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26/08/2009

A sombra que fica



Quercus robur L. - Paços de Ferreira

O concelho de Paços de Ferreira foi criado em 1836, resultante de uma cisão da comarca de Penafiel; em 1993, a até então vila foi promovida à categoria de cidade; em 1997, inauguraram-se os novos Paços do Concelho, ficando o anterior edifício camarário a servir de Museu Municipal. Anterior a estas datas marcantes, indiferente a todas elas, é o carvalho-alvarinho no Jardim Municipal, contíguo ao agora museu, que continua, como há cem ou duzentos anos, a fornecer sombra fresca a quem o procura nos tórridos dias de Verão. Distando o concelho apenas 25 quilómetros do Porto e da costa atlântica, o efeito temperador do oceano já lá não chega: os invernos são mais frios e os verões mais quentes do que à beira-mar.

Tirando as que existem no Jardim Municipal, onde, além deste carvalho, vegetam tílias, magnólias, lódãos e carvalhos-americanos, poucas são em Paços de Ferreira as sombras proporcionadas pelas árvores. À volta do centro, novos bairros com prédios de sete ou oito andares erguem-se nas colinas rasgadas por largas avenidas; mas não há o alívio de um jardim, e as árvores, em caldeiras minúsculas, são poucas e enfezadas. Apesar da impressão inóspita causada pela desproporção entre o verde e o betão, Paços de Ferreira parece orgulhar-se dessa cidade geométrica e recém-estreada: há restaurantes e bares da moda, assiste-se a um arremedo de vida nocturna.

De modo que, falando de árvores, o futuro em Paços de Ferreira confunde-se com o passado. Se este carvalho (classificado em 1940 e um dos primeiros no país a receber tal galardão) ainda cá estiver daqui a cinquenta anos, será dele ainda a única sombra que apetece em toda a cidade.

21/08/2009

Epping Forest



Epping Forest. Em cima: Quercus robur. Em baixo: Fagus sylvatica, Betula pendula

Londres é uma amálgama de cidades sobrepostas e contrastantes. Há os túneis da rede de metro, com as carruagens apinhadas nas horas de ponta, os tablóides gratuitos que, abandonados nos assentos, vão passando de mão em mão. Títulos de um sensacionalismo desavergonhado: professores garantem que macacos podem ser treinados para passar nos exames nacionais; máquina multibanco em supermercado fornece dinheiro grátis a clientes. Há o consumismo efervescente, tanto de turistas como de autóctones, em Oxford Street, em Picadilly, nos armazéns Harrods. Há a Madame Tussaud com as inexauríveis filas de visitantes à porta. Há os museus e galerias onde dias inteiros não chegam senão para admirar uma ínfima parte dos acervos. Há o teatro sério, de reportório, e o musical-para-toda-a-família (Os Miseráveis, O Fantasma da Ópera, Blood Brothers) que se mantém em cartaz anos a fio.

E, entremeando este labirinto urbano no limite da alucinação, há os enormes plátanos nas ruas, há os jardins e parques dos mais variados tamanhos democraticamente espalhados pelo território da metrópole. De facto, aos habitantes pouco abonados dos subúrbios cabe até um quinhão mais generoso na distribuição do verde. A Epping Forest é o maior espaço verde público da capital britânica; situada a nordeste de Londres, estende-se por 18 km no sentido norte-sul e tem uma largura máxima de 4 km. Reserva de caça real desde os alvores do segundo milénio da era cristã até meados do século dezanove, foi protegida por decreto parlamentar de 1878, onde se estipulou que a floresta permaneceria sem construções e de livre acesso para todos.

Do que a Epping Forest não se livrou foi da completa suburbanização do seu perímetro: Leyton, Wanstead, Walthamstow, Chingford e Loughton são bairros que prolongam a malha urbana londrina e completam o cerco da floresta. Locais indistinguíveis uns dos outros, feitos do mesmo tijolo vermelho ou bege, com o mesmo comércio de rua a um passo da falência, os mesmos pubs, os mesmos pindéricos shopping centres, os mesmos hipermercados (Tesco ou Sainsbury's), os mesmos bairros residenciais. Quem lá vive só é privilegiado por ter a Epping Forest à porta de casa. E, para o visitante de ocasião, é a existência desses bairros periféricos que lhe permite o conforto de chegar às franjas da floresta usando metro ou autocarro.

Apesar do seu carácter urbano, a Epping Forest não é uma floresta de brinquedo. A começar pelo tamanho: ocupa 24 km2 (2400 hectares), o que, para usar termo de comparação que se entenda, é bem mais de metade da área do concelho do Porto (que tem 42 km2). O coberto arbóreo é denso e os caminhos não estão sinalizados, o que faz com que um visitante desprevenido se perca com a maior das facilidades. Isso, porém, só seria um óbice numa floresta menos frequentada: aqui passa sempre alguém que nos põe na rota certa.

Na Epping Forest palmilhamos quilómetros e quilómetros sem ver um carro, entre carvalhos, faias, bétulas, carpas (Carpinus betulus), azevinhos e avelaneiras. Aqui e ali abrem-se clareiras, vislumbram-se lagos e charcos. Acompanha-nos o som dos pássaros, das aves aquáticas, do vento sacudindo a folhagem das árvores. Tudo isto na mesma cidade em que os peões se acotovelam nos passeios, e em que o metro e o trânsito automóvel nem por um momento descansam do seu afã nas 24 horas do dia.

07/08/2009

Mata da Margaraça



Mata da Margaraça: carvalho-alvarinho, ribeira, moinho de água e arvoredo (loureiro, loureiro-cerejo, ulmeiro, vidoeiro); cerejeira com frutos

Nesta região do centro do país, adulterada pela plantação intensiva de eucaliptos e pinheiros, regularmente varrida por incêndios, a existência da Mata da Margaraça é pouco menos que milagrosa: um bosque autóctone quase intocado, estendendo-se por mais de 60 hectares, onde predominam castanheiros e carvalhos (Quercus robur), mas onde também se encontram ulmeiros, vidoeiros (Betula alba), folhados (Viburnum tinus), medronheiros, azereiros (Prunus lusitanica), cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros (Salix atrocinerea). Por toda a mata se vêem rebentos de futuras árvores, mostrando como ela se vem renovando espontaneamente. É um ecossistema em perfeito equilíbrio, com inúmeras nascentes irrompendo do xisto para formar refrescantes cursos de água que nem no Verão chegam a secar.

Como se vai para a Mata da Margaraça? O mais simples é procurar Côja num mapa de estradas e, uma vez lá, seguir as placas indicativas; a primeira delas aparece logo depois de atravessarmos a velha ponte sobre o rio Alva. Antes de chegarmos à mata, passamos ainda pelas aldeias de Benfeita e Pardieiros, e cruzamos o caminho de acesso à Fraga da Pena. Na Margaraça há um centro para atendimento de visitantes - que, durante o Verão, abre também aos fins-de-semana - e, na parte mais baixa da mata, um percurso assinalado com setas que termina, junto à ribeira, num enigmático beco sem saída. Muito pouco se ganha, porém, em obedecer às setas: afinal, a mata não é tão grande que alguém corra o risco de se perder; e há muita coisa boa (como as cerejas, minúsculas mas deliciosas) fora do percurso indicado. A parte da mata acima da estrada, embora com árvores em geral mais jovens e talvez por isso com menos encanto, guarda, a nível herbáceo e arbustivo, o que de mais interessante lá se pode ver. Terá sido para pôr essa riqueza botânica a salvo de visitantes incautos ou mal intencionados que o Instituto de Conservação da Natureza, que gere este espaço, não marcou qualquer percurso na metade superior da mata? Tanta cautela confunde-se com egoísmo e recusa em partilhar o que é belo; e é afinal contraproducente, pois acaba por desiludir e afastar aqueles que mais proveito tirariam de uma visita à mata.

21/07/2009

Carvalho de Calvos


Quercus robur L. - Calvos, Póvoa de Lanhoso

Pode alguém ser dono da Grande Pirâmide? A arte é eterna e não se deixa possuir; nós é que somos possuídos por ela. Era isto que concluíam em uníssono o professor David Kapesh (ou seria Ben Kingsley?) e a jovem autora por ele entrevistada em programa radiofónico sobre literatura. Tratava-se de um filme (Elegia, de Isabel Coixet) ou, para quem prefira dar-se ares de erudito, de um livro (The Dying Animal, de Philip Roth), mas a ideia da perenidade da arte face à curteza da vida humana nada tem de original. O professor / entrevistador enunciava-a com a segurança de uma verdade há muito consabida; como quem recita uma oração, as palavras fluíam-lhe sem peso. Talvez nem as sentisse - elas apenas cumpriam uma função utilitária no jogo de sedução a que Kapesh, incorrigível sátiro, se entregava.

Em suma, a ideia é tão banal que até a publicidade se apropriou dela: o pai de família não é dono do valioso relógio suíço, apenas cuida dele para a geração seguinte, etc. etc. Mas um relógio, ou mesmo uma pintura, podem-se esconder da vista de todos. Se forem destruídos ou, como era hábito fazer com os tesouros dos faraós, sepultados com os donos, poucos lhes darão pela falta. O que nos impressiona são as coisas realmente grandes, impossíveis de ignorar ou de esconder, que estabelecem um elo entre gerações muito afastadas. As pirâmides, claro. Todos os nossos grandes monumentos em pedra. E por que não também as árvores?

O carvalho de Calvos já teve muitos proprietários; mas eles passaram, como passaremos nós, e o carvalho lá continua. Afinal talvez não tenha tido nenhum dono; teve, simplesmente, admiradores agradecidos, como nós somos hoje. Alguns tão agradecidos e admirados que lhe exageram a idade e engrandecem as medidas. No folheto que é fornecido no Centro Interpretativo do carvalho de Calvos atribuem-lhe um perímetro à altura do peito (PAP) de 10 metros; mais sóbria, a Autoridade Florestal Nacional, que o classificou em 1997 como árvore de interesse público, achou-lhe um PAP de apenas 7,4 m quando o mediu em 2006. E, enquanto os seus íntimos o dizem milenar, esses desmancha-prazeres de fita métrica em punho lhe dão quinhentos anos de vida.

(Para impor de vez a verdade subjectiva só ao alcance do amor deslumbrado, alguém fez cravar, num dos castanheiros que visitámos no Sabugal - nem sequer o de maior envergadura -, uma placa informando que ele foi ali plantado no ano de novecentos e tal. Mais de mil anos de vida bem contados é pois o que atesta a legenda. Quem se atreverá a negar ao castanheiro os anos gravados na pedra?)

Controvérsias à parte, o carvalho de Calvos é de longe o maior da sua espécie na Península Ibérica, e talvez o mais antigo. Ao contrário de outras árvores multisseculares, exibe uma copa frondosa e pujante (35,5 metros de diâmetro), e promete ultrapassar este vigésimo-primeiro século DC com a mesma facilidade com que atravessou os cinco (ou dez) anteriores. Observá-lo de perto é uma experiência incomparável, uma vertigem que nos deixa emudecidos. A Câmara Municipal da Póvoa de Lanhoso, além de ter feito dele o centro de um projecto de educação ambiental, guardou-lhe um generoso perímetro de protecção, escorou-lhe as ramadas, e vigia-lhe ciosamente a saúde. Bem haja a Câmara pelo carinho com que protege este monumento vivo.

P.S. O Pedro Santos, da Sombra Verde, também se enamorou por este carvalho, e já por duas vezes escreveu sobre ele: confira aqui e aqui.

02/07/2009

Há vida depois do fogo


Carvalhos-negrais (Quercus pyrenaica) mas também, à esquerda, um jovem castanheiro

A excursão de sexta-feira aos castanheiros monumentais do Sabugal permitiu-nos ter uma ideia, necessariamente incompleta, da paisagem do concelho. O percurso foi em grande parte por estradões de terra batida que nem devem constar dos mapas; e, como não anotei os lugares por onde passámos, dificilmente conseguirei reencontrá-los quando lá regressar. E trata-se de um concelho vasto: 827 km^2 - vinte vezes maior do que o Porto.

Este território da Beira raiana, que visitei agora pela primeira vez, é completamente diferente daquela outra Beira que se estende entre Viseu, Guarda e Coimbra. Os eucaliptos estão ausentes, as acácias pouco se vêem e, embora haja alguns pinhais, eles estão longe de ser dominantes. A ausência desta competição (que em geral é avassaladora) permite a existência de algo que julgava já extinto em Portugal: extensas matas de carvalhos surgidas por regeneração natural. Não se trata do carvalho-alvarinho (Quercus robur) com que estamos familiarizados na faixa noroeste do país, mas sim do carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que se distingue facilmente pelas suas folhas penugentas, aveludadas ao tacto. Nenhum dos carvalhais de Q. robur que conheço em Portugal tem um futuro tão promissor como estas matas de carvalho-negral no território raiano. Matas tão exuberantes que permitiriam, sem o menor risco de esgotamento, a exploração florestal para produção de madeira.



Que não haja eucaliptos e sejam poucos os pinheiros não garante que os incêndios não aconteçam, embora lhes modere a intensidade. Pelo contrário, eles devem até ser frequentes, pois a maioria das matas que avistámos era formada por árvores muito jovens. Visitámos uma área recém-ardida (foto acima, mostrando um carvalho que sobreviveu ao fogo) onde se viam rebentos de carvalho a despontar da terra enegrecida. Quase não há barreiras para o fogo: em vez de campos de cultivo ou pastagens a separar as matas, predominam os giestais, também eles facilmente combustíveis. Como em quase todo o país rural, são estas as marcas deixadas no território pela depauperação populacional, pelo abandono dos campos e pela diminuição da pastorícia.

Nem o fogo nem os carvalhos vão desaparecer da região. O problema é que o ciclo de vida dos carvalhais parece ser muito curto (talvez uns 10 ou 20 anos), o que, além de trazer evidentes prejuízos ambientais, significa um grande desperdício económico. Há vida no Sabugal, mas tudo pode arder de um momento para o outro. A boa notícia é que a vida não acaba aí.

15/06/2009

É no Sabugal que os amigos se encontram


Carvalho (Quercus robur) em Golders Hill Park, Hampstead Heath, Londres

Falo naturalmente dos amigos das árvores; mas, mesmo para os que nunca antes se falaram, o encontro no Sabugal com essas amigas comuns, a 25 e 26 de Junho (já para a semana!), é o mais auspicioso prólogo para uma amizade a sério.

Melhor será contar a história desde o início, tentando dar-lhe forma intelígivel. Talvez no final se entenda por que está este carvalho britânico, enjaulado em benefício de uma velhice tranquila, encabeçando uma notícia sobre árvores em Portugal. Da terra anfitriã do anunciado evento e das árvores que lá vegetam ainda não tenho fotos; terei depois, mas já seria tarde para a notícia.

Desde 2007 que Miguel Rodrigues e Pedro Nuno Teixeira Santos (autor de A sombra verde) têm compilado um metódico registo das árvores monumentais do extremo sul do país, que vêm vertendo no blogue Árvores Monumentais do Algarve e Baixo Alentejo. Um trabalho dessa índole nunca está concluído, mas o Miguel e o Pedro quiseram alargá-lo a todo o país, tomando a iniciativa de fundar, com outros amigos, a associação Árvores de Portugal. Associação essa que, ressalve-se, tem objectivos mais gerais, como o de intervir na defesa e promoção da árvore, numa altura em que a Sociedade Portuguesa de Arboricultura, que teria naturalmente essa função, se encontra paralisada.

Mas é o amor pela árvore multissecular que motiva a primeira iniciativa pública da nova associação: justamente o seminário sobre «Árvores Monumentais - Importância e Conservação», a decorrer no Sabugal em 25 e 26 de Junho. O programa completo do evento pode ser aqui consultado, mas há que ressaltar as presenças do Professor Jorge Paiva, do Eng.º Campos Andrada (da Autoridade Florestal Nacional, que mantém o registo português das árvores de interesse público), de Ted Green (o maior activista na defesa das árvores históricas da Grã-Bretanha) e de Susana Domínguez Lerena (co-autora do notável livro Árboles, Leyendas Vivas). (Admito que também lá farei uma mini-apresentação deste livro.) A coroar o programa, na manhã do dia 26, há uma visita aos castanheiros notáveis do concelho do Sabugal; os mesmos que irão ilustrar a reportagem do evento quando aqui a publicarmos.

Acredito que os amigos das árvores, se puderem fazê-lo, não deixarão de ir ao Sabugal. É no interior, é longe, a viagem é demorada... Há tudo isso, mas falemos com franqueza: que piada teria um evento destes em Lisboa ou no Porto? Quantas árvores conhecemos nessas cidades comparáveis ao carvalho de sua majestade aí em cima? Confiemos no Sabugal para mostrar aos ilustres visitantes estrangeiros, com uma pitada de imerecido orgulho, que em Portugal também há árvores realmente monumentais.

P.S. Carregue aqui para fazer a sua inscrição. Para mais informações contacte:

Nélia Vasco, tel.: 271 75 10 42
Laura Alves, tel.: 96 10 13 552
Fax: 271 753 408

16/06/2008

Carvalho-cerquinho



Quercus faginea subsp. broteroi

Para quem vive no litoral norte do país, um dos atractivos da Serra dos Candeeiros é a presença do cerquinho, um carvalho que por cá é impossível de encontrar mesmo em jardins botânicos. Na colecção Árvores e Florestas de Portugal, distribuída em 2007 com o jornal Público, chamam-lhe carvalho-português (apesar de ele aparecer também em Espanha e no norte de África) e ocupam com ele boa parte do volume 2, dedicado aos nossos carvalhais. Ficamos a saber que a sua área de distribuição no nosso país, se bem que por um motivo ou outro tenha vindo a diminuir gradualmente ao longos dos séculos, sofreu entre 1972 e 1995 uma brusca redução de 50%. De então para cá não se conhecem dados, mas os piro-verões e outros factores naturais ou humanos deixam poucos motivos para optimismo. As florestas de carvalho-português não deverão, em Portugal, ultrapassar os mil hectares de área total - oitocentas vezes menos do que as matas de eucalipto (Eucalyptus globulus).

É no litoral centro, e sobretudo nos distritos de Leiria e de Coimbra, que se encontram as maiores populações nacionais de carvalho-cerquinho. O livro refere ainda a ocorrência de um importantíssimo núcleo da espécie na mata do Solitário, na Serra da Arrábida. Vemo-lo, na Serra dos Candeeiros, marginando estradas e junto a casas e campos de cultivo. No circuito que fizemos, em redor da aldeia do Arrimal, forma pequenas matas até meia-encosta, desaparecendo por completo nas partes mais altas, onde prevalece a vegetação rasteira de alecrim, tomilho e roselha, e sobrevivem a custo, no terreno descarnado e ventoso, algumas heróicas oliveiras. O bonito carvalho-cerquinho da foto (ou será um par deles?), ensombrando uma casa rústica com vista para um olival, foi o nosso prémio por nos termos enganado no percurso. De olhos escrutinando as plantinhas que despontavam rentes ao chão, por certo nos passou despercebido algum desvio, ainda que tivéssemos acertado no rumo geral de regresso à estrada (sempre a descer).

O carvalho-cerquinho, árvore de porte médio, estabelece um compromisso entre o possante carvalho-alvarinho (Quercus robur), de folha caduca, predominante no norte do país, e os grandes carvalhos de folha perene (sobreiro e azinheira) característicos dos montados do sul. Embora as suas folhas sequem no Outono, só as deixa cair no ano seguinte, quando se cobre de folhagem nova; por isso se diz marcescente. Essa mesma estratégia para proteger do frio os gomos das folhas que irão rebentar na Primavera é adoptada pelo carvalho-negral (Q. pyrenaica).

18/01/2008

Kenwood House

Os terrenos da Kenwood House prolongam para norte a grande mancha arborizada de Hampstead Heath, embora oficialmente não façam parte dela e tenham até gestão autónoma. A casa está cercada por jardins formais onde pontificam maciços de azáleas e por bosques de grandes e velhas árvores: carvalhos, faias e castanheiros. Entre 1951 e 2006, o lago da propriedade, que aqui ontem mostrámos, acolheu todos os verões, nas tardes de sábado, uma concorrida série de concertos ao ar livre. Curiosamente, a «ponte» que atravessa o lago é puro adereço cénico, sem chão e sem espessura.



É bom, numa noite de Inverno, folhear o álbum de recordações de uma Primavera que, embora passada, há-de ter dentro de poucos meses a inevitável reedição. Cada purgatório tem o seu paraíso prometido, seja ele noutro lugar ou noutro tempo. Para chegar a este, ascendi 10 graus de latitude e recuei até Maio, tempo das azáleas em flor. A esplanada da cafetaria, vista aqui através da ramaria de um plátano, apresentava-se estranhamente vazia, mas o dia estava incerto, sujeito a aguaceiros repentinos. Lembro-me de ter ficado longos minutos de plantão, já com o enquadramento estudado, à espera de uma aberta entre as nuvens para fotografar o colorido das azáleas avivado pelo sol. Na terceira foto, tirada de junto ao lago, as duas grandes árvores que balizam a casa são, da esquerda para a direita, uma tília (Tilia x vulgaris) e um carvalho (Quercus robur).

21/12/2007

Sobreiros e acácias na Penha



Sobreiros (Quercus suber) no monte da Penha (Guimarães)

Há vários modos de subir à Penha, em Guimarães. O mais cómodo, não isento de sustos para quem sofre de vertigens, é pular a bordo de uma das planantes cabines de teleférico que sobem e descem a encosta num vaivém ininterrupto. É essa a maneira barata de nos sentirmos como pássaros voando sobre as árvores, mas sem a liberdade de pousarmos nalguma que nos pareça mais convidativa. Vão rareando os eucaliptos à medida que subimos, até que por baixo de nós se estende uma mata contínua de grandes carvalhos-alvarinhos. Pena não subirmos a pé, a corta-mato, para tocarmos nessas árvores e nos sentirmos pequenos debaixo delas; só que, como o teleférico sobrevoa várias propriedades muradas, um tal feito afigura-se improvável.

Há ainda a opção de subir de carro: a estrada que vem do centro de Guimarães é estreita, cheia de curvas e com as bermas desniveladas, e obriga-nos a conduzir com cautela; mas, com todas as suas voltas, dá a quem a percorre uma ideia mais justa da riqueza e amplitude da manta de arvoredo que reveste o monte. Nunca antes tínhamos notado, por exemplo, o extenso sobreiral que se desenrola na encosta a sudoeste do santuário. Foi para lá que nos dirigimos, monte abaixo, depois de aparcarmos, por ser esse um mais promissor lugar para encontrarmos isto do que os caminhos calcetados a granito que rodeiam o cume. Palpite acertado: encontrámos os Crocus e várias outras flores silvestres junto a um estreito riacho, seco por falta de chuva, mas ainda ressumando uma acolhedora humidade. E constatámos também, infelizmente, como as medidas para controlar as acácias (A. melanoxylon e A. dealbata) foram de uma eficácia quase nula: nalguns pontos os novos rebentos formam já um mato impenetrável. Com uma praga destas não pode haver meias medidas: só com o abate de todas as árvores adultas se impede a reinfestação. A Irmandade da Penha deveria mandar cortar sem demora as acácias que ainda existem em volta do santuário.

08/11/2007

Quercus alba


Quercus alba - Cemitério Britânico do Porto

Eis um carvalho de boa índole, que não gosta de enganar ninguém: a sua semelhança com o nosso carvalho-alvarinho (Quercus robur) é notória e reconfortante - aliás pertencem os dois ao subgénero Leucobalanus (carvalhos-brancos) do género Quercus -, mas as folhas do primeiro são maiores, mais assimétricas e com lobos mais sulcados. O Q. alba reserva o seu momento de glória para o Outono, adquirindo então uma coloração alaranjada cheia de matizes, ao passo que o nosso impaciente conterrâneo brilha logo à entrada da Primavera com o verde-alface da folhagem nova. Em tamanho e longevidade é o Q. robur quem leva a palma, mas não por larga margem, pois o Q. alba também desenvolve uma copa ampla e pode viver centenas de anos. Ambos fornecem madeira valiosa, com lugar importante na história social dos seus continentes de origem.

O Q. alba é originário da costa leste da América do Norte, do sul do Canadá ao Golfo do México. Ao invés dos outros carvalhos americanos que aqui mostrámos, é raramente visto em solo europeu: em Portugal só sabemos deste exemplar no Cemitério Britânico, tão jovem que ainda não produz bolotas, plantado há pouco mais de 10 anos em memória de alguém que lá foi sepultado. Infelizmente a placa que nos dá tal informação erra ao identificar a árvore - que não é um Quercus velutina, pois as folhas dessa outra espécie americana têm os lobos pontiagudos e não arredondados.

05/11/2007

Os carvalhos da Serra Madre


Quercus crassifolia - Kew Gardens

As florestas das montanhas do México albergam a maior diversidade mundial de pinheiros e carvalhos, descendentes das árvores que aí encontraram refúgio durante as últimas idades do gelo, quando os glaciares cobriam quase toda a América do Norte. Evoluindo longe dos seus congéneres e tendo de adaptar-se a condições de vida peculiares, é natural que esses Quercus optassem por desobedecer às regras de como deve apresentar-se um carvalho. É o caso do Quercus crassifolia, em que as folhas começam por ser de veludo vermelho mas depois se fazem grandes e lustrosas, grossas como couro. Como o grau de hibridação entre carvalhos mexicanos é muito elevado, há controvérsia quanto ao número de espécies existentes nas florestas do país: alguns falam em dezenas, outros em centenas; a grande maioria delas não está sequer representada em colecções botânicas europeias.

03/11/2007

Carvalhos de Outono



Quercus coccinea / Quercus rubra - Ponte de Lima

04/10/2007

Romaria em Setembro


Valinhas - 9 de Setembro de 2007

O segundo domingo de Setembro é o dia de todas as romarias, mas não foi por isso que voltámos a Valinhas no preciso dia em que o carvalhal estava coalhado de gente em festa. Voltámos como quem cumpre um voto, e por distracção calhou ser no dia da romaria a Nossa Senhora de Valinhas. Mas preferíamos ter reencontrado o sossego da nossa primeira visita, mais propício à contemplação destes nobres carvalhos. Como local de romaria muito antigo, este carvalhal adquire uma importância singular na vivência dos povos das redondezas, e uma tal ligação deve ser vista com carinho e apreço. Mas as agressões a que o bosque está sujeito em dias de romaria ofendem a dignidade das árvores e abastardam a festa. Para não ter que carregar as lancheiras, cada um estaciona o carro no exacto local onde vai estender a toalha, e temos assim o carvalhal convertido em híbrido caótico de parque de estacionamento com recinto de merendas. Além de feio de se ver, este comportamento degrada seriamente um património natural único: as árvores não são eternas, e não há hipótese de o carvalhal se renovar naturalmente com invasões tão desregradas como esta.

Afastámo-nos desta triste cena logo que pudemos. Não vimos a procissão e só ao longe, ou de passagem já no regresso, ouvimos a banda a tocar à mistura com o estrondo dos foguetes. Buscámos refúgio junto às quedas de Fervença, onde, como seria de esperar no fim do Verão, o rio Leça estava menos caudaloso do que quando o vimos no início da Primavera. Como o risco de afogamento era nulo, acompanhámos o curso descendente do rio por algumas centenas de metros. Era ele um fio de água escorrendo entre blocos de granito talhados quase a pique e escoltado por freixos e amieiros, esses amigos dos lugares húmidos que aqui, entre as rochas, encontraram solo bastante para medrar. Um declive mais ameaçador ditou o termo do nosso alpinismo à paisana, e daí em diante contentámo-nos em esquadrinhar a vegetação rasteira. Uma das plantas que nos captou a atenção foi a Calluna vulgaris, que encontrámos em flor: parente próxima da urze (Erica sp.), as suas flores não têm os estames compridos, protuberantes, que são característicos do género Erica. Mas é natural que detalhes como esse, difíceis de detectar a olho nu, escapem ao observador comum, e assim a C. vulgaris partilha com a Erica muitos nomes vernáculos, como torga, urze e queiroga (ou quiroga); contudo, há outros nomes que são exclusivos seus: mongoriça, queiró, leiva e carrasca (este último nos Açores). Eis pois uma planta plebeia, sem eira nem beira, que tem quase tantos apelidos como um fidalgo de velha estirpe.


Calluna vulgaris

26/09/2007

A ler

«Como é que se descreve uma árvore?
Como é que se explica uma paixão?...
Como é que se explica uma beleza que comove?! »
.
Imperdível a leitura da descoberta da Azinheira Grande pelo Pedro (do Sombra Verde) & amigos:
1- Apaixonei-me por uma árvore!
2- O caminho da redenção
3- 37.7367 N ..7.8215 W
4- Obrigado...

29/08/2007

Cores da Aveleda



Agosto de 2007

É em lugares como a Quinta da Aveleda que os olhos reencontram as cores que foram roubadas à cidade. Nas fotos de cima, os arranjos florais incluem Impatiens e Lobelias; na base do muro, há ainda begónias-tuberosas (Begonia x tuberhybrida). Mas na Aveleda podem também admirar-se árvores formidáveis, como as duas faias nas fotos de baixo: a primeira, fotografada há poucos dias com a sua folhagem cor-de-cobre contra o azul do céu, vive rodeada por um maciço de flores; a segunda, ainda despida nos primeiros dias de Abril, deixa entrever ao longe a vinha impecavelmente alinhada; em primeiro plano, vêem-se azáleas e carvalhos (Quercus robur) com a folhagem já a despontar.

A Quinta da Aveleda está aberta aos visitantes todos os dias úteis e também aos sábados de manhã; o ingresso custa 2,5 euros por pessoa, preço que inclui prova de vinhos e de queijos numa sala de estar aconchegante, decorada ao gosto novecentista.



Agosto de 2007 / Abril de 2007

15/08/2007

A ler- "Descansar os olhos na azinheira"

no Público de hoje, por Fernando Catarino

«(...) * Nome científico: Quercus rotundifolia Lam, família Fagaceae. A história de Fátima está indelevelmente ligada a esta árvore, que, ao tempo das aparições, era muito abundante na Cova da Iria.
Em plena paisagem cársica, junto ao rebordo norte do planalto de São Mamede, há uma sucessão de afundamentos no relevo, pequenas depressões fechadas, de fundo abaulado, de onde veio o nome "cova". Estas covas opõem-se a estruturas semelhantes mas mais extensas e aplanadas, os "covões", que se encontram junto de diversas povoações com a mesma denominação.
Não faltavam, na Cova da Iria, penedos e locais para as brincadeiras, havendo pasto fresco todo o ano, pelo que os pastorinhos gostavam de lá levar o gado. Apesar da aridez da serra, a Cova da Iria tem um clima mais húmido do que o restante Maciço Calcário, devido às chuvas e à humidade dos ventos tocados de norte.
(...)
Do ponto de vista botânico, as azinheiras pertencem a um grupo de árvores com uma vastíssima distribuição biogeográfica e grande diversidade, agrupadas sob o nome comum de "carvalhos". Trata-se de vegetais com grande interesse científico que caracterizam bem as peculiaridades edafo-climáticas e a ecologia de muitas paisagens no hemisfério norte.
De grandes longevidade e dimensões, dada a excelência da sua forma arbórea, a riqueza de utilizações e o valor económico, estas árvores são marcas notáveis dos locais e das paisagens em que ocorrem. Não admira, por isso, que façam parte integrante da memória e da história cultural dos povos que sempre lhes votaram destacado lugar nas lendas e na literatura.
Ricas de simbolismo, a ponto de, em várias civilizações antigas, terem tido o estatuto de árvores sagradas, as quercus, o nome que os romanos davam aos carvalhos, merecem, só por si, ser protegidas e ter a sustentabilidade dos habitats em que ocorrem assegurada.

Foi, decerto, uma bênção que, nas repetidas e vultuosas obras de adaptação e modernização do recinto do santuário, tenha sido possível poupar a belíssima
"azinheira grande" , junto à Capelinha, recentemente considerada de "interesse público". Com ou sem peregrinos à volta , faça o tempo que fizer, é sempre reconfortante descansar os olhos em tão formoso padrão vivo, testemunha e memória da harmonia ambiental do sítio e do tempo dos pastorinhos.

*Excertos da entrada "Azinheira", da Enciclopédia de Fátima, Ed. Principia; selecção de textos de António Marujo»
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Ler excertos de "Pastoral" (1º quadro) e "A Flor da Azinheira" (2º quadro) de O mistério de Fátima entrevisto, visionado e contado em alguns poemas por António Correia de Oliveira, 1954

22/05/2007

Sobreiro centenário classificado- Canhestros

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Este imponente sobreiro (Quercus suber), com a idade provável de cerca de 200 anos, classificado de interesse público em Outubro de 2001, fica localizado no lugar de Canhestros, freguesia e concelho de Silves.
Na altura da visita, em Agosto de 2004, existia um arremedo de placa > ,tombado por terra, evidenciando o despeito que alguém sentia por aquele estatuto, impeditivo do avanço de parte do projecto de construção (creio que o alargamento de um acesso ou algo que o valha como nos informaram então).
Tenho curiosidade em saber se quando foi visitado pelos nossos amigos do Sombra Verde, há cerca de um mês, o sobreiro dito de Canhestros estava identificado como árvore de interesse público. Realmente, é uma pena que o exemplo do Sobreiro de S. Geraldo não seja seguido pelas autarquias. Na minha opinião a lei de 1938 deveria ser actualizada de modo a incluir- entre outras coisas- a obrigatoriedade da sinalização das árvores classificadas.

21/05/2007

Sobreiro de S. Geraldo



Fotos de Eduardo Basto

«Não me estou a fazer à publicação no DcA, (...) mas achei que se calhar vos interessaria. A árvore, aparentemente mais acarinhada que o costume, fica em Veiros, que é uma terrinha mais ou menos entre Estarreja e a Murtosa — até há uma placa na estrada a dizer "árvore monumental" ou algo parecido, já não me lembro bem. Não sei cá PAPs nem coisas nenhumas dessas, mas a árvore tem um aspecto invulgar, bastante curioso, com o tronco curto mas ainda assim muito irregular.»

Claro que nos interessa e muito, Eduardo. É um exemplo do que nós gostaríamos que fosse feito com todas as árvores de interesse público no país: divulgadas e acarinhadas. No Porto, onde nem uma só dessas árvores tem placa, quase ninguém repara nelas ou sabe da sua existência. Estão pois de parabéns a população de Veiros, a sua paróquia (que é proprietária da árvore) e ainda, por promoverem este sobreiro multi-centenário como património local digno de ser visitado, a Junta de Freguesia de Veiros e a Câmara de Estarreja.

03/04/2007

Um de vós será coroado rei




Alertados por um emissário madrugador, chegámos ao local antes de subir o pano, e por isso as fotos saíram com a cor errada: em vez de verde-alface ficaram pintadas de amarelo-torrado, tom da folhagem embrionária dos carvalhos de Valinhas. Tal precipitação impõe-nos o grato dever de, no papel de inspectores cromáticos, lá voltarmos daqui a duas ou três semanas. É importante mantermos vigilância assídua nas regiões demarcadas do verde-alvarinho, cor ameaçada pela omnipresença estéril dos eucaliptais. Não é só a cor que desfalece na paisagem ao transpormos, em Valinhas, a vereda que separa a pequena mata de carvalhos dos infindáveis hectares de eucaliptos: desaparecem as flores silvestres mas também se apagam os sons dos pássaros e da água a correr.

Um dos carvalhos de Valinhas, não sabemos se o mais forte ou o mais sábio, é por assim dizer o rei do carvalhal: foi declarado de interesse público em 1940, destacando-se dos seus companheiros pelo título nobiliárquico; mas, como não usa ceptro nem coroa, não é fácil distingui-lo dos seus súbditos. É um rei à feição daquelas monarquias avançadas como a Holanda ou a Dinamarca, onde príncipes e plebeus convivem igualitariamente em transportes públicos e filas de supermercado. Nem sequer sabemos se o carvalho-rei ainda vive ou se, por limite de idade, abdicou em favor de algum descendente. Mas o mais provável é que se mantenha no posto: 67 anos é pouco para um carvalho reinar, tanto mais que a sua colega de profissão, Isabel II de Inglaterra, pertencente à bem menos longeva espécie humana, há já 55 que ocupa o trono.

30/03/2007

Emissários


Quercus robur no largo Abel Salazar (Porto)

Cercados por um delírio de pedra que já foi jardim, estes carvalhos, cumprindo a vocação temporã da sua espécie, não deixam ninguém esquecer que a Primavera chegou. Citadinos, são emissários dos seus irmãos mais afortunados, e vêm dizer-nos que está na altura de sairmos da cidade, nem que seja pelo tempo breve de uma tarde de sábado, para admirarmos em lugares mais propícios a frescura da sua folhagem.