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24/08/2012

O preço de uma flor

As Flores e o Corvo, perdidas no Atlântico e com um pé na América, são o pedaço mais remoto de um Portugal já sem império. Mas, com a construção dos aeroportos e os voos regulares para as ilhas, o que é longínquo passou a ser acessível. O preço que pagamos pela facilidade que temos em ir e voltar é que já não é verdadeiramente possível estar nas ilhas. Não nos desligamos do assédio dos prazos e dos compromissos que trazemos do continente. Achamos curiosa a vida despojada dos ilhéus, com tão escasso comércio e tão raros entretenimentos, e não nos imaginamos a viver vida igual. Visitar as Flores por uma semana é como meter o pé na água fria sabendo que nunca mergulharemos de corpo inteiro.

Descendo para o Atlântico sul, há ilhas povoadas, como a de Santa Helena, famosa por Napoleão ter sido para lá exilado, a que ainda hoje só se chega de barco. Para reaprendermos o significado de distância, talvez seja bom visitar Santa Helena antes que lhe construam um aeroporto e com ele venha esse mal moderno do turista apressado.

Dentro da temática que nos é própria, também há motivos para falarmos de Santa Helena a propósito das Flores. São ilhas de dimensões semelhantes, cada uma delas com cerca de 4000 habitantes. Para uma ilha tão pequena (122 Km2), Santa Helena tem um número excepcional de endemismos botânicos, nada menos que 54 plantas vasculares. Por contraste, não haverá mais que 70 plantas endémicas no total das nove ilhas do arquipélago dos Açores. Infelizmente, Santa Helena também se distingue por outro número, o de extinções: pelo menos cinco plantas endémicas estão extintas, e duas outras já só existem em cultivo. Nesse aspecto os Açores parecem ter-se comportado melhor, pois a Vicia dennesiana, colhida algures em São Miguel no século XIX, é o único endemismo açoriano reconhecidamente extinto.

Mas talvez esse menor número de extinções se deva apenas à circunstância de haver nos Açores, proporcionalmente à sua área total, muito menos endemismos do que em Santa Helena. É que não sou poucas, no arquipélago, as extinções locais — plantas que deixaram de existir em algumas ilhas, persistindo porém noutras. E, como seria de esperar em território sob admnistração britânica, a preocupação com a sobrevivência da flora nativa e os programas activos de conservação estão, em Santa Helena, a anos-luz de distância da prática açoriana.

Euphrasia azorica H. C. Watson
A Euphrasia azorica é uma das plantas endémicas açorianas que existem só nas Flores e no Corvo. Embora não esteja oficialmente em risco de extinção, é difícil encontrá-la mesmo em habitats propícios como bordas de crateras, e é provável que, por culpa das cabras e coelhos que andam à solta na ilha, o seu contingente tenha diminuído muito ultimamente. Pelos mesmos motivos, o Myosotis azorica, outro endemismo exclusivo dessas ilhas, está no limiar da extinção. Que medidas têm sido tomadas para prevenir tais catástrofes? O mínimo seria controlar as cabras, mas nem isso foi feito. Intervenção mais activa é de todo irrealista esperar, pois a Secretaria Regional do Ambiente não tem pessoal habilitado e, além do mais, desconhece a localização das últimas populações dessas plantas ameaçadas. Pode haver em breve mais extinções nos Açores sem que ninguém dê por elas.

Tanta displicência poderia emanar de uma superioridade moral semelhante à que alguns brasileiros invocam para justificar a desmatação galopante da Amazónia. Como podem os países desenvolvidos que destruíram as suas florestas exigir ao Brasil que preserve a sua, abdicando assim de altíssimos proveitos económicos? De modo análogo, os açorianos poderiam alegar que o exemplo britânico em Santa Helena os dispensa de ouvir lições de forasteiros. Os Açores também têm direito a extinguir os seus endemismos, se isso for da sua conveniência.

Claro que o raciocínio está de todo viciado. Ao contrário do que sucede no Brasil com a exploração da Amazónia, a ilha das Flores não tirará qualquer lucro do desaparecimento da Euphrasia azorica ou do Myosotis azorica. E, em ambos os casos, há uma amputação auto-infligida que é estranho apresentar como uma retaliação contra outrem.

Euphrasia azorica H. C. Watson
A Euphrasia azorica é uma planta hemiparasita com o aspecto de um arbusto miniatural, atingindo entre 20 e 40 cm de altura e florescendo nos meses de Verão, com flores de cerca de 1,6 cm de diâmetro. Tirando a também açoriana Euphrasia grandiflora, uma planta ainda mais rara que ocorre só no grupo central do arquipélago, as restantes espécies europeias do género Euphrasia são herbáceas anuais. Além de terem distribuições disjuntas, as duas Euphrasia açorianas distinguem-se pela forma das flores (as da E. grandiflora têm os lobos mais fendidos) e das folhas (as da E. grandiflora são arredondadas, enquanto que as da E. azorica são deltóides, com ápice bem definido).

Só com muita sorte ou persistência é que um visitante das Flores encontrará sem ajuda uma Euphrasia azorica. No caso deste escriba, a persistência tem a medida objectiva das dezenas de quilómetros percorridos a pé por toda a ilha. Mas não vá o leitor desistir já, pois há coisas que não exigem esforço e valem a viagem, como este panorama com a Fajãzinha ao fundo que se contempla do Miradouro de Craveiro Lopes.

28/12/2011

Favas contadas

Orobanche foetida Poir.
Nome vulgar: erva-toira-denegrida
Ecologia: parasita de diversas plantas leguminosas, vive em matos, pastagens, zonas arenosas e lugares ruderalizados
Distribuição global: Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia)
Distribuição em Portugal: ainda que não seja comum, ocorre em todas as províncias do continente
Época de floração: Abril-Junho
Data e local das fotos: Maio de 2011, serra da Boa Viagem (Quiaios, Figueira da Foz)
Informações adicionais: planta com hastes robustas que podem ultrapassar os 70 cm de altura; semelhante à Orobanche sanguinea C. Presl. que, embora mais rara, também ocorre em Portugal

30/09/2011

A cantar de galo

Rhinanthus minor L.
O povo chamou-lhe galo-de-crista mas, pensando melhor, mudou para crista-de-galo. O nome científico (do grego rhinos + anthos, isto é, flor nariguda) e um dos adoptados em inglês (cockscomb) também realçam o formato acapelado da flor. E, na arrumação que têm vindo a fazer da família Scrophulariaceae, os taxinomistas decidiram transferi-la para a Orobanchaceae, certamente incentivados pela parecença, sobretudo nas flores, com algumas plantas semi-parasitas desta família. Um ouvido atento, enquanto se sacode o fruto, descobre facilmente o motivo de outra designação vernácula, yellow rattle.

É uma planta anual de lameiros e clareiras de carvalhais, frequente nos prados húmidos e bordos de represas no limite oriental do Gerês, onde o Paulo a fotografou. Ocorre em quase toda a Europa e região mediterrânica; na Península só se encontra na metade norte e, por cá, nas montanhas da Beira Alta, Minho e Trás-os-Montes. Segundo a Flora Ibérica, é a única espécie conhecida em Portugal do género Rhinanthus.

Nos exemplares que vimos, os talos, com listas escuras, tinham cerca de 40 cm de altura, mas a planta pode adicionar-lhes uns dez. A sua presença ajuda, dizem, a manter a biodiversidade: gulosa como é dos nutrientes nas raízes das outras plantas, impede que a erva ocupe todo o solo, assim permitindo, como lhe convém, que outras espécies mais saborosas ali se desenvolvam.

Floresce de Maio a Julho. Ou no Outono, apresentando então algumas diferenças morfológicas de adaptação à estação, característica comum a outras espécies semi-parasitas. Mas a inflorescência em espiga terminal, com flores em tom amarelo-violeta, brácteas grandes com textura papirácea, cálice comprimido lateralmente, corola tubular amarela bilabiada a lembrar uma touca e ápice roxo com dois dentinhos, essa mantém-se.

22/04/2011

O pequeno touro


Orobanche minor Sm.

Um labirinto tem, pois, a forma espacial de uma religião. Diria que é o desenho de uma religião, de uma crença. No fundo, qualquer minotauro que se ponha por ali só apressa a coisa, e apenas nos segreda que somos mortais. Somos mortais porque há o minotauro que nos mata, portanto não podemos sentar-nos à espera da solução: tens de ser crente mas a passo de corrida, eis o que o labirinto ocupado pelo bicho mau nos diz: reza para descobrires a única saída, mas reza como um corredor de 100 metros, reza enquanto corres à tua velocidade máxima. Se correres muito rápido, não precisarás de palavras santas — a corrida terminará antes do início da prece.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

21/01/2011

Design


Orobanche gracilis Sm.

There is nothing in machinery, there is nothing in embankments and railways and iron bridges and engineering devices to oblige them to be ugly. Ugliness is the measure of imperfection; a thing of human making is for the most part ugly in proportion to the poverty of its constructive thought, to the failure of its producer fully to grasp the purpose of its being. Everything to which men continue to give thought and attention, which they make and remake in the same direction, and with a continuing desire to do as well as they can, grows beautiful inevitably. Things made by mankind under modern conditions are ugly, primarily because our social organisation is ugly, because we live in an atmosphere of snatch and uncertainty, and do everything in an underbred strenuous manner. This is the misfortune of machinery, and not its fault. Art, like some beautiful plant, lives on its atmosphere, and when the atmosphere is good, it will grow everywhere, and when it is bad nowhere. If we smashed and buried every machine, every furnace, every factory in the world, and without any further change set ourselves to home industries, hand labour, spade husbandry, sheep-folding and pig minding, we should still do things in the same haste, and achieve nothing but dirtiness, inconvenience, bad air, and another gaunt and gawky reflection of our intellectual and moral disorder. We should mend nothing.

H. G. Wells, A Modern Utopia (1905)

30/11/2010

Baleio

Levantámo-nos cedo, num rebuço de infância, ainda as estradas não estavam postas. Íamos ver orquídeas de Verão junto à Lagoa da Vela, em Quiaios, mas o atraso dos acompanhantes do passeio permitiu que vagássemos antes pelo pinhal. Ali a areia é fina, pronta a saltar para a bainha das calças ao menor gesto do pé, e o ar cheira a lavado. Em passadas curtas, com o embalo silencioso das caminhadas na neve, percorremos algumas dunas, de olhos ensonados no chão. O manto de estrelinhas amarelas pareceu-nos àquela hora um pouco baixo, mas não desconfiámos, afinal nas madrugadas acontecem coisas estranhas porque ninguém está acordado para as ver.



Odontitella virgata ( Link ) Rothm. - Mata Nacional das Dunas de Quiaios

Mas, ao contrário dos bafejados com encontros do terceiro grau, que raramente têm à mão uma oportuna máquina fotográfica, o nosso fotógrafo registou a aparição. Para mais tarde se confirmar que afinal se tratava apenas de espigas ligeiramente curvadas de flores e cápsulas de sementes ainda com o estilete longo, dispostas de lado como figuras egípcias.

Aprendemos depois que esta hemiparasita anual é um endemismo ibérico, mais abundante na metade ocidental, nativa de quase todas as províncias portuguesas. É uma herbácea peludinha, de hábito desgrenhado (virgata), com caules que podem chegar aos 60 cm de altura e folhas opostas lineares. O nome dela vem mudando há dois séculos, desde a designação Euphrasia linifolia atribuída por Brotero em 1804 por pensar que seria a espécie assim nomeada por Lineu; mas essa é a que hoje se chama Odontites luteus (L.) Clairv. e, de facto, não ocorre em Portugal. Depois de ser Odontites virgata, emancipou-se em 1943 como espécie única do género Odontitella, com base em diferenças na corola e no pólen.

O cálice de cada flor, protegido por brácteas um pouco mais curtas (veja a imagem à direita), é tubular mas fendido até um terço - medida que ajudou à sua saída do género Odontites, onde tal sulco é mais cavado. A corola é bilabiada e tem cerca de 15 mm; amarelece laranja e mostra timidamente um lábio inferior dividido em três lóbulos pouco profundos - o detalhe que a distingue do género Euphrasia - e um superior como um capucho onde os estames se protegem.

O nome, que deriva de Odontites a que se juntou o sufixo diminutivo ella, alude às propriedades medicinais da Odontites vulgaris Moench, que serviu noutras eras para acalmar dores de dentes, ou para alindar os molares dos que riam casquinando, a sacudir o corpo como quem se livra do excesso de riso.

14/10/2010

Lançado na boa vida


A Lanzada (O Grove, Pontevedra, Galiza)

O Complexo Intermareal Umia-O Grove começou num istmo arenoso e longo (cerca de 3 quilómetros) que liga o continente à Península de O Grove. Dessa união nasceu a sudoeste (à direita na foto) uma das praias mais famosas da Galiza e, do outro lado, uma enseada, dita de O Bao, onde desagua o rio Umia (e outros de menor caudal) que, associada à Ria de Arousa (à esquerda), constitui um dos ecossistemas dunares mais importantes do noroeste da Península. Declarada Zona de Especial Protecção dos Valores Naturais, da Rede Natura 2000, é um refúgio de milhares de aves e de endemismos botânicos galaicos e ibéricos, acarinhados sob rígidas normas de conservação.

O processo de colmatação do areal faz com que a enseada seja pouco profunda e, na maré baixa, pouco alagada; com isso, a acumulação dos sedimentos deixados pelos rios acabou por gerar um sapal. Aqui e nas dunas adjacentes instalaram-se mais de cem espécies de plantas que apreciam regiões abertas à beira-mar e este habitat misto, de água doce e salgada - em particular, muitas espécies da família Chenopodiaceae. E, claro, as respectivas parasitas, como a Cistanche phelypaea, cuja presença se começa a notar no areal no fim do Inverno mas só floresce na Primavera.


Cistanche phelypaea (L.) Coutinho

Em Portugal há habitats semelhantes a este, como a Ria Formosa: uma enseada de mar protegida pelas penínsulas de Faro e Cacela, cinco ilhas e inúmeras ilhotas, e que abrange uma área de cerca de 18 mil hectares onde desaguam dois rios e alguns ribeiros. Como a Lanzada, está formalmente protegida (é Parque Natural, estatuto atribuído por decreto-lei de 1987, e Zona de Protecção Especial por directiva europeia) e pertence à gloriosa lista das Zonas Húmidas de Importância Internacional; mas a pressão urbanística e do turismo ameaçam o compromisso português de preservar este sistema ecológico. Entre Março e Junho, antes de os veraneantes invadirem as praias algarvias, pode-se admirar o hermoso manto amarelo que a floração desta Cistanche proporciona.

É uma planta perene que suga água e nutrientes às raízes lenhosas de que se avizinha: as folhas, sem clorofila, são triangulares, basais e imbricadas, e cumprem a função de haustórios, penetrando, como cunhas, nas raízes dos hospedeiros. A espiga densa de flores chega aos 50 cm de altura e cada flor tem uma bráctea, um cálice em sino e uma corola tubular com cerca de 5 cm feita por cinco lóbulos amarelos revirados e duas protuberâncias na garganta.

Ocorre no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral e Estremadura, e é nativa do sudoeste da Europa, Norte de África, Canárias, Cabo Verde, parte do Mediterrâneo e sudoeste da Ásia. Foi nomeada por vários botânicos (Lineu em 1753 chamou-lhe Lathraea phelypaea; foi depois Phelypaea lusitanica e mais tarde Orobanche compacta) mas a designação actualmente aceite foi-lhe dada por Antonio Xavier Pereira Coutinho em 1913. O epíteto específico homenageia o político Louis Phelypeaux, patrono da ciência e, em especial, do botânico Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708). O género Cistanche (nome que talvez indique a acção parasita sobre plantas do género Cistus) inclui 16 espécies de África, Ásia, Mediterrâneo e sul da Europa.

Os botânicos procuram ainda confirmação da existência na Península Ibérica de outra espécie, a C. violacea (Desf.) Hoffmanns. & Link., de menores dimensões, natural de regiões áridas ou semi-áridas do norte de África e de que se conhecem descrições em herbários espanhóis.

03/07/2010

À beira-mar sem trabalhar



Orobanche arenaria Borkh.

.....Estirado na areia, a olhar o azul,
.....ainda me treme o parvalhão do corpo,
.....do que houve que fazer para ganhar o nosso,
.....do que houve que esburgar para limpar o osso,
.....do que houve que descer para alcançar o céu,
.....já não digo esse de Vossa Reverência,
.....mas este onde estou, de azul e areia,
.....para onde, aos milhares, nos abalançamos,
.....como quem, às pressas, o corpo semeia.

.....
Alexandre O'Neill, Fim de semana (Poesias Completas, 1951/1986, INCM)

01/07/2010

Uma casa na pradaria


Melampyrum pratense L.

As flores, apesar de discretamente abertas como quem segura um "Hã?" na ponta da língua, não deixam dúvidas quanto à vocação parasita desta herbácea anual, por muito hábil que ela seja a disfarçá-la com umas poucas folhas lanceoladas. Semi-parasita nas raízes de árvores ou arbustos, poupa recursos neste meio roubo e garante a bonomia que se concede aos apreciadores do café descafeinado ou do tabaco sem nicotina.

Agrupadas aos pares, as flores, que por vezes são lilases ou amarelas, têm um cálice tubular de bordo recurvado, apoiado em brácteas verdes (a M. nemorosum L. tem-nas azuis), uma corola em funil com a garganta quase fechada (só lá recolhem néctar e pólen os insectos com chips de matrícula válidos) e dois lábios - o superior com formato de capuz, achatado lateralmente e encimado por um bigode, o inferior com 3 lóbulos e uma bossa conspícua. O fruto, com uma a quatro sementes, parece um casulo de larva de formiga - insecto que, iludido, se encarrega de o transportar e disseminar.

Encontrámos a M. pratense em prados do Gerês e do Marão, mas é comum em quase toda a Europa, e alvo de interesse botânico pela variabilidade morfológica que exibe: as flores e a folhagem adaptam-se, em tamanho e feitio, ao clima, aos rigores de altitude, à competição com outras espécies de floração simultânea, ao formato dos polinizadores disponíveis, à diferente necessidade das abelhas em néctar ou pólen para as suas larvas de acordo com a época do ano - e esta espécie, que em geral floresce na Primavera, pode até fazê-lo no Outono.

Lemos que melampyrum deriva do grego melas, escuro, e pyros, trigo, porque as sementes, se misturadas com o trigo, dão ao pão um tom mais escuro. Pode ser, não experimentámos - mas avisamos que o gado evita estas ervas por serem tóxicas para as suas barriguinhas. Já pratense não suscita dúvidas, pois não?

29/06/2010

Arreganhando o dente


Lathraea clandestina L.

Para uma árvore altaneira como um choupo, ou airosa como um salgueiro, ter aos pés uma flor púrpura com este sainete deve justificar a despesa - afinal a bajulação também é companhia. Além disso, esta parasita é sensível à humidade, ajustando a cor como os santos meteorológicos que se vendem em lojas devotas. E, em vez de contarmos as andorinhas nos fios lassos da companhia telefónica, podemos deduzir por estas flores que o Verão já não demora. Úteis, portanto.

A purple toothwort é uma planta perene e carnuda mas sem clorofila, que sobrevive das raízes de árvores na floresta ou à beira de água. A poupança nas folhas (rudimentares, que só se vêem se esgaravatarmos a terra) contrasta com a exuberância das flores: quatro sépalas formam um esbelto cálice de bicos (conseguimos vê-lo até nas flores ainda abotoadas) que envolve a corola tubular erguida até uns 6 cm: as quatro pétalas são de cor lilás, rosa ou branca, três delas mais curtas e unidas num lábio; no capuz, cabem ainda quatro estames e um estilete encurvado (cuja ponta se nota no topo da pétala maior de várias flores da foto à esquerda). É polinizada por abelhas ou moscas, mas a auto-polinização é opção comum. O fruto é uma cápsula recheada de sementes que por vezes explode para as disseminar com maior eficácia.

Revendo a lista de ingredientes, parece que temos tudo para ela ser abundante por cá: moscas, riachos, Primavera. Faltam-nos, contudo, árvores e florestas, que os arboricidas não se cansam de perseguir o deserto. As dentuças das fotos são de um bosque de avelaneiras e amieiros em Wakehurst Place (condado de Sussex, a sul de Londres), onde a planta, originária do continente europeu (Bélgica, França, Itália e Espanha), foi introduzida e se naturalizou.

Lathraea deriva do grego lathraios, escondido, aludindo à existência essencialmente subterrânea desta parasita; clandestina tem o mesmo significado, mas em latim.

28/06/2010

Semana da boa vida


Orobanche rapum-genistae Thuill.

Inauguramos hoje a nossa primeira semana temática, inteiramente dedicada ao parasitismo vegetal. Ainda que não enjeitando uma leitura antropocêntrica, não é nossa intenção fazer um comentário enviesado à actualidade portuguesa; limitar-nos-emos a mostrar que também no reino das plantas o oportunismo e a boa vida andam muitas vezes a par. Entendemos por oportunismo a capacidade de, sem nada lhes dar em troca, usar os outros para sustentar um estilo de vida desafogado e até luxuoso. Mas em tudo isto existem graus: há parasitas que extraem todo o seu sustento do hospedeiro, e outras (ditas hemiparasitas) que, dispondo de folhas verdes, conseguem realizar a fotossíntese, e por isso apenas se servem das outras plantas para lhes chuparem água e nutrientes minerais. Curiosamente, as plantas do primeiro grupo são muitas vezes mais empertigadas e vistosas do que as do segundo. Trabalhando, ainda que pouco, para viver, não espanta que às hemiparasitas falte o brilho aristocrático que só pode advir da mais completa ociosidade.

(Se o leitor carregar na etiqueta Orobanchaceae aí ao fundo, e der também uma espreitadela aqui, verá todas as plantas parasitas que já figuraram neste blogue. Três delas - Parentucellia latifolia, Bartsia trixago e Parentucellia viscosa - são hemiparasitas.)

Para a sessão de abertura convocámos a mais corpulenta representante do seu género; uma planta a quem, pelo seu porte intimidatório (caule grosso, com uns 80 cm de altura), assentaria que nem uma luva o milionário e honorífico cargo de Presidente do Conselho de Administração (CEO em português corrente). Com um modo de vida de fazer inveja aos barões do capitalismo, a Orobanche rapum-genistae rodeia-se de um exército de servos - leguminosas arbustivas dos géneros Genista, Ulex e Cytisus - que lhe satisfazem todos os caprichos e recebem salário zero.

Qualquer plutocracia deixa de o ser quando alarga os privilégios de que goza a um grupo numeroso. A Orobanche rapum-genistae tem uma distribuição esparsa no nosso território, e as populações que forma parecem em regra ser escassas. As da foto moram no concelho de São João da Pesqueira, no talude da estrada que desce para a barragem da Valeira - um dos raros locais do Douro onde se vislumbra como terá sido a biodiversidade da região antes do cultivo intensivo da vinha e do uso desvairado de herbicidas.

11/05/2010

Seiva emprestada


Parentucellia latifolia (L.) Caruel

A designação semi-parasita suscita dúvidas como as que, na justiça, levam a absolver o corrupto pela imperícia. Sendo certo que não se é parasita por inteiro apenas se a oportunidade faltar, esta herbácea pequenina - não ultrapassa os 30 cm de altura - prefere ser comedida, roubar como quem toma emprestado, contando que, com o tempo, a vizinha se esqueça do que cedeu. É natural do sul da Europa, gosta de relvados e beira-mar e, sendo anual, encolhe os ombros ao que nos amofina. A floração decorre agora, simultânea com a da P. viscosa; as flores púrpura (ou brancas na subspécie albiflora) têm cerca de 1 cm e um cálice tubular claro encimado por dois apêndices amarelos; a inflorescência é um racimo de flores no topo do caule.

Parentucellia homenageia Tommaso Parentucelli (1397-1455), o papa Nicolau V. A história lembra-o como humanista culto, cumprindo a tradição da igreja como mecenas de artistas e solidária com as necessidades básicas da população; congratula-se com a criação da biblioteca do Vaticano e com o seu empenho na recuperação dos jardins da cidade-estado; mas não esquece a bula Dum Diversas que, em nome das cruzadas missionárias, e louvando o arrojo português nos mares, conferiu a D. Afonso V o direito de atacar e converter à força sarracenos e pagãos, e sancionou a escravatura dos infiéis.

16/03/2010

Erva de chupar alecrim


Orobanche latisquama (F.W. Schultz) Batt.

Se não fosse a necessidade de propagar a espécie (essa sujeição ao futuro que está inscrita no código genético de todos os seres vivos), esta planta nunca seria vista à luz do sol. Porque luz do sol é justamente uma coisa que não lhe serve para nada. A planta não tem clorofila, fotossíntese é coisa que nunca aprendeu a fazer, e por isso não tem como produzir o seu próprio alimento. Para sobreviver, finca-se nas raízes de alguma outra planta e desata a chupá-las. São as hastes florais que lhe traem a presença: durante três ou quatro meses em cada ano, a partir do final de Março, ei-las a espreitar uns 20 a 60 centímetros acima do solo, aguardando que as abelhas façam o seu serviço. As minúsculas sementes podem ficar dormentes durante muitos anos, germinando só quando alguma potencial hospedeira se põe a jeito. Fica assim assegurada a continuidade da espécie e desse modo parasita de viver.

Como todas as do género Orobanche, a planta não tem pinga de verde, mas não é inteiramente correcto dizer que não tem folhas. Na base das flores há umas membranas de cor leitosa com o bordo castanho: são brácteas, ou folhas modificadas. É a elas que se refere o epíteto latisquama, que sublinha o facto de nesta espécie tais brácteas serem muito largas.

Ser parasita não obriga uma planta a abdicar de gostos refinados: as ervas-toiras (nome vernáculo para o género Orobanche) não aceitam tudo quanto lhes caia no prato. A O. hederae, por exemplo, recusa-se a vampirizar outra coisa que não seja a hera. A O. latisquama não será um caso tão extremo de especialização - consta que também se alimenta de plantas do género Cistus -, mas na Serra dos Candeeiros parece associar-se exclusivamente ao alecrim (Rosmarinus officinalis).

Haverá umas 28 espécies de Orobanche na Península Ibérica, 16 delas presentes em Portugal. Tirando uma saltada às ilhas Baleares, a O. latisquama tem uma existência confinada aos territórios continentais de Portugal e Espanha.

28/06/2008

Subsidio-dependência


Orobanche hederae

Foi por ela frequentar o cemitério londrino de Highgate, onde é estimada pela raridade, que tivemos notícia desta planta, a que podemos chamar erva-toira-das-heras. Quando lá fomos ainda não sabíamos disso, e por isso não a procurámos nos lugares certos, que são os muros calcários forrados de hera. Desprovida de clorofila e incapaz de fotossíntese, é das raízes da hera que a Orobanche hederae extrai todo o seu sustento. No sul da Europa ela não é assim tão rara, e bem que podíamos tê-la notado há mais tempo: a da foto ergue as suas hastes floridas, já murchas e tingidas de castanho-ferrugem, junto à Casa do Roseiral, nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. Quando a planta está ainda viçosa, as flores são de um branco leitoso e o caule apresenta um bonito tom dourado.

Esta planta é uma parasita, como são todas as suas 150 congéneres - mas só por tacanhez a podemos taxar de inútil. A hera, incapaz de se enfeitar a si própria, alimenta a erva-toira em troco da beleza que esta lhe acrescenta: é uma renda toda paga em flores.

Mas há as mentalidades práticas que, puxando da máquina de calcular, tudo reduzem a números. Viver à custa de outrem, sem produzir riqueza mensurável, é cair no pecado da subsidio-dependência, que tanto prejudica o PIB nacional. Subsídios a fundo perdido, artistas sem público, plantas sem clorofila: como podemos assim ter esperança de vencer a crise?

P.S. O valkirio mostrou há tempos uma Orobanche sanguinea, que parasita as leguminosas do género Lotus.

05/06/2008

Plantas-de-estimação

Bartsia trixago

Segundo o Stearn's dictionary of plant names for gardeners, a palavra Orobanche contém o termo grego anche, estrangular. Dela deriva o nome de família das plantas das fotos, numa leitura sinistra da natureza que detalhamos em seguida. Os sábios concluiram que bajular é coisa que estas orobancáceas fazem desde pequeninas. Bastar-lhes-ia, claro, apropriarem-se furtivamente da seiva alheia, mas esse seria um trabalho que as entediaria até à ponta das folhas. Afinal move-as um mal secreto feito de dois dentes de gula, uma colher cheia de cobiça e um raminho de inveja. E, marotas, depositam no topo de cada folha uma manchinha verde para disfarçar a sua índole de parasitas.

Esta ousadia de linguagem é usual em quem humaniza o mundo, mesmo o não-animal. O terreno onde encontrámos estas plantas estava forrado com dezenas de pés delas. Ora esta quantidade não pode ser ignorada: num reino só de reis, ou só de ladrões, é-se obrigado a tirar com uma mão o que se entrega com a outra. Neste contexto um roubo é só meia verdade - ou meia-mentira - e, naturalmente, uma planta meio-honesta exige ser elevada a semi-parasita. Alguns devotos decretam que há escândalo nesta nossa interpretação por configurar uma união de facto dentro do mesmo género. Ignoram como embriaga a conquista de qualquer ser arredio, que, como um gato, devagar se torna dócil até ao afago.

De qualquer modo, fonte fidedigna assegura que as espécies do género Orobanche, parasitas que nem têm clorofila, escolhem com frequência nichos onde passe despercebida a opção de viver ao colo dos vizinhos. Por exemplo, a famosa Orobanche hederae elegeu, para sua proveitosa companhia, a hera (Hedera helix) do cemitério de Highgate onde, lemos algures, a biodiversidade é um dos motivos de atracção.


Parentucellia viscosa

16/05/2008

Comensais


Pedicularis sylvatica

A planta é tão rasteira que, de nariz no ar a comparar mastros de eucaliptos, quase não reparávamos nela. Os caules são delgados, as folhas reduzidas a preguiçosas escamas que há muito abdicaram do trabalho honesto da fotossíntese. As estruturas de transporte de água e as raízes, sem terem muito com que se preocupar, são também diminutas. O que sobra? Orgãos de sucção especiais que penetram na raiz duma planta hospedeira e daí retiram alimento; e belas flores a negar aos mais cruéis a coragem de as arrancar.

A Pedicularis sylvatica é erva monóica, perene, europeia a quem as flores bilabiadas dão um notório ar de mendiga. Parte da flor é um bico saliente com dois dentinhos suplicantes, apoiado em três lóbulos de mão-estendida. Tudo a fingir porque, enquanto implora uns trocos para a sopa e roga lume para um cigarro, subtrai o que pode da mesa alheia. É a versão vegetal do vizinho que se aproveita da nossa rede sem fios para navegar sem despesa na internet, talvez para saber mais sobre o descansado mundo dos parasitas.

Neste género a hibridação é frequente e existem cerca de 50 subspécies de P. sylvatica. A da foto gosta tanto do aconchego da floresta que recebeu o epíteto específico em dose dupla.