Mostrar mensagens com a etiqueta Rios. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Rios. Mostrar todas as mensagens

27/05/2013

Bemposta no seu sossego



Na Nova Flora de Portugal, Amaral Franco designa-a Terra Quente e, no mapa que acompanha a obra, podemos vê-la como uma faixa estreita a acompanhar o rio Douro, desde a fronteira com Espanha, com uns meandros pelo interior do nordeste do país, a chamada Terra Fria. Ali o solo é predominantemente ácido, de xisto e granito, com pelo menos três excepções importantes: os afloramentos de calcário cristalino onde revemos parte da flora das serras de Aire e Candeeiros; as ilhas ultrabásicas onde uma mão-cheia de plantas singulares condizem com o carácter extraordinário desse torrão, algumas das quais só existem ali; e os veios de material calcário que permeiam as rochas e alimentam herbáceas raras de que vos daremos conta em breve. Não há outro lugar assim.

Aphyllanthes monspeliensis L.


Este junco-florido lembra um cravo, mas as pétalas não têm o ápice dentado e são azuis. Sem flores, dificilmente daríamos atenção à ramagem de escapos fininhos que parece um capim crescido. Em vez de folhas [o nome do género deriva do grego anthos (flor) + a (sem) + phyllon (folha)], enrolam-se nos talos umas bainhas de 3 a 10 cm de comprimento, verdes ou avermelhadas. Há quem diga que as flores se comem e são saborosas, mas a população que vimos em Bemposta não era suficientemente grande para que ousássemos estragar uma flor. É nativa do sudoeste da Europa (foi originalmente descrita a partir de exemplares em Montpellier) e norte de África; na Península Ibérica ocorre sobretudo na metade este; em Portugal, só se conhecem populações em sítios pedregosos expostos ao sol, de solo seco e arenoso, nas margens do percurso do rio Douro na Terra Quente.

Esta é uma herbácea perene, sustentada em grande parte do ano por um rizoma longo. Nas fotos observam-se mais alguns detalhes: as hastes estreitas, glabras, lisas e altas (até cerca de 60 cm); as flores, de corola assalveada e tépalas azuis com um veio mais escuro (podem ser brancas, mas não vimos nenhuma dessa cor), quase sempre solitárias no topo das hastes, protegidas por um invólucro de várias brácteas castanhas com textura de papel de embrulho; na imagem aumentada da flor podem ainda notar-se os seis estames com anteras azuis encostados às tépalas e a torre trífida com o estilete ao centro. No Outono, haverá sementes negras de pele rugosa.

Esta espécie, única do género Aphyllanthes, já esteve na família Liliaceae. Porém, é tão diferente desses primos que se duvidou de um tal parentesco e se criou uma família só para ela, a Aphyllanthaceae. Finalmente, a genética foi chamada a decidir a justeza de uma tal separação e, como resultado, a planta mudou-se para a família Asparagaceae. Tem mais de uma dezena de nomes vernáculos em espanhol ou catalão, mas por cá, não há registo oficial de nenhum. Contudo, quem vive na bacia do Douro fronteiriço certamente reparou nela. Teremos por isso de ouvir a senhora idosa que se cruzou connosco, em passo vagaroso apesar da chuva, com uma colheita generosa de flores ao colo.

08/04/2013

Barlia Douro

Barlia robertiana (Loisel.) Greuter [= Himantoglossum robertianum (Loisel.) P. Delforge]
Antes de se decidirem instalar nalgum local, as orquídeas apresentam um caderno de encargos detalhado: a natureza do solo, o maior ou menor grau de exposição solar e a competição de outras espécies são outras tantas exigências que têm de ter a resposta certa sob pena de elas recusarem a localização proposta. Some-se a isto que o grau de perturbação deve ser mínimo: o uso de herbicidas e as mobilizações frequentes do solo são incompatíveis com a sua permanência. Assim, a presença de orquídeas, além de motivo de regozijo estético, é testemunho de um habitat bem conservado.

Graças às suas minúsculas sementes, facilmente transportadas pelo vento a grandes distâncias, as orquídeas estão continuamente a tentar expandir o seu território. Se não é fácil reunir as condições para uma colonização bem sucedida, as probabilidades aumentam se o âmbito de experimentação for muito vasto. Pode não haver orquídeas em todo o lado, mas não é por falta de tentativas.

Dito isto, não é excessiva surpresa reencontrar na margem sul do Douro, perto de Barca d'Alva, uma boa população da salepeira-grande, orquídea perfumada e robusta, capaz de ultrapassar os 90 cm de altura, que só conhecíamos dos maciços calcários entre Coimbra e Setúbal. É um facto que, nesta migração de 150 Km, ela terá trocado o solo alcalino onde tradicionalmente se acolhe por um substrato ácido; mas, embora os calcários sejam propícios a uma maior variedade e abundância de orquídeas, eles não constituem um requisito essencial para boa parte das nossas orquídeas silvestres.

Foi André Carapeto, um dos mais activos colaboradores do Flora-On, quem em 2009 descobriu a Barlia robertiana nesse retalho do Alto Douro. As plantas que encontrámos no início de Março, talvez umas quarenta, moravam a 5 Km daquelas que Carapeto avistou. E não é essa a única espécie de orquídea que lá ocorre, pois observámos outras, ainda na forma de rosetas, que não pudemos identificar.

rio Tua em Caldas de S. Lourenço / rio Douro em Almendra
A mais recente divisão do país em provincías nunca teve, ao que consta, qualquer relevância administrativa. Contudo, as floras de referência (e, em particular, a Flora Ibérica) usam-na para descrever a distribuição das diversas espécies em Portugal. Só por isso tem algum interesse constatar que as estações de Castelo Melhor e de Almendra, na linha do Douro, calham na província de Trás-os-Montes e não da Beira Alta. O que é de todo objectivo, porém, é que ainda nos faltava ver a Barlia robertiana a norte do Douro, bem no coração de Trás-os-Montes. Um rio, mesmo um rio tão respeitável como o Douro, aqui e ali pachorrentamente engordado pelas muitas barragens, é obstáculo de somenos à propagação de orquídeas. Verdade essa que confirmámos no vale do rio Tua, ao encontrarmos, junto à estação de S. Lourenço, uma população numerosíssima da salepeira-grande, que só não nos encheu de alegria porque sabemos que ela, assim como o caminho de ferro, está condenada ao afogamento a breve prazo.

14/06/2012

Palomita e os dois rios

Lagoa, Macedo de Cavaleiros: rio Azibo a desaguar no rio Sabor
No livro O senhor Kraus, de Gonçalo M. Tavares, um Chefe recebe dos seus auxiliares um mapa do país. Não para saber onde estão os montes, mas para que nenhum metro quadrado escape às suas ordens. Pequeno e colorido, como a realidade, ali o Chefe apenas localiza com destreza o litoral e o interior. E é neste, por achar que é mais seco, que o Chefe tem o cuidado de escrever «chuva», esperando ser obedecido, ou manchar de vinho. A apreciação que com frequência fazemos deste território progressivamente esvaziado de gentes não se afasta muito desta caricatura. Esquecemo-nos até das plantas, como se elas não conseguissem sobreviver por lá sozinhas, e imaginamos uma secura sem remissão. No nordeste transmontano há prados com uma biodiversidade invejável; e, mesmo em caso de abandono, o solo pode manter-se rico em nutrientes, e ser o ideal para as herbáceas que tinham sido expulsas pelos cultivos.

Platycapnos spicata (L.) Bernh.
Encontrámos esta planta anual a caminho do rio Sabor, na orla de uma terra saudável e recheada de malmequeres, ao serviço das inúmeras abelhas de um apicultor que nos pediu sossego para não as perturbarmos. É um regalo para os fotógrafos. As folhas são penatissectas e glaucas, quase azuis, e acompanham o talo erecto até cerca de 30 cm de altura. A inflorescência em espiga tem mais de 40 flores com cerca de 6 cm de comprimento, esbranquiçadas ou rosadas, cada uma com uma unha amarela no topo e a ponta enegrecida. Das quatro pétalas, a superior é maior e tem um esporão, as outras estão unidas até à base, protegendo dois estames que vigiam um nectário. O fruto é rugoso e achatado (formato a que alude o nome do género), com uma semente.

Quando a vimos, julgámos que fosse uma Fumaria (e, de facto, Lineu designou-a por Fumaria spicata), género que temos evitado porque, com raras excepções, é muito difícil de destrinçar. A inflorescência muito compacta desmente contudo essa filiação. A Platycapnos spicata ocorre no sudoeste da Europa, norte de África e Macaronésia, e é a única espécie do seu género de que há registo em Portugal.

29/04/2011

Ponte Feia

Rio Homem (Mata da Albergaria, Gerês)

The tyrants and deceivers of mankind in this matter have been the Greeks. All their splendid work for civilization ought not to have wholly blinded us to the fact of their great and terrible sin against the variety of life. It is a remarkable fact that while the Jews have long ago been rebelled against and accused of blighting the world with a stringent and one-sided ethical standard, nobody has noticed that the Greeks have committed us to an infinitely more horrible asceticism — an asceticism of the fancy, a worship of one aesthetic type alone. (...)

It is extraordinary to watch the gradual emasculation of the monsters of Greek myth under the pestilent influence of the Apollo Belvedere. The chimaera was a creature of whom any healthy-minded people would have been proud; but when we see it in Greek pictures we feel inclined to tie a ribbon round its neck and give it a saucer of milk. Who ever feels that the giants in Greek art and poetry were really big — big as some folk-lore giants have been? In some Scandinavian story a hero walks for miles along a mountain ridge, which eventually turns out to be the bridge of the giant's nose. That is what we should call, with a calm conscience, a large giant. But this earthquake fancy terrified the Greeks, and their terror has terrified all mankind out of their natural love of size, vitality, variety, energy, ugliness.

Nature intended every human face, so long as it was forcible, individual, and expressive, to be regarded as distinct from all others, as a poplar is distinct from an oak, and an apple-tree from a willow. But what the Dutch gardeners did for trees the Greeks did for the human form; they lopped away its living and sprawling features to give it a certain academic shape; they hacked off noses and pared down chins with a ghastly horticultural calm. And they have really succeeded so far as to make us call some of the most powerful and endearing faces ugly, and some of the most silly and repulsive faces beautiful. (...) The Jew at the worst told a man to dance in fetters; the Greek put an exquisite vase upon his head and told him not to move. (...)

The phrase 'grotesque' is a misleading description of ugliness in art. It does not follow that either the Chinese dragons or the Gothic gargoyles or the goblinish old women of Rembrandt were in the least intended to be comic. Their extravagance was not the extravagance of satire, but simply the  extravagance of vitality; and here lies the whole key of the place of ugliness in aesthetics.

G.K. Chesterton, The defense of ugly things (The Defendant, 1901)?

08/04/2011

A terceira margem do rio


Rio Homem (visto da ponte S. Miguel, Mata da Albergaria, Gerês)

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente – minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.

Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos. Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.

Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: – "Cê vai, ocê fique, você nunca volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: – "Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retomou a olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo – a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.

Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia.

João Guimarães Rosa, Primeiras estórias (Nova Fronteira, 1988)

11/02/2011

O Minho tem o romanesco da árvore e o romance da família


Rio Arado, Gerês

O Minho lucra muito, visto assim de passagem, na imperial de uma diligência, lá muito no galarim do tejadilho, onde as moscas não se álem a ferretoar-nos a testa e a sevandijar-nos os beiços convulsos de lirismo.

Viu V. Ex.ª perfeitamente o Minho por fora: as verduras ondulando nas pradarias, os jorros de água espumando na espalda dos outeiros, os fragoedos às cavaleiras dos milharais, a amendoeira a florejar ao lado do pinheiral bravio, as ruínas do paço senhorial com os seus tapetes de ortigas e guadalmecins de musgo ao pé da chaminé escarlate e verde do negreiro a golfar rolos turbinosos de fumo indicativo de panelas grandes e galinhas gordas, lardeadas de chouriços. Simultaneamente, ouviu V. Ex.ª o som da buzina pastoril ressonando a sua longa toada nas gargantas da serra; viu os espantadiços rebanhos alcandorados nos espinhaços dos montes, e os rafeiros à ourela das estradas com os focinhos nas patas dianteiras, orelhas fitas e olhar arrogante. Reparou decerto na pachorra estóica do boi cevado, que parece estar contemplando em si mesmo a metempsicose em futuro cidadão de Londres mediante o processo do bife. Tudo isto, que é a forma objectiva do Minho romântico, viu V. Ex.ª. (...)

Mas o que D. António da Costa não teve tempo de ver e apalpar foi o miolo, a medula, as entranhas românticas do Minho; quero dizer – os costumes, o viver que por aqui palpita no povoado destes arvoredos onde assobia o melro e a filomela trila. (...)

É neste meio que eu me abalanço a esgaratujar novelas.

Camilo Castelo Branco, O Comendador (Novelas do Minho, 1875)

06/09/2010

Água, sal & sol


Ponte sobre o rio Cávado - EN 308-4


Foz do Cávado

Cumprido mais um mês de Agosto, um relativo sossego terá regressado à foz do Cávado. É um rio que agrega muitas das paisagens marcantes do norte de Portugal. No Gerês vemo-lo desgraciosamente inchado por duas grandes barragens: a da Paradela e a da Caniçada. É lá que os aceleras de estrada se mudam para a água e dão asas à sua compulsão velocista com redobrado estrépito. Antes de chegar às barragens, porém, ou depois de escapar delas, o Cávado é um fio de água límpida saltitando de rocha em rocha com muitas árvores a servir-lhe de escolta. Junto à ponte sobre o rio logo acima da Paradela reúnem-se tantas e tão diversas plantas higrófilas (como esta) que não conheço local mais indicado para uma aula de botânica ao ar livre.

No estuário do Cávado há muito que ficou para trás o torturado relevo do Gerês. Em vez de cortar a direito para a foz, o rio ensaia uma curva para entrar no mar segundo uma trajectória quase tangencial à linha da costa. É na restinga que acompanha o rio nas suas centenas de metros finais, e também no sapal que se estende pela margem esquerda entre os núcleos urbanos de Fão e Esposende, que se encontra a justificação para se ter incluído esta área no Parque Natural do Litoral Norte (PNLN). Mas a ocupação desregrada de caminhos, dunas e pinhais pelos veraneantes, juntando-se à construção caótica que avassalou a zona (torres de Ofir e não só), torna inverosímil que este seja um espaço protegido.

Que há valores naturais a proteger, não se duvida. Porém essa protecção não surge magicamente com o decreto que cria uma área protegida. É preciso impor regras e vigiar o seu cumprimento, tarefas em que o PNLN é manifestamente omisso.


Armeria maritima Willd.

Uma das preciosidades do sapal (ou juncal) do Cávado, também presente na foz do vizinho rio Neiva, é a Armeria maritima, que florece vistosamente na Primavera e se dá bem em águas salobras. Em Portugal há muitas espécies de Armeria, mas aquelas que preferem zonas costeiras (como a A. welwitschii) estão concentradas no centro e sul do território. Pelo litoral norte ficamos só com a A. maritima e a mais discreta A. pubigera, que no nosso país são exclusivas do Douro Litoral e do Minho.

A A. maritima tem uma distribuição global muito ampla, abrangendo a América, a Europa e a Ásia. Na Europa ocorre não só em toda a costa atlântica desde o norte de Portugal, mas também na Grã-Bretanha, Itália e Balcãs.

24/05/2010

Sanduíche de seixos



Sandwich, condado de Kent, Inglaterra

Agora a moda parece ter passado, mas há dois ou três anos os escaparates das livrarias enchiam-se de tratados da pequena história. Objectos ou gestos triviais também tiveram uma origem e registaram uma evolução; a tarefa do mini-historiador de curta mas diligente erudição era a de catar, no turbilhão da história humana, as referências, por muito ocasionais e ligeiras que fossem, ao objecto de que se ocupava. Tivemos assim, ou poderíamos ter tido, a História do beijo, a História do pastel de nata e os Gatos que fizeram história. Imperdoavelmente, parece que ainda ninguém se ocupou da História da sanduíche. Foi também para remediar essa lacuna que visitei o lugar onde tudo terá começado: a vila de Sandwich, que fica na costa sudeste de Inglaterra, no condado de Kent, a hora e meia de comboio de Londres.

Há coisas tão inatas à condição humana que parece descabido procurar saber quem as inventou. Exemplos óbvios são a bofetada, o calçado e, claro está, a sanduíche. A ideia de preparar um alimento com duas fatias de pão e qualquer coisa no meio deve ser tão antiga como o pão. Ainda assim, John Montagu (1718-1792), quarto conde de Sandwich, adepto avant la lettre da fast food, deu provas de tamanha predilecção por essa iguaria que acabou por lhe emprestar o nome. E, hoje em dia, há mesmo quem julgue - gente com fraca noção de como evoluiu a humanidade - que foi ele o inventor da sandes. Faz falta um livro sério e fundamentado que ponha os pontos nos is.

A visita a Sandwich foi a primeira etapa da pesquisa. De facto, uma breve vistoria aos estabelecimentos locais de comes e bebes - não mais que meia-dúzia, entre pubs e salões de chá - revelou que todos eles incluem a especialidade local (a sanduíche) na ementa. Isso é sem dúvida denunciador de uma conexão histórica, ainda que idêntico fenómeno se observe em todas as cidades e vilas inglesas. E mostra como os indígenas, com uma capacidade de encaixe admirável, ainda toleram, decorridos dois séculos e meio, a graçola de alguém pedir uma sanduíche em Sandwich. Talvez ela não seja má para o negócio.



Rio Stour & Sandwich Bay

Ao contrário da sanduíche que me serviu de almoço, a informação recolhida in loco é de digestão demorada. Por isso deixo em suspenso a questão da génese da sanduíche e falo um pouco da vila. Sandwich é atravessada pelo rio Stour, que vemos em cima acompanhado por uma galeria de salgueiros e de choupos-brancos. Foi um porto importante em tempos medievais, mas nos últimos séculos, num movimento inverso ao que se deu no nordeste de Inglaterra, a linha da costa recuou várias centenas de metros. A vila está hoje muito distante da foz do Stour, que executa várias curvas caprichosas antes de se lançar no mar.

Junto à costa, em Sandwich Bay, estendem-se vastos campos de golfe e uma zona residencial de acesso restrito. Quem não for morador só pode passar de automóvel se pagar uma portagem de seis libras. Se se deslocar a pé ou de bicicleta não paga nada, mas também não encontra, junto à praia (que é de seixos e não de areia), qualquer estabelecimento aberto ao público. A rejeição do turismo de qualquer tipo não poderia ser mais óbvia: trata-se de um enclave de privilegiados, e os visitantes não são bem-vindos.

Talvez por isso mesmo, Sandwich Bay guarda, nas margens dos campos de golfe e ao longo da estrada costeira, várias espécies de flora, incluindo orquídeas, que vão rareando no resto da Grã-Bretanha. A primeira semana de Maio não era ainda a altura para observar a maioria dessas preciosidades, mas valeu a pena ver como o mar não se enrolava na areia à margem da estrada deserta.

05/02/2010

Mansos de Ansião


Rio Nabão

Abandonada a A1 na saída para Pombal e percorridos breves quilómetros, quase julgamos ter entrado noutro país. Ansião e os municípios vizinhos (Penela, Alvaiázere, Pombal e Soure) prenunciam a paisagem dominante do maciço calcário estremenho, que começa mais a sul, em Leiria, e se prolonga pelo Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros. Bosques de carvalho-cerquinho (Quercus faginea), ainda com a última folhagem seca a desprender-se dos galhos, alternam à beira da estrada com azinhais indiferentes ao frio cortante de Janeiro. Uma ondulação mansa, onde sobressaem meia-dúzia de elevações de escassa altitude a que as populações locais chamam serras, proporciona os meandros e desníveis essenciais à diversidade do panorama. Lá nos cumes, aonde se pode chegar por estradões nem sempre asfaltados, há moinhos velhos e ventoinhas novas; e, entre afloramentos calcários, irrompe uma vegetação rasteira de tomilho e carrasco feita de encomenda para abrigar orquídeas.

Como tantas vilas ou cidades portuguesas, Ansião não se distingue pelos seus monumentos nem pela singularidade arquitectónica, e só mesmo o turismo de natureza pode trazer um forasteiro a estas paragens. Mas aí o concelho joga forte, e da nossa parte já marcámos bilhete de regresso, em Março e Abril, para caçarmos orquídeas - deixando-as contudo nos exactos locais onde as detectarmos - e conhecermos melhor os carvalhais que nos namoram da estrada.

Na sede do concelho, junto ao novo posto de turismo, ficamos de olho no olho d'água do Nabão e no esmerado arranjo da envolvente. Os terrenos calcários são comprovadamente porosos, e o leito de pedras lisas por onde deveria deslizar o Nabão só no Inverno costumava ser visitado pelas águas. No resto do ano, o rio prosseguia uma sigilosa existência subterrânea. Para obstar a este esconde-esconde, a Câmara fez instalar um motor de água oculto por discreta construção cilíndrica. Agora, pelo menos ali, há rio durante o ano inteiro.

E, lá para trás, há os pinheiros-mansos da Mata Municipal que nos acenam de longe, com os troncos altos dando testemunho dos séculos já vividos. A mata pouco mais terá que um hectare, mas esta dezena de pinheiros altivos, a que se juntam carvalhos-cerquinhos e carvalhos-negrais (os únicos que vimos por estas paragens), faz dela uma jóia inestimável.


Pinus pinea L. - Mata Municipal de Ansião

23/01/2010

Rio Homem


      A nossa terra encolherá
e antípoda contra antípoda
se encostará.
Então, de pés unidos,
o planeta já sumido,
enfim conheceremos
o terreno que pisamos.

Piet Hein, Gruks (Moraes Editores, 1973, trad. David Glyn Evans)

22/01/2010

Vila do Gerês



Rio Gerês

Fui algumas vezes ao Gerês quando era criança. Mas, para a minha família, «Gerês» significava esta pequena vila: um par de ruas, um largo ajardinado com tanque ao centro e colunata em volta, os edifícios termais, o parque atravessado por uma amostra de rio onde se podiam alugar botes e gaivotas. Nunca avançámos para norte para admirar a mata de Albergaria, cuja existência aliás desconhecíamos, nem a curiosidade nos levou a espreitar Espanha aqui tão perto. Para fronteira bastava-nos Valença, e o mundo natural não tinha para nós qualquer interesse. Julgo que os meus pais são uma amostra típica de toda uma geração que migrou das pequenas vilas do interior para a metrópole: o corte com a natureza, representativa do atraso de vida de que fugiram, foi radical e completo. Aos poucos, as novas gerações regressam aos lugares antigos, mas como turistas, e sabendo-se impotentes para salvar aquilo de que só agora compreendem o valor.

E a vila, tantos anos depois, está objectivamente mais pequena, embora tenham surgido alguns arremedos de galerias comerciais. Não é só efeito da mudança de escala do olhar infantil para o adulto. É que entre 1 de Novembro e 30 de Abril quase tudo está fechado: as termas e o parque, por assim mandar o calendário; e a informação turística, talvez por acidente. Ficamos o tempo de almoçar e, batida uma meia dúzia de fotos, ala que se faz tarde, pois a vila nada tem que nos prenda e há tantas árvores e rios à nossa espera. Não que aqui não haja árvores, mas as do parque estão inacessíveis e os plátanos em volta do largo sofreram uma poda de apertar o coração. Por deferência para com a localidade, que até me é simpática e onde não almoçámos mal, publico uma foto mentirosa, em que quase não se distinguem as árvores mutiladas.

01/01/2010

Por vezes são os homens que dormem


Rios Cávado, Gerês e Caldo

Nem sempre é Deus. Se no mundo existirem mais uniformes que saias curtas, é porque nesse ano a guerra tem mais venda do que as paixões. E perante isto, procurarás mudar de cidade ou de ano.

Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Campo das Letras, 2004)


Albufeira da Caniçada

09/12/2009

Na rota dos três patinhos

Nas loas que aqui tecemos à EN 222, muito gerais e abstractas, não mostrámos as variadas paisagens que se desfrutam entre Vila Nova Gaia e Peso da Régua. Faz-se pois necessária uma adenda, quanto mais não seja como comprovativo de que percorremos realmente esses 130 km de estrada. Mas, antes de comentarmos as imagens, queremos aqui lavrar um protesto. Não muito antes de Castelo de Paiva, uma seta num cruzamento faz-nos abandonar o antigo traçado da EN 222, desviando-nos para uma moderna estrada com separadores centrais e viadutos. Ao longo de uma dezena de quilómetros, esse troço de quase auto-estrada usurpa o título e as funções da velha estrada, que só reencontramos à saída da vila. Ficámos muito desagradados com essa contrafacção de mau gosto.



Quase tanto como as rotundas, os parques de merendas são um dos «melhoramentos» fetichistas mais usados pelos nossos autarcas para ostentarem obra feita. Há, porém, um paradoxo difícil de aceitar: apesar de as rotundas serem tantas vezes trambolhos ofensivos, toda a gente é obrigada a dar-lhes uso; mas os parques de merendas, claramente úteis e de inspiração benfazeja, são em regra ignorados pelos seus potenciais utentes.

Findo o desabafo preambular, diga-se que a foto acima foi tirada do Parque de Lazer e Miradouro da Trincheira, na freguesia de Oliveira do Douro, concelho de Cinfães. Obra estreada há pouco, ainda com cartaz a explicar quem mandou, quem financiou e quem executou, não havia ninguém, apesar da hora propícia, às voltas com farnel nas mesas e bancos de pedra. Do miradouro, tínhamos o rio só para nós. É ali na outra margem, numa encosta com aldeias, campos e arvoredo, que a linha férrea, depois de cruzar o rio Tâmega e o túnel de Marco de Canavezes, encontra finalmente o Douro. Da estação de Mosteirô acabara de sair um comboio para a Régua; ou, como se diz na gíria ferroviária, acabara de partir uma composição procedente de Porto-Campanhã com destino à Régua. Como o Inter-Regional 867 - tal era o seu nome de código - vinha dentro do horário, bem merece o prémio de aparecer na foto.



A vila de Resende ufana-se de ser a capital da cereja, e qualquer português com um mínimo de paladar e de discernimento saberá reconhecer a justeza do título. As cerejas têm a sua época e a deste ano já passou há muito, mas, depois de nos terem deliciado o paladar com os seus frutos, as árvores seduzem-nos a vista com este postal de Outono. E, se juntarmos à lista de atractivos a floração logo à saída do Inverno, são três as razões que as cerejeiras nos oferecem, em três alturas do ano distintas, para visitarmos Resende à boleia da EN 222.



É a derradeira curva do rio antes da Régua. O relevo amenizou-se, as vinhas substituíram as árvores nas encostas, o casario adensa-se. Apesar da queda demográfica de quase cinco mil habitantes nos últimos trinta anos (o concelho tem hoje menos de dezoito mil moradores), Peso da Régua é a cidade mais importante de todo o Douro vinhateiro: cidade utilitária, de negócios, armazéns e entrepostos, que cresceu alimentada pela linha férrea e nunca teve disposição para se embelezar. Hoje, com os prédios desmesurados que sobressaem da malha urbana, e apesar do arranjo menos mau da marginal, é uma urbe decididamente feia. Por isso os turistas preferem fazer paragem no Pinhão e não na Régua, e por isso a cidade está ausente da nossa última foto, tirada à distância de uma curva.

03/12/2009

Árvores




Plátanos (Platanus orientalis var. acerifolia) - Caldas de Moledo

Que árvores tem a Régua? Três ou quatro, e essas mesmo desenhadas num papel ou esculpidas em cimento armado. Se assim não fossem, já não existiam. A Régua, por influência do nome, só admite árvores regulares. Árvores que cresçam torto, pisem o risco ou abram os braços, não servem. (...) Seja assim nos sítios em que as árvores irregulares estorvem. Fora desses sítios, plantem-se árvores que vivam à lei da Natureza. (...)

[Admite-se que um belo renque de árvores, numa rua, possa incomodar o Menino Isaac, tão melindroso, que se constipa quando vê uma folha. Arrumadas as árvores num parque, é de supor que não incomodem ninguém.]

Parque, salvo seja, é coisa catita, imaginada e mantida por cabeleireiro. A Régua tem obrigação de idear e enraizar uma frondosa mata. (...) O nosso fim é coagir a Régua, suavemente, a ir plantando alguns milheiros de árvores. Na Chafarica ou onde melhor pareçam e se desenvolvam, sem as obrigarmos a mudar de poiso de oito em oito dias e a fazer a barba
às quartas e sábados.

João de Araújo Correia, Pátria Pequena (Imprensa do Douro, 1977)

20/11/2009

EN 222


Populus nigra L. (choupo) - EN 222 entre a Régua e o Pinhão

Antes da invenção das auto-estradas, as estradas moldavam-se ao território em vez de o devassarem. Enrolavam-se amorosamente nas serras, abraçando-as a cada curva. As árvores, dispostas em galeria ao longo das bermas, ofereciam mistério e aconchego; e algumas delas, como os castanheiros no Outono, davam de prenda os frutos a quem passasse. Descendo para os vales, punham-se as estradas a acompanhar os meandros dos rios. Se por capricho os quisessem cruzar, faziam-no quase rasando as águas.

Hoje há túneis, viadutos e pontes altíssimas. Perfura-se aqui, nivela-se acolá, assentam-se nos vales grossos pilares como patas de uma centopeia apocalíptica. O território deixou de ser a paisagem em que nos reconhecemos para se transformar em obstáculo a ultrapassar e, se necessário, a remover. Passamos e não vemos nada. E ainda bem que não vemos, pois o tapete de asfalto (seis faixas, separador central, áreas de serviço, portagens, nós de acesso) não deixou nada de reconhecível. Claro que agora é mais fácil de chegar, mas aonde? Os lugares por onde rompem as moderníssimas estradas já não são o que eram.

A EN 222, que parte da avenida da República, em Gaia, e, duzentos quilómetros adiante, termina o seu percurso, tortuoso como o do rio que quis emular, no concelho de Vila Nova de Foz Côa, é uma dessas estradas antigas que se acrescentam à paisagem em vez de a destruírem. É verdade que o seu troço gaiense foi adulterado por sucessivos alargamentos e está visualmente poluído pela proliferação dos subúrbios e dos edifícios fabris; mas, deixando para trás Avintes, Sandim e Castelo de Paiva, vai-se revelando a vocação desta estrada a sul do Douro: o que ela quer é ver-se reflectida no rio. Ultrapassados Cinfães e o maravilhoso vale do Bestança, já o Douro se começa a ver ao fundo de encostas cobertas com vinhas ou, depois de Resende, com pomares de cerejeiras. Contudo, é só nos 23 quilómetros entre a Régua e o Pinhão, onde rio e estrada parecem gémeos, que ela cumpre a sua sina: foram 130 km para aqui chegar, e são mais 50, já longe do Douro, até ao Côa, mas é ao Douro que a estrada pertence, como se os dois nunca deixassem de correr lado a lado.

Este choupo outonal, tendo por companhia freixos, lódãos e uma ou outra oliveira assilvestrada, mora perto da foz do rio Távora. O Tedo e o Torto, outros dois pequenos rios com letra inicial T, também por aqui desaguam na margem esquerda do Douro. Do outro lado do rio, com a linha férrea fazendo contraponto à estrada, sucedem-se montes onde os socalcos das vinhas desenham as curvas de nível com rigor cartográfico. São poucos e invariavelmente brancos, de um branco encardido pelo tempo, os edifícios que se avistam: apeadeiros, armazéns, solares debruçados no rio. É uma paisagem líquida de silêncio, fechada pelos montes e pela bruma, como não há outra em Portugal.

[Texto dedicado ao inspector Jaime Ramos, que conhece bem esta estrada.]

07/11/2009

Turismo no Douro


São Salvador do Mundo (em primeiro plano, azinheiras e zelhas)

A National Geographical Society (NGS) seleccionou 133 destinos turísticos pedindo a especialistas em preservação de património, história, arqueologia, geografia, ecologia, culturas indígenas, etc., que avaliassem o que torna alguns lugares esteticamente únicos, essenciais à cultura da Humanidade e preciosos para o viajante. O júri classificou-os usando seis critérios: qualidade ambiental e ecológica; autenticidade social e cultural; estado dos edifícios históricos e dos sítios arqueológicos; valor estético; qualidade da gestão turística; perspectivas de futuro. O vale do Douro teve 76 pontos (num máximo de 85), empatado com três outros destinos e atrás de catorze. Numa apreciação que nos soa justa, a NGS ressalva: «This wine region in northern Portugal charms some with its "historic and natural attractions" and disappoints others with its "suburbanization". Most agree about the region's intact cultural authenticity.» No relatório dos jurados pode ler-se: «Iconic region for Portuguese wine production. There still are opportunities for development and promotion in the areas of rural tourism, usage of old railways, hiking and biking trails, wine and gastronomy promotion, and domestic tourism. One of the world's great undiscovered landscapes. Relatively little tourism and almost no mass-market tourism. Rich in historic and natural attractions that retain an appeal and authenticity. Biggest environmental problem is the chemical runoff from the vineyards. This may not be visible to the naked eye, but it is of great concern because the Douro River is slowly dying. A destination well suited to boat and 'pedestrian' tourism

Saberão que este vale não é refúgio seguro para o património natural que elogiam? Terão contabilizado as perdas na paisagem esculpida na rocha, na vegetação, na fauna e na agricultura, inexoráveis com a construção insana de mais barragens? E que vários afluentes do Douro, que hoje correm maneirinhos e selvagens, se afogarão pasmados e mansos num lago artificial? Que depois desta razia que se prenuncia nos restará apenas a memória de uma alegria que nos tiraram?


São Salvador do Mundo - São João da Pesqueira

20/10/2009

«Agora só falta aqui é... cimento!»


Apeadeiro de Brunheda - Linha do Tua

Não é por certo essa a primeira ideia que ocorre a quem contempla uma paisagem destas. Mas há gente estranha, a julgar pelo breve diálogo transcrito no blogue A Baixa do Porto. Trata-se de um excerto do vídeo de apresentação de Pare, Escute, Olhe, documentário sobre a ameaçada linha do Tua exibido no doclisboa 2009.

05/10/2009

Encenação de um rio



Choupos e salgueiros nas margens do rio Cértima, no concelho de Águeda

Ao mostrar estas bateiras no seu embarcadouro, no rio Cértima, o fotógrafo torna-se cúmplice de uma encenação. Encenação de uma vida passada, ao jeito dos museus etnográficos, mas com maior capacidade ilusória: como as bateiras permanecem no local onde estariam se ainda fossem usadas, fazem crer que a forma de vida a elas associada ainda persiste. Mas não: já ninguém faz uso delas, e só não se afundam porque o rio leva pouca água. Noutros tempos, e tal como os seus primos moliceiros da ria de Aveiro, elas serviam para recolher moliço, nome genérico dado às plantas aquáticas empregues como fertilizante na agricultura. Vieram os agroquímicos, veio o abandono das terras, e o moliço deixou de ter préstimo. A Pateira de Fermentelos, lagoa natural de 4 a 5 km^2 alimentada pelo rio Cértima e por vários outros cursos de água, chegou a estar em risco de se finar, sufocada pela vegetação espontânea que entretanto fora reforçada por um temível arrivista, o jacinto-de-água (Eichhornia crassipes). A Câmara de Águeda interveio e salvou a pateira, mas não debelou a ameaça. A faina dos moliceiros, que era parte da economia local e limpava a pateira sem gasto público, extinguiu-se de vez. Para as entidades públicas ficou a dispendiosa obrigação de não dar tréguas às plantas invasoras.

26/09/2009

Um rio só se mata uma vez




Serra do Alvão: pinheiros-bravos (Pinus pinaster Aiton) nas margens do rio Ôlo, perto das Fisgas de Ermelo

Logo após deslizar por uma sucessão de piscinas naturais talhadas no granito, o rio Ôlo encontra as Fisgas de Ermelo, onde se precipita numa cascata com um desnível de duas centenas de metros. Mas não é esse fenómeno natural que mata o rio: incólume apesar da queda, ele prossegue o seu curso, agora menos acidentado, até se juntar ao Tâmega, em Fridão.

Quem tudo fez para matar o rio foi o coveiro dos nossos espaços naturais: o mesmo que usa o risível pseudónimo de ministro do ambiente e que está, felizmente, de saída do cargo (oxalá não volte). O programa de construção de barragens apadrinhado pelo governo prevê nada menos que cinco novas barragens na bacia do Tâmega, todas acima de Amarante. Uma delas, a de Fridão, apenas seis quilómetros a montante da cidade de S. Gonçalo, armazenará uma massa de água capaz de submergir Amarante num abrir e fechar de olhos. Outra, a de Gouvães da Serra, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, seria em parte alimentada por um transvase do rio Ôlo; com quase todo o seu caudal desviado para norte pouco depois da nascente, o rio praticamente desapareceria.

A Iberdrola, empresa eléctrica espanhola à qual caberá construir e explorar as quatro barragens no Alto Tâmega (a barragem de Fridão calhou à EDP), poderia, se quisesse, fazer o transvase do rio Ôlo, pois era isso que estava previsto na concessão que lhe foi entregue pelo governo português. Mas, a 3 de Fevereiro passado, em sessão pública na Faculdade de Engenharia do Porto, um responsável da Iberdrola explicou que a «empresa decidiu não efectuar o transvase do rio Ôlo – embora concessionado no projecto – porque seria um grave crime ambiental destruir a cascata de Ermelo». (Mais detalhes nesta página.)

É sem dúvida edificante. O governo leva de bandeja um rio ao altar do sacrifício, mas o oficiante da cerimónia, incumbido do acto sangrento, recusa-se a executá-lo por entender tratar-se de um grave crime ambiental. São os empresários espanhóis, e não o governo da república portuguesa e os seus ministros, que zelam pela integridade do Parque Natural do Alvão. Ao lançar um infame «programa nacional de barragens» que vai destruir o Sabor, o Tua e o Tâmega, o governo assumiu-se, em relação ao interior norte do país, como potência colonial ocupante, explorando para exclusivo benefício seu e dos seus amigos as riquezas naturais dos territórios subjugados.

21/09/2009

Caçador de rios 3: Roding


The Temple - Wanstead Park - Epping Forest

Londres de A a Z é um atlas de ruas em formato de livro que se folheia como se fosse romance, com a peculiaridade de sermos nós os protagonistas. Abrimos a página com o quadradinho onde nos encontramos e espetamos o dedo: estamos aqui. Tal é a minúcia do atlas que nem os caminhos florestais foram esquecidos: podemo-nos guiar por ele na Epping Forest, mas só na metade sul, que o resto já fica de fora. Foi assim que consegui ir a pé da estação de Leytonstone até ao parque de Wanstead, parte da floresta que pertenceu a uma casa senhorial demolida em 1824. Regista a história terem aqui existido grandiosos jardins formais, com longas alamedas e parterres graciosamente geométricos. Hoje nada disso sobra, engolido que foi pelo arvoredo espontâneo. Dessa época ficaram apenas o templo - pequeno edifício com pórtico neoclássico, onde funciona o atendimento aos visitantes - e os lagos artificiais com ilhotas arborizadas, alguns deles quase secos por altura da minha visita, em meados de Agosto.


Lago com Lythrum salicaria - Wanstead Park - Epping Forest

O rio Roding, afluente do Tamisa, tem aqui um troço que corre paralelamente a um lago de formato longilíneo, cuja vocação claramente fluvial talvez tenha sido despertada pela vizinhança do seu colega nas lides aquáticas. Vistos do caminho que os separa, lago e rio parecem gémeos. Mas eu, instruído pelo meu A a Z, queria por força atravessar o rio; e um lago, por muito que se disfarce de rio, não precisa de ser atravessado, mas tão só circundado. O rio marca aqui os limites da Epping Forest; logo depois há uma estrada servida por um autocarro que me transportaria comodamente até à parte da floresta mais a norte. Para chegar à paragem só teria de transpor o rio - proeza trivial, bastou descalçar os sapatos e arregaçar as calças - e rodear as traseiras do bairro contíguo à estrada.


Rio Roding - Epping Forest, Londres (em primeiro plano, Acer pseudoplatanus)

A Grã-Bretanha é talvez o país mais liberal (ou será socialista?) do mundo a conceder direito público de passagem em propriedades privadas: por toda a ilha existem trilhos, muito usados por caminheiros e amantes da natureza, que nenhum proprietário tem permissão para vedar. O reverso da medalha é que, onde não houver caminho autorizado, a passagem é mesmo impossível e não há desenrascanço que nos valha. Ou, se não for impossível, é arriscada e imprudente. E o A a Z, vendo bem, não indicava qualquer caminho legítimo até à estrada, mesmo estando ela ali tão perto.

Ocorreu-me isto depois de ter saltado duas vedações e de me ter visto a salvo, ainda atarantado de susto e com arranhões nas mãos e nos joelhos, na paragem que me propusera alcançar. A primeira barreira era inocente, quase convidativa: uma paliçada de madeira baixa, dando acesso a um carreiro que parecia desembocar na estrada. Mas a segunda barreira, depois de duas centenas de metros rompendo por uma vegetação cada vez mais densa e espinhenta, era gratuita e maldosa, formada por barras metálicas com dois metros de altura e pontas aguçadas. Recuar estava fora de causa, mas não sei como consegui ultrapassar tamanho obstáculo com a roupa intacta. Não invadi propriedade alheia e, tanto quanto sei, ninguém me observou neste exercício de alpinismo à mão desarmada. Mas não quero repetir a aventura: doravante, ficar-me-ei pelos caminhos assinalados no mapa.