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19.4.11

Com nuvens e dentes



Erythronium dens-canis L.

Next to clouds / even a stone seems like a brother.
Wislawa Szymborska (trad. S. Baranczak e C. Cavanagh)

Habituados à intermitência do sono diário de algumas horas, descanso que muitos associam à preguiça e que nos exige, quando termina, o fortalecimento de uma lauta refeição, causa-nos estranheza que uma planta tenha meios e vontade para hibernar vários meses. Dir-se-ia condenada a perecer esfomeada sob os rigores da neve, apodrecendo com a humidade ou definhando pela escuridão persistente. Mas não. A natureza dotou algumas plantas de pequenas despensas subterrâneas e, ainda que de lá só retirem o mesmo requentado pequeno-almoço dias a fio, esse é alimento suficiente para as manter em repouso até que, mal o sol se firme, a memória as faça renascer.

A herbácea da foto, uma das mais bonitas da flora portuguesa, é um endemismo europeu que recorre a esse recolhimento de Inverno pois vive junto a neveiras e pontos elevados de serras. A floração é breve e as flores em geral solitárias; é mais fácil de identificar pelas folhas basais pintalgadas de vermelho ou amarelo, que se mantêm à superfície até ao Outono para reencher a despensa e perpetuar o seu ciclo vivaz. Se a chuva o permitir, podem  ver-se, até ao fim de Abril, as flores pendentes com cerca de 3 cm de comprimento, tépalas violáceas ou rosa-púrpura (muito raramente brancas) e base variegada (ou amarela, na versão pálida). A designação inglesa, dog's tooth violet, alude a esta morfologia e à forma do bolbo que, da cor do esmalte, lembra de facto um dente; a portuguesa, cebola-dente-de-cão, é menos colorida mas igualmente fantasiosa. Há registo da presença desta liliácea nas terras altas e frias do Minho, Trás-os Montes, Beira Alta e Beira Litoral.

Acompanhámos esta planta durante um mês num pico da serra do Açor. Enquanto a chuva e a névoa densa não se dissiparam, a população a que ela pertence parecia reduzida a uma dúzia de indivíduos mirrados e a alguns bolbos cilíndricos, embora avantajados (com uns 5 cm de comprimento) e por isso salientes no torrão. Na última visita, contudo, a luminosidade e o calor incipiente fizeram surgir inúmeros pares de folhas quase-opostas por toda a encosta, alguns já a exibir a haste da flor que, ingrata, não nos mostrou a elegante postura deflexa.

12.4.11

Açafrão à chuva


Crocus carpetanus Boiss. & Reut.

Carpetania designou em tempos uma região vasta no centro de Espanha onde se destacavam a cidade de Toledo e a comunidade de La Mancha com os moinhos que D. Quixote combateu, e onde hoje pontua Madrid. Ali se situa a metade leste da cordilheira central da Península Ibérica e vivem as populações desta planta que deram nome à espécie.

Encontrámo-la nas serras do Açor e Gerês, em populações isoladas e diminutas. É uma herbácea bolbosa e um endemismo ibérico que só ocorre em prados húmidos e sítios pedregosos das montanhas do norte e centro de Portugal e de Espanha, sempre acima dos mil metros de altitude e, pela nossa experiência, devidamente fustigados pela combinação frio-vento-chuva. Para se resguardar, a estrutura reprodutiva feminina é subterrânea e o fruto desenvolve-se enterrado, emergindo só quando já crescido.

Distingue-se do C. sativus e do C. serotinus por florir no Inverno – embora nos picos de montanha tenha por vezes de esperar pelo degelo de Verão para hastear as suas flores solitárias no topo de um longo tubo –, por mostrar a folhagem durante a floração, e pelo estilete que, neste Crocus, é menos dividido.

As folhas, duas a quatro, todas basais, têm cerca de 2 cm de largura e secção semi-circular, e exibem o característico veio central prateado, além de cerca de 13 sulcos na face inferior.

29.3.11

Nas nuvens



Narcissus asturiensis (Jord.) Pugsley [sinónimo: Narcissus minor subsp. asturiensis (Jord.) Barra & G. López]

It was odd of Wordsworth to hazard the phrase "lonely as a cloud". If only our British clouds were lonelier. The Telegraph (2001)

As nuvens são catalogadas, como as plantas, em famílias, géneros e espécies, seguindo-se a proposta de Luke Howard (1772-1864), um meteorologista amador inglês que também se interessou por botânica e inspirou poetas e pintores. Para ele, as nuvens seriam o rosto da atmosfera que, como o nosso, denunciaria rubores, amuos e culpas; aos meteorologistas caberia ler e interpretar esses sinais para prever as mudanças no tempo. São elas estruturas pouco estáveis, de existência transitória de que apenas detectamos a forma e a altitude, feitas de poeira e gotinhas de água ou gelo miraculosamente suspensas no ar arrefecido. A nomenclatura adoptada por Howard fez jus à sua relevância para o nosso clima, e por isso foi tão bem aceite: escolheu designações latinas como cirrus, cumulus, stratus e nimbus - distinguindo assim as nuvens transparentes como véus das carregadas de chuva. Depois de etiquetar as de atributos híbridos, o mundo indefinido e impalpável que preenche o céu estava nomeado.

Na serra do Açor há picos frios de afloramentos quartzíticos onde as nuvens baixas se espetam, mantendo ali uma bruma que não deixa adivinhar a presença, a dez metros de distância, da base gigantesca de uma eólica. A nossa última visita, em dia de garoa, decorreu toda dentro de uma nuvem. No centro dela, em ponto-de-orvalho, o vapor de água colou-se-nos à roupa sem chover. Vencida a encosta que não se via, mas se sentia subir, chegámos à base de um pedregulho a uns 1200 m de altitude, e lá estava a população de narcisos de flores solitárias a vergar as hastes, numa vénia ao naturalista exausto.

Com flores entre Fevereiro e Abril, este narciso com tépalas em franja de uns 2 cm de comprimento aprecia clareiras de matos de montanha e fendas de rocha do noroeste da Península, a altitudes superiores a 900 metros. As populações galegas e portuguesas parecem apresentar flores com tubos mais curtos e, pelo contrário, pedicelos mais longos, ocorrendo combinações destas características na região intermédia até às Astúrias.

Trata-se de um endemismo ibérico de distribuição restrita. Na Galiza, foi descrito em 1909 por Baltasar Merino (que o chamou Narcissus lagoi em homenagem a Manuel Lago, arcebispo de Lugo que o encontrou nas margens do rio Minho; a designação aceite desde 1984 é N. minor subesp. asturiensis) e consta do Catálogo Galego de Especies Ameazadas. Em Portugal, estava citado para as serras do Gerês (onde poderá estar extinto), Rebordãos e Estrela, além do material de herbário referente à serra do Alvão. As populações da serra do Açor (em Fajão e Piódão, onde as vimos), descobertas em 1998 por Paulo C. Silveira et al. (A flora da Serra do Açor, Guineana, 2007), são as localizadas mais a sul na Península Ibérica - e o registo da sua existência na Beira Litoral e na Beira Baixa deverá ser acrescentado à Flora Ibérica.

23.2.11

Verónica dos bosques


Veronica montana L.

Nomes vulgares: wood speedwell
Distribuição global: da Europa ocidental até à Sibéria, e ainda o norte de África; em bosques húmidos e sombrios, sobre solos ricos
Distribuição em Portugal: Minho e Beiras (muito rara)
Época de floração: Março a Julho
Data e local das fotos: Abril de 2009, Mata da Margaraça (único local da espécie na Serra do Açor)

8.2.11

Erva-das-nuvens



Sanicula europaea L.


Sanicula azorica Guthn. ex Seub.

The Greeks were right when they made Apollo the god both of imagination and of sanity; for he was both the patron of poetry and the patron of healing. G.K. Chesterton (Orthodoxy, 1908)

Insanos, quase não fotografámos esta herbácea ao vê-la tão pequenina e com inflorescências que nos pareceram de asterácea: capítulos de uma dezena de flores masculinas na periferia e uma ou duas flores hermafroditas ao centro. De facto, trata-se de umbelas: as flores exteriores, com cinco pétalas brancas de cerca de 3 mm de comprimento, são pediceladas e formam um "guarda-chuva" aberto. E afinal esta planta é parente da cenoura (Daucus carota L.), da salsa (Petroselinum sativum L. Mill.) e da cicuta (Conium maculatum L.), e útil como as duas primeiras: a infusão das folhas, com aroma a coentro, é ainda hoje recomendada como antiséptico e expectorante.

A sanícula é uma planta perene, rizomatosa, que requer prados húmidos e sombrios em bosques de montanha, mas não é caprichosa quanto ao substrato. Da Península Ibérica, prefere o norte - e na serra do Açor, onde a encontrámos, só ocorre na Mata da Margaraça (a julgar pelo livro A flora da Serra do Açor, de Paulo Cardoso da Silveira). As folhas, quase todas em ramalhete basal e com pecíolos curvados que nem sachos, são palmadas com cinco a sete lóbulos. A floração decorre entre Abril e Julho e os frutos são cerdosos (vêm-se dois numa das fotos).

O género Sanicula abriga duas espécies europeias, a S. europaea (da Europa, Ásia Menor e norte de África) e a S. azorica, um endemismo açoriano conhecido como erva-do-capitão, de habitats permanentemente encharcados (a chamada zona das nuvens), presente em poucos locais e quase sempre em populações pequenas. Diferem pouco na fotografia, mas de facto a açoriana é muito mais alta e tem folhas maiores com dentes aguçados nas margens.

Sanicula é um diminutivo do latim sanu, que alia o são ao sisudo.

7.2.11

Afinidades vegetais




Dryopteris affinis (Lowe) Fraser-Jenkins

Ninguém se lembraria de desvalorizar os carvalhais alegando que carvalhos há muitos; do mesmo modo, a abundância não retira lustre ao grande feto que protagoniza o episódio de hoje. O Dryopteris affinis, que dá pelo nome vernáculo de fentilha, vive justamente em bosques caducifólios, em locais frescos ou próximos de linhas de água, e notabiliza-se pelas suas frondes arqueadas, de cerca de 1 metro de comprimento, dispostas em forma de volante - não o volante dum automóvel, mas o projéctil usado no badminton. A sua presença em carvalhais e soutos na metade norte do país é indispensável para compor a atmosfera solene e misteriosa desses lugares. Um bosque não é uma plantação de árvores emergindo como postes de um chão nu; há que preencher os intervalos entre os troncos, e entre as copas e o solo, para criar um habitat tridimensional que proporcione refúgio e sustento a animais e plantas. As fentilhas fazem parte desse equilíbrio, ocupando o patamar intermédio entre as copas elevadas e as vidas rastejantes.

As hastes da fentilha (às quais deveríamos mais correctamente chamar ráquis) estão recobertas por escamas castanho-douradas que dão às frondes embrionárias uma aparência de bengala de ricaço. Esse revestimento permite diferenciá-la de uma espécie semelhante, mas menos comum, o feto-macho (Dryopteris filix-mas), que além do mais tem o ápice das pínulas mais arredondado e um menor número de indúsias (membranas que protegem os esporângios) em cada pínula.

Vendo bem, identificar a Dryopteris affinis é tarefa ao alcance de qualquer amador atento. Insatisfeitos com essa democratização da botânica, os profissionais resolveram complicar o assunto a ponto de fazerem dele coutada de especialistas. Assim, a Flora Ibérica assinala nada menos que três subespécies de Dryopteris affinis; e, dentro de uma delas, distingue ainda duas variedades. Alguém muito mais habilitado do que nós escreveu que essas subespécies e variedades «são de difícil distinção, tanto ao nível morfológico, ecológico como corológico». Manda pois a prudência que sigamos o exemplo desse autor, e não nos ponhamos com minúcias taxonómicas despropositadas. Registemos, ainda assim, que em Portugal (e, em particular, na serra do Gerês) estão assinaladas as subespécies affinis e borreri.

25.10.10

Arroz cristalizado



Sedum pruinatum Brot.

Já é o segundo endemismo galaico-português que mostramos em poucos dias. É da história que no noroeste da Península Ibérica, em tempos medievais, se falava uma única língua, de que hoje nos chegam ecos na poesia trovadoresca que é reproduzida em manuais escolares. Uma divisão territorial arbitrária acabou por partir essa língua em duas; e, embora foneticamente distantes um do outro, os idiomas português e galego revelam bem na escrita os seus laços ancestrais. Com a liberalização das fronteiras intra-europeias, o norte de Portugal e a Galiza passaram a visitar-se mutuamente com maior assiduidade. Mesmo que a união política nunca chegue (e será mesmo necessário tal formalismo?), aprendemos, nestas incursões, que há uma continuidade geográfica e cultural muito mais forte do que qualquer fronteira. Até que um governo estúpido nos vem lembrar que as fronteiras afinal nunca foram abolidas, e que quem mora do outro lado deve ser tratado como estrangeiro. Quem venha da Galiza e queira usar a A28, uma ex-SCUT que liga o Porto a Caminha, não pode simplesmente pagar a portagem, pois na auto-estrada não há nenhum posto ou máquina onde o fazer. Terá que alugar um identificador electrónico por 27 euros, se conseguir encontrá-lo nalguma loja, e acrescentar a essa quantia um pré-pagamento de 50 euros. Em nenhum outro país do mundo se cobram portagens de tal modo exorbitantes, e com tamanho incómodo para os utentes. Embora isso nada signifique para quem nos desgoverna, o norte de Portugal e a Galiza voltaram a ficar longe um do outro.

O que nos vale é que as plantas não percebem nada de política nem viajam pelas auto-estradas. O Sedum pruinatum é mais português do que galego, visto que, do lado de lá, só ocorre no sul da província de Ourense, nas serras que prolongam o maciço montanhoso da Peneda-Gerês. Talvez essa escapadela para os montes galegos tenha sido a moeda de troca pela vinda das cabras montesas, também elas indiferentes ao significado dos marcos fronteiriços. Em todo o caso, a presença do Sedum pruinatum no país vizinho é tão escassa que a espécie está listada como vulnerável no Catálogo Galego de Especies Ameazadas.

No nosso país, o S. pruinatum, ainda que não seja abundante e esteja restrito à metade norte do território, não é difícil de encontrar. Vimo-lo em diferentes locais da serra do Gerês (no trilho dos Carris, em Pitões das Júnias, etc.) e também na serra do Açor. Na estrada para Piódão começa a florir em meados de Junho, dividindo com os cravos silvestres a tarefa de enfeitar os taludes pedregosos.

Última hora. Recessão atinge Dias com Árvores
As medidas de contenção orçamental que têm asfixiado o país obrigam-nos a refrear o ritmo das actualizações do blogue. Passaremos a estar fechados aos sábados e domingos, e às quartas-feiras publicaremos apenas uma entrada abreviada.

21.9.10

Confraria das sombras


Neottia nidus-avis ( L. ) Rich.


Monotropa hypopitys L.

As duas linhas de fotos poderiam ser usadas num daqueles passatempos de jornal em que se pede ao leitor para descobrir diferenças, dos de dificuldade baixa se na segunda linha houvesse flores frescas. Na verdade, as flores da Monotropa não têm o capuz característico das orquídeas e, quando nascem, a haste apresenta-se inclinada, acabando depois por endireitar o pescoço enquanto elas murcham. Mas a confusão entre as duas é desculpável porque apreciam o mesmo tipo de habitat: bosques antigos, temperados, sombrios e húmidos, com caducifólias (especialmente faias ou castanheiros) e uma espessa manta de matéria vegetal em decomposição, propícia aos fungos de que ambas dependem. É que, por não terem folhas verdes, elas não têm capacidade de fotossintetizar.

Quem avista uma sem a outra ao lado repara no porte erecto, na cor acastanhada de cogumelo cozido, no caule com cerca de 20 cm de altura revestido por umas bainhas transparentes, no jeito parasita - e crê ter encontrado a orquídea, que é rara, consta de várias listas de plantas à beira da extinção e em Portugal só está referenciada em dois ou três locais. Quando a vimos, a dezena de exemplares parecia seguir uma linha recta, provavelmente uma raiz da árvore que os escondia da luz, e confirmar a propagação vegetativa que a beneficia nestes ambientes. Cada caule corresponde a um rizoma rodeado por um denso ninho de raízes (neottia e nidus-avis aludem ambos a esta morfologia); depois da floração, a parte aérea seca mas as raízes continuam a espalhar-se, e no ano seguinte fazem emergir novas plantas.

A Neottia nidus-avis é uma orquídea que ocorre na Europa, Norte de África, oeste asiático e Sibéria. Não engana os polinizadores, moscas atraídas pelo aroma a mel e que nela recolhem farto néctar, mas parece ludibriar os fungos. É através deles que retira carboidratos à árvore que, hospedeira dos fungos, é recompensada com minerais que estes lhe servem. Deste modo, a planta defende o seu bom nome (ladrão que rouba a ladrão...) e sai da classe das saprófitas uma vez que parasita fungos vivos. Sabe-se que protege alguns orgãos com uma substância fungicida, mas não é ainda claro o que ganha o fungo intermediário do negócio, embora estudos recentes indiquem que há transferência de carbono da orquídea para o fungo.

Cada flor tem ao centro seis pontos minúsculos sensíveis que, mal tocados pelo bicho, accionam o alarme que faz uma bisnaga de cola expelir uma gota e abrirem-se os sacos de pólen, que logo adere à cabeça do insecto. Na falta destes, autopoliniza-se, podendo mesmo fazê-lo enquanto subterrânea.

31.7.10

O mestre dos disfarces



Allium vineale L.

Se alguma vez um vinho o desapontou, revelando-se aquém das expectativas apesar da origem demarcada, talvez a culpa não fosse da casta de uvas nem das aduelas, mas do alho-das-vinhas. É que o aroma a alho em todas as componentes desta planta é tão forte que por vezes contamina indesejavelmente as herbáceas vizinhas e a carne do gado que a consome. O que, sendo útil num crème tiède à l'ail et au jambon noir, é bastante desagradável em leite ou champanhe. E os produtores que se servem de herbicidas (ainda?) depressa descobrem que nesta daninha não vale a pena gastar uma gota: as folhas são cerosas e estão estreitamente unidas ao caule; e o bolbo sabe proteger-se com uma fina casca.

Contudo, esta planta perene, nativa da Europa, norte de África e Médio Oriente, pouco exigente em nutrientes e água, é um exemplo de bom governo. Até à floração reduz-se a folhas longas mas basais, tubulares e ocas como bambus (e por isso se distingue bem de outros alhos e cebolas). No Verão lança uma única haste floral que pode atingir um metro de altura e enfeita-lhe o topo com uma "inflorescência" cónica de cerca de 5 cm de diâmetro na base. A justificação para as cautelosas aspas está na foto à esquerda em baixo: o que deveria ser uma inflorescência foi substituído por uma medusa de bolbilhos aéreos que brotaram sem terem existido flores; uma bolbilhescência, diríamos. Tomam forma presos à mãe até serem bolbos adolescentes de barbicha rala - a folhinha verde, longa e frágil que cada um lança; nessa altura saem de casa para se enraizarem como novas plantinhas e logo ajudarem à desgraça dos agricultores, gastrónomos e escanções, insinuando-se sub-repticiamente entre os produtos durante as colheitas. Em geral, encontram-se bolbilhos e flores em proporções variadas: ou só flores (evento raro que a foto à direita em cima mostra; cada flor não tem mais que 5 mm de comprimento), ou só bolbilhos, ou uma média distinta destas entre bolbilhos e flores.

27.7.10

Separados por uma flor


Hypericum elodes L.



Hypericum linariifolium Vahl

Até há dias, com a confiança de principiantes, julgávamo-nos capazes de reconhecer facilmente um hipericão. Mas, como terá explicado Lineu a propósito do nome do género (de acordo com a Flora Ibérica), estas são plantas que superam a nossa imaginação, e não apenas por causa da reputação medicinal e do valor como «espanta demónios». Qualquer uma das muitas espécies ibéricas que conhecíamos exibe, na Primavera ou no Verão, flores terminais com cinco sépalas, cinco pétalas amarelas - por vezes de face exterior púrpura - de bordos salpicados de castanho como bainha em que a costureira esqueceu os alinhavos, e numerosos (12 a 30) estames a formar uma coroa no centro. Contudo, o que encontrámos junto a um ribeirinho extenuado em Valongo - que rega um prado que parece açoriano - não cumpre o figurino, embora isso seja difícil de confirmar a olho nu em flores cujo diâmetro não excede os 10 mm. Mas vê-se que são afuniladas, com pétalas estriadas cuja largura se reduz na base. Depois de ampliadas as imagens, salvaram-se o amarelo, as brácteas e sépalas com glândulas avermelhadas e as folhas opostas, inteiras e tipicamente sésseis. (Bem, a penugem que as reveste foi outra surpresa.)

O H. elodes, planta perene do oeste europeu e dos Açores, aprecia a areia ou a gravilha nas margens de lagoas e riachos (elodes deriva do grego helodes, paul). O caule é erecto e não almeja ir além dos 15 cm de altura; de folhas arredondadas, floresce de Junho a Setembro e é raro.

O H. linariifolium, também do oeste da Europa e da Macaronésia, a quem o povo chama hipericão-estriado, não engana os incautos. Apesar de as folhas glabras serem tão estreitas e longas (3 cm de comprimento), são revolutas e abraçam o caule como é usual neste género. Está em flor de Maio a Setembro e vegeta em matagais e terrenos incultos, preferindo solo rochoso. O exemplar das fotos, da serra do Açor, é pequenino, mas pode atingir os 30 cm; as pintas escuras nas sépalas são as tais glândulas cujos óleos curam e concedem milagres. Esta espécie é pouco abundante, ou de distribuição caprichosa no norte e centro do país.

17.7.10

Mata do Martagão



Lilium martagon L.

No ano passado, ia Julho a meio, fomos à Mata da Margaraça para ver as flores deste lírio, cuja floração, asseguram as referências botânicas, decorre de Junho a Agosto. Esta espécie de Lilium também existe no Gerês - de facto, em quase toda a Europa porque foi introduzida onde se crê que não existia (Inglaterra e países nórdicos) e ali se naturalizou -, mas neste bosque há muitos exemplares e a floração deveria, por isso, ser mais vistosa. E, de facto, lá estavam umas dezenas de pés, alguns altos, com os característicos saiotes de folhas e hastes enfeitadas por 3 a 10 botões que pareciam prometer qualquer coisa. O problema é que todas as plantas tinham combinado mostrar exactamente o mesmo aos visitantes, e nem uma exibia ainda flores. Ainda. Basta cá voltar daqui a quinze dias... Pode ser até que, nessa altura, encontremos a orquídea rara daqui. Bem, fotografemos o botão. O que será este pauzinh ... mas é um estilete! Que infelicidade: a floração já tinha passado, era preciso esperar pelo ano seguinte. Viemos embora pela mesma estrada, com cara de roubados.

Começámos a planear a nova ida à Mata em Março. Imagina se vamos perder uma flor que seja. Abril. Será que este ano, com tanta chuva, florescem? Maio. Ah, os botões das flores afinal distinguem-se bem dos frutos, nascem cobertos de lã. E se os javalis os comem? Junho. Fotografámos finalmente (o advérbio é pobre) dúzias de lírios perfumados e coradinhos, uns funis cheios de néctar com seis pétalas reflexas a formar chapéus-turcos pequeninos (cerca de 5 cm de diâmetro), inclinados para o solo como quem olha atentamente um carreiro de formigas. Cada flor tem seis estames com anteras versáteis e um estilete longo com um estigma-maçaneta trilobado. E reparem que, seguindo as regras de bem-conjugar cores de meias e sapatos, os caules perto das flores estão pintalgados de vermelho. Quando guardámos as fotos na escuridão dos bits, julgámos estar a encher, em vez de escavar, uma mina.

Os Lilium são plantas perenes, bolbosas. Há cerca de cem espécies, nove europeias; algumas asiáticas consomem-se como legumes. A açucena (L. candidum L.), ou Madonna lily, é cultivada ou pintada, há mais de 25 séculos.

15.7.10

A cada erva o seu feitiço



Circaea lutetiana L. (A thing of beauty is a joy for ever)

Como alguns terão visto no filme Aquele querido mês de Agosto (de Miguel Gomes), a mata da Margaraça é um bosque de sombras aprazíveis carregado de sussurros. Não admira, portanto, que a erva-das-feiticeiras aprecie aquele lugar, exibindo-se viçosa nas clareiras durante o Verão. O nome do género refere-se à deusa grega de voz sedutora, Circe, inimiga dos mortais que transformava em bichos, ou simplesmente envenenava para abreviar caminho. No Livro III do poema Endymion: A Poetic Romance, John Keats dá voz ao horror de ser gente em pele de besta através do apelo de um rei/elefante enfeitiçado por Circe. E, se não fosse a ajuda providencial de uma droga que lhe confiou Hermes (um jovem com a primeira barba a despontar,/ altura em que a juventude tem mais encanto, na tradução de Frederico Lourenço), até Ulisses teria sucumbido aos poderes da bruxa (Odisseia, Canto X).

Esta herbácea delicada tem folhas simples com cerca de 10 cm de comprimento, opostas, de base cordiforme e ápice pontiagudo. Pode chegar aos 70 cm de altura, se contarmos com a haste floral, e na Europa só não se encontra na Islândia (por não haver bosques) e na Finlândia (em cujas florestas talvez haja demasiados elfos). As flores, brancas ou cor-de-rosa, são hermafroditas e tão pequeninas que o leitor terá de acreditar, com quem confia num fauno, que elas têm duas sépalas, duas pétalas lobadas de 2-4 mm, dois estames e um estilete com um estigma vermelho. Estes ingredientes arranjam-se como nas verónicas (até julgámos que era uma): o estilete e os estames projectam-se a partir do centro da corola mas os estames afastam-se para, todos juntos, criarem uma plataforma onde os insectos aterram para acederem ao néctar e colaborarem na polinização cruzada: a guloseima está guardada num anel que envolve o estilete e, enquanto lambem, os bichos tocam com a barriga no estigma - largando aí pólen que tragam de outra flor - e polvilham-se de pólen novo recolhido nas anteras. Contudo, a planta também se multiplica por divisão de caules subterrâneos.

O género abriga três espécies europeias, a C. lutetiana (de Lutetia, Paris), a C. alpina L. e a C. x intermedia Ehrh., híbrido das anteriores.

24.6.10

Fogo preso


Geum urbanum L. - frutos

     Sinais de fogo, os homens se despedem,
exaustos e tranquilos, destas cinzas frias.
E o vento que essas cinzas nos dispersa
não é de nós, mas é quem reacende
outros sinais ardendo na distância,
um breve instante, gestos e palavras,
ansiosas brasas que se apagam logo.

Jorge de Sena, Sinais de Fogo (Asa, 1995)

7.6.10

A cidade com serras


Geum urbanum L.

A acreditar pelo nome que o pai da taxonomia moderna atribuiu à erva-benta (Geum urbanum), as cidades do tempo de Lineu (1707–1778) deveriam ser radicalmente diferentes daquelas em que vivemos hoje. Mesmo as famosas capitais seriam um misto de cidade e de campo, com tantas árvores que as ruas se confundiriam com trilhos na floresta. Eça de Queirós (1845-1900), se tivesse nascido século e meio antes, não se sentiria compelido a romancear o inexistente contraste entre a cidade e as serras; e tanto lhe faria viver os seus últimos anos em Paris como em Tormes.

A menos, claro, que Lineu se tenha enganado (acontece a todos, excepto a um conhecido ex-primeiro ministro português), e o nome em que apoiámos tão fantasiosa dedução seja simplesmente absurdo. Geum urbanum: o epíteto não tem outra interpretação possível, urbanum significa relativo às cidades. Sucede que a erva-benta (herb bennet ou wood avens em inglês, benoîte commune em francês) viceja em lugares frescos como sebes ou bosques densos, e não propriamente em artérias urbanas ou em jardins residenciais. Talvez avance a medo até às portas da cidade, abrigada em algum arvoredo que sobrou de tempos de antanho. Mas em Portugal, onde a planta é bem menos comum do que no resto da Europa, isso parece-nos improvável. E, tendo-la nós apenas encontrado na Mata da Margaraça, esse enclave nortenho no centro do país, não será arriscado concluir que ela prefere o regime atlântico ao mediterrânico.

Aqui vai o retrato dela em duas penadas. É uma planta perene, penugenta, com uns 60 cm de altura, folhas basais pinadas semelhantes à de outras congéneres suas, e folhas superiores simples com três lobos. As flores, que surgem de Maio a Julho na extremidade de hastes esguias, têm de 1 a 2 cm de diâmetro, e exibem cinco pétalas bem separadas. Os frutos, semelhantes a ouriços, servem-se dos espinhos curvados em gancho para apanharem boleia de coelhos, javalis e outros peludos habitantes da floresta, que assim contribuem involutariamente para disseminar a planta.

3.6.10

Dar abrigo a quem tem frio


Serapias cordigera L.

As orquídeas são magníficas e complexas, mas o que as levou às formas que temos vindo a apreciar não foi, como já contámos, a intenção de nos agradar. O testemunho desta flor serve hoje para mitigar a ideia de que, em geral, as orquídeas obtêm serviços dos insectos à custa de sedução e engodo, explorando-lhes as fraquezas. Este satirião-de-flores-grandes, tal como a erva-borboleta, é um poço de virtudes. Como lança as primeiras folhas do ano no fim do Inverno e prepara a floração até Abril, sabe quão desagradáveis podem ser as noites frias ou com chuva forte no Mediterrâneo, Portugal e Galiza. Por isso oferece aos polinizadores uma pousada aconchegante formada por vários capuchinhos de tépalas, pilosos e perfumados; e nos aposentos, para um sono mais regalado, até deixa néctar ao dispor dos hóspedes. Além disso, num gesto cerimonioso de boas-vindas, estende uma passadeira púrpura e fofa à entrada (que a alguns lembra apenas uma língua marota).

Este vistoso labelo cor-de-ferrugem permitiu-nos detectar meia dúzia de pés à beira de uma estrada à saída de Côja, nas cercanias da serra do Açor. É um torrão que lamentavelmente não é inglês, e em pouco tempo estará coberto por casas ou estações de serviço.

The orchid squad - Regular patrols to protect rare wild flower

Officers have introduced patrols around the lady’s slipper flower, whose Latin name is Cypripedium calceolus. (...) Critics have questioned the use of police time to guard a plant and some Lancashire residents complain that priorities are skewed. Christopher Brandon, 32, said: “It sounds as if this plant is getting better protection than the Queen. Anyone would think a life was at stake, rather than just a pretty flower.” The law is clear. It is an offence to uproot any plant, bulb or flower on the European protected species list. Wild flowers belong to the owner of the land on which they grow and taking them could be classified as theft. Such is the importance attached to the lady’s slipper that it has been given a log number on the police computer, allowing a speedy response should anyone try to do more than admire it.


Já explicámos de onde deriva o termo genérico serapias; o epíteto cordigera indica o mesmo que cordiforme - ambos nomes recentes, posteriores à descoberta surpreendente de que alguns de nós têm coração.

17.5.10

Cães & companhia



Lobaria scrobiculata (Scop.) DC. (1.ª foto) / Peltigera membranacea (Ach.) Nyl. (2.ª e 3.ª fotos)

Já antes explicámos que um líquen é uma associação simbiótica de dois organismos, uma alga e um fungo. Mas ficou por exemplificar a extraordinária diversidade desses seres. O líquen-das-renas, que ilustrou essa prosa, quase consegue fazer passar-se por uma planta normal, dotada de caule e com uma ramificação bem definida. Nas fotos acima, que foram obtidas na Mata da Margaraça e mostram duas espécies ocupando habitats semelhantes, temos dois exemplos de líquenes foliformes. Tais líquenes têm a aparência de uma membrana que, à laia de papel de parede mais ou menos descascadiço, vai cobrindo superfícies diversas: troncos de velhas árvores, rochas, muros rústicos.

Joana Marques (que identificou o primeiro líquen, embora a foto não lhe permita ter absoluta certeza) escreve que «a Lobaria scrobiculata é uma epífita de troncos de carvalhos, castanheiros e oliveiras, e, porque bastante sensível, um dos indicadores de estabilidade dos bosques. Pode também colonizar muros nas proximidades de bons carvalhais. A cor azulada é característica quando o talo está húmido, sendo verde água quando seco, e vêem-se umas estruturas chamadas sorálios, de cor cinzenta, que são propágulos vegetativos.»

A Peltigera membranacea, ou líquen-dos-cães (dog lichen em inglês), gosta de rochas húmidas, onde cresce na companhia de uma profusão de musgos. Exibe uma variação cromática acentuada: castanho quando ainda fresco, torna-se de um cinzento azulado ao secar. Os rolos alaranjados que se observam numa das fotos contêm os esporos que se vão encarregar da propagação da espécie. A designação dog lichen vem-lhe dos «dentes» aguçados (ou rizinas) que sobressaem da parte inferior, branca e de textura esponjosa. Pelo mesmo motivo, uma sua congénere chama-se Peltigera canina e já houve quem recomendasse estes líquenes - supõe-se que com eficácia nula - como remédio contra a raiva: depois de secas e pulverizadas, as «folhas» eram misturadas em leite ainda morno da vaca; durante quatro dias consecutivos, os pacientes deveriam tomar em jejum, logo pela manhã, a beberragem resultante, que tinha acentuado sabor a mofo.

Como entretenimento visual, fica o convite para folhearem estas duas páginas com fotos de centenas de espécies de líquenes.

P.S. Agradecemos a Joana Marques as importantes correcções que fez à primeira versão deste texto.