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08/04/2014

Erva-toira divergente


Orobanche ramosa L.


Erva-toira é o nome que em português se dá às ervas parasitas do género Orobanche. São plantas sem clorofila que se agarram às raízes do hospedeiro para dele extraírem o necessário sustento. Certamente indesejáveis pelos agricultores quando se instalam em terrenos cultivados, o seu contributo para o ciclo da vida é apenas estético. A sua floração — as ervas-toiras só se tornam visíveis quando estão em flor — pode ser muito vistosa e atraente, atingindo o auge com a Primavera já adiantada. A planta parasitada não fica mais vigorosa por acolher tais hóspedes, mas é provável que fique mais bonita.

A Orobanche de hoje leva muito apropriadamente o epíteto ramosa no seu nome científico. O mesmo adjectivo é usado no nome comum, ficando ela a ser a erva-toira-ramosa. Muito mais do que a forma e coloração das flores, que são algo variáveis e a um olhar menos treinado se confundem com as de outras espécies como a O. arenaria e a O. rosmarina, é a presença frequente de caules ramificados (como o que se vê na segunda foto) que singulariza esta planta entre as suas congéneres. A O. ramosa apresenta hastes pouco robustas mas pode atingir um porte considerável, chegando aos 50 cm de altura, embora certas formas da espécie se fiquem pelos 10 ou 20 cm. Amplamente distribuída por quatro continentes (Europa, Ásia, África e América), o seu cosmopolitismo ensinou-a a não ser esquisita nos hábitos alimentares, e qualquer planta espontânea ou cultivada lhe serve de hospedeira. Em contraste, muitas outras espécies de Orobanche exigem dieta específica: a O. arenaria é parasita exclusiva da madorneira, a O. hederae só gosta de hera, a O. latisquama e a O. rosmarina são ambas fiéis ao alecrim.

Além dos caules ramificados ou divergentes, uma outra divergência, esta envolvendo botânicos de nomeada, está ligada à Orobanche ramosa. A publicação em 2001, no vol. XIV da Flora Ibérica, da revisão do género Orobanche, preparada pelo botânico inglês Michael J. Y. Foley, suscitou controvérsia pelas lacunas corológicas e várias outras imprecisões de que enfermava. Tanto assim foi que Manuel Laínz, um dos grandes botânicos espanhóis, publicou em 2002, em conjunto com outros autores, uma monografia de 27 páginas (disponível aqui) denunciando e corrigindo os erros. O primeiro ponto de discórdia foi precisamente a distribuição da O. ramosa, que Foley, desvalorizando informação corológica publicada pelos seus predecessores, afirmava erradamente não existir no noroeste da Península Ibérica.

Foi contudo bastante mais a sul, no litoral de Cascais, numa visita que por prematura não nos permitiu encontrar o que queríamos, que fotografámos esta erva-toira-ramosa, já florida no início de Março.


Cascais, perto da praia do Abano

23/11/2013

Planta de estimação


Odontites viscosus (L.) Clairv. subsp. australis (Boiss.) Jahand. & Maire


As inflorescências em espiga e as flores amarelas, de corola bilabiada e interior difícil de espreitar, fazem lembrar as da Odontitella virgata, mas há detalhes que as diferenciam — nos sulcos da flor, no aroma, no tomento e no visco que as revestem, e até no pólen — e que o olhar ensinado dos botânicos detecta, justificando a separação dos géneros. São, porém, ambas semi-parasitas, por isso pouco exigentes com o solo onde lhes calha nascer, mesmo que seja perturbado, seco ou exposto, embora não desdenhem de um bosque fresquinho de azinheiras, pinheiros, carvalhos ou outras árvores perenes. Naturalmente, aquilo a que chamamos parasitismo entre as plantas pode ser de facto um negócio vantajoso cujas contrapartidas desconhecemos. Ou, quem sabe, as plantas parasitas são os gatos e cachorros das outras, alimentados em troca de companhia e brincadeiras a tentar caçar o vento. Não se pode prever que talentos teremos desenvolvido daqui a uns milhões de anos, mas talvez nessa altura consigamos ouvir as plantas a crescer, a espreguiçar-se depois de um longo sono, algumas a ronronar.

Sendo planta anual, o exemplar que vimos florido numa encosta calcária, junto da população de Nothobartsia asperrima, não estará lá no próximo Verão. Esperemos que a descendência seja farta porque parece planta rara, de cuja ocorrência há registos apenas na Estremadura e Ribatejo. Para essa escassez, por certo contribui o baixo número (muito menor que os das outras espécies do género) de sementes por cápsula, algumas delas, caprichosamente, nem sequer viáveis.

Das nove espécies do género Odontites descritas pela Flora Ibérica, apenas duas são conhecidas em Portugal: além da das fotos, nativa do sudoeste da Europa e noroeste de África, ocorre a Odontites vernus, de flores rosa ou púrpura, que, embora tenha uma distribuição mais ampla, ainda não encontrámos.

02/11/2013

Nome digital


Nothobartsia asperrima (Link) Benedí & Herrero


Quando a vimos pela primeira vez, era ainda Inverno, ela exibia, no meio de rochas calcárias da serra de Sicó, apenas uma haste de folhas novas e lustrosas, de cor verde escuro, que nos fizeram lembrar a Euphrasia azorica. Consultadas algumas Floras, conjecturámos que se trataria de uma Nothobartsia — que, como o nome indica (nothos é o termo grego para "falso" e, em latim, notho também se refere a bastardo, não legítimo, como a luz da Lua), é parecida com as plantas do género Bartsia. Houve quem lhe chamasse Euphrasia aspera (Brotero em 1804) e Bartsia asperrima (Sampaio em 1913), mas ainda hoje se discute se deve ser Nothobartsia aspera (designação proposta por Bolliger & Molau em 1992) ou Nothobartsia asperrima (nome proposto por Benedí & Herrero em 2005). Não se tratando exactamente de uma maior ou menor sensibilidade do taxonomista à textura rugosa e peluda dos caules e folhas desta herbácea, a Flora Ibérica decidiu-se pelo último nome, com o fundamento de que a alternativa seria ilegal à luz do código da nomenclatura botânica.

Controvérsias à parte, o que nós queríamos mesmo era ver a planta com flores, que são amarelas com pequenas bossas eivadas de roxo ou vermelho. Ora, as plantas, ao contrário dos bichos e das pessoas, estão presas ao chão, muitas vezes a pequena distância das plantas vizinhas, e não têm meios para arredarem pé e mudarem de casa nem quando são já adultas. Por isso, se o cenário onde moram não estiver em vias de requalificação, não passar por lá a brigada da limpeza-de-bermas, nem lá se instalar entretanto uma pedreira, basta uma nova viagem na altura da floração para reencontrar a planta, desta vez florida. Dito e feito: no fim de Agosto voltámos à serra para conferir a identificação dela e o seu carácter (muito) áspero. A população maior e mais fácil de fotografar que conhecemos está, porém, na serra de Aire, ao cimo de uma ladeira com cerca de 800 m de extensão, carregada de tomilho, roselha-grande, carrascos e azinheiras, além de várias preciosidades.

Esta planta é perene, de base lenhosa, semi-parasita, com ramagem ramificada e talos que podem chegar a um metro de altura. É quase um endemismo ibérico, do sul e oeste da Península Ibérica, havendo também registo da sua presença no norte de Marrocos. Há quem assegure que, em português, o nome vernáculo é escamédrio, mas esta palavra não consta de nenhum dicionário da língua portuguesa que conheçamos.

24/08/2012

O preço de uma flor

As Flores e o Corvo, perdidas no Atlântico e com um pé na América, são o pedaço mais remoto de um Portugal já sem império. Mas, com a construção dos aeroportos e os voos regulares para as ilhas, o que é longínquo passou a ser acessível. O preço que pagamos pela facilidade que temos em ir e voltar é que já não é verdadeiramente possível estar nas ilhas. Não nos desligamos do assédio dos prazos e dos compromissos que trazemos do continente. Achamos curiosa a vida despojada dos ilhéus, com tão escasso comércio e tão raros entretenimentos, e não nos imaginamos a viver vida igual. Visitar as Flores por uma semana é como meter o pé na água fria sabendo que nunca mergulharemos de corpo inteiro.

Descendo para o Atlântico sul, há ilhas povoadas, como a de Santa Helena, famosa por Napoleão ter sido para lá exilado, a que ainda hoje só se chega de barco. Para reaprendermos o significado de distância, talvez seja bom visitar Santa Helena antes que lhe construam um aeroporto e com ele venha esse mal moderno do turista apressado.

Dentro da temática que nos é própria, também há motivos para falarmos de Santa Helena a propósito das Flores. São ilhas de dimensões semelhantes, cada uma delas com cerca de 4000 habitantes. Para uma ilha tão pequena (122 Km2), Santa Helena tem um número excepcional de endemismos botânicos, nada menos que 54 plantas vasculares. Por contraste, não haverá mais que 70 plantas endémicas no total das nove ilhas do arquipélago dos Açores. Infelizmente, Santa Helena também se distingue por outro número, o de extinções: pelo menos cinco plantas endémicas estão extintas, e duas outras já só existem em cultivo. Nesse aspecto os Açores parecem ter-se comportado melhor, pois a Vicia dennesiana, colhida algures em São Miguel no século XIX, é o único endemismo açoriano reconhecidamente extinto.

Mas talvez esse menor número de extinções se deva apenas à circunstância de haver nos Açores, proporcionalmente à sua área total, muito menos endemismos do que em Santa Helena. É que não sou poucas, no arquipélago, as extinções locais — plantas que deixaram de existir em algumas ilhas, persistindo porém noutras. E, como seria de esperar em território sob admnistração britânica, a preocupação com a sobrevivência da flora nativa e os programas activos de conservação estão, em Santa Helena, a anos-luz de distância da prática açoriana.

Euphrasia azorica H. C. Watson
A Euphrasia azorica é uma das plantas endémicas açorianas que existem só nas Flores e no Corvo. Embora não esteja oficialmente em risco de extinção, é difícil encontrá-la mesmo em habitats propícios como bordas de crateras, e é provável que, por culpa das cabras e coelhos que andam à solta na ilha, o seu contingente tenha diminuído muito ultimamente. Pelos mesmos motivos, o Myosotis azorica, outro endemismo exclusivo dessas ilhas, está no limiar da extinção. Que medidas têm sido tomadas para prevenir tais catástrofes? O mínimo seria controlar as cabras, mas nem isso foi feito. Intervenção mais activa é de todo irrealista esperar, pois a Secretaria Regional do Ambiente não tem pessoal habilitado e, além do mais, desconhece a localização das últimas populações dessas plantas ameaçadas. Pode haver em breve mais extinções nos Açores sem que ninguém dê por elas.

Tanta displicência poderia emanar de uma superioridade moral semelhante à que alguns brasileiros invocam para justificar a desmatação galopante da Amazónia. Como podem os países desenvolvidos que destruíram as suas florestas exigir ao Brasil que preserve a sua, abdicando assim de altíssimos proveitos económicos? De modo análogo, os açorianos poderiam alegar que o exemplo britânico em Santa Helena os dispensa de ouvir lições de forasteiros. Os Açores também têm direito a extinguir os seus endemismos, se isso for da sua conveniência.

Claro que o raciocínio está de todo viciado. Ao contrário do que sucede no Brasil com a exploração da Amazónia, a ilha das Flores não tirará qualquer lucro do desaparecimento da Euphrasia azorica ou do Myosotis azorica. E, em ambos os casos, há uma amputação auto-infligida que é estranho apresentar como uma retaliação contra outrem.

Euphrasia azorica H. C. Watson
A Euphrasia azorica é uma planta hemiparasita com o aspecto de um arbusto miniatural, atingindo entre 20 e 40 cm de altura e florescendo nos meses de Verão, com flores de cerca de 1,6 cm de diâmetro. Tirando a também açoriana Euphrasia grandiflora, uma planta ainda mais rara que ocorre só no grupo central do arquipélago, as restantes espécies europeias do género Euphrasia são herbáceas anuais. Além de terem distribuições disjuntas, as duas Euphrasia açorianas distinguem-se pela forma das flores (as da E. grandiflora têm os lobos mais fendidos) e das folhas (as da E. grandiflora são arredondadas, enquanto que as da E. azorica são deltóides, com ápice bem definido).

Só com muita sorte ou persistência é que um visitante das Flores encontrará sem ajuda uma Euphrasia azorica. No caso deste escriba, a persistência tem a medida objectiva das dezenas de quilómetros percorridos a pé por toda a ilha. Mas não vá o leitor desistir já, pois há coisas que não exigem esforço e valem a viagem, como este panorama com a Fajãzinha ao fundo que se contempla do Miradouro de Craveiro Lopes.

28/12/2011

Favas contadas

Orobanche foetida Poir.
Nome vulgar: erva-toira-denegrida
Ecologia: parasita de diversas plantas leguminosas, vive em matos, pastagens, zonas arenosas e lugares ruderalizados
Distribuição global: Península Ibérica, ilhas Baleares e norte de África (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia)
Distribuição em Portugal: ainda que não seja comum, ocorre em todas as províncias do continente
Época de floração: Abril-Junho
Data e local das fotos: Maio de 2011, serra da Boa Viagem (Quiaios, Figueira da Foz)
Informações adicionais: planta com hastes robustas que podem ultrapassar os 70 cm de altura; semelhante à Orobanche sanguinea C. Presl. que, embora mais rara, também ocorre em Portugal

30/09/2011

A cantar de galo

Rhinanthus minor L.
O povo chamou-lhe galo-de-crista mas, pensando melhor, mudou para crista-de-galo. O nome científico (do grego rhinos + anthos, isto é, flor nariguda) e um dos adoptados em inglês (cockscomb) também realçam o formato acapelado da flor. E, na arrumação que têm vindo a fazer da família Scrophulariaceae, os taxinomistas decidiram transferi-la para a Orobanchaceae, certamente incentivados pela parecença, sobretudo nas flores, com algumas plantas semi-parasitas desta família. Um ouvido atento, enquanto se sacode o fruto, descobre facilmente o motivo de outra designação vernácula, yellow rattle.

É uma planta anual de lameiros e clareiras de carvalhais, frequente nos prados húmidos e bordos de represas no limite oriental do Gerês, onde o Paulo a fotografou. Ocorre em quase toda a Europa e região mediterrânica; na Península só se encontra na metade norte e, por cá, nas montanhas da Beira Alta, Minho e Trás-os-Montes. Segundo a Flora Ibérica, é a única espécie conhecida em Portugal do género Rhinanthus.

Nos exemplares que vimos, os talos, com listas escuras, tinham cerca de 40 cm de altura, mas a planta pode adicionar-lhes uns dez. A sua presença ajuda, dizem, a manter a biodiversidade: gulosa como é dos nutrientes nas raízes das outras plantas, impede que a erva ocupe todo o solo, assim permitindo, como lhe convém, que outras espécies mais saborosas ali se desenvolvam.

Floresce de Maio a Julho. Ou no Outono, apresentando então algumas diferenças morfológicas de adaptação à estação, característica comum a outras espécies semi-parasitas. Mas a inflorescência em espiga terminal, com flores em tom amarelo-violeta, brácteas grandes com textura papirácea, cálice comprimido lateralmente, corola tubular amarela bilabiada a lembrar uma touca e ápice roxo com dois dentinhos, essa mantém-se.

22/04/2011

O pequeno touro


Orobanche minor Sm.

Um labirinto tem, pois, a forma espacial de uma religião. Diria que é o desenho de uma religião, de uma crença. No fundo, qualquer minotauro que se ponha por ali só apressa a coisa, e apenas nos segreda que somos mortais. Somos mortais porque há o minotauro que nos mata, portanto não podemos sentar-nos à espera da solução: tens de ser crente mas a passo de corrida, eis o que o labirinto ocupado pelo bicho mau nos diz: reza para descobrires a única saída, mas reza como um corredor de 100 metros, reza enquanto corres à tua velocidade máxima. Se correres muito rápido, não precisarás de palavras santas — a corrida terminará antes do início da prece.

Gonçalo M. Tavares, Matteo perdeu o emprego (Porto Ed., 2010)

21/01/2011

Design


Orobanche gracilis Sm.

There is nothing in machinery, there is nothing in embankments and railways and iron bridges and engineering devices to oblige them to be ugly. Ugliness is the measure of imperfection; a thing of human making is for the most part ugly in proportion to the poverty of its constructive thought, to the failure of its producer fully to grasp the purpose of its being. Everything to which men continue to give thought and attention, which they make and remake in the same direction, and with a continuing desire to do as well as they can, grows beautiful inevitably. Things made by mankind under modern conditions are ugly, primarily because our social organisation is ugly, because we live in an atmosphere of snatch and uncertainty, and do everything in an underbred strenuous manner. This is the misfortune of machinery, and not its fault. Art, like some beautiful plant, lives on its atmosphere, and when the atmosphere is good, it will grow everywhere, and when it is bad nowhere. If we smashed and buried every machine, every furnace, every factory in the world, and without any further change set ourselves to home industries, hand labour, spade husbandry, sheep-folding and pig minding, we should still do things in the same haste, and achieve nothing but dirtiness, inconvenience, bad air, and another gaunt and gawky reflection of our intellectual and moral disorder. We should mend nothing.

H. G. Wells, A Modern Utopia (1905)

30/11/2010

Baleio

Levantámo-nos cedo, num rebuço de infância, ainda as estradas não estavam postas. Íamos ver orquídeas de Verão junto à Lagoa da Vela, em Quiaios, mas o atraso dos acompanhantes do passeio permitiu que vagássemos antes pelo pinhal. Ali a areia é fina, pronta a saltar para a bainha das calças ao menor gesto do pé, e o ar cheira a lavado. Em passadas curtas, com o embalo silencioso das caminhadas na neve, percorremos algumas dunas, de olhos ensonados no chão. O manto de estrelinhas amarelas pareceu-nos àquela hora um pouco baixo, mas não desconfiámos, afinal nas madrugadas acontecem coisas estranhas porque ninguém está acordado para as ver.



Odontitella virgata ( Link ) Rothm. - Mata Nacional das Dunas de Quiaios

Mas, ao contrário dos bafejados com encontros do terceiro grau, que raramente têm à mão uma oportuna máquina fotográfica, o nosso fotógrafo registou a aparição. Para mais tarde se confirmar que afinal se tratava apenas de espigas ligeiramente curvadas de flores e cápsulas de sementes ainda com o estilete longo, dispostas de lado como figuras egípcias.

Aprendemos depois que esta hemiparasita anual é um endemismo ibérico, mais abundante na metade ocidental, nativa de quase todas as províncias portuguesas. É uma herbácea peludinha, de hábito desgrenhado (virgata), com caules que podem chegar aos 60 cm de altura e folhas opostas lineares. O nome dela vem mudando há dois séculos, desde a designação Euphrasia linifolia atribuída por Brotero em 1804 por pensar que seria a espécie assim nomeada por Lineu; mas essa é a que hoje se chama Odontites luteus (L.) Clairv. e, de facto, não ocorre em Portugal. Depois de ser Odontites virgata, emancipou-se em 1943 como espécie única do género Odontitella, com base em diferenças na corola e no pólen.

O cálice de cada flor, protegido por brácteas um pouco mais curtas (veja a imagem à direita), é tubular mas fendido até um terço - medida que ajudou à sua saída do género Odontites, onde tal sulco é mais cavado. A corola é bilabiada e tem cerca de 15 mm; amarelece laranja e mostra timidamente um lábio inferior dividido em três lóbulos pouco profundos - o detalhe que a distingue do género Euphrasia - e um superior como um capucho onde os estames se protegem.

O nome, que deriva de Odontites a que se juntou o sufixo diminutivo ella, alude às propriedades medicinais da Odontites vulgaris Moench, que serviu noutras eras para acalmar dores de dentes, ou para alindar os molares dos que riam casquinando, a sacudir o corpo como quem se livra do excesso de riso.

18/11/2010

Espigos-de-cedro



Arceuthobium azoricum Wiens & F. G. Hawksworth

Tal como sucede com todas as coníferas, os cedros-do-monte (que não são cedros, mas sim juníperos) não dão flores. Causa assim certa estranheza que no verde de algumas copas sobressaiam manchas douradas. Serão folhas amarelecidas pelo Outono, mesmo sendo estas árvores de folhagem perene? Ou será que alguma doença as atacou? Em certo sentido, elas foram vítimas de um ataque, mas é melhor inspeccionarmos o fenómeno de perto. Rapidamente concluímos que o amarelo não pertence aos juníperos, mas sim a umas plantas quase alienígenas que a eles se agarraram. Além de não terem folhas que se vejam, as suas hastes parecem formadas por peças cilíndricas arbitrariamente encaixadas umas nas outras, com as peças terminais rematadas por flores sumárias. O défice de clorofila denunciado pela cor amarela e a posição comprometedora em que se encontram não permitem dúvidas sobre a índole parasita destas plantas.

Em rigor, o Arceuthobium azoricum (ou espigos-de-cedro, como lhe chamam nos Açores) não é inteiramente parasita, uma vez que possui alguma clorofila; por isso se diz hemiparasita. Mas, como a sua concentração de clorofila é cerca de um décimo daquela que se encontra na folhagem verde de uma planta normal, ela é muito pouco eficiente na fotossíntese. Se quiséssemos ser picuinhas, diríamos que hemiparasita, ao indicar um grau de dependência do hospedeiro da ordem dos 50% (o prefixo grego hemi significa metade), é uma qualificação enganadora; tal dependência, medida na importância para a sua dieta dos nutrientes subtraídos à vítima, andará acima dos 90%, e por isso é indiscutível que parasita representa uma aproximação mais satisfatória.

Os espigos-de-cedro recusam-se, naturalmente, a parasitar outras plantas que não os cedros-do-monte. Como tal hospedeiro só existe nos Açores, também o hóspede está impossibilitado de se aventurar fora das ilhas. De facto, o Arceuthobium azoricum só ocorre nas maiores populações de Juniperus brevifolia no grupo central do arquipélago; e, em geral, coloniza poucas árvores em cada população. Encontrá-lo é prova de que chegámos a um sítio especial.

Erik Sjögren, no seu livro Plants & flowers of the Azores (Os Montanheiros, 2001; edição trilingue), afirma que as árvores infectadas pelos espigos parecem nada sofrer com o ataque. Talvez essa inocuidade se deva à razão elementar de que o agressor nunca poderia sobreviver à morte da vítima. Num ecossistema tão circunscrito como é o de uma pequena ilha, uma relação parasitária mais nociva teria há muito terminado com a extinção de ambas as espécies. Mas num continente como a América do Norte um tal equilíbrio já não é essencial. Aí, entre as quase 40 espécies de Arceuthobium, há uma que em poucos anos é mortífera para os espruces (Picea mariana, P. glauca, etc.) onde se costuma alojar: trata-se do A. pusillum, conhecido como dwarf mistletoe (ou visco-anão). Curiosamente, é uma planta quase invisível, pois as suas hastes, que em geral não são ramificadas, não ultrapassam os 2 cm de comprimento. As árvores atacadas desenvolvem uma copa irregular, com a folhagem concentrada em tufos: nesta página, por exemplo, pode ver-se uma árvore morta e outra a que já pouca vida resta.

02/11/2010

Sândalo-dos-Pirenéus


Thesium pyrenaicum Pourr.

     El cuento es muy sencillo
     usted nace
     contempla atribulado
     el rojo azul del cielo
     el pájaro que emigra
     el torpe escarabajo
     que su zapato aplastará
     valiente
     (...)
     usted aprende
     y usa lo aprendido
     para volverse lentamente sabio
     para saber que al fin el mundo es esto
     en su mejor momento una nostalgia
     en su peor momento un desamparo
     y siempre siempre
     un lío

     entonces
     usted muere.

     Mario Benedetti, Currículum

14/10/2010

Lançado na boa vida


A Lanzada (O Grove, Pontevedra, Galiza)

O Complexo Intermareal Umia-O Grove começou num istmo arenoso e longo (cerca de 3 quilómetros) que liga o continente à Península de O Grove. Dessa união nasceu a sudoeste (à direita na foto) uma das praias mais famosas da Galiza e, do outro lado, uma enseada, dita de O Bao, onde desagua o rio Umia (e outros de menor caudal) que, associada à Ria de Arousa (à esquerda), constitui um dos ecossistemas dunares mais importantes do noroeste da Península. Declarada Zona de Especial Protecção dos Valores Naturais, da Rede Natura 2000, é um refúgio de milhares de aves e de endemismos botânicos galaicos e ibéricos, acarinhados sob rígidas normas de conservação.

O processo de colmatação do areal faz com que a enseada seja pouco profunda e, na maré baixa, pouco alagada; com isso, a acumulação dos sedimentos deixados pelos rios acabou por gerar um sapal. Aqui e nas dunas adjacentes instalaram-se mais de cem espécies de plantas que apreciam regiões abertas à beira-mar e este habitat misto, de água doce e salgada - em particular, muitas espécies da família Chenopodiaceae. E, claro, as respectivas parasitas, como a Cistanche phelypaea, cuja presença se começa a notar no areal no fim do Inverno mas só floresce na Primavera.


Cistanche phelypaea (L.) Coutinho

Em Portugal há habitats semelhantes a este, como a Ria Formosa: uma enseada de mar protegida pelas penínsulas de Faro e Cacela, cinco ilhas e inúmeras ilhotas, e que abrange uma área de cerca de 18 mil hectares onde desaguam dois rios e alguns ribeiros. Como a Lanzada, está formalmente protegida (é Parque Natural, estatuto atribuído por decreto-lei de 1987, e Zona de Protecção Especial por directiva europeia) e pertence à gloriosa lista das Zonas Húmidas de Importância Internacional; mas a pressão urbanística e do turismo ameaçam o compromisso português de preservar este sistema ecológico. Entre Março e Junho, antes de os veraneantes invadirem as praias algarvias, pode-se admirar o hermoso manto amarelo que a floração desta Cistanche proporciona.

É uma planta perene que suga água e nutrientes às raízes lenhosas de que se avizinha: as folhas, sem clorofila, são triangulares, basais e imbricadas, e cumprem a função de haustórios, penetrando, como cunhas, nas raízes dos hospedeiros. A espiga densa de flores chega aos 50 cm de altura e cada flor tem uma bráctea, um cálice em sino e uma corola tubular com cerca de 5 cm feita por cinco lóbulos amarelos revirados e duas protuberâncias na garganta.

Ocorre no Algarve, Baixo Alentejo, Beira Litoral e Estremadura, e é nativa do sudoeste da Europa, Norte de África, Canárias, Cabo Verde, parte do Mediterrâneo e sudoeste da Ásia. Foi nomeada por vários botânicos (Lineu em 1753 chamou-lhe Lathraea phelypaea; foi depois Phelypaea lusitanica e mais tarde Orobanche compacta) mas a designação actualmente aceite foi-lhe dada por Antonio Xavier Pereira Coutinho em 1913. O epíteto específico homenageia o político Louis Phelypeaux, patrono da ciência e, em especial, do botânico Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708). O género Cistanche (nome que talvez indique a acção parasita sobre plantas do género Cistus) inclui 16 espécies de África, Ásia, Mediterrâneo e sul da Europa.

Os botânicos procuram ainda confirmação da existência na Península Ibérica de outra espécie, a C. violacea (Desf.) Hoffmanns. & Link., de menores dimensões, natural de regiões áridas ou semi-áridas do norte de África e de que se conhecem descrições em herbários espanhóis.

03/07/2010

À beira-mar sem trabalhar



Orobanche arenaria Borkh.

.....Estirado na areia, a olhar o azul,
.....ainda me treme o parvalhão do corpo,
.....do que houve que fazer para ganhar o nosso,
.....do que houve que esburgar para limpar o osso,
.....do que houve que descer para alcançar o céu,
.....já não digo esse de Vossa Reverência,
.....mas este onde estou, de azul e areia,
.....para onde, aos milhares, nos abalançamos,
.....como quem, às pressas, o corpo semeia.

.....
Alexandre O'Neill, Fim de semana (Poesias Completas, 1951/1986, INCM)

02/07/2010

Meia pensão


Osyris alba L.

Ao contrário de boa parte das suas colegas parasitas, o sândalo-branco (que é apenas parasita por metade, ou hemiparasita) aprecia uma dieta variada, sugando com moderação as raízes de qualquer planta que encontre por perto. Pôde assim adaptar-se a diversos habitats da região mediterrânica, desde bosques a charnecas e a terrenos baldios. É um arbusto formado por ramadas finas e longas (até 1,5 m), pontuadas por raminhos curtos onde despontam folhas sésseis com cerca de 1,5 cm de comprimento. As flores perfumadas e minúsculas (8 mm), com as três pétalas fundidas em tubo, apresentam, vistas de frente, a forma de um triângulo equilátero. Tratando-se de uma planta dióica, há indivíduos dos dois sexos, cada qual com o seu tipo de flor. As flores masculinas, caracterizadas pela presença de estames, surgem em cachos, enquanto que as femininas aparecem isoladas. Por inadvertência, fotografámos apenas uma planta masculina.

A família Santalaceae, integrada exclusivamente por plantas hemiparasitas, está ainda representada em Portugal por herbáceas do género Thesium. Conforme aqui se pode ler, tais plantas apresentam uma frutificação curiosa, em que a parte carnuda resulta do engrossamento do pedúnculo floral. Por contraste, os frutos da Osyris são simples bagas vermelhas, presumivelmente venenosas.

Alargando o âmbito geográfico à Europa e ao Oriente, seria imperdoável não mencionar os dois mais famosos membros desta família botânica. Um deles é o visco (Viscum album), em inglês mistletoe, que se empoleira nas árvores e convida os namorados a trocarem beijos. O outro é o sândalo (Santalum album), árvore que ocorre desde a Índia até à Austrália e que é muito estimada pela madeira fragrante e pelo óleo que dela se extrai.

01/07/2010

Uma casa na pradaria


Melampyrum pratense L.

As flores, apesar de discretamente abertas como quem segura um "Hã?" na ponta da língua, não deixam dúvidas quanto à vocação parasita desta herbácea anual, por muito hábil que ela seja a disfarçá-la com umas poucas folhas lanceoladas. Semi-parasita nas raízes de árvores ou arbustos, poupa recursos neste meio roubo e garante a bonomia que se concede aos apreciadores do café descafeinado ou do tabaco sem nicotina.

Agrupadas aos pares, as flores, que por vezes são lilases ou amarelas, têm um cálice tubular de bordo recurvado, apoiado em brácteas verdes (a M. nemorosum L. tem-nas azuis), uma corola em funil com a garganta quase fechada (só lá recolhem néctar e pólen os insectos com chips de matrícula válidos) e dois lábios - o superior com formato de capuz, achatado lateralmente e encimado por um bigode, o inferior com 3 lóbulos e uma bossa conspícua. O fruto, com uma a quatro sementes, parece um casulo de larva de formiga - insecto que, iludido, se encarrega de o transportar e disseminar.

Encontrámos a M. pratense em prados do Gerês e do Marão, mas é comum em quase toda a Europa, e alvo de interesse botânico pela variabilidade morfológica que exibe: as flores e a folhagem adaptam-se, em tamanho e feitio, ao clima, aos rigores de altitude, à competição com outras espécies de floração simultânea, ao formato dos polinizadores disponíveis, à diferente necessidade das abelhas em néctar ou pólen para as suas larvas de acordo com a época do ano - e esta espécie, que em geral floresce na Primavera, pode até fazê-lo no Outono.

Lemos que melampyrum deriva do grego melas, escuro, e pyros, trigo, porque as sementes, se misturadas com o trigo, dão ao pão um tom mais escuro. Pode ser, não experimentámos - mas avisamos que o gado evita estas ervas por serem tóxicas para as suas barriguinhas. Já pratense não suscita dúvidas, pois não?