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15/10/2013

Cipó-das-oito-chagas


Clematis vitalba L.



Nome comum: vide-branca; em espanhol chamam-lhe hierba de los pordioseros; o nome comum inglês, old man's beard, não distingue as várias espécies de Clematis
Ecologia: liana perene e caducifólia que aprecia orlas de bosques, sebes e margens de rios, mas também coloniza afloramentos rochosos, sobretudo calcários
Distribuição global: região mediterrânica, centro e oeste da Europa
Distribuição em Portugal: mais frequente no centro e norte, a oeste do território; há também registo da sua presença a sul, embora aí pareça rara
Época de floração: Junho a Setembro
Data e local das fotos: Agosto e Setembro de 2013, margens do rio Minho em Melgaço e Valença
Informações adicionais: planta de base lenhosa e folhas decussadas, com flores aromáticas de tépalas branco-esverdeadas pequenas (cerca de 1,5 cm de comprimento), agrupadas em panículas; os frutos são aquénios com uma pluma. Segundo o Guia de Campo — As árvores e os arbustos de Portugal Continental (Público/LPN, 2007), esta planta «quando esmagada em fresco forma um composto que irrita fortemente a pele, pelo que outrora foi usado para produzir chagas com as quais se simulava, conforme pretendido, miséria ou santidade.» O género Clematis abriga um endemismo ibérico, a C. campaniflora Brot., e uma outra espécie, a C. cirrhosa L., com uma distribuição muito restrita (Algarve e Baixo Alentejo) e que ainda não vimos.

21/12/2012

Ranúnculo ouriçado

Ranunculus arvensis L.


Nomes vulgares: ranúnculo-dos-campos, gata-rabiosa; corn buttercup
Ecologia: campos cultivados ou em pousio
Distribuição global: Europa, Ásia e norte de África
Distribuição em Portugal: referenciado em todas as províncias portuguesas com excepção da Beira Alta
Época de floração: Março (um pouco mais tarde no norte da Europa) a Agosto
Data e local das fotos: 19 de Maio de 2012, Macedo de Cavaleiros
Informações adicionais: herbácea anual pubescente com folhas caulinares liciniadas (recortadas em tiras estreitas); corolas de cor amarelo-limão, com cerca de 1 cm de diâmetro e farto néctar; sépalas patentes (abertas em ângulo quase recto) e cálice penugento; os frutos são aquénios espinhosos como ouriços; outrora tido como raro apenas no norte do país, este ranúnculo está hoje em declínio por causa do crescente uso de agro-químicos, fatalidade que comunga com o Agrostemma githago

14/12/2012

Ranúnculo de espadas


Ranunculus flammula L.


Nomes vulgares: centella, lesser spearwort; dizem que a designação vernácula em português é ranúnculo-flámula, mas tal afirmação não é verosímil
Ecologia: planta ripícola, de pauis, turfeiras, pastos húmidos e margens de cursos de água
Distribuição global: nativa de quase toda a Europa, noroeste de África, Macaronésia e oeste asiático
Distribuição em Portugal: há registos desta planta em quase todas as províncias portuguesas, e também nos Açores e Madeira
Época de floração: Março a Dezembro na Península Ibérica; no norte da Europa, entre Junho e Outubro; nas ilhas açorianas, de Maio a Novembro
Data e local das fotos: Fevereiro de 2012, lagoas de Bertiandos, Ponte de Lima (foto 1); Junho de 2012, Torreira (fotos 2, 3 e 4) e Alfena, Valongo (fotos 5 e 6)
Informações adicionais: herbácea vivaz e rizomatosa, tem hábito erecto (com cerca de 50 cm de altura, por vezes mais) ou rastejante, e caule estriado e glabro que se enraíza pelos nós; as folhas basais, de pecíolo longo, são lineares e de margens inteiras na variedade tenuifolius Wallr., lanceoladas e de margens serradas na variedade serratus DC.; as folhas caulinares superiores são mais estreitas e quase sésseis; as flores (pequenas chamas, como indica o epíteto flammula que Lineu escolheu) têm pé alto e são em geral solitárias, com uma corola que mede cerca de 1,5 cm de diâmetro e um cálice de cinco sépalas que parecem pétalas menores; pode ver-se um fruto na quarta foto

08/12/2012

Oiro sobre xisto

Ranunculus nigrescens Freyn


Nomes vulgares: em espanhol, hierba del humor
Ecologia: prefere solos xistosos, ricos em sílica, de prados, urzais ou pinhais
Distribuição global: Península Ibérica, mais abundante no noroeste
Distribuição em Portugal: há registos desta planta nas serras de Arga e Gerês (Minho), Marão, Larouco e Montesinho (Trás-os-Montes e Alto Douro), Açor e Estrela (Beira Litoral, Beira Baixa e Beira Alta); a Flora Ibérica indica porém que ela apenas ocorre em altitudes superiores a 950 metros, o que excluiria a serra de Arga
Época de floração: Abril a Julho
Data e local das fotos: Maio de 2012, serra do Gerês (fotos 2, 4 e 5) e serra do Açor (foto 1); Junho de 2012, serra da Estrela (foto 3)
Informações adicionais: este endemismo ibérico é uma planta vivaz de raízes tuberosas, pequena (não sobe em geral além dos 40 cm), com um caule peludo sem folhas (ou apenas com uma) que se apoia numa roseta de folhas reniformes, rugosas, com margens crenadas, e em cujo topo aparecem, na Primavera ou Verão, uma ou duas flores. O fruto, como na terceira foto, é um glomérulo de aquénios achatados com um espinho curvado

30/11/2012

Cartões amarelos


Ranunculus bullatus L.


Nomes vulgares: borboleta-bolhada, montã-do-Outono
Ecologia: Planta perene que prefere solo calcário de habitats em locais abertos e com alguma humidade
Distribuição global: Região mediterrânica e Península Ibérica
Distribuição em Portugal: Na região calcária no centro-oeste do país (Beira Litoral, Estremadura, Ribatejo), no sudeste (Baixo e Alto Alentejo) e no sul (Algarve)
Época de floração: Outubro a Janeiro
Data e local das fotos: 10 de Novembro de 2012, vale do Poio, Pombal
Informações adicionais: O epíteto bullatus alude a protuberâncias, semelhantes a bolhas, que algumas folhas exibem
Nota: Esta é a primeira de algumas fichas sobre o género Ranunculus



11/11/2012

A graça do delfim

Delphinium gracile DC.


Os marcos geodésicos são pilares cónicos ou piramidais de alvenaria que, no tempo anterior à medição electrónica das distâncias e aos satélites, ajudaram a medir o país (e a fixar em 2000 metros briosos a altura da serra da Estrela). Numa primeira aproximação, a cartografia plana de um mundo mais ou menos esférico exige engenho mas não tecnologia sofisticada. De um lugar elevado, com uma mira apontada a marcos de referência (cuja localização é conhecida com precisão), uma fita métrica e um transferidor, os geógrafos triangularam o país, determinando distâncias entre lugares pouco acessíveis do mesmo modo como, muitos séculos antes, astrónomos gregos haviam calculado a distância da Terra à Lua. Com o advento do GPS, os marcos tornaram-se obsoletos e foram reformados deste seu serviço público, embora a maioria continue de pé. Hoje têm outro encanto: a manutenção desvelada que continua a fazer-se da sua envolvente tem permitido que ali prospere uma flora notável.

Foi junto a um deste marcos, em Trancoso, que encontrámos, entre muitas outras plantas interessantes, dúzias de pés deste «golfinho» airoso e delicado, uma herbácea anual a que os ingleses chamam larkspur. Não parece abundante, a julgar pela distribuição até agora registada na Flora-On, embora não seja de ecologia exigente: vimo-la em terreno seco que parecia uma pastagem em pousio e noutra ocasião à beira de uma estrada em Minde. É nativa da Península Ibérica e do norte de África, mas naturalizada noutras paragens. O género tem cerca de 300 espécies, seis das quais ocorrem em Portugal, além dos híbridos de jardim com flores dobradas, inflorescências densas e cores mais variadas.

As folhas muito divididas e as flores com duas «saias» são característica dos Delphinium. Das cinco sépalas (parecem pétalas) que formam a camada exterior, a mais elevada termina num esporão onde duas das quatro pétalas internas se encaixam para aí esconderem chamativas gotas de néctar. Os polinizadores são em geral abelhões com língua comprida que baste para aceder a esta guloseima.

10/11/2011

A nadar em seco

Delphinium pentagynum Lam.
Esta espécie é vivaz e natural do centro e sul da Península Ibérica, e do norte de África. Dá-se melhor em clareiras de bosques, terrenos em pousio e margens de riachos com solos bem drenados. A haste floral atinge os 70 cm de altura; tem na base uma roseta de folhas caducas, palmadas, muito divididas e com pecíolo longo, e outras mais acima, esparsas e alternadas. A floração decorre entre Maio e Agosto, mas a data certa depende do habitat.

Seria necessário desmembrar estas flores (de cerca de 25 mm de largura em azul violeta) para se ver que têm quatro pétalas e cinco sépalas (que parecem pétalas, com cerca de 12 mm de diâmetro), uma das quais, a do topo, termina numa espora. As duas pétalas de cima produzem néctar e esticam-se até ao bordo da espora para nela o depositarem. Os insectos beneficiados por este formato são, naturalmente, os que têm língua comprida e afiada, e são estes de facto (além dos colibris, onde os há) os polinizadores mais habituais das plantas deste género.

Estas esporas chamam a atenção apesar de curtas por terem a ponta arrebitada para cima. Como cálice para néctar parece uma postura imprudente, o pitéu pode entornar-se. Mas o mais certo é que isso traga vantagem à planta, que corresponda a um estratagema para garantir uma polinização mais bem sucedida. Na verdade, desse modo os polinizadores têm de forçar o acesso ao néctar, e com isso roçar o corpo nas estruturas com o pólen (amarelo, logo à entrada) que é sua missão colectar e disseminar. Além disso, neste género é frequente que a distribuição de néctar pelas flores não seja equitativa, e que as populações organizem um esquema de recompensa. Funciona do seguinte modo: a maioria das flores não tem néctar (logo a inclinação da espora é irrelevante) e umas poucas têm muito néctar, estando quase ausentes flores com quantidades intermédias de néctar. E, portanto, como numa venda de rifas, os insectos têm maiores hipóteses de recompensa se visitarem mais flores à procura daquelas onde se concentra o alimento. Contudo, a parcimónia na distribuição da recompensa poderia levá-los a desistir demasiado cedo. Determinar a proporção ideal de flores com (muito) néctar entre as muitas flores vazias de modo a maximizar o número de visitas por insecto (e portanto optimizar a eficiência da polinização) é um problema matemático complicado de que estas plantas parecem ter descoberto a solução.

25/10/2011

Ruibarbo-dos-pobres

Thalictrum speciosissimum L.
Imagine um arbusto de aspecto frágil com um metro de altura, de folhagem esparsa e acinzentada como lava, encimado por vistosos penachos amarelos. Já está? Aí tem o figurino desta planta. Agora coloque bastantes exemplares na margem de um ribeirinho, rodeados por juncos e herbáceas de menor porte, e entenderá por que Lineu a designou, em 1758, por speciosissimum.

Setenta anos depois batia-se a primeira fotografia mas a divulgação científica apoiada em desenhos era, como hoje, dispendiosa. Por isso as descrições botânicas exigiam uma minúcia que as imagens a que acedemos actualmente dispensam, e as particularidades desta planta foram sendo vertidas nos vários nomes que recebeu: T. glaucum Desf. (pela cor da folhagem), T. flavum subsp. glaucum (Desf.) Batt (pelos fascículos de flores amarelas), T. costae Timb.-Lagr. ex Debeaux (porque o fruto é fatiado, tem «várias costas»). A designação aceite agora é, como mandam as regras, a primeira, de Lineu, ainda que seja a mais vaga de todas.

É uma planta vivaz, nativa da região mediterrânica oeste e Península Ibérica, ocorrendo em prados húmidos e juncais até aos 1600 metros. Sem as flores, de Primavera-Verão, com estames salientes e 4 a 5 tépalas, reunidas em densos corimbos, não é fácil dar por ela. As folhas compostas, de pecíolo longo e nervação proeminente na face inferior, com 3 a 4 dentinhos no ápice e estípulas ovais ajudariam na identificação, não fosse esta uma espécie que, no sul da Península, exibe grande variação morfológica. O melhor mesmo é irem vê-la ao Gerês.

(O ruibarbo é a poligonácea asiática Rheum officinale Baill., com uso medicinal e culinário.)

19/07/2011

Bafo dourado




Ranunculus cortusifolius Willd.

A abundância de bovinos nas pastagens, conjugada com o nevoeiro que tudo transforma em borrão difuso, produz efeitos curiosos. Alguém com tendências surrealistas terá imaginado que as manchas amarelas nas bermas dos caminhos provinham do ar expelido pelos ruminantes, e o Ranunculus cortisofolius ficou a chamar-se bafo-de-boi. Isto nos Açores. Na Madeira, onde a mesma espécie também é nativa, baptizaram-na de doiradinha, nome que pode sem embaraço ser explicado a turistas estrangeiros.

O bafo-de-boi ou doiradinha é um ranúnculo que impõe respeito; a seu lado, os pobres ranúnculos continentais são seres raquíticos e insignificantes. Tudo nele é excessivo: as folhas coriáceas, com 30 cm de diâmetro; as hastes que ultrapassam 1 metro de altura; as vistosas flores dispostas em corimbos amplos. Houve até quem lhe tivesse chamado, muito apropriadamente, Ranunculus megaphyllus, mas o nome que prevaleceu, por ser mais antigo, foi R. cortusifolius. Ambos os epítetetos, megaphyllus e cortusifolius, aludem às qualidades da folhagem: o primeiro ao seu gigantismo, o segundo à sua semelhança com as folhas da Cortusa matthioli, planta alpina da família das prímulas.

De todas as ilhas dos Açores, o bafo-de-boi só não frequenta a Graciosa e Santa Maria. No entanto, tirando as Flores e o Faial, parece só sobreviver em ravinas ou encostas íngremes, em nichos mais ou menos inacessíveis. Em contrapartida, nas Flores, e sobretudo na metade ocidental da ilha, ele aparece por todo o lado, enfeitando estradas e caminhos, crateras, ribeiras e quedas de água. Na época de floração (Abril-Junho), rivaliza em visibilidade com as exóticas (e daninhas) hortênsias. E a variação de altitude não é coisa que lhe importe, pois vi-o na Fajã Grande, quase ao nível do mar, mas também perto do Morro Alto, acima dos 700 metros.

16/06/2011

Anémona de outros bosques


Anemone nemorosa L.

Além dos sinos azuis, há outras plantas de filiação nórdica que em Portugal nunca avançaram muito para cá da fronteira galega. Uma delas é a Anemone nemorosa, espécie de que as duas ou três populações existentes no planalto de Castro Laboreiro são as únicas que se conhecem em território nacional. A existência da anémona-dos-bosques em Portugal só foi confirmada em 1999 pelos botânicos Francisco Barreto Caldas, João Honrado e Henrique Nepomuceno Alves. Até então tinha havido uma história de equívocos remontando a Brotero, que identificou como sendo A. nemorosa a planta que hoje designamos por A. trifolia subsp. albida, e que é mais ou menos frequente no norte de Portugal. De facto, as duas anémonas têm aspecto semelhante, são ambas de floração temporã, e comungam uma preferência por bosques caducifólios húmidos. A distinção entre elas faz-se sobretudo pela folhagem: as folhas da A. nemorosa têm margens marcadamente lobadas, a ponto de por vezes os três folíolos se converterem em cinco (como na foto).

Estas poucas plantinhas que encontrámos com certa dificuldade, em dia de chuva — e as flores da anémona entristecem irremediavelmente com um aguaceiro —, são uma importante achega à nossa plena integração europeia. Antes de 1999, éramos, com a Islândia, um dos dois países europeus onde a Anemone nemorosa nunca tinha sido avistada. Depois disso ficou a Islândia sozinha sem as suas anémonas e com os seus vulcões. Até que a economia, pressurosa, veio restabelecer, com o défice no PIB e a bancarrota, os laços de penúria entre os dois países.

28/12/2010

Amarelo na pedra



Ranunculus bupleuroides Brot.

As plantas não aquáticas do género Ranunculus são fáceis de identificar pelo amarelo por vezes envernizado das pétalas que rodeiam um festivo centro de estames. Tanto assim que, sem querer, as relegamos em benefício de espécies que nos propõem desafios mais intrincados. Contudo, por nos depararmos frequentemente com as de porte rasteiro e folhas finamente divididas, este exemplar de talos que chegam aos 60 cm de altura e folhas elípticas recebeu atenção adicional. Ainda bem, como lerão.

Trata-se de um quase-endemismo português, do norte e centro do país, ocorrendo ainda esparsamente na Galiza perto da fronteira. E só abunda em ambientes secos de montanha com solo rico em sílica. É erva tenra mas vivaz, com folhas basais longas (~ 8 cm) e largas (~ 2 cm), de nervuras paralelas e margens inteiras, e com pecíolo fino que pode atingir três vezes o comprimento da lâmina; as folhas caulinares são sésseis. Floresce entre Março e Junho, e as cinco ou mais pétalas são de um matiz de amarelo invulgarmente claro. Como é usual no género, os frutos são aglomerados globosos de aquénios, cada um com um bico.

Ranunculus significa, em latim, rã pequena, que associamos a lugares alagados, o habitat preferido por muitas espécies deste género. Já aqui explicámos a origem do epíteto bupleurum; o sufixo oides alude à semelhança das folhas com as deste género.