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19/07/2020

Bandeiras brancas


Thalictrum tuberosum L.


No final de Maio, as bermas de estradas na Cantábria enchem-se de flores brancas em hastes longilíneas que se agitam ao menor sopro de vento. São bandeiras que nos intimam a parar e às quais obedecemos de bom grado. A morfologia das flores, lembrando a das anémonas e das clematites, situa claramente a planta na família Ranunculaceae, mas é com alguma surpresa que, inspeccionando-lhe as folhas tripinadas, concluímos que ela pertence ao género Thalictrum. Uma consulta rápida aos manuais desvenda-lhe a identidade: Thalictrum tuberosum.

Em Portugal estão assinaladas como espontâneas duas espécies de Thalictrum, mas só uma delas, T. speciosissimum, é vista com regularidade. A semelhança das suas folhas com as do T. tuberosum é flagrante, mas as flores parecem ser de outro planeta. À primeira vista, dir-se-ia que as flores do T. tuberosum têm todas as componentes tradicionais (pétalas, estames, carpelos...), enquanto que as inflorescências do T. speciosissimum são nuvens de algodão-doce que, vistas mais de perto, parecem ser compostas apenas por uma confusão de estames.

Nenhuma destas impressões está correcta. As flores brancas que vicejam aí em cima não têm pétalas, mas sim sépalas, que em flores mais convencionais costumam ser verdes e constituir o cálice. E as mesmas peças que formam estas flores reaparecem no T. speciosissimum, que contudo tem sépalas e carpelos de muito menor tamanho, ocultos pela exuberância dos estames.

Embora partindo das mesmas componentes básicas, arquitecturas florais tão distintas sugerem que a polinização não se processa do mesmo modo nas duas espécies. As sépalas petalóides do T. tuberosum cumprem a óbvia função de atrair polinizadores, mas o T. speciosissimum, que quase reduziu as sépalas à invisiblidade, não parece interessado em jogos de sedução. Será que o segundo dispensa os serviços dos insectos e confia a polinização ao vento?

A grande variabilidade das flores dentro do género Thalictrum torna esse género ideal para estudar as adaptações às diferentes formas de polinização. Um estudo comparativo, publicado em 2018, de 81 espécies americanas, europeias e asiáticas concluiu que 36 delas são predominantemente anemófilas (polinizadas pelo vento) e as restantes entomófilas (polinizadas por insectos), havendo algumas (poucas) espécies que recorrem a ambos os tipos de polinização. Sem grande surpresa, as do segundo grupo têm floração bastante mais vistosa que as do primeiro. Além do mais, as espécies anemófilas são amiúde dióicas (com flores masculinas e femininas em indivíduos separados), fenómeno esse não reportado em espécies entomófilas.

O T. speciosissimum, exclusivo da Península Ibérica, não foi incluído no estudo, mas presume-se que tenha comportamento igual ao do T. flavum, que é a sua versão no resto da Europa. Ao contrário do que fomos levados a supor, essas espécies parecem ser sobretudo polinizadas por insectos. Contudo, os autores do artigo colocam o T. flavum numa clade evolutiva onde a maioria das espécies (sete em dez) são polinizadas pelo vento, e em que o antepassado comum mais próximo terá tido essa mesma característica. Ou seja, o T. flavum recuperou a faculdade de ser polinizado por insectos que tinha sido perdida por um seu antepassado. Acreditando que a anemofilia é mais "avançada" do que a entomofilia, não é descabido falar de uma regressão evolutiva. (Quando uma característica ancestral perdida é recuperada, a expressão usada é reversão evolutiva, que em si mesma não contém qualquer juízo de valor sobre a maior ou menor "modernidade" dessa característica.)

De um modo geral, as espécies do género Thalictrum nada têm para oferecer aos insectos. Algumas espécies usam o perfume ou as sépalas vistosas para atrair esses obreiros voadores, mas as flores não produzem néctar e não há recompensa pelo trabalho feito. Se os insectos desaparecerem ou ficarem mais espertos, é ao vento que o futuro pertence.

31/10/2019

Capuchinhos azuis (e amarelos)

Com notáveis excepções, é raro que as plantas surjam na literatura pelo nome próprio. A muitos escritores basta a menção a árvores anónimas, a florestas verdejantes ou a rosas para sentirem o cenário dos seus textos cheio de natureza. Mas algumas plantas conseguem não ser desconhecidas de todo, e por vezes até são os personagens principais do enredo. É o caso do Aconitum napellus, uma planta extremamente venenosa de origem europeia cujas flores lembram os capuchos de alguns monges. São atributos que a tornam particularmente atractiva para novelas policiais, muito útil na protecção contra vampiros e essencial à mitologia - e justificaram o seu uso em setas de caça ou para eliminar inimigos num tempo em que ainda não se conheciam os malefícios dos materiais radioactivos.


Aconitum napellus L.



Trata-se de uma herbácea perene que pode atingir os dois metros de altura, de folhas palmadas muito divididas que nascem num arranjo em espiral muito bonito, e flores de um tom azul arroxeado típico na família Ranunculaceae. As suas flores, com inúmeros estames, alimentam algumas espécies de traças com línguas compridas, que lhes permitem aceder ao néctario no topo da flor. Também há borboletas de língua curta que tentam lamber o néctar furando o capucho por cima, mas não tardam a ser dissuadidas pelo veneno da planta.

As cinco espécies do género Aconitum na Península Ibérica gostam de manter as raízes em solo rico, húmido mas bem drenado, com a folhagem exposta ao sol. Por isso, é mais fácil encontrá-las em margens de rios ou na orla de bosques com árvores de folha caduca. As fotos acima foram tiradas na serra de Gredos, no centro de Espanha, onde a planta se encontra ocasionalmente em pastagens frescas (o gado, que nasce ensinado, não a consome). Também a vimos nos Pirenéus aragoneses, onde é mais frequente e onde ocorrem quatro espécies adicionais do género: A. burnatti e A. variegatum, de flores azuis; A. vulparia e A. anthora (fotos abaixo), de flores amarelas. Em Portugal, por contraste, apenas existe o A. napellus. A única população conhecida, pequena e em risco de desaparecer, vegeta à sombra de amieiros nas margens do rio Angueira, em Trás-os-Montes.


Aconitum anthora L.

04/06/2018

Ouro branco

Ainda que, depois do Verão muito seco e dramático no ano passado, muitos tenham passado a apreciar mais a chuva, não deixa de ser um mistério que haja plantas terrestres que espontaneamente colonizem meios aquáticos. É que a sobrevivência em habitats palustres exige cuidados que podem ser ignorados em terra: é essencial que as folhas se mantenham a flutuar, para o que faz falta uma estrutura celular esburacada como a da cortiça, ou algum tipo de bóia; é imprescindível que as hastes florais sobressaiam na água para atrair os polinizadores sem os colocar em risco de se afogarem; os frutos têm de se dispersar na água sem apodrecer com a humidade excessiva; a planta tem de aprender a retirar nutrientes da água, uma sopa demasiado diluída; e há que saber aproveitar as interacções que o ambiente novo proporciona. Uma lista idêntica, a que se deve juntar a capacidade de hibernar debaixo de neve por largos meses, aplica-se às plantas vivazes que se adaptam a locais com invernos inclementes. Certo é que, depois de milhões de anos aflitos em ensaios e ajustes, com os pés molhados ou sob frio intenso, o planeta ganha novas espécies, e nós podemos hoje maravilhar-nos com as soluções engenhosas descobertas por elas neste processo.

A família Ranunculaceae, de que o género Ranunculus é o mais numeroso, é exemplar nesta adaptação a novos habitats, merecendo o prémio de uma distribuição invejável. Em Portugal, ocorrem espécies de berma de estrada, de turfeiras, de solos arenosos, de rochas expostas ao sol, de prados húmidos na montanha, de lagoas e charcos. Mas não há registo da espécie que está hoje na montra.


Ranunculus amplexicaulis L.


Com as informações genéticas a que os botânicos têm actualmente acesso, é possível identificar as alterações nos genes que acompanharam a transição do meio terrrestre para o aquático, ou do litoral para regiões acima dos mil metros. Curiosamente, no caso dos ranúnculos, essas mudanças não correspondem a alterações radicais nas flores. Estas são sempre do mesmo formato achatado, com pétalas ovadas amarelas brilhantes, ou brancas com um centro amarelo vistoso, por vezes raiadas por uns tons rosados. Mas a morfologia das folhas é bastante variada, o que até nem supreende: enquanto que a uma planta aquática interessam folhas fininhas, leves e muito recortadas, a uma espécie perene de montanha servem melhor folhas robustas, inteiras, penugentas e coriáceas.

O Ranunculus amplexicaulis, um quase endemismo ibérico de zonas montanhosas acima dos 1300 metros, tem folhas generosas que abraçam o caule e a haste floral para os agasalhar entre Maio e o início do Verão. A flor é por vezes solitária mas vistosa, com o centro amarelo protegido por alguma penugem. Vimos estes exemplares no Pico Tres Mares, na Cantábria, durante a primeira semana de Maio do ano passado. Neste início de Junho, o Pico tem ainda estradas cortadas pela neve, a maioria das plantas ainda não floriu, e poucos polinizadores estão ao serviço. Quem sabe, é apenas um atraso ocasional, como quando nos deixamos ficar mais meia hora no quentinho dos lençóis por sabermos do frio lá fora.

01/11/2017

Nobreza figadal



Hepatica nobilis Mill.


Resolvamos juntos o exercício de identificar esta planta que, não ocorrendo em Portugal, é bastante frequente na metade leste da Península Ibérica, tanto em bosques como em taludes rochosos calcários resguardados por alguma sombra. É uma herbácea perene e algo peludinha, de porte rasteiro e flores solitárias (brancas, azuis ou arroxeadas) que nascem entre Março e Maio, quando os carvalhais ou faiais ainda não se cobriram de folhagem e alguma luz penetra até ao solo.

Comecemos por anotar o que é peculiar nas folhas: são basais, coriáceas, glabras mas de margens ciliadas, com as faces manchadas de púrpura, trilobadas e cordiformes na base (como o símbolo do naipe de paus nos baralhos de cartas). A morfologia das flores ajuda-nos a descartar algumas famílias (por exemplo, não se trata de um trevo pois faltam a quilha e o estandarte usuais nas flores das leguminosas). Além do arranjo simples e simétrico das tépalas (cinco ou mais), há inúmeros estames ao centro. O conjunto lembra-nos um tipo de anémona comum no Gerês. Temos, portanto, um palpite quanto à família: Ranunculaceae. É quanto basta para, consultando um guia de plantas (das Astúrias, mas poderia ser do Japão, não fosse o problema da língua), descobrirmos o nome do género (Hepatica, em alusão às manchinhas nas folhas, como as que marcam as faces de alguns doentes do fígado) e da espécie (nobilis, que indica fama, seja ornamental seja terapêutica).

Este género, de que se conhecem umas sete espécies no hemisfério norte (a mais recente é um endemismo chinês), é em algumas Floras incluído em Anemone, recebendo então a Hepatica nobilis a designação Anemone hepatica que Lineu lhe atribuiu. Há, porém, uma diferença relevante a separá-los: na Hepatica não existem folhas caulinares, havendo apenas três brácteas formando uma espécie de cálice na base das flores. Nestas não se vê sinal de néctar, e (diz quem sabe) são as formigas as responsáveis por dispersar as sementes. Estas são verdes quando maduras, e cada um dos numerosos aquénios (veja na 1.ª foto) contém exactamente uma.

26/09/2017

Anémona das neves


Anemone pavoniana Boiss.


Estávamos no local errado e no dia errado, e os dois erros, cancelando-se um ao outro, permitiram-nos ver uma flor impossível. No início de Maio, a Anemone pavoniana, endémica da cordilheira cantábrica, não deveria estar em flor a 2000 metros de altitude, quando ainda os picos se cobriam por esfarrapados mantos de neve em degelo acelerado. E de facto não estava: as duas plantas que encontrámos, abrindo cada uma a sua flor como quem espreita cautelosamente por cima de um muro, vinham apenas fazer o reconhecimento do terreno. E o terreno não conferia com aquele que lhes é prescrito nos manuais. A Flora Ibérica, prestigiada publicação à qual todas as plantas do reino de Espanha e da república de Portugal devem obediência, determina que a espécie vive apenas em rochas calcárias, inexistentes no Pico Três Mares e nos cumes vizinhos. Dando-se conta do equívoco, e sob ameaça de pesada coima, era natural que estes emissários, de volta à base, alertassem os seus companheiros para a inadequação do lugar. É pois de crer que, mesmo depois de toda a neve derreter, mais nenhuma destas anémonas tenha ousado florir por essas bandas.

Quem quiser ver a Anemone pavoniana em floração na altura própria, e num habitat mais conforme às preferências decretadas para a espécie, deve aguardar pelo início de Junho e visitar então um dos muitos afloramentos calcários que preenchem o extremo norte da Península, desde o País Basco às Astúrias. Com caules que podem atingir os 50 cm de altura (as que vimos, ainda incipientes, dificilmente chegavam aos 10 cm) e flores brancas de 3 a 4 cm de diâmetro, esta é uma das sete espécies ibéricas do seu género. Para lá dos Pirenéus, em França, Itália e nos Balcãs, surge uma sósia da A. pavoniana, a A. baldensis, moradora em prados alpinos. Não sendo fácil detectar diferenças entre as duas com base apenas em fotos, é irresistível apontar que a (acidental?) presença da primeira no Pico Três Mares parece mais de acordo com a ecologia da segunda.

28/06/2017

Globos de ouro

As sépalas, quando existem, são a parte mais externa da flor, que a agasalha, protege dos predadores e até pode servir de pires para que o pólen não se desperdice. São componentes estéreis, que nascem antes dos outros orgãos da flor, num arranjo em que, sobrepondo-se, cobrem completamente o botão que se está a gerar. Como as pétalas, são folhas modificadas, e não são raras as que contêm espinhos, penugem irritante ou glândulas com produtos tóxicos para desencorajar quem queira estragar a flor em formação. Unidas, criam um cálice que torna mais robusta e estável a ponta da haste onde a flor aberta se apoia. Depois de as flores serem fecundadas, as sépalas costumam secar e cair; todavia, se necessário, endurecem e mantêm-se vigilantes, agora em defesa do fruto e das sementes. São em geral verdes como as folhas, mas tal como acontece com a nossa roupa, podem ficar maiores do que o resto da flor, ou até serem a parte da flor que tem a cor mais vistosa e, por isso, recebe a função adicional de atrair os polinizadores. É o que se passa, por exemplo, com as tulipas, os malmequeres-dos-brejos e as flores globosas, a lembrar tangerinas, que hoje vos mostramos.


Trollius europaeus L.


Têm cerca de 5 cm de diâmetro e são solitárias, nascendo entre Maio e Julho no topo de um talo erecto que pode chegar aos 70 cm. Na base, as folhas redondas mas muito divididas ajudam a identificar a família (Ranunculaceae) desta planta. Cada flor exibe uma dezena de sépalas amarelas que se curvam para esconder um feixe de outras tantas pétalas fininhas, sem graça mas com nectários apetitosos, e numerosos estames. Há decerto um momento em que estão ligeiramente abertas, mas não tivemos sorte em presenciá-lo; contudo, pode ver mais pormenores aqui, ou nesta ilustração da espécie T. chinensis. O nome do género, Trollius, que Lineu adoptou quando o descreveu em 1753, deriva da designação suíça trollblume (flor redonda) para esta planta.

Trata-se de uma herbácea perene de prados permanentemente húmidos e bosques frescos, margens de riachos e zonas turfosas de montanha. É venenosa para o gado que, meticulosamente, a ignora. Há populações magníficas de T. europaeus na Europa mais fria, mas na Pensínsula Ibérica só há registos dela na metade norte. Estes exemplares são da orla de um riacho em Somiedo, algures a caminho da reserva dos ursos pardos.

27/10/2015

Flores de perdição


Aconitum vulparia Rchb


Na viagem de volta da Cantábria, a estrada pareceu-nos perigosamente estreita, de tal modo que os inúmeros carros de turistas que por ali transitavam eram obrigados a dispor-se em fila ordeira. Era afinal uma impressão falsa, criada pelos rochedos gigantes, desfiladeiros temerosos e naves de arrepiar numa cordilheira montanhosa quase inacessível. Os exemplares desta planta, altos de uns 2 metros, com folhas palmadas muito divididas e inflorescências erectas ramificadas, estavam junto a um ribeiro em cujas margens pedregosas a gotejar se viam dezenas de exemplares de Pinguicula grandiflora. Reconhecemos o capuz das flores, mas a perdição-dos-lobos (wolfbane, monkshood, devil's helmet, queen of all poisons ou blue rocket) que conhecíamos da literatura (não a portuguesa: são raros os escritores nacionais que sabem os nomes e as características das plantas, ou que lhes concedem um protagonismo que vai além de matéria para cenário) tem flores roxas. Esse é o Aconitum napellus, o único que ocorre em Portugal, contando de momento no portal Flora-On com um só registo da subespécie lusitanicum algures num bosque em Trás-os Montes.

Sabendo quão peçonhentas são algumas das espécies deste género (incluindo a das fotos), não arriscámos sequer tocar numa flor. Mas podem analisar connosco alguns pormenores, ver aqui um corte em detalhe e comparar, no Flora-On, estas com outras flores complicadas da família Ranunculaceae (como as de Aquilegia ou Nigella, em contraste com as mais simples, do género Ranunculus). Cada flor tem cinco sépalas, duas laterais largas e achatadas, duas mais estreitas à frente e uma a formar um capuchinho. Dentro dele, estão duas pétalas com um pé alto e um esporão onde se guarda o néctar, indicando que os insectos polinizadores devem ter línguas finas e longas. Espreitando para o interior da flor, vê-se uma câmara com um molho de estames na base.

As plantas do género Aconitum são vivazes e há cerca de 150 espécies no hemisfério norte, cinco das quais se abrigaram na Península Ibérica. O A. vulparia é nativo da Europa e do norte de África; curiosamente, o epíteto específico refere-se a raposas, não a lobos. Algumas espécies inofensivas e de floração outonal, como o A. carmichaelii, são frequentes em jardins (não portugueses, claro). As tóxicas continuam, contudo, a ser as mais apreciadas, seja para facilitar a vitória dos heróis da mitologia, suprimir os rivais em narrativas de reis, princesas e bruxas, eliminar inimigos em histórias de detectives, caçar grandes presas à lança ou simplesmente como sugestão literária de veneno.

29/08/2015

Damas das searas


Nigella gallica Jord.


A disseminação das plantas dióicas (aquelas com flores unissexuadas, estando as masculinas e as femininas em pés diferentes) é um processo minado de riscos. Talvez por isso quase todas as plantas continentais que colonizam ilhas são monóicas, uma vez que o reencontro no novo habitat de um exemplar masculino com um feminino é uma questão de sorte. Mas as flores hermafroditas também têm uma empreitada difícil. Apesar de as estruturas masculinas e femininas estarem presentes na mesma flor, parece ser-lhes vantajoso activar cada uma no momento apropriado, poupando recursos e optimizando o procedimento que conduz à fertilização. Simplificando, digamos que a flor é sobretudo masculina no início da sua função e depois, até se formar o fruto, é a componente feminina que domina. Por isso, a polinização tem de ser regulada por um mecanismo que permita sincronizar estas fases. Enquanto apronta os sacos de pólen para que este possa ser levado eficientemente pelo polinizador, é preciso que os nectários se vão enchendo, a flor se vá aformoseando e, se possível, perfumando para que os insectos reparem nela. Depois os estames alongam-se, afastando-se da coluna central da flor onde protegeram o estigma, reduzindo desse modo a possibilidade de auto-polinização. Uma vez fertilizada, as sépalas e pétalas perdem a coloração e a flor liberta-se desses adereços, para que o que sobra passe despercebido aos predadores e o fruto se forme em segurança.

É este, em resumo, o ciclo de vida da flor de Nigella. Atentemos aos detalhes da espécie das fotos: as sépalas são grandes, de cor azulada; as pétalas menores, brancas, bilabiadas, com o lábio inferior bífido de ápices claviculados (como pontas de fósforo); os numerosos estames, que se separam na fase masculina da flor; e o estigma ao centro, inicialmente cingido pelos estames. As flores são solitárias e as mais altas são as primeiras a desabotoar, o que leva a crer que os polinizadores tendem a descer perto da haste mas a planta impede-os de encontrar mais flores viáveis, incentivando-os a mudar de pouso e assim garantindo que a polinização é cruzada. O fruto é uma cápsula grande com muitas sementes escuras (detalhe a que alude o nome latino Nigella).

Em Portugal ocorrem três espécies deste género. Todas parecem apreciar solos bem drenados e locais expostos à luz, como sejam searas e outros campos de cultivo. A N. damascena é a mais frequente, com folhas finas e muito divididas (para não perder muita água por evaporação, já que estas são herbáceas anuais de regiões quentes) a envolver a flor, dando-lhe um ar de castelo de conto de fadas ameaçado por silvas perigosas (chamam-lhe damas-entre-verde ou barbas-de-velho). Encontram-se em locais pedregosos de prados, olivais e pomares de sequeiro. A N. papillosa é um endemismo ibérico e, por cá, muito raro: no portal Flora On está registada apenas no Alentejo e nos concelhos transmontonos de Mogadouro e da Alfândega da Fé. A flor tem sépalas azul-violeta, anteras púrpura e um cabelinho denso de folhas. Em Julho, encontrámos junto ao rio Maçãs uns poucos exemplares da terceira espécie de Nigella, que se distingue das anteriores pela folhagem e pelos adornos das flores. A N. gallica é natural do sul de França e da Península Ibérica; as Floras indicam que, por cá, a sua distribuição se restringe à metade norte.

04/11/2014

Delfins, esporas & passarinhos


Delphinium halteratum Sm. subsp. halteratum


É pouco provável que quem viva em Manteigas alguma vez compre castanhas, não querendo isto dizer que não goste delas ou que dispense o magusto no São Martinho. Acontece que no Souto do Concelho, provavelmente o maior bosque de castanheiros em todo o país, as castanhas, pequenas mas deliciosas, são de uma abundância pródiga, e custam só o trabalho de as colher. Quem mora longe tem contudo que levar em conta os custos e a demora da deslocação, acabando por conformar-se em pagar por uma coisa que gente mais afortunada tem de graça ao pé da porta. É esse o nosso caso, por nunca visitarmos Manteiga na época certa que é Outubro a declinar, quando caem as castanhas e as folhas amarelecem e se preparam igualmente para cair.

Durante três anos consecutivos fomos ao Souto do Concelho entre o final de Junho e o início de Julho, das duas primeiras vezes para ver orquídeas, e da terceira, em 2013, para fotografar este delfim que tínhamos visto no ano anterior mas de que por imprevidência não registáramos imagens. Aquelas flores que por vezes julgamos reconhecer revelam-se afinal outra coisa quando as estudamos melhor. Já aqui mostrámos duas espécies de Delphinium: o D. pentagynum, que tem flores grandes, de um azul escuro e arroxeado, com pétalas laterais peludas, e vive em terrenos calcários pedregosos; e o D. gracile, mais esguio, de flores menores e de uma tonalidade mais clara. Pela cor das flores e pelo recorte das folhas, o D. halteratum parece-se mais com o primeiro, mas diferencia-se pelo esporão mais comprido, claramente revirado para cima, e pela ausência de pilosidade nas pétalas. Além disso, trata-se de uma planta anual (o D. pentagynum é perene) de tendências ruderais, aparecendo junto a caminhos e em terrenos incultos, sem preferência declarada por qualquer tipo de substrato.

As plantas anuais vivem sempre no fio da navalha: em cada ano têm que produzir sementes em quantidade bastante para assegurar a existência de uma nova geração no ano seguinte. Para que os polinizadores não faltem à chamada, há que recompensar generosamente os seus serviços com o néctar armazenado nas flores. Nas espécies do género Delphinium, cada flor é composta por cinco sépalas semelhantes a pétalas, uma delas prolongando-se no esporão, e por quatro verdadeiras pétalas situadas no centro da flor, as duas superiores dispondo de glândulas nectaríferas que se acolhem dentro do esporão. Para ter acesso à recompensa, o insecto visitante terá que se roçar nas anteras e no estigma, cumprindo assim, involutariamente, a tarefa para que foi convocado.

Assinale-se, para concluir, que em Portugal estão descritas duas subespécies de Delphinium halteratum: a subespécie nominal, representada nas fotos, e a subespécie verdunense. Não se distinguem pelas preferências ecológicas, mas sim por certos detalhes morfológicos: a subsp. halteratum tem uma inflorescência mais alongada e com maior número de flores, e as suas folhas na parte superior do caule são simples, enquanto que as da subsp. verdunense são trífidas.

24/06/2014

Destino trocado

Ranunculus paludosus Poir.
Desconfiamos do bom senso dos taxonomistas quando um ranúnculo como este, com vincada predilecção por lugares secos sobre solos pobres, arenosos ou pedregosos, recebe o epíteto de paludosus, indicador de preferências ecológicas exactamente opostas àquelas que a planta manifesta. Em nosso socorro, vem a Flora Ibérica esclarecer que o botânico francês Jean Poiret (1755-1834), autor da combinação, não quis usar de ironia ao escolher o nome Ranunculus paludosus: as plantas por ele descritas viviam mesmo em prados húmidos, e distinguem-se de outras que hoje recebem o mesmo nome por terem hastes mais ramificadas e mais robustas. É provável, segundo a mesma fonte, que esse amalgamento tenha que ser revisto, e que o "Ranunculus paludosus" de habitats secos venha a integrar uma espécie autónoma.

As plantas que vimos na Quinta das Carvalhas, no Douro, ocupando a berma de um caminho soalheiro e pouco frequentado, não ultrapassariam os 10 cm de altura. Tratando-se de um género em que a distinção entre espécies é por vezes problemática, convém notar, para uma identicação segura, o formato heterogéneo das folhas basais, que são todas longamente pecioladas mas variam de cordiformes a profundamente divididas (foto 4); e também (ver foto 3) a densa indumentação na haste e o cálice formado por sépalas patentes (ou seja, encostadas às pétalas e não reviradas para baixo, como sucede por exemplo no R. trilobus e no R. bulbosus).

Distribuído por toda a região mediterrânica, este Ranunculus paludosus de terrenos áridos só não faz o pleno das províncias portuguesas porque o Minho, culpado de excesso de pluviosidade, fica de fora. Como sucede com a maioria dos seus congéneres (contam-se mais de trinta só em Portugal), tem uma floração temporã, com início em Fevereiro, e esconde-se logo que o calor ameaça apertar. O Verão não é tempo de ranúnculos e são outras as flores a hastear a bandeira amarela.