara, tendo sido avistada apenas na Estremadura e em Trás-os-Montes. Nós tivemos o grato privilégio de acompanhar alguns membros da AOSP que, guiados por José Monteiro, visitaram há dias a albufeira do Azibo, em Macedo de Cavaleiros, para conhecer esta planta. Durante o passeio, houve quem se entusiasmasse com a presença de insectos em algumas inflorescências. É que esta orquídea, embora também se sirva da polinização, parece optar frequentemente por uma versão sofisticada de reprodução, a apomixia, que produz sementes viáveis em grande quantidade sem que a flor seja fecundada. Parecendo que não, este processo tem vantagens. Não permite a desejável variação genética que a polinização cruzada fomenta, mas garante que as mutações fortuitas favoráveis à espécie são salvaguardadas, criando-se assim, por vezes, variedades robustas que podem até tornar-se autónomas. E se o vento leva para muito longe uma semente que aí germina sem plantas companheiras por perto, a possibilidade de mesmo assim se reproduzir assegura a disseminação da espécie. Além disso, nem sempre os polinizadores adequados estão disponíveis, sobretudo para plantas que se refugiam em bosques demasiado sombrios que afugentam os bichos; ora, se ao fim de alguns dias a flor não é polinizada, recorre à reprodução assexuada, e a sua missão está cumprida.

30/12/2011

Champanhe sem borbulhas

Orchis champagneuxii Barn.
[Anacamptis morio subsp. champagneuxii (Barn.) Camus]
The coil of rope which is necessary to hold in the hand, before and whilst raising a bell, always puzzles a learner.

Charles A. W. Troyte, Change-Ringing (1869)

24/12/2011

De braços abertos

Orchis langei K. Richt.
....Se Deus existe, tem afinal uma educação
....tão francesa e tão de guardanapo de linho
....que nenhuma acção Dele
....se torna aqui em baixo visível
....– tal a delicadeza.
....Mas se alguém tem poder,
....para quê ser delicado?


....Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia (Caminho, 2010)

02/12/2011

Viver do alheio

Limodorum trabutianum Batt.

Quase inteiramente violácea, com floração de Verão e um caule estriado de mais de meio metro de altura, esta orquídea seria fácil de detectar se não fosse tão rara. Culpa dela, que opta regularmente pela auto-polinização (há mesmo registo de floração e frutificação subterrâneas) e é dependente da dieta que lhe servem os fungos que revestem o rizoma curto de raízes grossas. Como no L. abortivum (L.) Swartz, as folhas são caulinares, dispostas em hélice e reduzidas a escamas, e a planta pode decidir desaparecer por longos períodos depois de um ano pouco chuvoso ou se a vegetação vizinha se adensa. Ocasionalmente surgem exemplares mais verdes, resultado talvez de variações na luminosidade ou no substrato do habitat. É espontânea em lugares sombrios de solo calcário no oeste da região mediterrânica e sudoeste da Europa, mas ausente do noroeste peninsular.

As duas espécies do género Limodorum diferem pela haste, que no L. trabutianum é esverdeada (supomos que por conter um resto de clorofila), pelo labelo, que nesta espécie não é contraído na base e por isso quase não se distingue das outras pétalas, e pelo esporão, que aqui é rudimentar e mede de 0.5 a 3 mm em vez dos 25 mm com muito néctar do L. abortivum.

O nome da espécie homenageia Louis Charles Trabut (1853-1929), botânico francês com uma obra extensa sobre a flora da Argélia e da Tunísia.

16/09/2011

Segredos do souto


Epipactis fageticola (C. E. Hermos.) Devillers-Tersch. & Devillers
Daniel Tyteca já a tinha avistado em Vinhais, no interior do Parque Natural de Montesinho, e publicado a descoberta em 1999, como uma nova espécie para a flora portuguesa. Identificou-a como Epipactis phyllanthes G.E. SM., e é assim que João do Amaral Franco & Maria da Luz da Rocha Afonso a referenciam, em 2003, no fascículo III do volume III da Nova Flora de Portugal. Porém, um trabalho de investigação publicado em 2001 por Gévaudan, Lewin & Delforge (no n.º 82 da revista Naturalistes Belges) mudou todas as populações portuguesas conhecidas de E. phyllanthes (e quase todas as peninsulares) para a espécie E. fageticola, justificando a transferência com detalhes morfológicos e genéticos. Numa visita recente a Portugal, Tyteca proferiu uma palestra no âmbito das actividades da Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal, tendo então referido a existência da planta também na Beira Litoral e na Beira Alta. Mas nós não sabíamos de nada disto e, por isso, foi grande a emoção de observar, quase em primeira mão, uma orquídea tão rara em Portugal.

Aconteceu no dia em que fomos à serra da Estrela ver a Campanula herminii. Depois de admirarmos os «cântaros» e de muitas pausas para fotografar, os nossos companheiros de passeio propuseram que procurássemos uma população de Epipactis no Souto do Concelho, em Manteigas, local onde abundam faias, castanheiros e lariços. Havia indicação precisa do lugar onde procurar, mas, tratando-se de orquídeas de porte diminuto, que pedem sombra e solos humedecidos, um pequeno desvio nas coordenadas registadas pelo GPS poderia frustrar a busca. Ah, mas nós estávamos bem acompanhados. E não hesitámos em desabar encosta abaixo, rompendo pela mata, quando o Francisco Areias nos chamou jubilosamente: tinha encontrado, junto a uma linha de água, uns dezasseis exemplares de Epipactis. As flores eram estranhas: verdes, de hábito pendente, com um lábio branco saliente, cordiforme, parecido com as pétalas, além de uma bolinha amarela a resguardar o pólen. Tratava-se, sem dúvida, da E. fageticola. Não fossem os mosquitos (ou seriam polinizadores?) a banquetearem-se à nossa custa, e suspeito que só depois de o sol se pôr, pelo receio infantil que o Capuchinho Vermelho nos ensinou, teríamos deixado aquele lugar sombrio que de repente se tornara tão admirável. Duas semanas depois ficámos a saber não serem estas as plantas que o Alexandre Silva (CISE) mencionara à Luísa e ao Joaquim; essas são de outra espécie, E. helleborine — além destas espécies, em Portugal só existem mais duas, a E. tremolsii e a E. lusitanica (que talvez não passe de uma subespécie ou variedade da anterior).

Segundo P. Delforge (Orchids of Europe, North Africa and the Middle East, 2006), a E. fageticola ocorre em França, Espanha, Suíça e Portugal, sendo extremamente rara na Península Ibérica. Apesar de, como é comum no género Epipactis, optar frequentemente pela auto-polinização e muitas flores nem se darem ao trabalho de desabotoar — ainda que a presença de pequenos nectários indique que elas não desistiram de tentar a polinização cruzada.

15/07/2011

Douro, branco ou tinto

Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos. Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho; nenhuma outra nesga de terra nossa possui mortórios tão vastos, tão estéreis e tão malditos. (...) Patético, o estreito território de angústia, cingido à sua artéria de irrigação, atravessa o país de lado a lado. E é, no mapa da pequenez que nos coube, a única evidência incomensurável com que podemos assombrar o mundo. Miguel Torga, 1950


Anacamptis morio subsp. picta (Loisel.) P. Jacquet & Scappaticci (variedade alba)
Descoberta de Duarte Victorino Marques.

Estas são algumas das orquídeas que observámos em Maio durante uma expedição ao Douro organizada pela AOSP — Associação de Orquídeas Silvestres — Portugal. Atente o leitor às legendas para saber mais sobre cada planta.


Serapias perez-chiscanoi Acedo
Nova espécie para a flora do Douro.
População encontrada por Luísa Borges e Joaquim Pessoa.



Orchis ustulata L. [sinónimo: Neotinea ustulata (L.) R. M. Bateman, Pridgeon & M. W. Chase]
Nova espécie para a flora portuguesa.
Sete plantas localizadas em 2010 por José Monteiro.