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17.10.15

Estrela maior


Abiada, Cantábria - bosque ribeirinho de Fagus sylvatica

Imagine o leitor que segue por um trilho numa floresta atapetado de folhas e com solo esbranquiçado que parece calcário, a saltitar para não se molhar nos regatos que se atravessam no caminho - e lhe aparece esta planta. Que nome lhe daria? Dir-se-ia que as folhas são de uma Anemone gigante, mas o porte erecto e as inflorescências lembram os do género Eryngium. Não concorda? Ora repare nas brácteas duras, coloridas de verde ou púrpura e com um ápice aguçado, a formar uma taça que envolve as flores. É certo que, embora quase sempre presente nas umbelíferas, este tipo de invólucro nem sempre está tão desenvolvido como nos cardos, mas as flores das asteráceas não são assim. Bem, confiemos na intuição e avancemos: está encontrada a família, Apiaceae. E temos um candidato a género; a confirmar-se, falta descobrir a espécie.



Astrantia major L.

Uma busca rápida num guia de plantas das Astúrias mostra, mais uma vez, como as aparências podem iludir os amadores. Trata-se de uma umbelífera, sem dúvida, mas não do género Eryngium. A designação Astrantia foi proposta por Lineu e esta espécie, por ser uma herbácea alta (acima dos 40 cm de altura), com umbelas que, ao longe, parecem grandes malmequeres (cada uma com 30 a 50 flores minúsculas, de uns 3 a 4 mm de diâmetro), é a Astrantia major. A menos robusta, que prefere substratos silíceos acima dos 1800 m de altitude e não vive nas montanhas cantábricas que visitámos, ficou com o nome Astrantia minor. São ambas espécies nativas do centro e sul da Europa, de prados de montanha, clareiras de bosque ou locais rochosos. O género Astrantia integra ainda umas oito espécies adicionais na Europa e no oeste da Ásia, todas de habitats montanhosos, mas nenhuma delas se estabeleceu em Portugal.

O nome Astrantia, que deriva do termo grego ástron (estrela) parece querer dizer que esta planta é obviamente uma margarida. Afinal não fomos os únicos enganados ao primeiro olhar pela sua aparência.

15.9.15

Perfume de Verão




Magydaris panacifolia (Vahl) Lange

Como um comerciante que mantém a loja aberta por ser essa a sua vida, e tem que garantir aos seus clientes que o mais recente produto para venda é uma maravilha e o melhor de sempre, mas sem desfazer dos produtos não menos extraordinários que antes vendeu aos mesmos clientes - também nós nos vemos compelidos a anunciar que esta é a nossa melhor umbelífera de sempre. Macia ao tacto (quase a diríamos aveludada), elegante no porte, disseminando um perfume de baunilha que evoca inocentes prazeres de Verão, a Magydaris panacifolia (que não tem nome em português) gratifica-nos os sentidos sem pedir nada em troca. Contudo, talvez o júri para a atribuição do prémio de beleza, picuinhas como é sua obrigação, faça reparo às folhas por destoarem do conjunto: são muito grandes, sobretudo as basais, desenhadas a traço grosso e não finamente divididas como é típico das umbelíferas; na textura, cor e nevação fazem lembrar as couves dos nossos quintais. Como atenuante há o facto de em meados de Julho, quando se dá o auge da floração, as folhas basais estarem em grande parte secas; e de, no resto do ano, essas folhas tão peculiares e inconfundíveis nos alertarem para a existência da planta, convidando-nos ao regresso na estação certa. Tudo ponderado, o júri poderá confirmar o favoritismo da Magydaris panacifolia, mas talvez a obrigue a partilhar o degrau mais alto do pódio com (pelo menos) uma dezena de outras umbelíferas.

Foi por lhe termos visto as folhas em Abril de 2014 que regressámos a Campo de Víboras (Vimioso) no Verão do ano seguinte. A julgar pelo mapa de registos no portal Flora On, a Magydaris panacifolia distribui-se, no nordeste do nosso território, por uma faixa de 30 ou 40 Km de largura ao longo da fronteira, mas no sul do país, onde é mais frequente, já se aproxima da costa. A sua predilecção por climas mediterrânicos reflecte-se na distribuição global: Península Ibérica, Marrocos, Argélia e Tunísia. A Flora Ibérica atribui-lhe uma preferência por lugares secos e terrenos baldios que, à primeira vista, não é corroborada pelos prados sombreados por freixos onde a encontrámos. Mas entre as duas visitas o lugar tinha-se transformado: as valas que irrigavam a frescura primaveril dos prados tinham secado, o verde convertera-se num amarelo de palha, o calor era sufocante já em meados de Julho.

Na falta de elementos de comparação nas fotos, é útil informar que a Magydaris panacifolia é uma planta robusta e de estatura respeitável, podendo atingir ou mesmo ultrapassar os 2 metros de altura. Ramificada, exibindo numerosas umbelas floridas, cada uma com vinte a trinta raios, é quase tão vistosa como a canafrecha (Ferula communis), outra umbelífera que abundava em Campo de Víboras. Para não roubar protagonismo à vizinha, a canafrecha tinha florido mais cedo. É que não valia a pena entrar em disputas azedas, pois no nosso pódio há lugar para todas.


Campo de Víboras - Julho de 2015 (veja aqui foto do mesmo prado em Abril de 2014)

1.9.15

Salada de cenouras


Daucus durieua Lange

Eis uma cenoura que não serve de refeição a ninguém e pouco nos entusiasma pela formosura, a menos que a observemos com a ajuda de lupa ou de algum outro instrumento óptico. Raramente ultrapassando os 30 cm de altura, e em geral ficando-se por bem menos, o Daucus durieua é, pelo pequeno tamanho que atinge e pela discrição das suas flores, agrupadas em frouxas umbelas, o mais humilde representante do seu género na flora portuguesa. Mas a beleza, já se sabe, é uma invenção estritamente humana que está no olhar de quem vê - um olhar que não é apenas visual, mas que é alimentado pela memória, pela cultura e pelo preconceito. É assim que o Daucus durieua, que à primeira vista impressiona tão pouco, ganha a nossos olhos a súbita formosura de o sabermos raro, em Portugal praticamente confinado ao quadrante nordeste do território continental. Por o termos apenas encontrado nas minas de Santo Adrião, em Vimioso, funciona também como postal de recordação, exortando-nos ao regresso a um local feliz. Ao deslindarmos-lhe o nome e a história, outras geografias se abrem à imaginação. Foi Pierre Boissier (1810-1885), um dos grandes estudiosos da flora ibérica, quem publicou, no seu Diagnoses Plantarum Novarum Hispanicarum (1842), uma das primeiras descrições desta planta, a que chamou Durieua hispanica. Quando em 1874 o dinamarquês Johan Lange (1861–1880) a mudou para o género Daucus, onde parece ter estacionado de vez, o nome durieua foi mantido, mas como epíteto específico. É um nome que nos transporta às Astúrias e à cordilheira cantábrica numa época em que esses lugares eram quase tão remotos como as profundezas de África. O francês Michel Charles Durieu de Maisonneuve (1796–1878), ou simplesmente Durieu, foi um militar de carreira e naturalista de vocação que durante longos anos explorou, quase sempre sozinho, as acidentadas montanhas e desfiladeiros do extremo norte da península em busca de novidades botânicas. Uma das que encontrou foi esta, justificando a homenagem de Boissier. Quem arranhar o latim pode tirar algum proveito da dedicatória original (extraída daqui): Dicatum cl. Durieu qui Asturias, variasque alias partes Hispaniae perlustravit, ibique pulchras stirpes detexit et nunc plagas Africae borealis jam a tribus annis peragrat, floram que Atlanlicam locupletat.



Daucus muricatus (L.) L.

O Daucus muricatus, que encontrámos nas faldas da serra de Alvaiázere e é o segundo ingrediente da salada que hoje servimos aos leitores, tem um porte mais robusto (pode atingir 1 m de altura) e flores mais abundantes e vistosas, com as pétalas externas bem maiores do que as restantes. Essa forma das flores, conjugada com os frutos eriçados de pêlos brancos (como é habitual no género Daucus), repete-se em algumas outras umbelíferas, em particular nas do género Torilis, e por isso não permite por si só uma identificação inequívoca. Para dissipar dúvidas, podem observar-se as folhas, que no Daucus muricatus são bastante distintivas pelo seu aspecto alongado e farfalhudo.

Distribuída pelo centro e sul do país, em especial sobre substratos calcários ou margosos, a cenoura-áspera (qualidade a que se refere o epíteto muricatus com que Lineu a baptizou) é nativa de boa parte da bacia mediterrânica, desde Portugal até à Itália e desde Marrocos até à Líbia.

28.7.15

Creme de cenoura



Daucus carota L. subsp. azoricus Franco



Com a globalização galopante, vão-se perdendo as marcas da identidade nacional. Qualquer dia os restaurantes portugueses só se distinguirão dos espanhóis por terem o menu traduzido em mau inglês e por os garçons se exprimirem, perante os estrangeiros, numa língua de circo a que caridosamente chamaríamos portunhol. Move-os (aos garçons) a ideia de que, seja qual for a nacionalidade dos clientes, eles os entenderão melhor se disserem pêzzcáda ou criémê de zênôra (palavras que não existem em língua nenhuma) em vez de pronunciarem correctamente pescada e creme de cenoura. O dito creme de cenoura, porém, configura um abastardamento dos costumes em comparação com o qual a questão linguística não passa de um fait divers. A tragédia é que os portugueses estão a deixar de comer sopa. Quando se senta à mesa em clima de festa uma família numerosa, a sopa é um castigo reservado às crianças. Talvez se julgue que ela faz bem até certa idade (13 ou 14 anos) mas para um adulto é sinal de fraqueza ingerir um caldo de legumes. E a sopa-enquanto-alimento-infantil deve previamente ser convertida em creme, não vá a dentição frágil quebrar-se ao mastigar um talo de couve mal cozida. Constatando que a sopa não tem saída ou, quando tem, só é servida depois de "passada", os restaurantes que ainda a incluem na ementa ficam-se pela versão "creme de legumes". E se é para desfazer os legumes, misturando-os indistintamente, escusado será usar uma grande variedade deles. Com isto chegamos ao malfadado creme de cenoura, que é a sopa à beira da extinção.

Cumprido o desabafo, aqui vai a primeira informação paracientífica do dia: o que há de mais estranho no creme de cenoura é a cor. É natural que o creme assuma a cor do ingrediente (neste caso a cenoura) que foi triturado para o produzir, mas o que já não é natural é que a cenoura tenha a cor que tem. Aquilo que consumimos sob o nome de cenoura é a raiz intumescida de uma umbelífera, Daucus carota subsp. sativus. Acontece que os antepassados silvestres dessa planta têm raízes brancas ou amareladas, e a versão cor-de-laranja a que estamos habituados só surgiu no século XVII, provavelmente na Holanda. Nos países com um mercado gourmet mais diversificado, encontram-se ainda à venda essas cenouras pálidas que, parecendo curiosidades, são afinal menos artificiais do que as cenouras comuns. Creme de cenoura branco? Seria uma novidade, mesmo que não fosse menos insípido.

A versão silvestre da cenoura tem em geral raízes minguadas e pouco comestíveis (são-no apenas quando muito tenras) - caso contrário, sendo ela tão abundante por toda a Europa e também na Ásia, nunca teria havido necessidade de a domesticar. Para os botânicos, a variabilidade da espécie Daucus carota é motivo de estudo, discussão e controvérsia. A Flora Ibérica considera existirem na Península oito subespécies de cenoura silvestre, mas o critério usado nessa divisão não é universalmente aceite e, ao desvalorizar como subespécie um endemismo lusitano distintivo como o Daucus halophilus, não parece isento de pendor nacionalista. Não menos discutível será a subordinação da subespécie maritimus, formada por plantas quase glabras, débeis, de umbelas pequenas, à subespécie carota, que integra plantas mais hirsutas e espigadas, de umbelas maiores. A única vantagem da simplificação proposta pela Flora Ibérica é que a cenoura que vemos em quase em todo o continente pertence à subespécie carota, tendo as outras três subespécies por cá assinaladas uma presença muito pontual. Mas se dermos dois passos do lado de lá da fronteira já tudo se complica.

E nos Açores? Graças à circunstância de a Flora Ibérica não se ter ocupado das ilhas, ainda hoje ocorrem oficialmente duas subespécies de Daucus carota no arquipélago. A mais comum das duas, ilustrada nas fotos, é tida como endemismo açoriano, ocupando em todas as ilhas habitats muito diversos desde falésias costeiras até terrenos baldios, pastagens e bermas de estrada. A segunda, presente apenas em quatro ilhas (São Miguel, Graciosa, São Jorge e Faial), é a subespécie maritimus. Há uma clara diferença de tamanho entre as duas subespécies, com a subespécie azoricus a vencer por larga margem, e há diferenças também na pilosidade e no formato das folhas: na subespécie azoricus os segmentos de última ordem das folhas são curtos e arredondados (4.ª foto), enquanto que na subespécie maritimus são longos e estreitos, quase lineares. Talvez estas diferenças não passassem no crivo de quem gosta de amalgamar coisas díspares, mas enquanto isso não sucede este Daucus carota subsp. azoricus vai segurando o seu incerto galardão de endemismo açoriano.

4.7.15

Salsa das vacas



Anthriscus sylvestris (L.) Hoffm.

Segundo algumas fontes, o nosso povo chamaria cicuta-dos-prados a esta herbácea. É um nome enganador para uma planta que, ao contrário da verdadeira cicuta, não é venenosa; e aliás, como sugere o nome inglês cow parsley, pode ocasionalmente ser empregue em culinária. Sendo ambas umbelíferas de porte elevado (a salsa-das-vacas atinge 1,5 metros de altura, a cicuta pode chegar aos 2 metros), que dão flores brancas e apresentam folhas tripinatissectas, é de facto grande o risco de serem confundidas por gente pouco versada em subtilezas morfológicas. Não seria com tranquilidade que consumiríamos uma refeição alegadamante condimentada com este Anthriscus, se ele tivesse sido colhido na natureza. O fraco uso que em Portugal se dá às ervas aromáticas espontâneas empobrece a nossa cozinha e é por isso de lamentar, mas podemos interpretá-lo como o instinto de defesa de quem se reconhece ignorante: é melhor não nos metermos com o que conhecemos mal, não vão as coisas dar para o torto. A mesma atitude de humilde abstinência preveniria os trágicos envenenamentos com cogumentos que ocorrem quase todos os anos.

Apesar de o Anthriscus sylvestris ser comestível, não é dos condimentos mais recomendados, havendo quem descreva o seu sabor como desagradável. Será bom talvez para vacas, mas para pessoas nem tanto. Anda longe de ter prestígio equiparável ao do seu congénere Antheriscus cerefolium: o cerefólio (em francês cerfeuil, em inglês chervil), amplamente cultivado em França, é um dos quatro componentes da mistura de ervas finas tão usada na culinária gaulesa (os outros são a salsa, o cebolinho e o estragão).

A salsa-das-vacas distribui-se por grande parte da Europa e da Ásia, e está ainda naturalizada na América do Norte, mas é pouco comum na região mediterrânica e também em Portugal, onde ocorre esporadicamente no centro e no interior norte. Quem conseguir encontrá-la nos nossos campos (ela floresce de Abril a Junho) pode, ainda assim, desejar experimentá-la nos seus cozinhados sem ter que correr risco de vida, e é para essas pessoas que aqui deixamos umas dicas breves. Notemos primeiro que a salsa-das-vacas apresenta caule hirsuto, desprovido de manchas e marcadamente estriado (ver 2.ª foto), enquanto que o caule da cicuta é glabro, comparativamento liso e com manchas púrpuras. Os frutos, se estiverem presentes, também ajudam na diferenciação: os da salsa-das-vacas são alongados (4.ª foto), os da cicuta (foto) quase esféricos. Finalmente, assinalemos as muito características brácteas pendentes (4.ª e 6.ª fotos) que a salsa-das-vacas exibe na base da cada uma das umbélulas (uma umbélula é cada um dos "cachos" de flores que constituem uma umbela; na 6.ª foto em cima vemos uma umbela composta por 8 umbélulas).

10.3.15

Cenoura com sal



Daucus halophilus Brot.

As cenouras do nosso dia-a-dia não são mais do que as raízes tuberosas de uma umbelífera de flores brancas, Daucus carota, que é espontânea e abundante em Portugal continental e nos arquipélagos atlânticos. Valha a verdade que a cenoura-dos-quintais (Daucus carota subsp. sativus) é de uma estirpe seleccionada, com raízes maiores e sabor menos amargo do que a cenoura silvestre, mas pode ser tentador experimentar a custo zero as plantas mais ou menos comestíveis que crescem livremente pelos campos. O risco de uma identificação errada é porém sério, pois não são poucas as umbelíferas mortalmente venenosas aparentadas com a cenoura (eis dois exemplos).

Mesmo a cenoura silvestre está sujeita a variações importantes, justificando a divisão do Daucus carota num sem-número de subespécies. Habitualmente é uma planta alta, capaz de ultrapassar um metro de altura, com caules rugosos, folhas duas a três vezes divididas e de textura fina, brácteas pinatissectas com segmentos lineares, e raios da umbela que se enrolam sobre si mesmos aquando da frutificação. No género Daucus os frutos são peculiares, com costelas longitudinais armadas de espinhos eriçados (foto aqui). Entre as umbelíferas espontâneas da nossa flora, só as dos géneros Torilis e Pseudorlaya, que em geral são muito mais débeis, produzem frutos com arquitectura semelhante.

Fotografada ainda as flores mal despontavam, a filiação da planta acima exposta ao género Daucus não é controversa, mas o seu estatuto taxonómico tem suscitado opiniões divergentes. Adoptar uma opinião ou outra não é coisa de somenos, já que a planta em causa é endémica da faixa litoral portuguesa desde a Ericeira (na Estremadura) até Faro, com o seu contingente mais numeroso albergando-se nas arribas do cabo de São Vicente. Trata-se de decidir se o que temos na costa vicentina é uma espécie endémica, claramente distinta das demais espécies de Daucus, ou apenas mais uma das quinze subespécies de Daucus carota listadas na flora europeia, algumas delas de diferenciação problemática. Uma decisão dessas não é neutra, e tem consequências na protecção legal, por enquanto inexistente, de que a planta poderá ou não vir a beneficiar.

Quando Brotero descreveu a planta, no tomo 2 (de 1827) do seu Phytographia Lusitaniae Selectior (texto integral disponível aqui), baptizando-a com um nome (halophilus) que reflecte a sua predilecção pelo ar salgado da beira-mar, não teve dúvidas em distingui-la das suas congéneres pelas hastes simples e atarracadas, pelas brácteas com lóbulos largos em vez de lineares, pela ornamentação dos frutos. João do Amaral Franco, no vol. 1 (de 1971) da Nova Flora de Portugal, manteve este Daucus como espécie autónoma, mencionando ainda, como pormenor distintivo, a textura algo suculenta das suas folhas. Por essa época, contudo, já a unanimidade havia sido quebrada: em 1935, em nota publicada no Boletim da Sociedade Broteriana, Gonçalo Sampaio despromovera o D. halophilus à condição de variedade do D. hispanicus (o qual, por sua vez, é tido hoje como uma subespécie do D. carota). Antonio José Pujadas Salvá, autor do capítulo sobre o género Daucus incluído no vol. X da Flora Ibérica (publicado em 2003), aproveitou a deixa de Sampaio, embora tenha desagravado o castigo: o D. halophilus, segundo ele, é uma subespécie do Daucus carota, ainda que aos olhos inocentes de um leigo as duas plantas se pareçam uma com a outra bastante menos do que um cavalo com um burro.

Como a Checklist da Flora de Portugal segue de modo mais ou menos automático as opções da Flora Ibérica, nos últimos anos tem prevalecido entre nós (e também no portal Flora On) o critério de Pujadas, apesar das reservas que Carlos Aguiar e Jorge Capelo, dois dos responsáveis da Checklist, sobre ele exprimiram.

15.11.14

Quem vê folhas não vê florações




Laserpitium eliasii Sennen & Pau subsp. thalictrifolium (Samp.) P. Monts.

A chamada sabedoria popular, repositório do senso comum mais comezinho em que vale tudo e o seu contrário, pode ter algum préstimo desde que saibamos fazer as necessárias adaptações. Assim, o provérbio glosado no título pode, se quisermos, alertar-nos para o facto de aquilo que observamos ser apenas uma parte talvez enganadora da realidade. No inocente passatempo de botanizar, esse princípio aplica-se de modo literal quando insistimos em dar nome a uma planta que se nos apresenta em estado vegetativo, sem flores ou frutos que facilitem a identificação. Nalguns casos, a possível confusão com outras espécies é reconhecida no próprio nome científico. Serve de exemplo a umbelífera de hoje, em que o epíteto thalictrifolium denuncia a semelhança da sua folhagem com a do Thalictrum. Se atentarmos no penacho dourado que é a inflorescência do mesmo Thalictrum, reconhecemos contudo que não há engano possível quando alguma das plantas está em flor.

O género Laserpitium, nome escolhido por Tournefort mas validado por Lineu, inclui 14 ou 15 espécies europeias. São plantas perenes, robustas, capazes de atingir metro e meio de altura, de caule maciço e estriado, com folhas pinadas divididas até quatro vezes. As flores são brancas, em geral com estames longos e recurvados, e os frutos apresentam quatro bandas membranáceas longitudinais de largura variável. O Laserpitium eliasii, de que estão descritas três subespécies de diferenciação nem sempre clara, é um endemismo ibérico confinado ao norte de Espanha e de Portugal; por cá só se reconhece a presença da subespécie thalictrifolium, que ocorre com alguma assiduidade no nosso único parque nacional, em carvalhais e outros bosques húmidos de montanha, mas fora dele quase nunca se vê.

A descrição original do Laserpitium eliasii foi publicada em 1907 no Boletin de la Sociedad Aragonesa de Ciencias Naturales por dois estudiosos da flora espanhola: o francês Étienne Marcellin Granier-Blanc (1861-1937) e o valenciano Carlos Pau (1857-1937). O primeiro, que foi membro da comunidade católica dos Irmãos de La Salle, adoptou o nome religioso de Frère Sennen; a sua actividade como botânico e explorador estendeu-se a França, Espanha e Marrocos.

28.10.14

Dueto de umbelíferas

Todos sabemos como os elogios nos fazem falta. Não nos basta o mérito se os outros não reparam nele, sendo que reparar é equivalente a expressar publicamente o apreço e contribuir para que a glória não seja esquecida. Descontadas a lisonja e a ganância, o processo nem é inteiramente pernicioso: é a opinião dos outros, e a competição entre nós, que nos espevita o talento e nos estimula a inovar. As mudanças que induzimos ou criamos em inúmeros domínios são parte dessa incessante busca de qualidade. Sem elas, talvez o tédio acabasse connosco. Nisto diferimos bastante das plantas, que parecem viver num descansado tempo sem imaginação nem anseios, apenas a cumprir ordens. De resto, se mudam, é porque a natureza, esse estranho oleiro de cujas mãos queremos também fazer parte, as vai moldando aos requisitos do mundo. Claro que, sem protagonismo, não têm capacidade de controlar o guião. Mas há que reconhecer benefícios nessa opção pela irresponsabilidade. Senão vejamos o caso destas duas herbáceas.



Bupleurum lancifolium Hornem.


Bupleurum gerardi All.

O género Bupleurum é um dos que abriga maior número de espécies, cerca de 150, nativas do hemisfério norte, com uma excepção (B. mundtii, da África do Sul). Contudo, a maioria tem área de distribuição reduzida, como aliás acontece ao B. lancifolium e ao B. gerardi. São notórias as semelhanças entre estas duas espécies, em pormenores relevantes para os respectivos ciclos de vida. Ambas gostam de solo calcário, embora uma seja mais frequente em searas e terrenos incultos e a outra em sítios pedregosos. As folhas são perfoliadas e com nervuras densas e finas (daí o nome Bupleurum), o que talvez lhes permita poupar água. As inflorescências em umbelas, apostando num conjunto numeroso de flores ainda que estas tenham por isso de ser minúsculas, formam arranjos que atraem muitos polinizadores, no que constitui um exemplo engenhoso de trabalho comunitário. As flores são amarelas (a maioria das umbelíferas têm-nas brancas), cor que todos os insectos parecem apreciar, com as pétalas reviradas a expôr ao sol os potes de mel brilhante. Mas há também diferenças. E, pesando-as, provavelmente os avaliadores ousariam afirmar que a mais baixa mas de porte mais robusto (B. lancifolium), com folhagem de uma linda cor verde-alface e bractéolas grandes, é mais bonita e, numa apreciação redutora, a mais bem sucedida.

Mas por que há duas espécies em habitats tão próximos, tendo uma delas uma morfologia aparentemente tão mais vantajosa? Não há resposta que nos convença, mas é certo que as diferenças são bastantes para garantir a ambas polinizadores e nichos de solo para colonizarem com sucesso. O preço é pago em duas vias: têm uma vida curta, pois são plantas anuais; e, uma vez concedida a licença para existirem, devem assegurar farta descendência e uma dispersão eficiente. Isto não lembra o mundo populoso e bom, eternamente grato ao criador, que algumas religiões propõem como perfeito?

Há (pelo menos) dois botânicos de nome Gerard homenageados através da taxonomia. O inglês John Gerard (1545-1612) levou Lineu a criar o género Gerardia. O francês Louis Gérard (1733-1819), cuja correspondência com Lineu pode ser lida (em latim) aqui, é o referido por Carlo Allioni (1728-1804) ao nomear em 1774 o Bupleurum mais delgado. Temos a certeza deste detalhe porque, curiosamente, cabe a Allioni a prioridade nesta designação precisamente por ter citado, em vez de apenas copiar, a Flora Gallo-Provincialis de Louis Gerard ao descrever esta planta. A propósito, pelas regras de hoje, a designação correcta é Bupleurum gerardii All.

25.10.14

Um Ammi para as ocasiões




Ammi majus L.

Apesar da tristeza monocromática que aflige os jardins públicos em Portugal, obra de uns tantos arquitectos que declararam guerra ao colorido das flores, há ainda quem se guie pela ideia antiquada de que um jardim, para ser visualmente estimulante, deve combinar todas as cores do arco-íris e mais algumas. É aqui que entra o branco, soma de todas as cores, que os ingénuos desprovidos de ciência julgam estar ausente do arco-íris só porque não se vê, quando na verdade está lá mas decomposto nas suas parcelas. A incapacidade dos nossos olhos em refazer a soma leva-nos a exigir o branco que se vê, como contraponto ao garridismo insinuante das cores do círculo cromático. E para acrescentar ao jardim um branco limpo e luminoso, com um efeito que evoca laboriosos trabalhos de renda, nada melhor do que uma umbelífera como o Ammi majus, que em Portugal é planta sem eira nem beira, infestante de cultivos e ruderal de bermas de estrada, mas noutros países é muito valorizada para ornamentar canteiros floridos.

Planta anual de floração primaveril, capaz de atingir um metro de altura, o Ammi majus, alegadamente chamado âmio-maior por um povo incapaz de a reconhecer, tem fortes semelhanças com outras umbelíferas de flores brancas, em particular com a cenoura-brava (Daucus carota). Distingue-se desta pela folhagem (compare a 5.ª foto aí em cima com as desta página), por não ser áspera ao tacto (a cenoura-brava é muito rugosa), e pelas inflorescências menos compactas. Amplamente distribuído pela bacia mediterrânica, o Ammi majus ocorre em quase todas as províncias portuguesas, sendo talvez mais frequente na faixa litoral. As plantas nas fotos moravam em Cantanhede, na orla de vinhedos e de outros campos cultivados.

Por mérito da flora açoriana, o género Ammi, que contém um total de seis espécies, é um bom amigo dos botânicos portugueses. Enquanto que os outros países europeus ou mediterrânicos se contentam com duas ou no máximo três espécies de Ammi, em Portugal ocorrem nada menos que quatro, duas delas endémicas dos Açores: A. seubertianum e A. trifoliatum.