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31/08/2020

Muralhas de Miranda



O que resta hoje da muralha defensiva de Miranda do Douro conta uma longa história de batalhas, invasões e ocupações do nordeste transmontano, e de restauros em tempos de paz. A ruína tem, porém, um atractivo de outra ordem, e foi isso que nos levou a Miranda: é vizinha de uma população de Silene conica, herbácea rara em Portugal, e que ali parece apreciar o solo arenoso e o agasalho do muro velho de séculos. A muralha parecia ter sido aspirada recentemente, bem limpa da pátina terrosa, talvez por ordens de conservadores empenhados; mas o recanto da Silene estava felizmente sem vestígios da acção de roçadoras ou herbicidas. Em Julho, com um ar muito quente e seco, não chegámos a tempo de lhe ver as flores; a maioria das cápsulas dos frutos, com formato engraçado de cebola branqueada pelo sol, já nem continha sementes. Viagem perdida, lamentámos, regressaremos sem fotos da desejada. Mas mesmo ao lado, em plena floração, e contente com o habitat pedregoso e a temperatura elevada, morava outra planta com cerca de um metro de altura que nos serviu de consolação.


Plumbago europaea L.


As plantas da espécie Plumbago europaea são perenes, algo lenhosas na base, com talos erectos e delgados, folhas ásperas e flores pequeninas agrupadas em espiga. Podem ver nas fotos como cada flor tem um cálice glanduloso onde se apoia uma corola violeta, com a cor mais intensa nas nervuras a meio dos lóbulos. As folhas um pouco enrugadas parecem polvilhadas de farinha, decerto mais um lenitivo para a planta sobreviver ao calor intenso e à escassez de água. Tem uma distribuição ampla em quase toda a Península Ibérica, sul da Europa e região mediterrânica, mas os registos em Portugal confinam-na aos dois extremos: Algarve e Trás-os-Montes.

A denominação vernácula erva-das-feridas ou erva-de-santo-António alude a virtudes curativas ou analgésicas das folhas e raízes, e a uma acção antimicrobiana eficiente que a farmacopeia tradicional lhe atribui, e que alguns estudos recentes têm vindo a confirmar.

04/09/2019

Lavanda-do-mar

Quando numa loja de flores se compra um ramo delas, é em geral ao talento de quem nos atende que confiamos a elaboração do adorno. Cabe-lhe, como artista embriagado pelo ar perfumado que rescende dos inúmeros molhos de flores à venda, escolher as flores, as cores e o arranjo que melhor se lhes adequa, enquanto o cliente lhe controla a euforia artística, não vá o ramo custar uma fortuna. No fim, acede a que o cliente escolha o papel que cobre os talos e o laço que os prende. Duas perguntas costumam, porém, anteceder este ritual: É para uma senhora? O que celebram? Deste modo, descarta a possibilidade de um evento fúnebre, o que exigiria contenção na conversa e no colorido da grinalda, e habilita-se a usar um código de etiqueta florística que atenta ao género e à idade do destinatário das flores. O que decretam tais normas? É difícil saber exactamente, mas parece que cada flor tem um significado preciso, e que os erros nesta matéria são imperdoáveis. Não se trata de evitar flores cor-de-rosa para os cavalheiros, dálias de cor púrpura para senhoras de meia idade ou violetas para crianças. A sociedade, fonte perene de embaraços, melindres e preconceitos, parece ter-nos imposto um padrão que nos permite atestar se um ramo é ou não ajustado a quem o recebe. Tudo se resolveria se se acabasse com essa venda de flores, presente perfeitamente substituível por um passeio num jardim.



Limonium puberulum (Webb) Kuntze




Neste âmbito, as flores do género Limonium não comportam riscos. São comuns em floristas porque, mesmo depois de secas, mantêm a rigidez do arco da inflorescência e a cor das sépalas; e ainda porque as flores são invulgares: parecem duas flores empilhadas, uma branca (de pétalas) e outra roxa (de sépalas) com textura de papel. Mas, na verdade, são flores acompanhantes: nos bouquets criam uma moldura, ou um ponto de apoio, para outras flores mais nobres (leia-se mais caras), sejam elas orquídeas, tulipas, íris ou narcisos. A arte, se questionada, decerto aduzirá boas razões para esta diferenciação entre as flores-operárias e as flores-fidalgas.

As lavandas-do-mar apreciam falésias e a beira-mar, e há mais de uma centena de espécies, muitas das quais são endémicas das ilhas Canárias. (A das fotos é um endemismo das ilhas de Lanzarote e Fuerteventura, fotografada na Playa de la Cantería, em Órzola.) Pouco diferem pelas flores, ou sequer nas folhas basais com formato de colher e frequentemente salpicadas de pintas brancas, restos de sal que ali se acumulam. Contudo, muitas delas são apomíticas, e o que nos parecem ser diferenças irrelevantes são de facto mudanças genéticas que estabilizaram, criando micro-espécies que só os especialistas conseguem destrinçar. A manterem-se as condições ideais que temos vindo a assegurar ao planeta para as alterações drásticas no clima, muitas desaparecerão das zonas costeiras; nas floristas não haverá substituto para elas.

19/05/2016

Flora endémica do Porto Santo: Limonium lowei


Aeroporto do Porto Santo em dia de ventos cruzados na Madeira
Como ir. Consta que há voos directos semanais de Lisboa para o Porto Santo, mas são caros e, no regresso, os aviões entregam-se a uma sesta prolongada na Madeira. Para quem não parte de Lisboa, o mais prático e barato será voar para a Dinamarca e daí tomar uma das ligações semanais entre Billund e o Porto Santo asseguradas pela Danish Air Transport. Caso opte patrioticamente pela nossa companhia aérea de bandeira, saiba que o voo do Porto para o Funchal descola às 6h30 da madrugada, e por isso nem pense em dormir nessa noite. Apesar da hora, não terá oportunidade de admirar o nascer do Sol porque as salas de embarque estão viradas para poente. Da Madeira para o Porto Santo voam uns aviõezinhos de brinquedo, a um preço por passageiro (ida e volta por 120 euros) que é toda uma lição sobre práticas monopolistas. Nos dias, três ou quatro em cada mês, em que na Madeira sopram ventos cruzados, os aviões, depois de uma demorada valsa nos céus da ilha, desistem de aterrar e são desviados para o Porto Santo. O inesperado bónus do voo directo traduz-se numa poupança de tempo mas não de dinheiro, pois ninguém é reembolsado pelo bilhete para o tal aviãozinho em que afinal não chegou a embarcar.

Onde dormir. Se nos permite a franqueza, isso é consigo. Gastou na viagem todo o dinheiro que tinha e vê-se obrigado(a) a dormir na praia? Nada temos a dizer sobre a sua escolha.

O que ver. Sobre esta questão já temos opiniões mais assertivas. Se lhe fosse permitido atravessar a pista a pé, o que em dias normais não representa qualquer perigo, poderia iniciar as suas observações da flora endémica da ilha ainda dentro do perímetro do aeroporto. No limite norte, e de ambos os lados da vedação, concentra-se a mais acessível das populações de Limonium lowei, uma planta de caule lenhoso que forma compactas almofadas verdes contrastando com os tapetes azulados de Lotus glaucus, um simpático endemismo macaronésico muito espalhado pelo litoral da ilha.




Limonium lowei R. Jardim, M. Seq., Capelo, J. C. Costa & Rivas Mart. [= Limonium ovalifolium subsp. pyramidatum]



Este pequeno limónio de folhas largas e onduladas, com 3,5 a 7 cm de comprimento, e inflorescências muito ramificadas, em panículas com uns 30 cm de altura, é uma versão algo reduzida do Limonium ovalifolium, uma planta comum em arribas e sapais da costa algarvia. Subordinado à espécie continental ou como espécie autónoma, a singularidade do limónio porto-santense sempre foi reconhecida desde que Lowe, em 1830, o descreveu como Statice pyramidatum. Igual sorte não teve o limónio açoriano, ainda hoje oficialmente chamado Limonium vulgare apesar de se distinguir claramente, até na ecologia, da espécie europeia com o mesmo nome.

Exclusivo de uma ilha tão pequena, e confinado a alguns pontos da costa norte, o Limonium lowei é necessariamente raro. O núcleo junto à vedação sobreviveu à expansão do aeroporto e ao asfaltamento da estrada que leva à Fonte da Areia. Com a falésia ali a poucos metros, a falta de espaço garante que não se farão novos alargamentos do aeroporto ou da estrada. A Fonte de Areia é uma duna fóssil gigante, que todos os dias vai largando grandes e pequenos calhaus de cor rosada que ao cair se desfazem em pó. É preferível que não nos caiam na cabeça, e esse justo receio acaba por abreviar a visita. Partindo de um parque de merendas ao abandono, guarnecido por araucárias e por esfarrapados guarda-sóis de palha ao jeito tropical, pode-se descer ao mar por uma vereda íngreme que, aqui e ali, vai sendo enfeitada com limónios. Eles sabem que a erosão costeira os levará a morar a uma cota cada vez mais baixa e, prudentemente, começam a adaptar-se ao seu futuro habitat.


Fonte da Areia, ilha do Porto Santo

17/03/2015

O ajardinamento da ria Formosa



A ria Formosa é um sapal salgado (não uma ria) bastante extenso, com inúmeros canais, salinas, ribeiras e praias, e um cordão dunar notável. Para além de ser bafejada por uma flora extraordinária, é um habitat preferido por tantas aves que se justifica plenamente um compromisso internacional de conservação. Como sabemos, por cá um tal programa de protecção significa que se aceita que é uma área protegida se isso não impedir a fruição do lugar, e consequente licença de construção de casario que se abeire de zonas sensíveis. Esse avanço sobre os areais e a pressão do turismo no Algarve talvez venham a arruinar este ecossistema que, em teoria, todos gostaríamos de preservar.

Na maré baixa, os sedimentos do fundo da zona lagunar indiciam alguma poluição, que o cheiro parece confirmar. Na ria Formosa conjugam-se as influências do oceano Atlântico e do Mediterrâneo, e isso nota-se pelos exemplares de flora mediterrânica e atlântica que ali coabitam. Em Abril, cobre-se do amarelo da elegante parasita Cistanche phelypaea, que em Fevereiro vimos a despontar. Nessa altura, as cores dominantes eram o glauco da Halimione portulacoides, o castanho-ferroso do Arthrocnemum macrostachyum e o verde-cinza dos inúmeros arbustos de Limoniastrum, que revestem as partes mais altas do sapal e começavam então a florir.


Limoniastrum monopetalum (L.) Boiss.


Esta Plumbaginaceae de folha perene é nativa de sapais e estuários da região mediterrânica, mas há quem assevere, sem todavia o provar, que é planta introduzida na ria Formosa: não sendo afinal assim tão formosa, a ria terá talvez sido ajardinada; nessa intervenção de que a história não guarda lembrança estaria a origem de algumas das plantas que agora lá vegetam; em particular, a lavanda-do-mar, de reconhecido valor ornamental, teria ali sido introduzida por ter um período de floração longo, por formar populações densas e, quem sabe, por poder actuar como despoluente. Custa a crer, mas é esta, por exemplo, a opinião da Flora Ibérica. Pelo contrário, no vol. 2 (publicado em 1984) da Nova Flora de Portugal, de Amaral Franco, e em obras mais recentes sobre a flora portuguesa (como o Guia de Campo - as árvores e os arbustos de Portugal continental, edição de 2007 do Público e da LPN) dá-se como certo que é nativa em Portugal. Parece, contudo, que a voz dos botânicos portugueses sobre a flora nacional é demasiado tímida. No portal Flora-On só há registos da presença desta planta na costa sul do Algarve, mas o Guia da LPN indica que também ocorre na costa Vicentina e no estuário do Sado.

Depois de admirarmos as espigas com brácteas coriáceas e flores de corola rosa-violeta, tubular e assalveada, pudemos reparar como é que estes quase-arbustos enfrentam a subida das marés: garantem que as inflorescências e os raminhos novos nascem no topo da folhagem e, como nós, arregaçam as folhas, deixando vulneráveis apenas as raízes e os talos na base. As folhas são alternadas, de um verde azulado, com uma bainha que lembra uma argola na junção ao caule, e têm as faces salpicadas de pedrinhas brancas. Julgámos tratar-se de cristais de sal, mas não é só isso: através dessas glândulas, e por um processo enzimático ainda não inteiramente entendido, a planta elimina outros excessos e toxinas que absorve em ambientes contaminados.

Não vimos frutos, mas são umas pêras pequenas e alongadas, de pé frágil, tolerantes ao sal do mar que os dissemina.

03/01/2015

O regresso dos limónios


Limonium vulgare Mill. [ou talvez não]


Dizem que os Açores hão-de ser dos destinos turísticos mais badalados em 2015. Para aumentar a atracção invocam-se chavões equivocados como «sustentabilidade» e «natureza em estado puro», tudo isto ilustrado com plantações de criptomérias, pastagens verdejantes onde ruminam vacas, estradas sublinhadas pelo azul das hortênsias, bordos de cratera invadidos por conteiras floridas. Promoção equivalente em Portugal continental seria celebrar a natureza pura e intocada dos eucaliptais e das matas de acácias. Por cá tal aldrabice ver-se-ia rapidamente desmascarada, mas os açorianos levam décadas de atraso no reconhecimento e valorização das suas plantas autóctones e da sua floresta ancestral. Que motivos haverá para mudar de atitude quando o status quo conquista prestigiosos galardões internacionais? E nós próprios, invariavelmente resmungões, havemos em 2015 de voltar, encantados, às mesmas ilhas que sabemos terem sido adulteradas além de qualquer esperança de recuperação. É como um casamento em que os defeitos do parceiro são cada vez mais evidentes sem que isso diminua o afecto recíproco.

Enquanto vamos contando os meses, ficamo-nos por um regresso virtual ao arquipélago, para mostrar uma das plantas de lá que ainda aqui não tinha marcado o ponto. Ou talvez já o tenha feito, mas através de exemplares fotografados nesta banda. O que se passa é que o limónio açoriano tem uma ecologia completamente distinta da dos limónios continentais que alegadamente pertencem à mesma espécie: nos Açores é uma planta de falésias costeiras, ao passo que por cá vive obrigatoriamente em sapais e prados halófilos periodicamente inundados pelas marés. Ou seja, nas ilhas, com tanto mar à volta, a planta recusa molhar o pé, admitindo apenas refrescar-se com uns salpicos de água salgada. Seria demasiado atrevimento para botânicos amadores como nós afirmar que as duas estirpes, a continental e a insular, se distinguem igualmente pela morfologia, mas vai sendo tempo de os especialistas tirarem o assunto a limpo. De facto, já houve uma tentativa de elevar o limónio açoriano à categoria de endemismo do arquipélago, sob o nome de Limonium eduardi-diasii, mas a dita combinação (referida na 2.ª edição, de 2005, do livro Flora of the Azores - A Field Guide de Hanno Schäffer, e também na Lista de Referência da Flora dos Açores, publicada em 2010 pelo Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores) não parece ter sido objecto de publicação válida.

O limónio açoriano tem folhas grandes, de uns 15 cm de comprimento, e floresce vistosamente de Maio a Setembro. Não o faz com igual intensidade em todas as ilhas, e só parece ser fácil de encontrar em Santa Maria, onde de facto é muito comum ao longo de todo o perímetro costeiro. Está contudo referenciado em quatro ilhas mais: São Miguel, Terceira, Pico e Corvo.

Para complicar o estudo dos limónios em território português, um estudo de 2012 (Estudio de los taxa afines a Limonium vulgare Miller de marismas de Portugal continental, tese de mestrado de Ana Cortinhas defendida na Universidade de Valência) estabeleceu que, além do Limonium vulgare propriamente dito, ocorrem por cá dois outros limónios de aspecto semelhante e com as mesmas apetências ecológicas: são eles o L. humile e o L. narbonense, o último não menos abundante que o L. vulgare e com ele coexistindo amiúde. Parece que nisto dos limónios a Flora Iberica (o volume em causa é de 1993) se esforçou por empobrecer a flora portuguesa, pois a existência por cá de pelo menos duas espécies de limónios de folhas grandes já tinha sido referida no 1.º volume (de 1971) da Nova Flora de Portugal (ainda que Franco tenha usado o nome L. serotinum, sinónimo de L. narbonense).



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon


O Limonium binervosum, de que já aqui falámos, fornece outro exemplo de como a Flora Iberica representou um retrocesso no conhecimento da distribuição deste género em Portugal. Excluído dessa obra de referência mas incluído, muito acertadamente, na Nova Flora de Portugal, o L. binervosum está de boa saúde no nosso país, ocorrendo em areias e falésias costeiras desde (pelo menos) São Jacinto (Aveiro) até Salir do Porto (Caldas da Rainha), como se verifica no mapa de distribuição que consta desta recente tese de doutoramento1 (PDF). As plantas das fotos viviam na Gafanha da Boa Hora, na ria de Aveiro, mas parte da população poderá entretanto ter sido destruída com a recente construção de uma "ecopista" no local.

1 Ana Sofia Róis - Strategies for Conservation of Rare and Endemic Species: Characterization of Genetic and Epigenetic Variation and Unusual Reproductive Biology of Coastal Species from Limonium ovalifolium and Limonium binervosum Complexes (Plumbaginaceae) - Instituto Superior de Agronomia, 2014

28/12/2013

Candeias na serra


Serra de Arga com o estuário do Minho em fundo
Por se situar perto da costa, a serra de Arga tem um clima atlântico temperado e abriga vários nichos de flora notável. Contudo, o povoamento desta região minhota ditou a destruição de quase toda a floresta autóctone (onde por certo se incluíam carvalhos, bidoeiros, salgueiros, amieiros, freixos), mesmo a das galerias ripícolas, levando a preocupantes perdas de solo por erosão e escorrência. Mais recentemente, grande parte da paisagem uniformizou-se com resinosas, eucaliptos e acácias invasoras. Só junto a algumas aldeias - onde resistem pequenos bosques de antigos carvalhos cobertos de musgos e de cabrinhas (Davallia canariensis) - ou perto do topo da serra é que esta impressão desoladora é parcialmente redimida.

A cerca de 820 metros de altitude não há vegetação arbórea. Cruzamo-nos com pastores e gado, e gastamos tardes a explorar extensas turfeiras e charnecas húmidas que, no Verão, se enchem de Pinguicula lusitanica, Drosera rotundifolia, D. intermedia, Gentiana pneumonanthe (e uma espécie rara de borboleta que depende desta planta para sobreviver), Serratula tinctoria, Erica ciliaris e Erica tetralix. Um pouco mais abaixo há córregos e ribeirinhos em cujas margens abundam anémonas (Anemone trifolia) e narcisos (Narcissus pseudonarcissus). Acrescente-se a este cenário bucólico vastos cervunais (onde é essencial manter o pastoreio), taludes de matos húmidos com preciosidades cuja conservação é prioritária (como Lycopodiella inundata) e zonas secas, expostas ao sol, com substratos siliciosos e a (noutras paragens) rara Succisa pinnatifida.



Armeria humilis (Link) Schult. subsp. odorata (Samp.) P. Silva


A Península Ibérica foi bafejada com muitas espécies endémicas de Armeria, algumas difíceis de destrinçar, uma tarefa que se complica a cada novo híbrido natural que se descobre. Se a chave dicotómica nas Floras nem sempre se ajusta às medidas da planta que observamos, pelo menos as descrições são minuciosas e por elas aprendemos inúmeros vocábulos novos (folhas dimorfas, múticas e rigídulas; brácteas imbrincadas e cuspidadas, as externas menores ou subiguais ao dobro das internas; praganas no cálice; escapos decumbente-incurvados...). As armérias são plantas vivazes, algumas lenhosas, em geral com uma roseta basal de folhas filiformes ou lanceoladas de onde saem um ou vários talos encimados por inflorescências arredondadas, formadas por flores de pétalas soldadas na base e protegidas por dois invólucros de brácteas que parecem feitas de papel pardo.

A Armeria humilis é um endemismo do noroeste da Península com porte rasteiro e gosto por fendas de rochas graníticas, solos arenosos e pastagens de montanha acima dos 800 metros. As duas subspécies registadas (A. humilis subsp. humilis, que ocorre nas serras do Gerês e Amarela e de que só conhecemos espécimes com flores brancas; e a A. humilis subsp. odorata, com populações nas serras de Arga, Laboreiro, Amarela e Cabreira, de pétalas pálido-rosadas ou lilases) diferem no tamanho e número de nervuras das folhas, na morfologia das brácteas involucrais e das aristas dos cálices, e até nos meses de floração, florindo a segunda mais cedo. Os dicionários informam que cada planta do género Armeria é conhecida em vernáculo português como raiz-divina ou maçacuca, uma palavra feita de maçã e cuco. Os espanhóis optaram por um singelo candeia.

16/06/2012

Na estrada das armérias



Armeria transmontana (Samp.) G. H. M. Lawr.

Quem por estes dias percorrer as estradas do patamar intermédio da serra da Estrela - em especial as que ligam Seia ao Sabugueiro e as Penhas Douradas a Gouveia - é muitas vezes incitado a parar pelos mantos de flores cor-de-rosa que cobrem bermas e taludes. Encostar o carro à valeta por tão inebriante motivo não suscita as buzinadelas indignadas, habituais noutras ocasiões, dos condutores obrigados a desviarem-se. O normal é que eles parem, sorridentes, e se juntem à nossa contemplação. Se não as conhecerem (é raro, mas acontece), hão-de querer saber que flores são aquelas. Talvez se satisfaçam com a informação de que são armérias, e não insistam para nosso embaraço em saber qual a espécie. Quem já se debruçou pacientemente sobre o assunto diz-nos que as armérias da serra têm tendência a misturar-se e confundir-se, mas que as que vivem a média altitude são provavelmente Armeria beirana, substituídas mais acima por Armeria sampaioi. Seguramente não são A. transmontana, pois apresentam folhas bastantes mais largas e curtas. Não haveria, porém, qualquer obstáculo geográfico a que o fossem, pois a A. transmontana não é exclusiva de Trás-os-Montes, descendo pelo menos até à Guarda. E no seu território de eleição, mais a norte, também ela é capaz de formar bonitos tapetes, posto que de um rosa mais pálido.

No Alto Douro, onde as imagens foram captadas, o risco de confusão em matéria-arméria é pequeno. De acordo com a Flora da região demarcada do Douro (de António Luís Crespi, Sónia Bernardos & Adriano Sampaio e Castro), a única espécie semelhante à Armeria transmontana presente nesse território é a própria A. transmontana. Temos assim uma denominação de origem controlada, o que nos dá outra tranquilidade. Pena não termos ocasião para nos gabarmos deste conhecimento, pois no Douro pouca gente pára a contemplar a vegetação espontânea. Só se for um viticultor a calcular mentalmente de quantos litros de herbicida precisará para se livrar dela.

Se ainda hoje as armérias são complicadas, pelo costume que têm de hibridarem entre si, muito mais o eram para quem quis guiar-se pelo 2.º volume (de 1984) da Nova Flora de Portugal, de João do Amaral Franco. A Armeria transmontana foi por ele pulverizada em três subespécies, hoje no limbo dos nomes botânicos esquecidos, onde gozam da companhia da A. duriensis e de muitas outras espécies e subespécies baptizadas pelo mesmo autor.

Só havendo uma espécie sem subespécies a complicar, aqui vão alguns dados deste endemismo do noroeste da Península. A Armeria transmontana, que floresce de Maio a Junho em sítios pedregosos ou em clareiras de matos, apresenta folhas quase lineares de 10 a 15 cm de comprimento e uma haste floral que pode ultrapassar os 50 cm de altura. As flores, agrupadas em capítulos densos com cerca de 2,5 cm de diâmetro, têm corola branca ou de um rosa esbatido.

02/05/2011

Flora do farol




Armeria pubigera (Desf.) Boiss.

Há uma dúzia de anos, quando se urbanizaram os terrenos no litoral de Leça da Palmeira entre o tradicional núcleo da vila e a refinaria da Petrogal, a campanha publicitária incluía filmes de animação com imagens virtuais dos interiores e exteriores do futuro bairro. Sabe-se que a realidade encenada por promotores imobiliários é um paraíso asséptico só com gente loura, activa e sorridente, mas havia ainda outra mentira nesses filmes: nenhuma chaminé da refinaria maculava com os seus fumos e cheiros o horizonte limpo, onde apenas se recortavam, contra o azul do mar, o farol, a capela e casa de chá. Terá alguém comprado um T-muitos-duplex sem se dar conta da indesejável vizinhança até ser tarde de mais?

Antes da refinaria e da urbanização galopante, estes lugares entre a Boa Nova, o Cabo do Mundo e a Praia da Memória continham uma notável diversidade vegetal sustentada por vários ribeiros e charcos. Em resultado das drenagens e dos entubamentos, as plantas higrófilas de beira-mar desapareceram quase todas; sobreviveram e até prosperaram, apesar da invasão dos chorões, as plantas especializadas que ocupam o cordão dunar. E uma outra comunidade vegetal escapou quase incólume aos assaltos do progresso: a que se refugia nas rochas marítimas, nos interstícios dos grandes penedos graníticos que abundam na Boa Nova e explicam a construção do aviso aos navegantes. Sobre a flora do farol publicaremos três fascículos de que este é o primeiro. Em jeito de aperitivo, assinalamos que é nos rochedos da Boa Nova, mesmo por trás da casa de chá, que vive uma boa população de Asplenium marinum, um feto nada comum em Portugal.

A Armeria pubigera é uma versão miniatural (folhas mais curtas, inflorescências mais pequenas) da Armeria maritima, que aparece no estuário do Cávado e de outros rios nortenhos. Ocupam habitats distintos: a A. maritima prefere os terrenos lodosos dos sapais; a A. pubigera gosta da firmeza da rocha, embora na Galiza (ilha de Arousa) não desdenhe ocupar areais. E a Armeria maritima, distribuindo-se por todo o hemisfério norte, é muito mais viajada do que a sua irmã mais nova: a Armeria pubigera é um endemismo galaico-português, com o farol da Boa Nova a marcar o limite sul da sua distribuição.

Embora esse pormenor fique camuflado pelos tufos de folhas sempre-verdes, a Armeria pubigera tem uma base lenhosa e muito ramificada. Os seus galhos, de tão emaranhados e retorcidos, são aliás testemunho de uma vida longa a que o sopro salgado do mar só parece dar alento. São muitas as armérias da Boa Nova e têm-se multiplicado e florido imperturbavelmente ano após ano. Se o leitor visitar Leça nas próximas semanas, não deixe de ir espreitar os rochedos em flor.

28/10/2010

Lagoa dos limónios



Lagoa de Carregal (Ribeira, Galiza)

O Parque Natural das Dunas de Corrubedo e lagoas de Carregal e Vixán ocupa quase mil hectares do concelho galego da Ribeira, na província da Corunha. É lá que os aficcionados portugueses de orquídeas podem, entre Julho e Agosto, admirar a Epipactis palustris, espécie que até à primeira metade do século XX era abundante no litoral centro de Portugal (em especial na zona de Ílhavo) mas que desde então parece ter-se sumido do país. São porém muitos os motivos para visitar essa zona húmida noutras alturas do ano. No conjunto de habitats lá representados (sapal, prados arenosos húmidos, dunas, rochas costeiras, matos e bosques) vivem 247 espécies de plantas, algumas raras ou ausentes de Portugal, e o rodopio de aves residentes ou migratórias é um grande atractivo para ornitólogos amadores ou profissionais. O pessoal do centro de atendimento, ao contrário do que é regra em Portugal, conhece o património natural à sua guarda e sabe dar indicações úteis aos visitantes. E não tem só indicações para dar. A junta da Galiza fez publicar seis brochuras a cores, de 60 a 90 páginas cada, sobre os diversos aspectos do parque natural: guia das aves, guia dos répteis e anfíbios, dos coleópteros, da flora, dos orquídeas, dos percursos. São livrinhos com boas fotos e bons textos, de qualidade mais que aceitável para serem vendidos ao público, mas que são oferecidos a quem os solicite - e eu até preferia tê-los pago. E torna-se inevitável comparar a informação disponibilizada nesse parque natural galego com o que se passa, por exemplo, no Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nas «portas» do PNPG, os funcionários que nos atendem - admito que com simpatia -, além de não saberem rigorosamente nada, só têm para venda, a 1 euro por unidade, uns folhetos sem qualquer informação útil. Um deles, sobre turfeiras, continha só generalidades que poderiam ter sido tiradas da Wikipedia, nada dizendo sobre a flora específica ou a localização das turfeiras do PNPG.

As fotos em cima mostram a lagoa de Carregal na maré vaza. Mais uma ou duas horas e o mar começaria a meandrar pelos canais que cruzam as dunas, enchendo de água salgada a extensa concavidade arenosa. Há zonas que ficam submersas e outras a que só chega um fio de água, distinção de que as duas espécies de Limonium que ali coexistem bem sabem tirar partido. O Limonium vulgare, de maior envergadura, gosta de locais encharcados: ocupa as margens da lagoa mas avança também para o seu interior. Para o L. binervosum, essas margens marcam uma linha que ele se recusa a ultrapassar, preferindo concentrar-se nos lugares onde a água nunca chega ou o faz só raramente.



Limonium binervosum (G. E. Sm.) Salmon

O L. binervosum tem folhas de 2 a 6 cm de comprimento dispostas em roseta basal, e hastes florais esparsamente ramificadas que podem chegar aos 45 cm de altura. As flores, que aparecem entre Julho e Setembro, são pequenas - até 7 mm de diâmetro - e não param quietas à menor brisa, boicotando seriamente o trabalho do fotógrafo. O efeito ornamental destas plantas em flor, quando reunidas em grande número, não fica aquém do da Armeria, outra planta da mesma família que frequenta habitats costeiros. Mas, vá-se lá saber porquê, pouca gente se lembra de gabar a beleza dos limónios.

A consulta dos manuais não esclareceu cabalmente se o Limonium binervosum ocorre ou não em Portugal. Entre a Nazaré e Peniche há muitos limónios, mas por ser comum a hibridação entre espécies é difícil distingui-los. O mais frequente parece ser o L. virgatum, que não anda longe de ser um sósia perfeito do L. binervosum. Para agravar a confusão, existe em rochedos e falésias da costa cantábrica da Galiza uma espécie muito semelhante, o L. dodartii, tão raro que se considera em perigo em extinção. Contudo, há quem defenda que L. dodartii e L. binervosum são sinónimos - e este último, a avaliar pela amostra na lagoa de Carregal, não é de modo nenhum escasso.