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23.3.05

"Será de ficarmos calados?"

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A opinião de Teresa Andresen, arquitecta paisagista, sobre o projecto para a Avenida dos Aliados:
«(...) No domínio de novos espaços públicos, ditos verdes, se exceptuarmos o Parque da Cidade, Sobreiras, Pasteleira (recuso-me a incluir a alameda de Cartes, a negação do desenho urbano e da compreensão da vivência do espaço público!) pouco mais se terá feito nos tempos recentes. Privilegiou-se "redesenhar" espaços estabilizados na malha urbana com carga patrimonial -cultural/natural - apropriados pelo imaginário colectivo, ignorando que a defesa do património diz respeito a todos.

Será de ficarmos calados? Mesmo quando, como no caso da Praça e da Avenida, a Câmara do Porto usa a autoridade de dois consagrados nomes da arquitectura para manter-nos calados? Ora isto não pode estar bem! Eis a minha mágoa e a minha indignação!»

Ler texto completo nos comentários de "Sizentismo"
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16.3.05

"Sizentismo"

Já se criaram partituras sem notas, quadros sem cor, livros sem palavras, filmes sem imagens - e os artistas que desse modo levaram a criação às fronteiras do nada ficaram na história como visionários. O problema é que, uma vez assimilada a presumível intenção irónica do gesto, a repetição está fora de causa: ou se desiste de criar, ou se regressa a formas mais convencionais de expressão.

Mas há uma arte (a arquitectura) e um país (Portugal) em que o nada continua a render, e onde os artistas que o praticam, quais alfaiates do rei-que-vai-nu, explicam com minucioso detalhe a uma plateia reverente todos os subtis cambiantes do vazio. E o nada, na versão do pronto-a-vestir arquitectónico para espaços públicos, é uma calçada lisa de granito, sem réstia de ornamento em que a vista possa repousar. Vai ser assim a nova Avenida dos Aliados, como já o são a Cordoaria, o Carmo e muitos outros locais da cidade.

É preciso dizer claramente que a arte que assim destrói o espaço público não presta: é irrisória, é arrogante, é desrespeitadora da cidade e da sua memória; é infinitamente inferior à arte dos calceteiros que compuseram os expressivos desenhos que serão imolados ao cinzento uniforme do granito, e à dos jardineiros que mantêm pacientemente os canteiros agora proscritos.

P.S. 1) A crer na maquete do projecto, as duas magnólias junto à Igreja dos Congregados, a branca que se vê na foto e outra rosa mais jovem, também estão condenadas. Mas quem as manda florir tão escandalosamente? Não sabem elas que os arquitectos do dream team (como lhes chamou o nosso Presidente da Câmara) abominam flores?

2) Até que a voz nos doa. Não é esta a primeira vez, nem será infelizmente a última, que escrevemos sobre o floricídio que vai avassalando a cidade: confira aqui e aqui.


Fotos: pva 0502

6.10.04

Verde e branco em dia cinzento

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Esta é altura em que os jardins se enchem das flores de princípio do Outono, e sabe bem espantar a melancolia da estação passeando os olhos nas variegadas cores dos crisântemos, no vermelho vivo das salvas, nas begónias, e em tantas outras de que desconheço o nome.
No jardim da Rotunda da Boavista as únicas flores que se encontram agora são as de uma Camellia sasanqua, quase completamente brancas, já na última fase de floração. Salve belas flores!


foto: mdlramos 0410 - Jardim da Rotunda
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Deste jardim foram banidos os canteiros coloridos, e até os tradicionais bancos vermelhos 'viraram' verdes. É um jardim "requalificado".
O cidadão comum e ingénuo a quem tinham prometido o jardim de volta (?), sente-se defraudado por ser obrigado a um inapropriado e insípido exercício de contemplação em tons de verde e branco. Contudo resta-lhe uma certa esperança porque pensa que o jardim não está pronto e que brevemente lá reporão flores. Nós, que pertencemos ao número de cidadãos comuns mas não ingénuos, sabemos que isso não vai acontecer, porque os 'novos primitivos' abominam as flores!

28.7.04

Nem pela sombra as perdoam

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É quase inevitável perguntarmo-nos se os arquitectos que planeiam os "requalificados" espaços públicos do Porto ainda circulam a pé pela cidade, ou se a sua vida decorre, entre casa, carro e escritório, só em ambientes artificializados. Porque, nos dias de maior calor, atravessar a extensão granítica de uma praça escaldante é, à escala reduzida, um feito comparável à travessia de um deserto: na praça, como no deserto, não há vegetação que dê sombra ou permita repousar a vista.

Olhemos para Campanhã: havia, no largo da estação, um soberbo plátano, sobrevivente da primeira fase das obras do Metro, que era a única sombra num lugar de resto desgracioso; agora só lá temos as superfícies lisas e envidraçadas da novíssima gare intermodal. E, em frente do Hospital de Santo António, o mesmo arquitecto que criou os granitões dos Leões, de Parada Leitão e do largo da Cadeia da Relação repetiu a sua obsessiva receita com mais um larguíssimo passeio de granito, onde não deixou sequer lugar para uma flor.

Espaços como estes, por serem hostis à permanência de pessoas, matam o convívio na cidade. Um castigo merecido, ainda assim suave, para quem os planeia, seria obrigá-los a ficar de pé nesses lugares, sem a protecção de uma sombra, durante uma tarde de calor.

Os outros, os que não tiveram culpa e sofrem a cidade que os burocratas lhes impuseram, ainda se vão podendo abrigar à sombra das árvores que foram poupadas. Quando posso, escolho um plátano: árvore robusta e de sombra fiel, uma benção que a cidade tudo tem feito para desmerecer. Da minha janela vejo dois plátanos, ambos ameaçados por obras (presentes ou futuras), mas cumprindo até ao fim o seu nobre destino.

E, por falar em plátanos, leiam aqui sobre as heróicas árvores da Praça do Marquês de Pombal, no Porto.
(Adenda: Saudades do Marquês - 9.6.05)