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09/12/2006

O vento

Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.

É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha,
onde eu estava a escrever!


Jorge Sousa Braga, Herbário (2002)


Palácio de Cristal, Dezembro

06/12/2006

Poaia-do-campo



A família Rubiaeae contém cerca de 650 espécies predominantemente tropicais, incluindo as plantas do café (Coffea sp.), as gardénias (Gardenia sp.) e as quinas (espécies do género Cinchona de cuja casca se fabrica o quinino). A elas acresce a Diodia brasiliensis, que tem também utilidade farmacêutica: as raízes têm propriedades eméticas e são usadas tradicionalmene em soro antivenenoso ou pó antifúngico.

Com formato natural arredondado, esta planta forma sebes harmoniosas e muito perfumadas, estando agora pintalgada de flores tubulares, minúsculas e brancas. Nos jardins de Serralves podem ver-se exemplares já crescidos nos novos canteiros junto à casa cor-de-rosa, outrora embelezados com sálvias e canas; e nos jardins do Palácio de Cristal, onde foram tiradas as fotos, o muro sobranceiro ao roseiral é encimado em toda a sua extensão por uma sebe de Diodia.

Diodia deriva dos termos gregos di, ao longo de, e hodós, caminho, aludindo ao habitat natural deste género.

04/12/2006

Os nomes das árvores- Liquidâmbar


Liquidambar styraciflua- Palácio de Cristal, Novembro 2000
Nestas fotografias podem ver-se os ramos caracteristicamente suberificados, as folhas parecidas com as dos áceres e o frutos aglomerados.

No Porto, os liquidâmbares são muito usados como árvores ornamentais. Encontram-se alguns de porte notável- destacando-se entre esses o monumental exemplar do Jardim Botânico, a belíssima alameda de Serralves (já aqui retratada em Novembro e em Dezembro ) e os da Rotunda Boavista . Dificilmente passam despercebidos no Outono e não deve haver nenhuma outra folhosa que ostente, por vezes simultaneamente, uma tão grande variedade de tons de verde, amarelo, laranja, vermelho.

São quatro as espécies que o género abriga: duas da China, uma da Ásia Menor e uma da América do Norte. A espécie americana, Liquidambar styraciflua > , é a mais usada como árvore ornamental, na Europa onde aportou proveniente da Virgínia, no início do século XVIII.

Tal como em Espanha > , entre nós é conhecida por árvore-do-âmbar e sobretudo liquidâmbar, termo homónimo da designação científica para o género, utilizado pela primeira vez em francês por Dalechamps > , na Histoire générale des plantes > em 1615, como conta J. Brosse no seu Larousse des Arbres et des Arbustes.

Conhecida no continente norte-americano por sweetgum, os franceses chamam-lhe, para além de liquidambar, copalme d'Amérique. Em azteca copali designava genericamente a resina extraída de certas árvores- significado idêntico ao de "styrax" de que deriva"styraciflua", o designativo da espécie. Tanto a designação científica como os nomes vulgares aludem a esta seiva balsâmica cor de âmbar, a sua resina aromática, uma goma utilizada em perfumaria e farmácia sob o nome de estóraque*. Refira-se, por curiosidade, que foi usada na experiência que levou à descoberta acidental do polistireno > .

Outras designações > para o liquidâmbar e para a sua madeira > .

*O termo também se usa para designar resinas provenientes de outras árvores: pertencentes ao próprio género Styrax > e, segundo esta fonte > , a resina do Myroxylum balsamum.

04/11/2006

Procura-se nome comum



Esta rosácea do Velho Mundo, Cotoneaster franchetti, não tem designação vernácula em português que faça justiça às belas inflorescências brancas que na Primavera cobrem os ramos como neve e à abundância de vermelho que nesta altura exibe. Cotoneaster deriva do latim cotoneum, marmelo, talvez pela semelhança da folhagem entre as duas plantas; franchetti homenageia o taxonomista francês Adrien Rene Franchet (1834-1900), que trabalhou no Museu de História Natural de Paris e escreveu extensa obra sobre a flora chinesa e japonesa - em particular o livro Plantae Delavayanae (1889), baseado nas amostras recolhidas pelo missionário jesuíta Jean Marie Delavay (1834-1895).

Neste género os frutos nascem agregados e permaneceriam no arbusto por longo tempo não fossem tão apreciados pelos pássaros. O exemplar dos jardins do Palácio de Cristal foi poupado a podas insensatas e tem uma ramagem notável; além disso, e porque nos climas frios como o nosso a frutificação é intensa, a sua copa vermelha parece agora o telhado de uma casinha de brincar.

03/11/2006

Outono na reserva urbana


Porto

1) O campo começa onde a cidade acaba? Entre duas portagens de auto-estrada, é o campo que se desenrola para nos castigar a vista? Sou então tentado a concluir que o Outono português é fenómeno puramente urbano, e a dar-me por muito feliz com as folhas secas que, cumprindo o calendário, rodopiam nos passeios da minha cidade. É que nesse campo postiço de eucaliptos, acácias e pinheiros, com umas oliveiras lançadas aqui e ali para disfarçar, nenhuma árvore reconhece a autoridade cromática do Outono: o verde imutável alterna com o cinza do arvoredo queimado.


Coimbra

2) Enquanto não se vulgariza o tele-transporte, o viajante em Portugal não se livra de ver a paisagem; mas, quando o destino é especial, o suplício de testemunhar o nosso escalavrado país logo se esquece no termo da viagem. O Jardim Botânico de Coimbra, explicado pelo Professor Jorge Paiva numa luminosa tarde de Outono, é o melhor lugar do mundo, onde as plantas e as histórias que elas evocam nos falam dos quatro cantos da Terra.

11/05/2006

Muros - 2.ª parte



O muro desta foto (junto à casa do roseiral, nos jardins do Palácio de Cristal), além do revestimento verde-amarelo de Ficus pumila, exibe manchas de tom rosado, efeito dos exemplares de Centranthus ruber, herbácea da família Valerianaceae cujas flores, de cor branca, vermelha ou rosa, têm pé alto e assim ressaltam de uma superfície tão cheia de plantas. É altura de a apreciarmos empoleirada nos muros da cidade, antes que volte a hibernar.

Outro muro

05/05/2006

Um muro palmo a palmo

Há tempos um botânico português acompanhou um seu colega estrangeiro numa visita ao parque de Pedras Salgadas. Em vez de se encantar com a harmonia do lugar, com o seu jogo de cores e formas, com o modo como edifícios e vegetação se completavam; em vez de se deter de pescoço empinado admirando o gigantismo das árvores - o estrangeiro, especialista em coisas miúdas como musgos e fungos, gastou toda a visita inspeccionando alguns metros de muro. Foi como ir a África e interessar-se só por formigas, ignorando os grandes mamíferos das savanas. Formigueiros e musgos são decerto assuntos apaixonantes, mas os leigos considerarão que quem não presta atenção a mais nada, tanto em Pedras Salgadas como em África, não tira o máximo proveito da sua visita.

Mas, depois de termos admirado o que é grande, e construído a traços largos o mapa mental de um lugar (de um jardim, por exemplo), a etapa seguinte é descermos aos detalhes: primeiro as alamedas, depois cada uma das suas árvores, em seguida os arbustos, os canteiros, as flores. Mesmo as flores têm uma hierarquia: há as que são semeadas e as que brotam espontaneamente; as que nascem do chão e as que se agarram aos muros. Cumprido esse percurso observativo - do geral para o particular, do grande para o pequeno, do delicado para o rústico - podemos sem culpa dedicar a um muro alguma da nossa atenção.

Claro que o muro tem que ser especial: há-de ser de pedra e não de tijolo ou betão; é preferível que esteja todo forrado de verde; mas a pedra, se estiver exposta, deve acusar o desgaste do tempo. Os melhores muros, como este nos jardins do Palácio de Cristal, cobrem-se de trepadeiras e enfeitam-se, na altura própria, de flores vadias. As da foto, a que a nossa ignorância seria tentada a chamar malmequeres ou margaridas, têm o nome científico de Erigeron karvinskianus, pertencem à família Compositae (que agrupa as flores "tipo malmequer"), e vieram do México; mas consideram que qualquer velho muro do continente europeu é por direito a sua casa.

13/02/2006

A magnólia do dia


Foto: pva 0602 - magnólia no Palácio de Cristal

É de facto a magnólia branca, e não a senhora no seu pedestal, que queremos mostrar aos nossos leitores. Apesar deste tempo desatinado em que todas as estações se confundem, tentamos respeitar o calendário; e, não sendo ainda chegada a estação dessa senhora, não lhe são devidas desculpas pela desconsideração. Esta é a altura de refazermos o percurso pelas magnólias da cidade: a cada ano tudo se repete, e é sempre novo.

20/01/2006

Dos Himalaias, com pavões


Foto: pva 0411 - cedros-do-Himalaia (Cedrus deodara) nos jardins do Palácio de Cristal

Sombreada por grandes árvores, embalada pelo rumor fresco da água no lago, a esplanada do Palácio de Cristal é um daqueles postais de sossego onde apetece perder tardes em esticados almoços. Há que lembrar, porém, que a quietude imperturbável é tão só do postal, não da esplanada: as rabecas corredoras (também chamadas galinhas-de-Angola) não o atravessam num rompante desafinado; nele as pombas não vêm pousar arrulhos sobre as mesas, disputando sobras de comida às gaivotas; nem os pavões trombeteiam sustos estridentes por entre a ramaria dos cedros.

Que a esplanada seja afinal um filme de acção com banda sonora a preceito só a valoriza: apenas o que é inerte se deixa plasmar fielmente na imutabilidade de uma foto.

24/11/2005

Não cai o pano, ou o teatro infinito

Reconheço que o título é aflitivamente pretensioso; passaria logo adiante se o lesse na capa de um livro. Mas o que quero dizer é simples: a natureza, mesmo aquela domesticada dos jardins, não tem descanso, e quando um espectáculo termina já outro começou.

É por isso que regresso continuamente aos jardins do Palácio de Cristal: para acompanhar a evolução dos inúmeros teatrinhos e workshops criativos em que se afadigam as plantas nos seus canteiros. Devia dedicar-lhes crónica diária, mas, além da preguiça, tolhe-me a ideia de que crítico que só diz bem dos espectáculos a que assiste nunca é respeitado pelo público e muito menos pelos seus pares.

Mas poderia ensaiar algum distanciamento crítico. Não digo que já cansa (nunca poderia dizer que já cansa), mas reparem que é sempre a mesma coisa: lembro-me do Acer japonicum há um ano, há dois, há três... infalivelmente flamejante em cada mês de Novembro. Não haverá neste caso aquilo que os críticos, bocejando de enfado, denunciam como repetição de uma receita de sucesso?



Agora que o Acer despe o traje de gala, ao palco do jardim sobem as camélias para lá actuarem por uns meses. E resmunga o crítico: é verdade que são bonitas (são mesmo perfeitas), mas porquê outra vez as camélias?

Não, para crítico não sirvo, porque o que me sustenta é justamente saber que haverá sempre outra vez.


Fotos: pva - 19 de Novembro de 2005

23/09/2005

Carpa-europeia


Fotos: pva - Carpinus betulus nos jardins do Palácio de Cristal

A Carpinus betulus, de que ontem mostrámos a semente, é, como indica o seu nome vulgar, de origem europeia, pertencendo, tal como as bétulas, as avelaneiras e os amieiros, à família das betuláceas. As folhas com as margens serradas fazem lembrar as das bétulas, mas, pela sua forma oval e venação, assemelham-se mais às das faias. Também o tronco, de ritidoma claro e pardacento, se poderia confundir com o das faias, não fosse apresentar-se retorcido e sulcado, como uma escultura em bruto.

Ensinam os livros que a copa da carpa-europeia pode atingir grandes dimensões, com mais de trinta metros de diâmetro, mas os exemplares do Palácio de Cristal ainda não fazem jus a essa fama. No Jardim Botânico do Porto, existe um exemplar avantajado que cobre de sombra uma vasta área sujeita ao constante atroar da VCI. Mas foi nos Kew Gardens, em Londres, que me pude abrigar debaixo de uma destas árvores como quem entra numa tenda.

Em suma, uma bonita árvore que precisa de espaço para crescer e que, se fosse mais usada entre nós, traria maior diversidade a uma arborização pública tão propensa à monotonia.

20/09/2005

Menino ou menina?


Fotos: pva 0509 - Encephalartos lebomboensis - Palácio de Cristal (Porto)

Um dos Encephalartos do Palácio de Cristal exibe agora dois belíssimos cones que, quando menores, lembravam dois dentinhos de leite. Uma prenda de Verão que deve ajudar a desvendá-lo: saberemos em breve se é um exemplar feminino ou masculino. Aceitam-se apostas.

21/06/2005

Kurrajong




Fotos: pva 0501/0505 - Brachychiton populneus - Palácio de Cristal, Porto

A árvore da foto, situada no patamar superior do roseiral do Palácio de Cristal, é uma das mais bonitas do jardim, com o tronco maciço e a copa simétrica a sugerirem uma solidez imperturbável. Trata-se de um Brachychiton populneus, espécie originária da costa leste da Austrália. Uma possível designação portuguesa da árvore, conhecida no seu país pelo nome aborígene de kurrajong, é braquiquito (perferível ao braquiquitom defendido por alguns autores, pois a terminação om soa mal em português).

O ritidoma do braquiquito é cinzento-acastanhado, de textura granulosa, marcado por fissuras verticais. As folhas, lustrosas e pendentes, são algo semelhantes às dos choupos (daí o epíteto populneus), embora apresentem por vezes três lobos pontiaguados. Algumas árvores perdem a folhagem por um curto período no início do Verão, altura em que o chão à volta delas fica atapetado com as suas minúsculas flores (1,5 cm de diâmetro) em forma de campânula.

O braquiquito é muito resistente à falta de água e por isso usado na Austrália como forragem em períodos de seca; e, pela sua sombra ampla e forma harmoniosa, é também lá vulgarmente empregue na arborização de ruas e avenidas. No Porto, além do magnífico exemplar no Palácio de Cristal, há outros de menor porte na Rotunda da Boavista, em Serralves (mesmo à frente da Casa), na Rua do Bonjardim (perto do cruzamento com a Rua de Gonçalo Cristovão) e em vários outros locais da cidade; em Coimbra, encontramo-lo em abundância na alameda de entrada da Quinta das Lágrimas.

26/04/2005

Imperatriz perfumada



Foto: pva 0504 - Camellia japonica "Impératrice Eugénie" - Palácio de Cristal - Porto

É axiomático que as camélias não deitam cheiro - pelo menos as vulgares japoneiras não o fazem, embora haja outras espécies do género Camellia, como a C. sasanqua, também comum nos nossos jardins, com flores intensamente odoríferas. Mas estava muito mal informada aquela jornalista que, há cerca de dois anos, escrevendo num jornal portuense, explicava como no Inverno a cidade se enchia do perfume das camélias - de que, acrescentava, existiriam precisamente quarenta variedades.

Já tantas vezes aqui falámos de camélias que quem nos lê regularmente pode honestamente acompanhar-nos na gargalhada triste que tamanha desinformação nos suscita. Desinformar é pior do que não informar: é substituir, na mente de quem ouve, uma noção correcta por uma falsa. Mas... não é que, das milhentas variedades de japoneiras, há pelo menos uma cuja flor liberta um leve perfume? É o caso da da foto, bastante debilitada, que existe à entrada do Palácio de Cristal: trata-se de uma "Impératrice Eugénie", variedade de camélia criada em França em 1854, um ano depois de a dita imperatriz ascender ao título ao casar com Napoleão III.

Além do exemplar no Palácio, encontrámos esta mesma variedade de camélia no Jardim Botânico do Porto e na Quinta de Villar d'Allen, locais onde moram as melhores colecções portuenses de camélias oitocentistas.

09/03/2005

As sete magníficas

......................................from above and from below.



Fotos: mdlramos 2004
.
As sete palmeiras do Palácio de Cristal -a que gostamos de chamar "as sete magníficas"- são da espécie Washingtonia robusta, uma das duas únicas espécies da América do Norte que constituem o género criado em 1879 por H. Wendland para abrigar estas palmeiras anteriormente incluídas no género Pritchardia (de W.T. Pritchard, missionário protestante envolvido na colonização do Taiti). A designação do género pretendia homenagear G. Washington, primeiro presidente dos Estados Unidos.
aqui falámos de dois belíssimos exemplares destas palmeiras, vulgarmente denominadas palmeiras-do-México ou palmeiras-de-leque mexicana (em língua inglesa Mexican fan palm e também Skyduster palm) consideradas por alguns botânicos uma variedade da Washingtonia filifera, a palmeira da Califórnia (de que no Porto também existem belos exemplares). Diferencia-se desta pelo seu espique mais esbelto e mais alto, e pela maior robustez do seu crescimento, daí o designativo da espécie. As suas folhas costapalmadas (em forma de abano) estão dispostas numa coroa mais estreita e apresentam muito poucos filamentos brancos ao contrário da sua congénere W. filifera.
A sua introdução na Europa foi mais tardia e deve-se ao intrépido botânico checo Benedikt Roezl *(1824-1885) que enviou as suas sementes depois de ter encontrado a espécie nas margens do rio Sacramento em 1869. Árvore ornamental de eleição é bastante rústica e muito resistente ao vento.

No Jornal de Horticultura Prática que amiúde mencionamos, e que constitui uma fonte preciosa para a história da Horticultura e da Jardinagem em Portugal, a referência à espécie Washingtonia robusta surge em 1888, num interessante artigo de Jules Daveau, na altura jardineiro chefe do Jardim Botânico da Escola Politécnica de Lisboa, cargo que ocupou de 1876 a 1892**. Nesse texto, intitulado simplesmente "Washingtonia", o autor que, vem a propósito lembrar, é o responsável pelo traçado da emblemática "rua das Palmeiras" desse jardim, depois de discorrer acerca da Washingtonia filifera, «introduzida no mercado em 1871», e informar sobre a constituição do novo género para acolher estas palmeiras anteriormente classificadas como Pritchardia, descreve detalhadamente a espécie tão bem representada no Palácio de Cristal.
Esta era então uma novidade que entusiasmava os amadores e profissionais por exceder «a sua congénere em elegância, vigor e rusticidade» segundo as palavras do distinto jardineiro que nos dá conta também das suas experiências: «Cultivando esta bela aquisição em Lisboa só há poucos meses, nada podemos dizer por experiência, a não ser que, em menos de oito meses, as nossas plantas se desenvolveram com um vigor que as tornou desconhecidas (sic).» (Ob. cit., p.117)

* Ler Benedikt Roezl - botánico y explorador ; Benedikt Roezl- Portrait d'un fou
**Ler por C.N. Tavares a História do Jardim Botânico da Faculdade de Ciências de Lisboa (in O Reino das Plantas, Triplov)

(Post-scriptum: estava desde Setembro para escrever sobre estas palmeiras ;-) após a leitura duma entrada publicada por Jorge Ricardo Pinto quando ainda animava o Avenida dos Aliados. Este apontamento é apenas um pretexto para fazer uma ligação para o referido texto e manifestar as nossas saudades.)

05/02/2005

Cuidado com as etiquetas


Fotos: mdlramos 0011 / pva 0501

Este arbusto de porte saudável mora num dos socalcos dos jardins do Palácio de Cristal, rodeado por magníficas camélias; em 1999, foi-lhe atribuída uma placa de identificação onde se lê Cyca circinalis. A foto mais antiga (de 2000) exibe os cones da planta, que sugerem que ela é feminina; as mais recentes mostram as folhas pinadas, coreáceas, de tom verde encerado, dispostas em coroa no topo do tronco curto formado por bases de folhas que entretanto caíram; cada folíolo é duro, sem nervura central, e exibe 2 a 5 dentinhos em cada margem. Aos nossos leitores atentos não passou despercebida a semelhança com a descrição que aqui deixámos há poucos dias, e realmente este arbusto não é do género Cyca, mas sim Encephalartos. As Cycas, apesar de aparentadas com os encefalartos, exibem folíolos fininhos e longos, com penugem nas faces anteriores enquanto novos, nervura central e sem sulcos nas margens. Quem cuida das placas deste jardim?

03/02/2005

Antes dos dinossauros



Fotos: pva 0501 - Encephalartos lebomboensis - Palácio de Cristal (Porto)

Grupo: Cycadales
Família: Zamiaceae
Género: Encephalartos
Espécie: lebomboensis
Nomes comuns: cica-do-Lebombo; almofada-de-zombi

Um povoamento destas cicas, que parecem palmeirinhas e podem atingir porte arbustivo de uns 4 m de altura, foi descoberto nos anos 20 do século passado nas montanhas Lebombo da África do Sul e descrito em 1949 como uma nova espécie. O tronco, tal como nas palmeiras, não é de madeira mas de um tecido flexível constituído pelas bases de folhas que entretanto caíram. As folhas, que se dispõem numa magnífica coroa, são pinadas (os folíolos estão dispostos ao longo de um veio com cerca de 2m de comprimento); cada folíolo é duro, de tom encerado, sem nervura central, exibindo 2 a 4 dentinhos em cada margem.

As cicas são plantas muito antigas, de uma era anterior à da presença dos dinossauros na Terra; os registos fósseis parecem indicar que, com as ginkgos, dominaram o mundo vegetal no período Jurássico. Não têm flor e o sistema reprodutivo é muito simples, garantindo o sucesso pela enorme quantidade de sementes que o vento dissemina. É uma espécie dióica (ainda não sabemos se o exemplar das fotos, que vegeta nos jardins do Palácio de Cristal no lado nascente do pavilhão, é feminino ou masculino): os cones femininos, usualmente solitários, têm o feitio de barris, com cor creme; os masculinos são cor de salmão e mais esguios. Ambos são expostos, sem protecção, e têm cerca de 40 cm de altura e 20-30 cm de diâmetro. O termo encephalartos tem origem nas palavras gregas cephala e artos que significam miolo e pão, aludindo a uma fécula comestível produzida a partir do tronco ou do centro dos cones.

O Encephalartos lebomboensis consta da lista de plantas raras e em perigo de extinção. Por isso, além do apreço que uma bela planta como esta nos impõe, devemo-nos lembrar que ela é praticamente insubstituível.

12/01/2005

Feeding the bird


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Cena quotidiana em dias de sol no Palácio de Cristal, com cedros-do-Líbano ao fundo ;-) .
Agora que (finalmente) começou a chover ficam as saudades de imagens como esta.
.

08/01/2005

Rainha de Sabá



Fotos: pva 0411/0412 - Porto - camélias no Jardim do Palácio de Cristal

«Há dias que gosto do vale, de estâncias mais amáveis. Outros dias em que o minuto mais grato é o da despedida para a serra. Em certas épocas a cidade é deliciosa e soberanamente feiticeira; o Porto por exemplo. Quando se toma aquele eléctrico 20, que sobe a Rua de Santo António para a Constituição e parece em seu rodeio ir dar volta ao mundo, tão vagaroso, como se fosse com medo de se meter pelas casas dentro ou esborrachar os paralelipípedos da calçada, oferece-nos no rosicler de Março as mais sedutoras iluminuras. Cada moradia, nesse circuito sem fim, tem o seu quintalinho, e cada quintalinho suas plantas floridas ou enfolhadas e seus relvados. Raro aquele que não ostente a sua japoneira, a qual é como uma rainha de Sabá postada a cada canto a dar as boas-vindas ao forasteiro e a encher-lhe a alma de jucundidade. O Porto é a cidade das camélias por excelência e elas realizam ali o milagre de tornar suportáveis e até amenos dias soturnos como os domingos a instilar ora chuva, ora sol, ora bruma, intencionalmente inglesados, dir-se-ia.»

Aquilino Ribeiro, Geografia Sentimental (1951)

04/01/2005

Inverno


Foto: pva 0412 - oliveiras, pinheiro, metrosídero e (despidas) nogueira-preta e robínia
Jardins do Palácio de Cristal, Porto

«O Outono já lá vai. E enquanto os seus ventos foram desprendendo as folhas das árvores, parece que a nossa alma ficou despenteada. Chegamos ao Inverno a tiritar. Moídos por dentro pelo escuro dos dias. Apetece dormir. Parece acolher-nos o mesmo torpor e obscuridade das cavernas primitivas.(...) No entanto, eu gosto do Inverno. Deste tempo caprichoso e húmido. Das casas com os seus mistérios e penumbras. O fiolho resguardado. Os retratos familiares atentos e observadores. Gosto das adegas, com as arcas e as pipas cheias. As alfaias agrícolas a repousarem. Das teias de aranha nos caibros que sustêm os velhos soalhos. Das tranças das cebolas e dos presuntos pendurados na parede. Gosto de ver a luz baça a descer das clarabóias. Gosto de ver a água a transbordar dos leitos. Do verde a explodir pelos lameiros. Dos néons abertos na brusquidão da noite das cidades. Gosto do cheiro a café à porta das pastelarias. E dos cafés das vilas da província barulhentos nos domingos à tarde. E de chegar cedo a casa e acender a lareira, deixar-me ir no encantamento do lume.(...) Gosto de calçar botas e caminhar por caminhos enlameados. Ver apanhar a azeitona e observar o esqueleto dos freixos e dos carvalhos dissolvidos nas neblinas espessas. E partir com uma pedra o gelo dos tanques. E ver os limos verdíssimos puxados pela força da água corrente. E gosto de entrar no novo ano.(...)

Devagarinho, o Inverno sucumbe à mornice dos primeiros sóis a sério. À floração das amendoeiras e dos pessegueiros. Depois às estevas, mimosas e rosmaninhos. Depois à rebentação das árvores. E quando finalmente o Inverno despe o seu vetusto e pesadíssimo sobretudo e tira o chapéu, percebemos que os seus bolsos estavam cheios de dádivas misteriosas. Como um avô muito antigo que tivesse guardado para nós, escondido no fundo de uma gaveta, uma prenda preciosa.»

Manuel Hermínio Monteiro, In Agenda Assírio & Alvim (1999)