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19/11/2013

Quatro, cinco ou nada



Potentilla anglica Laichard.


É comum nos Açores, entre a vegetação dos sítios húmidos (categoria que inclui a maior parte dos espaços naturais do território), encontrar em profusão as pequeninas flores amarelas (uns 5 a 8 mm de diâmetro) da tomentilha, ou Potentilla erecta de seu nome científico. A mesma planta é frequentadora assídua de habitats semelhantes em território continental, mais típicos da metade norte do país. Uma variação dessa planta, a Potentilla reptans, distingue-se por ter flores de cinco pétalas (as da P. erecta costumam ter quatro), pelo seu hábito prostrado (o caule enraíza nos nós), e pelas folhas mais largas, com maior número de folíolos. Em Portugal continental a P. reptans aparece no leito de cheia de alguns rios e ribeiros, apreciando particularmente as margens de calhau rolado. Nos Açores, onde é tida, com alguma incerteza, como exótica naturalizada, vê-se raramente, e só em quatro ilhas do arquipélago: São Miguel, São Jorge, Pico e Corvo.

Para compensar essa escassez, ocorre em todas as ilhas açorianas a Potentilla anglica, que não aparece no continente. Uma comparação das fotos acima com as da P. reptans torna clara a afinidade entre as duas espécies. De facto, a forma mais segura de as destrinçar é notar que a primeira sofre de uma hesitação patológica quanto ao número de pétalas com que enfeita as flores: a mesma planta tanto as dá com quatro como com cinco. Nesse e noutros detalhes morfológicos a P. anglica apresenta um carácter vincadamente intermédio entre a P. erecta e a P. reptans. A suspeita de que tenha origem numa hibridação entre as duas espécies é reforçada pela contagem dos cromossomas: a P. anglica é tetraplóide (56 cromossomas) e as outras duas são diplóides (28 cromossomas).

Ainda que não seja improvável vê-las juntas, a P. erecta e a P. anglica mostram, nos Açores, preferências ecológicas distintas. A P. anglica adopta um comportamento mais ruderal e frequenta locais mais secos, aparecendo mesmo em bermas de estrada e em caminhos de saibro. Ambas têm um perído floração alargado, que começa cedo na Primavera e se estende até Novembro.

23/03/2013

Três-em-rama


Potentilla montana Brot.


Quando a vimos, numa berma de caminho, de uma aldeia montanhosa e fresca de Vale de Cambra, ladeado por hortas e campos com ovelhas dorminhocas, julgámos estar diante de um morangal. A planta das fotos seria, pensámos, uma variedade de morangueiro (Fragaria X ananassa Duchesne) escapada dos torrões cultivados. Na dúvida, o fotógrafo registou o essencial da planta: longos estolhos, método de propagação que os morangueiros também adoptam; pétalas brancas (como as dos morangueiros) de uns 9 mm de diâmetro, afastadas e maiores do que as sépalas; talos e cálices lanudos; folhas com três segmentos, a lembrar as dos morangueiros, cada um deles dentado na região apical, verde e pubescente na face superior, cinzento e acetinado na inferior. Ainda não havia morangos, mas conviria guardar as coordenadas do local para posterior colheita do pitéu.

Apesar de iludidos, desconfiámos de tanta penugem. As plantas que se preferem nos morangais são as que geram receptáculos (onde os inúmeros aquénios se encaixam) vermelhos, carnudos e glabros. Uma consulta bibliográfica desfez finalmente o engano: trata-se de uma Potentilla com flores brancas, descrita por Brotero em 1804, que se dá bem em relvados e sítios pedregosos de montanha e é nativa de parte da França e da metade norte da Península Ibérica. Não parece haver razão para não ser planta comum nos pastos verdejantes no norte do país, mas não há registos que confirmem um tal optimismo.

Estas terão sido flores temporãs já que a floração se pode prolongar até Julho. O que nos dá esperança de rencontrar a planta com mais flores não estragadas pelo vento. Os frutos são afinal aquénios lisos sem valor gastronómico conhecido.

14/09/2012

Mansa com espinhos

Rubus hochstetterorum Seub.


Há dois motivos fortes para evitarmos as silvas: os seus espinhos agressivos, que tornam intransponíveis os matorrais por elas colonizados; e o labirinto taxonómico em que o género Rubus se tem enredado, e onde até os especialistas correm risco de desnorte. Graças a estratégias como a hibridação, a reprodução vegetativa ou a apomixia (produção de sementes férteis sem que tenha havido fecundação), o número de micro-espécies é assustadoramente alto e resiste a qualquer sistematização. Seguindo o exemplo de outros peritos, o autor da revisão do género na Flora Ibérica decidiu, para que a sua síntese tivesse alguma utilidade, não considerar como espécies válidas aqueles táxones com uma área de ocorrência inferior a 50 Km2. Há portanto silvas que, por lei, vivem no limbo das coisas sem nome.

Mas as flores que despontam com a Primavera, além da beleza modesta que é a sua, contêm a promessa de regalo para o paladar. No meio dos espinhos, quando chega o Verão, brilha o negrume luzidio das amoras silvestres. Perdoamos os arranhões e tratamos de adoçar a boca. Flores e frutos, cada qual a seu tempo, são razões que pesam no prato do bem e talvez consigam, na balança dos nossos (des)afectos, compensar as razões do lado do mal. Devemos pois manter uma atitude aberta. Silvas há que têm nome, entre elas a mais comum e mais fácil de identificar, chamada Rubus ulmifolius. Outras silvas compensam o anonimato pelas flores vistosas e pelos frutos generosos. E outras ainda juntam ao mérito visual e gustativo a conveniência de um nome inequívoco. Assim é o Rubus hochstetterorum, a silva-mansa açoriana, um endemismo que, de todas as ilhas do arquipélago, só não mora na Graciosa.

As duas silvas, a expansionista R. ulmifolius e a endémica R. hochstetterorum, competem uma com a outra nas oito ilhas restantes, com a primeira quase sempre em larga vantagem. A excepção é a ilha das Flores, em que a silva-mansa é muito comum e a outra nem por isso. Pelo perverso hábito de ignorar o que é abundante e só ter olho para as raridades, somado ao preconceito contra as silvas em geral, não dei qualquer atenção, durante a minha visita à ilha em 2011, a essa silva de flores imaculadamente brancas (ou por vezes rosadas) que encontrei desde os cumes do Morro Alto até às falésias costeiras. Que o erro pôde ser remediado em 2012 aí estão as fotos para comprovar.

A cor das pétalas não é um indicador infalível para distinguir as duas espécies, pois ocasionalmente o R. ulmifolius pode dar flores brancas. Mas em qualquer caso elas são mais pequenas, com cerca de metade do diâmetro das flores do R. hochstetterorum (que podem chegar aos 5 cm), têm pétalas mais delgadas, e dispõem-se em panículas estreitas, em contraste com as panículas amplas do R. hochstetterorum. Por não ter visitado a ilha na estação certa, não pude comparar os frutos de uma e de outra silva, mas consta que as da segunda são maiores.

São dois os botânicos alemães de apelido Hochstetter ligados ao estudo da flora açoriana, e não é impossível que o epíteto hochstetterorum tanto homenageie um como outro. Christian Ferdinand Friedrich Hochstetter (1787-1860) e Karl Christian Friedrich Hochstetter (1818-1880), pai e filho, visitaram demoradamente o arquipélago em 1838, mas só o primeiro é referido, e de raspão, no livro Os Dabney — Uma família americana nos Açores (edição Tinta da China, 2009), relato condensado da vida no Faial ao longo do século XIX. As descobertas açorianas dos dois Hochstetter serviram de base à pioneira Flora Azorica (1844), de Moritz August Seubert, onde surgem as descrições originais do Rubus hochstetterorum, da Veronica dabneyi e de muitos outros endemismos do arquipélago.

09/09/2011

Tramazeira




Sorbus aucuparia L.

Em tempos, lemos no Jornal de Horticultura Prática que Alfredo Allen propôs à Câmara do Porto que usasse laranjeiras na jardinagem pública e na ornamentação das ruas. Sugestão sábia pois estas são árvores de porte pequeno, que não tiram sombra a nenhuma janela nem destroem o piso por engrossarem as raízes; e, a juntar a essa postura recatada, ainda têm floração aromática e frutos comestíveis. A ideia não foi acolhida e ainda hoje os nossos paisagistas preferem confinar plátanos a caldeiras que competem com os peões em passeios de dois metros de largura, e são detorados regularmente para que não cresçam como é seu saudável costume.

Na serra da Estrela, porém, alguém levou ideia análoga adiante, plantando fiadas de tramazeiras ao longo das estradas, a somar às que crescem espontâneas pelas matas. São árvores de tamanho médio (raramente superam os 10 metros de altura), adaptadas à altitude e resistentes ao frio, de folha caduca e portanto não filtrando a parca luz no Inverno. As flores, que começam a aparecer no fim da Primavera, dispõem-se em ramalhetes chamativos e muito perfumados, e os frutos, de cor escarlate e sabor ácido, são consumidos em compotas, ou transformados em licor ou em vinagre (por serem ricos em vitamina C e taninos). A madeira é clara, levemente rosada, de textura fina mas dura, e por isso utilizada em fusos, rolamentos e pás de moinhos. Além destas virtudes, a sorveira-brava ainda atrai tordos e melros; esperemos que seja mais vezes a sorveira-dos-passarinhos do que a sorveira-dos-passarinheiros (do latim aucupor).

Ocorre na Ásia, Europa, norte de África, Islândia e Gronelândia. Na Península aparece sobretudo na metade norte, estando declarada como vulnerável ou ameaçada em algumas regiões espanholas. Em Portugal, e apenas no norte e centro, prefere bosques ou sítios expostos acima dos 1000 metros de altitude, colonizando mesmo lugares rochosos e alcantilados. A Nova Flora de Portugal regista-o nas serras do Gerês, Cabreira, Larouco, Montesinho, Roboredo e Estrela, mas a lista está incompleta.

Distingue-se da maioria das outras espécies de Sorbus no nosso território por ter folhas compostas e imparipinuladas (com 5 a 7 pares de folíolos de margem serrada e mais um na ponta); a folhagem pode confundir-se com a da S. domestica L., espécie da região mediterrânica, usada por vezes como ornamental, que dá frutos maiores, castanhos quando maduros.

28/02/2011

Bloomsbury


Woburn Square

Bury é palavra do inglês antigo que designa fortificação ou castelo; corresponde ao borough do inglês moderno, numa evolução que atesta como modernizar pode não ser simplificar. Da mesma raiz latina nasceu o burgo português. Chegamos assim a uma possível explicação do topónimo que dá título a este texto: Bloomsbury seria Burgo das Flores ou talvez Burgo em Flor. O inglês é porém uma língua traiçoeira que tem fraco comércio com a lógica: aquele bloom não resultou de nenhuma flor, mas sim (de acordo com a Wikipedia) do desgaste a que o uso dos séculos submeteu o antropónimo Blemond.

Sucede no entanto que a interpretação florida do nome Bloomsbury, mesmo tendo por base um equívoco fonético, acaba por ter uma contrapartida bem real. Bloomsbury é o bairro de Londres onde as praças ajardinadas são de acesso livre, e não — como sucede em Chelsea, South Kensington, Belgravia e em inúmeros outros bairros da capital britânica — restrito aos privilegiados moradores dos respectivos quarteirões. É pois um lugar aberto em que os jardins são franqueados a toda a gente: trabalhadores locais no intervalo do almoço, estudantes do vizinho University College, indígenas desocupados, a massa heterogénea e sempre renovada de turistas. A informalidade é regra quase compulsiva: nos dias de Verão são muitos mais os que se estendem na relva do que aqueles que se acomodam num banco de jardim.

Esse anti-elitismo de Bloomsbury vem de longe. Aprendemos com os romances vitorianos que morar em Bloomsbury, no século XIX, não era propriamente um sinal de distinção, apesar da imponência marcante do Museu Britânico. Podiam viver no bairro pequenos proprietários ou profissionais medianamente bem sucedidos, à mistura com uns tantos intelectuais, mas a aristocracia, tanto a de sangue como a financeira, nunca escolheria lá morar. Em Bloomsbury trabalhava-se e estudava-se; os lugares da diversão requintada, com a épica saison estival de bailes e jantares de gala, eram bem outros.

Além de ter registado para a posteridade como era a Bloomsbury novecentista, a literatura ajudou à transformação do lugar ao dar-lhe uma imorredoura aura cultural. O famoso grupo de Bloomsbury que gravitou à volta de Virginia Woolf reunia-se nas casas que rodeiam os mesmos jardins que hoje podemos visitar. Muitos desses edifícios foram desde então ocupados pela Universidade de Londres; Gordon Square e Woburn Square (foto acima), talvez as mais bonitas e pacatas praças de quantas existem no bairro, frequentadas que foram por Virginia e pelo seu marido Leonard, são também hoje património universitário.

Talvez nada haja de espectacular nos jardins que preenchem essas praças. O que há é uma normalidade quotidiana que preza a sombra das árvores e faz do sossego e do bom gosto uma componente essencial da vida urbana. Nesses jardins há sempre flores, e não apenas em arranjos formais: alguns recantos (especialmente em Gordon Square) parecem retalhos de natureza que escaparam incólumes ao cerco da cidade.

Antes de avançarmos pela Primavera dentro, fazemos uma pausa citadina: as flores e árvores que esta semana nos visitam vêm todas das praças de Bloomsbury. Para começar temos plátanos, uma ameixeira-de-jardim, arbustos diversos, e Gandhi em Tavistock Square rodeado por tulipas.


22/02/2011

Amoricos


Agrimonia eupatoria L.

As designações desta planta são um rol de mal-entendidos. Chamam-lhe amor-pequeno sendo ela bem maior do que um amor-perfeito; ou agrimónia, que deriva, diz-se que por engano, do grego argemon (catarata), apropriando-se do mérito de outras plantas na cura deste mal dos olhos. Contudo, segundo a Flora Ibérica, esta herbácea também tem uso medicinal por as suas folhas e flores serem ricas em taninos e óleos com acção desinfectante. Para gente saudável, produz tinta amarela. Segundo William T. Stearn, o vocábulo eupatoria celebra Mithridates VI Eupator (132-63 a.C.), rei de Pontus (hoje na Turquia) e inimigo temido de Roma. De memória prodigiosa, que Jorge Luis Borges evocou em Funes el memorioso, esta figura lendária inspirou A. Dumas, A. E. Housman, D. L. Sayers, Mozart e Scarlatti.

Erva perene e rizomatosa, esta rosácea tem folhas compostas (imparipinadas) com folíolos de tamanhos diversos e margens serradas. Detecta-se facilmente entre Maio e Outubro porque algumas espigas florais abeiram-se dos dois metros de altura. É quase cosmopolita, preferindo soutos, orlas de bosque e pastos húmidos. As flores, hermafroditas e sem perfume, de uns 8 mm de diâmetro, têm cinco pétalas amarelas a rodear numerosos estames, e igual número de sépalas verdes que mais tarde se curvarão para formar o fruto. É ele um ouriço (os ingleses chamam-lhe bur) em forma de pião, contendo uma a duas sementes, dotado de uma crina de cerdas para facilitar a dispersão.

Género com cerca de quinze espécies, três europeias, conta na Península Ibérica com duas, a A. procera (alta) e A. eupatoria — que, nos locais onde coabitam, dão por vezes origem a híbridos em geral estéreis.

16/07/2010

Amoras bravas


Rubus vigoi Roselló, Peris & Stübing

Há dois modos de encarar os silvados (género Rubus): como empecilhos que tornam intransitáveis os trilhos florestais, ou como fornecedores dos deliciosos frutos silvestres que se podem consumir in loco ou convertidos em compota. As amoras silvestres são de facto, para o paladar de muita gente, muito mais apetitosas do que as amoras legítimas das árvores a que chamamos amoreiras (género Morus). E vem a propósito assinalar que a semelhança dos frutos das silvas com os das amoreiras é puramente fortuita, já que os géneros botânicos Rubus e Morus são evolutivamente muito distantes entre si.

Há silvas que dão frutos tão especiais que nem mesmo o risco de o pomar se transformar numa selva consegue dissuadir o seu cultivo. O caso emblemático é a framboesa, que é produzida pela Rubus idaeus (não há como disfarçar: Rubus significa silva) e na verdade não passa de uma amora com a mania das grandezas.

Além de poderem ser cultivadas - ou pelo menos toleradas - pelos seus frutos, as silvas também podem cumprir um óbvio papel na formação de sebes invioláveis. O que já não ocorrerá a muita gente é valorizá-las pela beleza. Mesmo os botânicos que as estudam fá-lo-ão pela motivação científica e não por se encantarem com elas. É que, entre os géneros de plantas vasculares, o Rubus constitui, segundo consenso dos estudiosos, o mais complexo e enredado de todos. Abundam as variações, os híbridos e até as micro-espécies - plantas de existência muito localizada e que, reproduzindo-se vegetativamente, adquirem caracteres morfológicos estáveis.

Há porém algumas silvas que são de reconhecimento fácil. A mais comum - e talvez a de frutos mais saborosos - é a Rubus ulmifolius, que dá pequenas flores com pétalas rosadas. A Rubus vigoi, que hoje aqui trazemos, e que encontrámos no trilho dos Carris, no Gerês, aparece ocasionalmente nas orlas florestais do norte do país. Distingue-se de outras silvas de flor branca (como a Rubus caesius) pelo maior tamanho das suas flores - que são bonitas, quase comparáveis a rosas, lembrando-nos que rosas e silvas pertencem afinal à mesma família botânica.

Quanto aos frutos, não sabemos se são proporcionalmente grandes ou se teremos ocasião de os provar. Certo é que, com os calores de Julho, começam a negrejar as amoras nos silvados. Não importa que nos vedem o caminho se tiverem a amabilidade de nos refrescar.

07/07/2010

Rosa sempre rosa


Rosa sempervirens L.

Andava a trautear mentalmente a cantiga da rosa branca quando me lembrei de súbito que Max (ou Maximiano de Sousa) afinal se perdeu por uma pomba branca. E não podia estar mais distante a pureza alegórica dessa ave da promiscuidade que assola o mundo das rosas. Qualquer aprendiz de jardineiro compra dois pés de roseira e cria a sua própria rosa pelo simples expediente de transferir pólen de uma planta para a outra. Mas, mesmo na natureza, onde as rosas singelas não se desdobram numa confusão de pétalas, a fronteira entre espécies é tão incerta e oscilante como a de dois países em guerra. Calcula-se em mais de quarenta o número de espécies de rosas silvestres na Europa; 19 delas são reconhecidas pela Flora Ibérica como ocorrendo espontaneamente na Península. Porém, dentro da espécie R. sempervirens - e este é apenas um exemplo típico -, há quem tenha tido a minúcia de distinguir dezenas de subespécies, variedades ou mesmo subvariedades. Embora carecendo em grande parte de valor taxonómico, estas subdivisões de uma única espécie são sinal eloquente do elevadíssimo grau de polimorfismo do género Rosa.

As nossas roseiras silvestres podem formar matagais quase tão densos e por vezes tão espinhosos como um silvado, e têm invariavelmente flores de cinco pétalas - as quais, conforme a espécie, podem ser brancas ou amarelas, ou exibir vários tons de rosa. A Rosa sempervirens não é a única que dá flores brancas, e por isso o leitor terá de estudar mais a fundo a lição se quiser aprender a reconhecê-la. Um carácter distintivo é que os estiletes no centro da flor estão fundidos em coluna, mas o verdadeiro segredo está nas folhas: lustrosas, pontiagudas, de margens finamente dentadas. Além disso, como nos diz o epíteto sempervirens, esta roseira é de folhagem perene, quando quase todas as suas congéneres são caducifólias.

As flores brancas e frescas são um espectáculo efémero, que decorre por duas ou três semanas entre Maio e Junho e que por cá só é encenado nalgumas províncias viradas para o mar: Algarve, Estremadura, Ribatejo e Beira Litoral. A roseira que posou para as fotos enfeitava um bosque no concelho de Vagos, no final de Maio, mas também a encontrámos para os lados de Coimbra.

24/06/2010

Fogo preso


Geum urbanum L. - frutos

     Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

Jorge de Sena, Sinais de Fogo (Asa, 1995)

15/06/2010

Dia com árvore



Amelanchier ovalis Medik.

Acusados de negligenciar as árvores, dedicando dias e noites ao grande mundo das plantas pequeninas, trazemos hoje uma planta lenhosa para entremear os nossos devaneios. Vimos de corda ao pescoço porque só agora a descobrimos e ela - que é nativa de matos pouco densos à beira de água ou ladeiras rochosas de montanhas no centro e sul da Europa, região mediterrânica e norte de África - tem-se vindo a tornar rara na Península Ibérica, constando da lista madrilena de espécies da flora silvestre ameaçada, com o estatuto de vulnerável.

De longe, os curtos ramalhetes corimbiformes de flores lembram outra rosácea, a sorveira (Sorbus sp.). As flores, cujos botões levam um ano a desabrochar, têm um cálice de cinco sépalas de permeio com cinco pétalas estreitas, longas e espaçadas entre si; ao centro, nota-se uma dezena de estames. É arbusto de folha caduca, alterna, simples e oval, de margens finamente dentadas, cor-de-rosa e de face inferior pubescente quando jovem, púrpura no Outono. Os frutos são carnudos e de sabor doce (crê-se que o nome do género deriva de mel), negros e perfumados quando maduros (no fim do Verão), coroados pelo ex-cálice da flor; usam-se em compotas e bolos ou (na falta de gente que lhes dê uso) são simplesmente comidos pelos pássaros.

A planta tem reputação medicinal e a madeira é apreciada como combustível. Em inglês chamam-lhe snowy mespilus, em espanhol tratam-na por guillomo, em euskera por arangurbea; por cá não há registo de nome vernacular (no Portugal Botânico de A a Z atamancaram-lhe o postiço nome de amelanqueiro) e quando a encontrámos no Gerês não havia pastores por perto para nos elucidarem.

07/06/2010

A cidade com serras


Geum urbanum L.

A acreditar pelo nome que o pai da taxonomia moderna atribuiu à erva-benta (Geum urbanum), as cidades do tempo de Lineu (1707–1778) deveriam ser radicalmente diferentes daquelas em que vivemos hoje. Mesmo as famosas capitais seriam um misto de cidade e de campo, com tantas árvores que as ruas se confundiriam com trilhos na floresta. Eça de Queirós (1845-1900), se tivesse nascido século e meio antes, não se sentiria compelido a romancear o inexistente contraste entre a cidade e as serras; e tanto lhe faria viver os seus últimos anos em Paris como em Tormes.

A menos, claro, que Lineu se tenha enganado (acontece a todos, excepto a um conhecido ex-primeiro ministro português), e o nome em que apoiámos tão fantasiosa dedução seja simplesmente absurdo. Geum urbanum: o epíteto não tem outra interpretação possível, urbanum significa relativo às cidades. Sucede que a erva-benta (herb bennet ou wood avens em inglês, benoîte commune em francês) viceja em lugares frescos como sebes ou bosques densos, e não propriamente em artérias urbanas ou em jardins residenciais. Talvez avance a medo até às portas da cidade, abrigada em algum arvoredo que sobrou de tempos de antanho. Mas em Portugal, onde a planta é bem menos comum do que no resto da Europa, isso parece-nos improvável. E, tendo-la nós apenas encontrado na Mata da Margaraça, esse enclave nortenho no centro do país, não será arriscado concluir que ela prefere o regime atlântico ao mediterrânico.

Aqui vai o retrato dela em duas penadas. É uma planta perene, penugenta, com uns 60 cm de altura, folhas basais pinadas semelhantes à de outras congéneres suas, e folhas superiores simples com três lobos. As flores, que surgem de Maio a Julho na extremidade de hastes esguias, têm de 1 a 2 cm de diâmetro, e exibem cinco pétalas bem separadas. Os frutos, semelhantes a ouriços, servem-se dos espinhos curvados em gancho para apanharem boleia de coelhos, javalis e outros peludos habitantes da floresta, que assim contribuem involutariamente para disseminar a planta.

21/05/2010

Benigna dos bosques


Geum sylvaticum Pourr.

As orquídeas servem de chamariz, mas acabamos sempre por juntar outras plantas ao nosso cabaz de fotos. Se percorremos os carvalhais de Sicó de pescoço curvado, é porque vasculhamos o solo em busca de orquídeas. Mas depois outras florzinhas clamam por atenção e quase esquecemos aquelas que primeiro nos chamaram. É como ir a um rodízio (coisa que, ressalve-se, não temos o hábito de fazer) e atafulhar a pança com salsichas e rissóis; quando chegam a picanha e outras carnes de primeira, já não sobra apetite para mais.

Comparação um tudo-nada infeliz, por dois motivos: não há plantas de primeira ou de segunda; e o nosso apetite botânico nunca está saciado. Até porque cada plantinha em flor, por muito exuberante que pareça, pode estar a despedir-se: quando, semanas depois, regressamos ao mesmo local, já ela se remeteu ao anonimato. Mais só para o ano. Agora são outras as flores no escaparate.

Também a benigna-dos-bosques (nome acabado de inventar para a Geum sylvatica) encerrou já uma temporada que, pelo menos no centro do país, teve o seu momento alto em Abril. Planta penugenta, com folhas engelhadas em roseta basal e flores de 2 cm de diâmetro, é típica de lugares húmidos e de bosques umbrosos. É uma das três espécies do seu género espontâneas no nosso país; as outras são a G. hispidum e a G. urbanum. E a essas devemos acrescentar aquelas de maior requinte, como a Geum chiloense, que têm poiso nos jardins de onde as flores não foram ainda escorraçadas.

23/02/2010

Morangos de enganar



Potentilla indica (Andrews) Th. Wolf [sinónimo: Duchesnea indica (Andrews) Focke]; Fragaria vesca L.

O género Fragraria abriga 12 espécies perenes da Europa, Ásia, América do Norte e Chile, as quais, além de se propagarem por semente, se disseminam vegetativamente por meio de estolhos - ou seja, por rebentos nascidos nos nós do caule, que é rastejante para que as gerações sucessivas não se acotovelem umas às outras. As folhas são trifoliadas e as flores brancas, agrupando-se em cimeiras de 2 a 10 unidades. O fruto é múltiplo, formado por numerosos aquénios implantados num receptáculo carnudo.

O morango cultivado (Fragaria x ananassa Duchesne) é um híbrido obtido no século XVIII entre a F. chiloensis (L.) Duchesne, do Pacífico, e a americana F. virginiana Duchesne. Produz frutos maiores que o morango silvestre (de que há três espécies europeias, F. vesca L., F. moschata Duchesne e F. viridis Duchesne), mas este é, em geral, mais saboroso e perfumado. O cultivar Fragaria 'Pink Panda', obtido em 1989 por cruzamento entre a Fragaria x ananassa e a Potentilla palustris (L.) Scop., é de folhagem caduca, não desenvolve estolhos e as flores são cor-de-rosa.

O falso-morango (antes Duchesnea indica (Andr.) Focke, agora Potentilla indica (Andr.) Wolf) pode induzir em erro quem não lhe vir a flor. Também é planta vivaz que se divide por estolhos, tem folhas igualmente trifoliadas (e tomentosas), com folíolos ovais e crenados, mas as flores são solitárias e de pétalas amarelas. O fruto resume-se a um receptáculo esponjoso, brilhante e comestível mas insípido - famoso, contudo, na farmacopeia chinesa, por possuir acção anti-séptica e anti-cancerígena. É herbácea nativa do sudeste da Ásia; mas, introduzida na Europa como ornamental, é agora abundante em margens de ribeiros e bosques umbrosos de outras regiões temperadas, formando no Inverno um bem-vindo revestimento de solos - que pode, porém, degenerar numa ocupação abusiva da terra arável.

O francês Antoine Nicolas Duchesne (1747 - 1827) foi horticultor e publicou, em 1766, uma aclamada obra, com o título Histoire naturelle des fraisiers, sobre os vários tipos de morangos e a sua origem.

28/01/2010

Cinquefoil


Ribeira da Fórnea

Este riacho dir-se-ia nómada, se esta não fosse expressão inadequada para uma ribeira já de certa idade. O facto é que nem sempre se vê ali, onde o fotografámos, preferindo, com acanhamento de menino, esconder-se quando o caudal se reduz e ele não tem fôlego para um galope honrado. Ouvimo-lo gatinhar no subsolo e, apesar do desconforto, ansiamos pela chuva.


Potentilla reptans L.


Potentilla erecta (L.) Raeusch.

Assim pequeninas, as plantas das fotos não parecem ter o poder a que o seu nome alude, mas os fitoterapeutas não lhes poupam vénias. A P. reptans tem flores de cinco pétalas entalhadas, com um epicálice de brácteas que alternam com as sépalas, e folhas de cinco folíolos serrados. Esta é a morfologia típica no género Potentilla, que alberga cerca de 500 espécies em regiões de clima temperado e é próximo de Fragaria, onde se inclui o morangueiro. A P. erecta, contudo, é uma excepção: tem folhas trifoliadas, que no entanto parecem ter cinco folíolos pela presença de dois apêndices minúsculos na base; e as suas flores são de quatro pétalas, coisa rara na família Rosacea. Mas, numa notável excepção à excepção, em alguns exemplares, como o da foto, nascem flores de cinco pétalas. Atitude que alguns poderão aplaudir como um sensato retorno à norma.

09/12/2009

Na rota dos três patinhos

Nas loas que aqui tecemos à EN 222, muito gerais e abstractas, não mostrámos as variadas paisagens que se desfrutam entre Vila Nova Gaia e Peso da Régua. Faz-se pois necessária uma adenda, quanto mais não seja como comprovativo de que percorremos realmente esses 130 km de estrada. Mas, antes de comentarmos as imagens, queremos aqui lavrar um protesto. Não muito antes de Castelo de Paiva, uma seta num cruzamento faz-nos abandonar o antigo traçado da EN 222, desviando-nos para uma moderna estrada com separadores centrais e viadutos. Ao longo de uma dezena de quilómetros, esse troço de quase auto-estrada usurpa o título e as funções da velha estrada, que só reencontramos à saída da vila. Ficámos muito desagradados com essa contrafacção de mau gosto.



Quase tanto como as rotundas, os parques de merendas são um dos «melhoramentos» fetichistas mais usados pelos nossos autarcas para ostentarem obra feita. Há, porém, um paradoxo difícil de aceitar: apesar de as rotundas serem tantas vezes trambolhos ofensivos, toda a gente é obrigada a dar-lhes uso; mas os parques de merendas, claramente úteis e de inspiração benfazeja, são em regra ignorados pelos seus potenciais utentes.

Findo o desabafo preambular, diga-se que a foto acima foi tirada do Parque de Lazer e Miradouro da Trincheira, na freguesia de Oliveira do Douro, concelho de Cinfães. Obra estreada há pouco, ainda com cartaz a explicar quem mandou, quem financiou e quem executou, não havia ninguém, apesar da hora propícia, às voltas com farnel nas mesas e bancos de pedra. Do miradouro, tínhamos o rio só para nós. É ali na outra margem, numa encosta com aldeias, campos e arvoredo, que a linha férrea, depois de cruzar o rio Tâmega e o túnel de Marco de Canavezes, encontra finalmente o Douro. Da estação de Mosteirô acabara de sair um comboio para a Régua; ou, como se diz na gíria ferroviária, acabara de partir uma composição procedente de Porto-Campanhã com destino à Régua. Como o Inter-Regional 867 - tal era o seu nome de código - vinha dentro do horário, bem merece o prémio de aparecer na foto.



A vila de Resende ufana-se de ser a capital da cereja, e qualquer português com um mínimo de paladar e de discernimento saberá reconhecer a justeza do título. As cerejas têm a sua época e a deste ano já passou há muito, mas, depois de nos terem deliciado o paladar com os seus frutos, as árvores seduzem-nos a vista com este postal de Outono. E, se juntarmos à lista de atractivos a floração logo à saída do Inverno, são três as razões que as cerejeiras nos oferecem, em três alturas do ano distintas, para visitarmos Resende à boleia da EN 222.



É a derradeira curva do rio antes da Régua. O relevo amenizou-se, as vinhas substituíram as árvores nas encostas, o casario adensa-se. Apesar da queda demográfica de quase cinco mil habitantes nos últimos trinta anos (o concelho tem hoje menos de dezoito mil moradores), Peso da Régua é a cidade mais importante de todo o Douro vinhateiro: cidade utilitária, de negócios, armazéns e entrepostos, que cresceu alimentada pela linha férrea e nunca teve disposição para se embelezar. Hoje, com os prédios desmesurados que sobressaem da malha urbana, e apesar do arranjo menos mau da marginal, é uma urbe decididamente feia. Por isso os turistas preferem fazer paragem no Pinhão e não na Régua, e por isso a cidade está ausente da nossa última foto, tirada à distância de uma curva.

20/08/2009

Senhora dos prados


Filipendula vulgaris Moench

A Terra é redonda. Por isso, ao ser representada num mapa plano, a diferença de curvatura comporta imperfeições inevitáveis, com as áreas ou as formas das regiões a serem distorcidas. Cada projecção plana da esfera procura minorar estes defeitos, havendo mapas onde a proporção das áreas é respeitada (de pouco servem para a navegação, uma vez que o erro de uma baía estreita aparecer no mapa como capaz de deixar passar uma frota pode ser fatal), outros onde os ângulos estão acautelados (mas há ilhas que parecem vastos continentes), e ainda versões mistas. O mapa de Peters (1974), que no fim dos anos setenta era frequente nos écrans de televisão a fazer o fundo nos telejornais, é uma dessas imagens planas do mundo. Obtém-se enrolando um cilindro em torno da esfera e projectando cada ponto do globo (perpendicularmente ao eixo do cilindro que passa nos pólos) na folha cilíndrica (processo esse que preserva áreas); depois a folha é repuxada na direcção vertical para que o hemisfério sul, recheado de países subdesenvolvidos, surja maior e com mais destaque. O resultado é um mapa polémico. A controvérsia é de natureza política, por esta carta dar realce ao terceiro-mundo, eterno necessitado de ajuda e auto-estima, apesar deste surgir com silhueta mais alongada que a autêntica. Além disso, coisa rara, coloca o centro do mundo no Equador.

Certos géneros de plantas, como a Filipendula, parecem ter igual consciência desta linha do Equador que, embora imaginária, tem implicações reais. São seres de um só hemisfério, recusando as agruras de clima ou mudança de estações que encontrariam se arriscassem emigrar para além dessa linha. Duas das dez espécies são europeias, a F. ulmaria L. e a F. vulgaris. Um mapa-múndi em que fossem as plantas a descrever as nações haveria de ser, porém, um respeitável sarilho. Por exemplo, por causa dos nossos numerosos eucaliptos, e a deficiente protecção dos endemismos, teria de se colocar um agrafo entre este canto da Península e a Austrália, o que estragaria a versão Michelin de bolso.

Voltemos à Filipendula, que se faz tarde. Como sabemos que a da nossa foto é F. vulgaris e não F. ulmaria? São ambas herbáceas perenes; exibem estas flores de cor creme, farfalhudas em estames, dispostas em inflorescências que se elevam relativamente à folhagem. As folhas são compostas, com folíolos palmados de margens serradas, glabras na face superior, brancas algodoadas na inferior. Mas a F. ulmaria é mais alta (cerca de 120cm, enquanto a F. vulgaris não passa em geral dos 75cm), e os folíolos da F. vulgaris têm indentações tão vincadas que os fazem parecer folhas de feto (e não de ulmeiro). Além disso, a F. vulgaris é mais resistente a secas prolongadas, e prefere estar sempre ao sol.

As flores de F. ulmaria (queen-of-the-meadows) exalam uma fragrância intensa que lhes vem dos salicilatos que contêm. Para a descrever, e porque não dispomos no blogue daquelas tirinhas de papel que se raspam para sentir os aromas, apelamos à sofisticação dos leitores: é ela a do perfume Trèfle Incarnat (L. T. Piver, 1896) ou de L'Air du Temps (Nina Ricci, 1948).

Mas é a F. vulgaris (lady-of-the-meadows) que dá o nome ao género: filipendula deriva do latim filum (fio) e pendulus (pendente), aludindo a filamentos que, nesta espécie, ligam os rizomas das raízes.

07/08/2009

Mata da Margaraça



Mata da Margaraça: carvalho-alvarinho, ribeira, moinho de água e arvoredo (loureiro, loureiro-cerejo, ulmeiro, vidoeiro); cerejeira com frutos

Nesta região do centro do país, adulterada pela plantação intensiva de eucaliptos e pinheiros, regularmente varrida por incêndios, a existência da Mata da Margaraça é pouco menos que milagrosa: um bosque autóctone quase intocado, estendendo-se por mais de 60 hectares, onde predominam castanheiros e carvalhos (Quercus robur), mas onde também se encontram ulmeiros, vidoeiros (Betula alba), folhados (Viburnum tinus), medronheiros, azereiros (Prunus lusitanica), cerejeiras, azevinhos, loureiros, aveleiras e salgueiros (Salix atrocinerea). Por toda a mata se vêem rebentos de futuras árvores, mostrando como ela se vem renovando espontaneamente. É um ecossistema em perfeito equilíbrio, com inúmeras nascentes irrompendo do xisto para formar refrescantes cursos de água que nem no Verão chegam a secar.

Como se vai para a Mata da Margaraça? O mais simples é procurar Côja num mapa de estradas e, uma vez lá, seguir as placas indicativas; a primeira delas aparece logo depois de atravessarmos a velha ponte sobre o rio Alva. Antes de chegarmos à mata, passamos ainda pelas aldeias de Benfeita e Pardieiros, e cruzamos o caminho de acesso à Fraga da Pena. Na Margaraça há um centro para atendimento de visitantes - que, durante o Verão, abre também aos fins-de-semana - e, na parte mais baixa da mata, um percurso assinalado com setas que termina, junto à ribeira, num enigmático beco sem saída. Muito pouco se ganha, porém, em obedecer às setas: afinal, a mata não é tão grande que alguém corra o risco de se perder; e há muita coisa boa (como as cerejas, minúsculas mas deliciosas) fora do percurso indicado. A parte da mata acima da estrada, embora com árvores em geral mais jovens e talvez por isso com menos encanto, guarda, a nível herbáceo e arbustivo, o que de mais interessante lá se pode ver. Terá sido para pôr essa riqueza botânica a salvo de visitantes incautos ou mal intencionados que o Instituto de Conservação da Natureza, que gere este espaço, não marcou qualquer percurso na metade superior da mata? Tanta cautela confunde-se com egoísmo e recusa em partilhar o que é belo; e é afinal contraproducente, pois acaba por desiludir e afastar aqueles que mais proveito tirariam de uma visita à mata.

14/06/2009

À flor da terra


Rosa, Parque do Arnado (Ponte de Lima)

As fotos em papel, guardadas silenciosas em camisas transparentes, entretêm-se na escuridão concertando um novo passado. A antiguidade, crêem, licencia este devaneio. Enquanto não atingem a consistência do farelo, temem o olhar que rapina as lembranças malbaratando-lhes o enredo. As digitais, pelo contrário, são enterradas em vida e aspiram por um nome, um número grande que seja, que as salve do esquecimento. Não são fiéis a nenhuma história, permitem mesmo a multiplicação de versões, cores e conteúdos, e conheceriam a eternidade se não fossem reféns da memória: das muitas mortes, cabe-lhes a repentina, que as reduz a nada.

Registos que são da insuficiência das palavras, as fotos justificam este recomeço. De novo meninos, levados pela mão do laço antigo, alimentaremos o natural enlevo por plantas até que sobre apenas restolho.

23/04/2008

Posições no mundo


Amendoeira (Prunus dulcis) - vale do Tua

«No fundo, havia a sensação de que depois de muito se andar, depois das espantosas invenções técnicas, o homem continuava a depender de a árvore dar ou não frutos, apesar de já não haver árvores e de os frutos já não serem arrancados ou apanhados do chão, mas simplesmente negociados. Onde estava então a nova árvore? E que árvore era essa que fazia, subitamente, os preços subirem e a fome instalar-se em vários pontos do país, para depois, passados alguns anos, começar, sem justificação, a dar frutos em excesso?»

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica (2007)

15/04/2008

Pimpinela



Sanguisorba minor

A maioria dos dicionários portugueses, quando questionados sobre a palavra pimpinela, respondem, piscando nervosamente, que se trata de:

1. herbácea da família Rosaceae, espontânea e frequente em Portugal, com uso medicinal;
2. plantas da família Apiaceae a que pertence o anis.

Anis?

anis - planta herbácea, da família Umbeliferae, também denominada erva-doce, que tem aplicações em farmácia, culinária e na preparação de algumas bebidas alcoólicas.

Mas este anis não pode ser o ilustre e caro [Illicium verum, da família Illiciaceae], pois não? E por que chamam à pimpinela - nome lindo - anis, e a qual das três famílias (Apiaceae, Umbelliferae, Rosaceae) afinal pertence? Sigamos para mais esclarecimentos em dicionários brasileiros. O Aurélio, enxuto como lhe convém, não hesita:

pimpinela - do latim pimpinella, alteração de pepinella, do latim pepo, «melão»; anis.
sanguissorba - ?
anis - erva da família das umbelíferas, Pimpinella anisum, originária do Egipto, a qual fornece a essência de anis usada na fabricação de licores e xaropes; erva-doce, pimpinela.

Bem, a pular assim entre as duas palavras, não vamos a lado nenhum! Consultemos os verbetes do Houaiss, que regista:

pimpinela - designação comum às plantas do gênero Pimpinella, da famíla das umbelíferas; deriva do latim pipinella, «planta medicinal»;
pimpinela - de pepinella, pepino, pepo, «melão», aludindo ao uso em salada, como o pepino, das folhas da sanguissorba.

Ah, pepinella e pipinella! E a sanguissorba era onde queríamos chegar:

sanguissorba - do latim sanguis, sangue, e sorbare que conduziu a absorver, indicando o uso desta planta para ajudar a conter hemorragias; designação comum da Sanguisorba minor: coentrela.

Conclusão: O anis-estrelado [Illicium verum, Illiaceae] pouco tem a dizer à planta acima designada por "anis ou erva-doce" [Pimpinella anisum, Umbelliferae], de flores brancas ou rosadas e folhagem parecida com a da salsa; dela também se faz um licor popular, com cheiro e sabor que lembram os do anis-estrelado porque contém anetol, substância responsável pelo aroma em ambas.

E a pimpinela [Sanguisorba minor, Rosaceae], de flores com sépalas verdes, estames longos e avermelhados com anteras amarelas, e sem pétalas, afinal não é uma Pimpinella.

Vêem como é preciso uma ensaboadela nos dicionários e na língua? O acordo ortográfico vai tratar disso, não se preocupem: as manchinhas, como os cês, pês, o trema e outros acentos incómodos, que, como repararam, foram o maior entrave ao nosso conhecimento da pimpinela, serão prontamente lavadas. Joeirar é a meta. A nós resta a tarefa menor de reaprender.