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28/11/2011

Falta-lhe ser completo

Pteris incompleta Cav.
O fotógrafo admite a sua inépcia: este feto era um entre muitos dos seus iguais, mas a falta de discernimento fez com que de outros mais elegantes não ficasse registo. A profusão de fetos na ilha das Flores exige um olhar treinado e minucioso para conseguir destrinçá-los, senão até um feto de personalidade tão vincada como este acaba por perder-se na multidão.

Um troço da estrada que liga Santa Cruz ao interior da ilha é peculiar por ter piso de cimento e ser tão íngreme que subi-lo a pé sem pausas garante ao involuntário atleta os mínimos olímpicos na disciplina de escalada. Quem não almeje grandes feitos aceitará o convite das criptomérias para recuperar o fôlego à sua sombra, e avançará com alívio pela vereda de declive zero que se embrenha pelo bosque. Apesar de ser esta uma conífera originária da Ásia, há muitos fetos, quase todos autóctones, a forrar o chão. É questão de desembaciar os óculos para que a névoa não atenue o brilho das frondes. As da Pteris incompleta, pela cor, pelo avantajado do tamanho (1,5 m de comprimento) e pelo recorte das pinas, podem ao longe confundir-se com as da Woodwardia radicans, feto muito comum em toda a ilha. De perto as diferenças tornam-se óbvias: as pínulas (= segmentos de última ordem) da W. radicans são pontiagudas, as da P. incompleta são arredondadas e denticuladas (3.ª foto); e uma singularidade da P. incompleta é que, em cada fronde, as duas pinas basais são mais divididas do que as restantes, com três pínulas de cada lado a serem substituídas por segmentos compostos. Se o fotógrafo tivesse espreitado o verso das frondes, teria ainda constatado como os esporângios se dispõem linearmente, protegidos pela margem dobrada das pínulas, tal como sucede na Pteris vittata.

Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde compõem uma região biogeográfica excessivamente diversificada a que se convencionou chamar Macaronésia. São poucos os traços comuns a todos esses arquipélagos. A Pteris incompleta não é um deles porque falha em Cabo Verde, mas faz o pleno dos arquipélagos restantes. A sua presença residual tanto no continente africano (Tânger) como no europeu (Algeciras e serra de Sintra) poderia dever-se ao comércio hortícola e à utilização ocasional em jardinagem; no entanto, a opinião que tem prevalecido é que essas populações são de origem natural, relíquias do período pré-glaciar. Outros fetos que hoje se concentram nas ilhas mas mantiveram delegações no continente são a W. radicans, o Trichomanes speciosum, a Culcita macrocarpa e o Asplenium hemionitis.

Pteris incompleta Cav.

04/04/2011

O tempo e o feto


Anogramma leptophylla (L.) Link

A procissão dos meses, marcada pelas mudanças na vestimenta das árvores, é coisa que se pode seguir até de uma janela num escritório com ar condicionado. Mas quem se der ao trabalho de descer à rua e ensaiar umas caminhadas pode, se estiver atento, detectar sinais mais subtis. Basta eleger um muro de granito que seja poupado a limpezas regulares e observar assiduamente a vegetação que a ele se acolhe. As plantas vão e voltam, florescem e frutificam, amarelecem com a estiagem para reverdecerem com a chuva. E nem os fetos, que pouco fazem para dar nas vistas, ficam indiferentes ao correr das estações.

Para o feto-do-tempo (nome adaptado do espanhol Helecho del tiempo), um dos oito fetos que compõem o género Anogramma, contar os meses que se escoam é de primordial importância. Ao contrário da generalidade dos seus semelhantes, este feto é uma planta anual e o seu tempo de vida esgota-se num semestre ou pouco mais. Em Dezembro ou Janeiro (ou, em lugares mais frios do que no Porto, uns meses mais tarde) despontam as primeiras frondes: são minúsculas (3 a 7 cm de comprimento), têm as pínulas arredondadas e profundamente sulcadas. Formando grandes concentrações em muros sombrios e lugares húmidos, conseguem fazer-se notar pela quantidade. Numa segunda etapa surgem frondes diferentes, mais compridas, que se distinguem claramente das anteriores por serem erectas e bipinadas (os dois tipos de fronde podem ser observados na foto da esquerda). Toda essa folhagem tem uma textura frágil, que faz lembrar a salsa — parsley fern é aliás como lhe chamam americanos e ingleses, e o epíteto leptophylla significa precisamente folhas finas. As frondes tardias, ao contrário das suas antecessoras, são férteis: se lhes espreitarmos o verso com a ajuda de uma lupa ou de uma objectiva macro, vemos que elas estão salpicadas de esferas microscópicas com cores que vão do laranja ao vermelho e ao negro. Dessas esferas, que são na verdade esporângios, sairão os esporos que se irão encarregar de perpetuar a espécie.

Com a falta de humidade no Verão é chegada a altura de o feto-do-tempo se despedir da vida. Outros inquilinos ficarão a ocupar o muro que escolhemos acompanhar por uma temprada.

28/03/2011

Veludo reencontrado



Cosentinia vellea (Aiton) Tod. [sinónimo: Cheilanthes vellea (Aiton) F. Mueller]

João de Araújo Correia (1889-1985), o maior escritor duriense de sempre, deu o título Rio Morto a um livro de contos que publicou em 1973, explicando no prefácio que morto era como tinha ficado o Douro depois da construção das barragens. No lugar do caudal livre e impetuoso, sujeito ao capricho das estações, ficara uma sucessão pachorrenta e imutável de lagos atacados de obesidade. Araújo Correia não o diz, mas além da paisagem adulterada outros estragos de monta se poderiam enumerar, como o desaparecimento dos peixes migratórios e a destruição da vegetação de leito de cheia. De então para cá a flora duriense sofreu ainda os ataques dos agroquímicos e foi, em muitos lugares, sumariamente erradicada para a plantação de novas vinhas.

O que existia no Douro foi exaustivamente documentado nos anos quarenta do século passado, e repousa hoje nos herbários nacionais. Entre 1941 e 1943, por encomenda do Instituto do Vinho do Porto ao Instituto Superior de Agronomia (Lisboa), decorreu um Estudo fito-geográfico da região duriense, coordenado pelos botânicos João de Carvalho e Vasconcellos (1897-1972) e Francisco de Ascenção Mendonça (1889-1982). Mais ou menos pela mesma época, Arnaldo Rozeira (1912-1984), do Instituto Botânico da Faculdade de Ciências do Porto, levou a cabo um estudo independente que culminou na sua tese de doutoramento (de 1944) sobre a flora de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Ao invés de Arnaldo Rozeira, que fez o seu próprio trabalho de campo, é pouco provável que João Vasconcellos e Francisco Mendonça tenham passado grandes temporadas no Douro a recolher espécimes para herborizar. Tal tarefa foi delegada numa equipa de recém-licenciados pelo ISA de que se destacava o jovem engenheiro agrónomo José Gomes Pedro (1915-2010). É graças a ele que temos hoje notícia de plantas que, em grande parte, já desapareceram dos locais onde ele as encontrou.

Enquanto não for construída uma auto-estrada que sobrevoe as encostas e ignore soberanamente as curvas e contracurvas do rio, o acesso ao Douro não será tão cómodo como às praias do litoral. Ainda assim, as estradas acidentadas e estreitas que hoje existem não têm comparação com as que existiam nos anos 40. Os nossos heróis botânicos usavam não o automóvel, mas sim burros ou cavalos, únicos meios de transporte capazes de vencer a aspereza dos caminhos. E as campanhas, que duravam meses, montavam quartel general nas aldeias da região.

O feto-de-veludo, ou Cosentinia vellea, foi uma das preciosidades que Gomes Pedro registou no Douro em 1941-42. É um feto de ambientes muito secos e ensolarados, com frondes até 30 cm, presente em Portugal numa dezena de lugares. O seu habitat são as fendas de rochas xistosas ou calcáreas viradas para sul. Na região do Douro, onde está restrito a uma faixa pouco acima do leito do rio, Gomes Pedro encontrou-o para os lados de Barca d'Alva e também no vale do Tedo, afluente da margem esquerda do Douro entre a Régua e o Pinhão. A população de Barca d'Alva, mais abundante, deve ainda hoje existir, mas não é crível que a do vale do Tedo tenha sobrevivido às convulsões da paisagem. De facto, e ao contrário do que sucede com Barca d'Alva, não nos consta que tenha havido no Tedo observações posteriores à de Gomes Pedro.

Barca d'Alva é demasiado longe para ir e vir do Porto no mesmo dia, e queríamos à viva força observar este feto. Se ele fora avistado no vale do Tedo, então também deveria frequentar a margem direita do Douro logo ali em frente. Nos sombrios taludes da margem esquerda seria perda de tempo procurá-lo.

As fotos são a prova de que o feto-de-veludo existe no Douro, junto à linha férrea, uma dezena de quilómetros a oeste da estação de Pinhão. Cremos que desde 1941 ninguém lhe punha a vista em cima, e esse é o nosso modo de celebrar a vida de José Gomes Pedro, botânico exemplar que morreu em 27 de Dezembro de 2010.


Bibliografia
1. António Luís Crespi, Sónia Bernardos, Adriano Sampaio e Castro — Flora da região demarcada do Douro — João Azevedo Editor, Mirandela, 2006
2. João do Amaral Franco, Maria da Luz Rocha Afonso — Distribuição das Pteridófitas e Gimnospérmicas em Portugal — Servico Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, Lisboa, 1982

21/03/2011

Lábios ao sol



Cheilanthes tinaei Tod.

Só na presença da água é que os fetos se conseguem reproduzir. Os gametófitos, nome que é dado às plantinhas efémeras nascidas dos esporos, expelem os anterozóides que têm de rabiar na água até encontrarem o orifício certo para a fecundação. Seria de supor que essa dependência da água se reflectisse no estilo de vida, e que todos os fetos preferissem viver em lugares encharcados ou pelo menos húmidos. Na verdade não é assim, como mostra o feto-labial (cheilos significa lábio em grego) que apresentamos hoje. Habitando fissuras de rochas xistosas ou graníticas fortemente expostas ao sol, o seu habitat de eleição não poderia ser mais inóspito. À semelhança dos nossos antepassados, que raramente tomavam banho e não consideravam a água como bebida, este feto de pequeno tamanho (frondes até 15 cm) pode suportar o orvalho ou uma chuva ocasional, mas prefere manter-se enxuto.

Mal grado a sua hidrofobia, o Cheilanthes tinaei tem uma indisfarçável paixão pelo Douro, em especial pela margem norte, mais soalheira e convidativa. Não é passeio que se recomende sem reservas, por envolver uma actividade proibida e potencialmente perigosa, mas quem inspeccionar os taludes rochosos em qualquer ponto da linha do Douro desde a Régua até ao Pocinho (e mesmo depois, já sem comboio, até Barca d'Alva) não deixará de encontrar um bom número destes fetos, agrupados em inconfundíveis tufos. E a parte final do curso do Douro, que a via férrea já não acompanha, não escapou a este discreto namoro. Até no Porto o feto encontrou refúgio de onde pode espreitar o rio em segurança: vemo-lo na rua da Restauração na companhia do Sedum hirsutum e reencontramo-lo, umas centenas de metros adiante, na ladeira da rua D. Pedro V. O contingente citadino é porém escasso, e observá-lo exige olho vivo e alguma persistência — embora não tanta como a que é necessária para descobrir a língua-cervina no território do Grande Porto.

Assinale-se que há duas outras espécies de Cheilanthes, também presentes na bacia do Douro, que facilmente se confundem com o Cheilanthes tinaei: trata-se do C. hispanica e do C. maderensis. O C. maderensis costuma exibir um porte mais erecto, além de ter pínulas mais alongadas; o C. hispanica, por seu turno, distingue-se do C. tinaei (que é quase glabro) pela pilosidade cor de ferrugem no verso das frondes.

03/01/2011

Memórias de um feto



Pteris vittata L.

FÉTOS, E LYCOPODIOS. Lindissima planta vivaz que a moda tem entroduzido para adorno das sallas, pela elegância e colorido de sua rica folhagem — a maior parte são entroduzidas dos paizes tropicaes, e carecem de resguardo nos nossos invernos. (in Catálogo n.º 1Estabelecimento de Horticultura de José Marques Loureiro, 1865)

Por que será que num jardim, lugar de eleição do exotismo vegetal, as plantas exóticas que se propagam sozinhas, ocupando recantos inesperados, nunca são bem vistas? Talvez seja efeito da moda, fraqueza a que a jardinagem pode ser tão susceptível como o pronto-a-vestir. Houve um tempo em que aquele arbusto, vendido em todos os hortos e viveiros, era uma peça de ostentação de que qualquer jardim se orgulharia. Agora, porém, há outras novidades holandesas que reclamam a sua vez nos canteiros, e ao velho e ultrapassado arbusto resta ser transformado em lenha. Nessas condições, é algo irritante que ele tenha criado descendência, proliferando caoticamente no jardim e fora dele. É como uma senhora ter envergado ao sair de casa um tailleur de corte impecável e descobrir-se de repente no meio da rua com o xaile da avó pelos ombros.

Há que reconhecer, no entanto, que episódios destes só são possíveis onde a jardinagem é levada mais a sério do que em Portugal. Por cá, e sobretudo na jardinagem pública, não há modas, mas apenas um alastrar do esquecimento. As plantas não são retiradas para darem lugar às últimas novidades: simplesmente desaparecem e são esquecidas. Nos canteiros renovam-se trimestralmente as plantas sazonais, sempre as mesmas ano após ano, e quanto a novidades estamos conversados.

O Pteris vittata, um feto que desponta ocasionalmente nos velhos muros dos jardins do Palácio e das ruas circundantes, é uma relíquia da época em que a jardinagem portuense era coisa séria. Foi um tempo que atingiu o seu auge com José Marques Loureiro (1830­-1898) e que teve o seu fim simbolicamente assinalado pela demolição do Palácio de Cristal em 1951. Um feto que não é espontâneo em Portugal (embora o seja nalguns países da Europa mediterrânica, incluindo o sul de Espanha), que não é vendido em nenhum garden center, que não é cultivado em nenhum jardim — um tal feto só pode ter surgido naqueles muros vindo de outra época. Uma época em que a curiosidade pelas plantas e o desejo de experimentar moldavam tanto a jardinagem pública como a privada.

E ele só se aguentou estes anos todos porque é prolífero e de esporulação precoce. Cada indivíduo tem três ou quatro meses de esperança de vida antes de os jardineiros o arrancarem do muro: nesse curto prazo, tem que garantir a perpetuação da espécie. O exemplar acima fotografado, por exemplo, já não existe. Se o tivessem deixado crescer, as suas frondes poderiam ter atingido um metro de comprimento; assim, ficaram-se pelos 20 ou 30 centímetros.

Os dois sinais particulares que permitem identificar facilmente o Pteris vittata estão bem patentes nas fotos: o folíolo terminal muito mais comprido do que os restantes, e os esporângios dispostos linearmente e protegidos pelas margens dobradas. Esta última característica é partilhada pelos demais fetos do género Pteris, de que há 250 espécies mas apenas três europeias.