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20.7.10

Erva de partir pedra



Saxifraga fragosoi Sennen [sinónimo: Saxifraga continentalis (Engler & Irmscher) D. A. Webb]

Continuamos no Douro, ainda com o carro mal estacionado e os quatro piscas ligados. O que vale é que esta via tem pouco trânsito, senão haveria muita gente a fazer como nós, parando o carro às três pancadas só para admirar a diversidade botânica nos taludes. Desta vez é uma plantinha que estende uma manta de flores brancas como quem saúda uma procissão. Trata-se de uma saxífraga, género que hoje nos visita pela terceira vez (confira aqui e aqui) e que tem acentuada predilecção pelas rochas. Nem que seja para lhes explorar as fissuras à procura dos pontos fracos: saxifraga vem do latim e significa exactamente quebrar pedra.

As flores da S. fragosoi são versões miniaturais das da S. granulata, que é uma planta muito mais comum de norte a sul do país. Contudo, as folhas de uma e de outra não se deixam de modo nenhum confundir: as da S. granulata são arredondadas e invariavelmente verdes; as da S. fragosoi podem ser verdes ou vermelhas e têm a forma de um garfo (veja na segunda foto).

A S. fragosoi gosta de rochas húmidas, por vezes sombrias, e em Portugal ocorre apenas em Trás-os-Montes e nas Beiras. Além de a termos visto no Douro, encontrámo-la também na estrada para Piódão. Globalmente, fica-se pelo noroeste da Península Ibérica e pelo sul de França.

23.6.10

Couve de São João


Saxifraga spathularis Brot.

As a child, they could not keep me from wells
And old pumps with buckets and windlasses.
I loved the dark drop, the trapped sky, the smells
Of waterweed, fungus and dank moss.
(...)
Now, to pry into roots, to finger slime,

To stare, big-eyed Narcissus, into some spring
Is beneath all adult dignity. I rhyme
To see myself, to set the darkness echoing.

Seamus Heaney, Personal Helicon (Death of a Naturalist, 1966)

Num mundo que varie de modo contínuo - em sentido matemático ou outro mais impreciso que o leitor intua - não se espera que uma espécie evite torrões que entremeiem locais onde é espontânea, contradizendo de modo flagrante o que se poderia enunciar como o Teorema da Flor Intermédia. Mas essa é, como já contámos, a opção da urze-minhota-irlandesa, planta silvestre numa faixa que une o oeste de França ao norte de Espanha e noroeste de Portugal, e também na Irlanda mas não na Grã-Bretanha. O outro exemplo que desafia a lógica é a saxífraga da foto que, sendo natural do noroeste da Península Ibérica e da Irlanda - onde a conhecem como St Patrick's-cabbage -, não ocorre nos países intermédios. (A London pride é outra saxífraga, a S. × urbium D.A. Webb, híbrido entre a S. umbrosa L. e a S. spathularis.) Se confiássemos no testemunho botânico sobre o passado comum, diríamos que a Irlanda é gémea do continente mas a Grã-Bretanha tem ascendência diversa.

A saxífraga-de-folhas-em-colher, de margens translúcidas e recortadas em ziguezague, é uma herbácea perene, pequena mas vistosa na época de floração (de Maio a Agosto): as flores com simetria radiada são brancas e de pedúnculo frágil mas alto, com manchas amarelas e pintas cor-de-rosa nas pétalas. As folhas formam uma roseta basal mas algumas podem acompanhar até meia distância as flores na haste. Aprecia rochas (que lhe dão o nome genérico, do latim saxum, rocha, e frango, quebrar) húmidas de montanha, comuns nos prados do Gerês.

O género Saxifraga é o de mais vasta prole na família Saxifragaceae, contendo cerca de quatrocentas espécies, a maioria do hemisfério norte de clima temperado. Redescoberta pela genética recente, a família anda em mudanças taxonómicas, absorvendo outras famílias, como a Crassulaceae, para compensar a perda dos géneros Philadelphus, Deutzia, Hydrangea e Parnassia.

19.10.09

Púcaros com franja


Tellima grandiflora (Pursh) Dougl. ex Lindl. - Kew Gardens

Para começar, expliquemos o título: fringecups é o nome dado nos EUA a esta nativa dos bosques e florestas da costa oeste da América do Norte, obviamente sugerido pelo aspecto das flores, com o cálice em forma de púcaro bordejado pelas franjas das pétalas. Antes de irmos à batata quente taxonómica, aqui vão de corrida alguns dados sobre a Tellima grandiflora: é uma herbácea perene com 80cm de altura máxima e folhas em roseta basal coroada por longas hastes floridas; prefere lugares húmidos e está naturalizada na Grã-Bretanha e noutros países europeus.

Mas - e aquele grandiflora? O leitor, ainda fresco da sua lição de latim, esfrega os olhos e pergunta-se: será que estou a ver mal? Não, leitor, não está: aquelas flores, em flagrante desobediência ao epíteto específico, são mesmo diminutas; têm 8mm de comprimento. Ah, então quem baptizou a planta devia estar c'os copos. Calma, leitor, as coisas não se passavam de modo tão repentino, e um erro grosseiro como esse seria prontamente corrigido quando se dissipasse a embriaguês. O termo grandiflora não deve ser tomado como qualificativo absoluto: limita-se a comparar a planta com as restantes do mesmo género, que terão flores ainda mais pequenas. Esta explicação, porém, esbarra no óbice de não haver outras plantas no género Tellima. Mas eis a estocada final: esta planta já esteve incluída noutro género. Na primeira descrição que dela foi publicada (em 1813, no livro Flora Americae Septentrionalis - or, a Systematic Arrangement and Description of the Plants of North America, de Frederick Traugott Pursh), apareceu com o nome Mitella grandiflora. Dentro do género Mitella, também ele norte-americano, o nome grandiflora justificava-se pela existência de espécies com flores de 5mm ou menos. Quando John Lindley, em 1828, oficializou a transferência, já antes proposta por David Douglas, para o género mono-específico Tellima, as regras de conduta da taxonomia obrigaram-no a reter o epíteto grandiflora, por muito absurdo que o resultado lhe tenha parecido.

Em adenda, um pequeno segredo do ofício: a migração entre géneros é denunciada pela listagem de autores que se segue ao nome científico da planta (ver legenda das fotos). Os parênteses à volta de Pursh indicam que foi ele quem primeiro descreveu a planta, mas que o nome hoje em dia aceite se deve a Douglas e a Lindley.

27.2.08

Quaresmas


Saxifraga granulata

Os nomes vulgares têm destas coisas: criam afinidades fortuitas entre plantas que não podiam ser mais diferentes. A única característica que a quaresmeira e as quaresmas (Saxifraga granulata) partilham é a de, nas suas regiões de origem, florirem ambas entre Fevereiro e Abril; mas, enquanto a primeira é um arbusto lenhoso, de folhagem perene, com flores roxas, a segunda é uma herbácea de flores brancas; e, além do tamanho e da cor, separam-nas todo um oceano e muitos graus de latitude.

O género Saxifraga tem mais de 400 espécies, das quais cerca de 60 são espontâneas na Península Ibérica. São plantas muito procuradas por abelhas e outros insectos. A S. granulata é frequente por toda a Europa em prados, terrenos pedregosos e locais húmidos: as suas folhas, penugentas e arredondadas, formam uma roseta basal de onde emergem hastes erectas, de altura até 60 cm, com as flores nas extremidades.

As fotos foram tiradas há dias em Amarante, nas margens do Tâmega.

15.3.06

Begónias-de-Inverno


Bergenia crassifolia

Estão agora em conjuntos bem desenhados por todos os passeios que foram bafejados com a sorte de um canteiro. São exemplares de Bergenia, género com muitos híbridos e cultivares, que aprecia o frio mas não desdenha de um nicho soalheiro. Homenageiam o início antecipado da Primavera e o botânico alemão Karl von Bergen (1704-59), autor de Flora Francofurtana (1750), um catálogo detalhado das plantas da região de Frankfurt, com índice remissivo (componente rara em compêndios portugueses actuais...)

Da família Saxifragaceae, esta herbácea é nativa dos Himalaias e Sibéria mas, apesar da neve, é vivaz e multiplica-se facilmente por divisão dos rizomas. As folhas da espécie crassifolia, a da foto, são de textura espessa como de couve, ovaladas e largas como orelhas de elefante; espraiam-se, atapetando o solo, mal o sol espreita. As inflorescências são erectas e têm pedúnculo longo elevando as panículas cima da folhagem quase rasteira.

A designação vernacular portuguesa é chá-da-Sibéria em alusão à tradição asiática de preparar infusão das folhas que são ricas em tanino.