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23.4.08

Posições no mundo


Amendoeira (Prunus dulcis) - vale do Tua

«No fundo, havia a sensação de que depois de muito se andar, depois das espantosas invenções técnicas, o homem continuava a depender de a árvore dar ou não frutos, apesar de já não haver árvores e de os frutos já não serem arrancados ou apanhados do chão, mas simplesmente negociados. Onde estava então a nova árvore? E que árvore era essa que fazia, subitamente, os preços subirem e a fome instalar-se em vários pontos do país, para depois, passados alguns anos, começar, sem justificação, a dar frutos em excesso?»

Gonçalo M. Tavares, Aprender a rezar na Era da Técnica (2007)

22.4.08

Noite da Terra

Nunca estivemos no vale do Tua à noite. Imaginamos que o silêncio que ouvimos lá de dia, enrugado por conversas de passarinhos, se ri, nessas horas longas, do rio arrepiado e galopa com ele a contar estrelas num céu de ardósia. Nas margens, a terra descansa perfumada pelos jacintos-das-searas que lembram candelabros de palácio a convocar fantasmas de histórias de embalar.


Muscari comosum

As inflorescências desta planta que aprecia solos cultivados, sobretudo olivais, são encimadas por um tufo (comosum) vistoso de flores globosas, azuis-violeta e estéreis, que atraem as abelhas para o perfume almiscarado e os potes de néctar das flores tubulares castanhas situadas mais abaixo na ráquis. Neste eixo com cerca de 30 cm, os sinos, com brácteas minúsculas e corolas de seis dentinhos, dobram em sequência a partir da base.

Os bolbos, cebolinhos-de-flor-azul, são apreciados na culinária grega. A que saberão?

21.4.08

As árvores não sabem nadar


Choupos - Abreiro, rio Tua

aqui falámos da barragem com que o governo e a EDP querem destruir irreversivelmente o vale e a linha do Tua. Os estragos do empreendimento, contudo, não se ficarão por aí. A grande bolha de água estagnada alastrará ainda a afluentes do Tua como o rio Tinhela; na margem esquerda do Tinhela, perto da junção dos dois rios, situam-se as Caldas de Carlão, que foram modernizadas há poucos anos e serão, também elas, inundadas pelas águas da barragem. Do rio Tinhela, e da galeria de freixos que o acompanha [ver abaixo], ficarão apenas a memória e algumas fotos: as árvores, apesar de não serem inertes como são os desenhos gravados na pedra, morrerão por não saberem nadar.

«As gravuras não sabem nadar» foi o slogan criado em Vila Nova de Foz Côa, nos idos de 1995, pelos opositores à construção da barragem que iria submergir o valioso núcleo de arte rupestre então recém-descoberto no vale do Côa. A palavra de ordem propagou-se pelo país como incêndio em mato ressequido: marcou uma fronteira clara entre dois campos, e foi bandeira de António Guterres na campanha eleitoral de 95. Empossado como primeiro-ministro em Outubro, anunciou de imediato que a barragem não se faria. As gravuras estavam salvas do afogamento.

Agora que o slogan entrou na adolescência, o pequeno mundo português está menos permeável ao idealismo. Embora se anunciem para os próximos anos afogamentos ainda mais graves, pela magnitude dos prejuízos patrimoniais e ambientais, do que o das gravuras do Côa, de pouco adianta reciclar a frase e tentar insuflar-lhe nova vida mediática. O beco sem saída a que chegámos pode traduzir-se numa pergunta: em quem devemos votar para termos um governo que não construa as barragens do Tua e do Sabor? Ou, numa formulação mais geral: dos dois partidos que nos têm governado, qual deles defende que já temos quanto basta de betão e de asfalto, e que é urgente pormos termo à depredação do território?

A adopção de chavões ambientalistas pelo discurso político é um verniz que estala logo ao primeiro embate, deixando a descoberto as velhas ideias desenvolvimentistas da nossa perdição. Mas, mesmo que as escolhas políticas actuais pareçam ser entre uma coisa e a sua igual, o alheamento não é uma atitude sensata, e da desistência não podemos esperar qualquer mudança. Pode ser que o clamor daqueles que não se sentem representados no nosso mainstream político obrigue algum dia os partidos a renovarem-se e a diferenciarem-se.

É por isso - e também por acreditarmos que uma barragem na foz do Tua é um erro monstruoso - que apoiamos a petição lançada pelo Movimento Cívico pela Linha do Tua. Não falta muito para as assinaturas atingirem as 4000, garantindo-se assim que a petição é discutida no plenário da Assembleia da República.



Freixos - rio Tinhela

7.3.08

Giesta-branca


Cytisus multiflorus - vale do Tua

Ainda não estamos no tempo das giestas, mas a que mostramos hoje, tendo-se enganado na cor, teve licença para florir mais cedo. Das seis ou sete espécies de giestas (género Cytisus) que são espontâneas em Portugal, só esta não tem floração amarela. E as suas flores, além de valerem pela beleza e originalidade, são muito melíferas.

A giesta-branca distribui-se por toda a metade norte do país, com excepção do litoral. Com ela encerramos uma breve amostra da flora que encontrámos em Abreiro, no vale do Tua. Uma série que só terá prolongamento se pudermos lá voltar depois de mais plantas despertarem com a Primavera e antes da inundação definitiva.

6.3.08

Zimbro-galego


Juniperus oxycedrus - vale do Tua

O zimbro - nome vulgar que abrange as árvores e arbustos do género Juniperus - é uma das coníferas mais versáteis e com mais usos em jardinagem e em paisagismo: as formas prostradas ou rastejantes usam-se como cobertura do solo - preferível à relva e não só pela poupança de água -, ao passo que as formas arbóreas ou arbustivas se adaptam, pela morfologia variável, a um grande número de contextos, havendo-as com copas fusiformes, piramidais ou arredondadas. Coisa rara entre as coníferas, os frutos são bagas carnudas que servem de alimento a pássaros - embora se deva ressalvar que, sendo dióicos quase todos os Juniperus, tal maná para a fauna alada só é fornecido pelos indivíduos femininos.

Uma das quatro espécies do género Juniperus dadas como espontâneas em Portugal continental é o zimbro-galego (J. oxycedrus). Originário do sul da Europa, desde a Turquia à Península Ibérica, a sua presença no nosso país restringe-se a algumas áreas montanhosas no interior norte e centro. Tal como no zimbro-comum (J. communis), também espontâneo em Portugal, as folhas do zimbro-galego são aciculares, e a planta nunca chega a desenvolver a folhagem escamosa presente na maioria das suas congéneres. A distinção entre o zimbro-comum e o zimbro-galego poderia ser problemática, mas a dúvida resolve-se examinando as folhas: as do segundo têm na face superior duas faixas longitudinais brancas (pode vê-las melhor clicando na foto em cima), e as do primeiro têm uma só faixa.

P.S.
1) Veja
aqui as bagas do zimbro (não temos a certeza, mas, atendendo ao local onde as fotos foram tiradas, é de crer que também se trate de um J. oxycedrus).
2) Leia o informativo comentário aqui deixado por P. Faúlha.

5.3.08

Bolsa-de-pastor


Capsella bursa-pastoris (Capsella rubella) - vale do Tua

«Ao fundo do meu quintal, à mão esquerda, há um miradoiro ou, melhor dizendo, um coradoiro, um pedaço de terra livre de arvoredo, mas coberto de erva macia e sempre verde. Ali coravam a roupa, com maternal solicitude, as minhas rudes criadas, no tempo em que as havia e se corava roupa. Hoje, é apenas um logradoiro do meu quintal, mas logradoiro sem utilidade. Nem sequer o aproveito como vigia do panorama que me cerca. Deixei de o visitar.

Desse retalho de terra, sempre verde, avistava eu, ao desenfado e sempre que queria, um velho amigo, um trabalhador incansável, que me viu nascer e me abandonou de um dia para o outro. Quero referir-me a um rio arcaico, milenário, que me contava uma história, cheia de pavores e doçuras, quando me via sentado, num banco de pinho, ao fundo do meu quintal.

Esse rio morreu. Deixou de ser rio para ser um lago artificial imenso, parado ou pasmado a meus pés, como cadáver que a morte dilatasse. O dinheiro dos homens, para se multiplicar, a troco de dar luz e energia ao mundo, pega no meu rio, que era bravo e impetuoso como um toiro, e amansa-o em lago. Fez dele um boi no pasto ou uma choca no fim de uma toirada.

O meu rio, que era poeta heróico e poeta idílico, ao sabor das horas, que as contava de todos os feitios, era também artista. Com que paciência, durante séculos e séculos, não foi esculpindo, na rocha dura, maravilhas de arte... Hoje, lago empanturrado, mais rico do que um porco, já não tem força e até se envergonha de pegar no maço e no cinzel. Deixá-lo, que o progresso manda...»

João de Araújo Correia, Rio Morto (1973)

3.3.08

Destruir a natureza em nome do ambiente





Abreiro - vale do Tua

Uma flor em Portugal é tão bonita como noutro lugar qualquer: afinal, a flor mais delicada pode tirar o seu sustento dos efluentes dum esgoto. Mas, se ampliarmos a escala e olharmos em volta, não podemos ignorar nem o esgoto, nem as construções dissonantes, nem as modernas estradas que ferem de morte a paisagem. Portugal é um país cada vez mais feio, e é também por isso que neste blogue temos preferido as coisas pequenas. Nem as árvores, vítimas sistemáticas de podadores sádicos, estão a salvo neste nosso destroçado território; ficam só as flores silvestres para sobre elas nos debruçarmos, alheando-nos voluntariamente da fealdade circundante.

Há porém retalhos de Portugal onde não temos que cultivar a cegueira. Um deles fica em Trás-os-Montes: é o vale do Tua, entre a foz desse rio, na margem direita do Douro, e Mirandela, 55 quilómetros a norte. Um vale integralmente percorrido pela automotora que presta serviço diário, duas vezes em cada sentido, na linha do Tua, o mais emocionante troço ferrovário do país. Partindo do Douro, avançamos por uma garganta apertada entre escarpas quase a pique, refúgio de muitas aves, que gradualmente se suaviza e enche de vegetação arbórea: sobreiros, zambujeiros e azinheiras. Em baixo, quando o leito do rio, alargando-se, se faz menos pedregoso, há choupos, amieiros, freixos e salgueiros. Por vezes a linha corre numa estreita plataforma talhada entre dois abismos; aqui e ali esconde-se num túnel; mais adiante atravessa alguma pequena ponte. Dir-se-ia que tudo permanece inalterado desde que a linha foi inaugurada em Outubro de 1887, há mais de 120 anos. Isso, contudo, é ilusório: uma obra desta envergadura deverá ter tido, na época, impactos sérios. Mas a natureza refez-se - e a ferrovia, obra humana, é parte tão genuína desta paisagem como são o rio, as rochas, as plantas e as aves.

Uma hora depois da partida, apeamo-nos em Abreiro, ao quilómetro 29 da linha. Para trás ficou a parte mais aventurosa do percurso, e o cenário é agora de terras de cultivo estendendo-se por declives moderados; vêem-se amendoeiras em flor, vinhas, olivais e pastagens. Temos três horas para passear antes de apanharmos o comboio de volta. Já viéramos outras vezes ao Tua, a primeira há mais de 10 anos, mas nunca tínhamos andado a pé nas suas margens. Talvez nunca mais possamos voltar a fazê-lo.

Em Fevereiro de 2007, uma derrocada na linha do Tua causou três mortos e levou à interrupção do serviço ferroviário durante quase um ano, tempo que demoraram as obras de recuperação. Agora que a automotora voltou a circular, está iminente, por vontade humana, um desastre de muito maiores proporções: a construção, junto à foz do Tua, de uma barragem que irá submergir o vale e a linha férrea numa extensão de 30 a 40 quilómetros. Nada do que se vê nestas fotos sobreviverá à destruição: o rio transformar-se-á num lago morto, obeso e desmesurado, afogando tudo à sua volta.

Não sei se temos os governantes que merecemos; sei apenas que este governo e estes ministros (um deles até se intitula, caricatamente, ministro do ambiente) se empenham, com um denodo nunca antes visto, na destruição do que resta da natureza em Portugal. Além do desenvolvimento, que mesmo proclamando-se sustentável continua a justificar todos os desmandos, invoca-se agora o ambiente: é para cumprir Quioto, aumentar a quota das energias renováveis e outras tretas da mesma laia. Porque, seja qual for o pretexto, a solução é sempre a mesma: mais betão, mais asfalto, mais encomendas aos grandes grupos económicos, mais destruição desenfreada. E, no caso da construção de barragens como as do Tua ou do Sabor, a hipocrisia e a mistificação atingem níveis arrepiantes: destroem-se a paisagem e o património, e promete-se turismo; afogam-se campos, vinhas e pomares, e promete-se água para a agricultura; extinguem-se modos de vida, e prometem-se empregos e desenvolvimento.

Notas.

  1. Visitámos o Tua em 24 de Fevereiro num passeio organizado pela Quercus - núcleo de Vila Real e pelo NEPA - Núcleo de Estudos e Protecção do Ambiente da UTAD. Foi o primeiro de um ciclo de passeios, intitulado Por Linhas Travessas, pelas ferrovias do Douro e seus afluentes: Tâmega, Corgo e Tua. Para mais informações, contacte nepa(at)utad.pt
  2. Para saber mais sobre a projectada barragem e sobre o que tem sido feito contra a sua construção, consulte a página do Movimento Cívico pela Linha do Tua.

2.3.08

Salmo


Linaria amethystea (Lam.) Hoffmanns. & Link subsp. amethystea - vale do Tua

....Rasgaste em toda a parte veios de água.
....Mas a sede
....temos nós que procurá-la.


José Miguel Silva, O sino de areia (1999)

29.2.08

Lágrimas-de-anjo


Narcissus triandrus

....How bare is this place,
....the end of my course.
....Given up the fight.
....There's left no trace
....of me but the source,
....which they did not cite.

Karl Kraus, Tomb inscription (trad. Max Knight)

Esta espécie da secção Ganimedes do género Narcissus, com três estames (triandrus) em vez dos usuais seis, aprecia clima ameno da serra e tolera o frio, mas não as inundações - como talvez entendam os poderosos nos corredores da capital. Hibrida facilmente e há muitas variedades suas parentes com nomes de fantasia; é até frequente ler-se, com a ponta de orgulho com que disfarçamos a indiferença, que o «narciso tal-e-tal teve origem em espécie portuguesa».

E o que ameaça tão inocente planta cujas flores se inclinam em vénia para melhor notarmos a coroa saliente e pálida e as tépalas repuxadas para trás?, pergunta um leitor. Uma barragem no rio Tua, que fará dele uma funda sepultura de água para a natureza e as suas criaturas. Desaparecerão cascatas e repuxos afogados pela maré eternamente alta. E com eles fugirão abelhas, peixes, rãs, melros, andorinhas, garças, águias, amendoeiras, sobreiros, zimbros, freixos, choupos e oliveiras. E, senhores!, reduziremos a um fundo lodoso as melhores vinhas do Douro, que agora sorriem em terra sã, bem exposta ao sol e ao ar fresco do rio.

Mas, dirá outro leitor, este será o cenário ideal para cavalgar em ruidosas motas-de-água com que tão bem se arrumam as tardes de descanso que já vão sobrando. E, claro, dirá um amigo deste leitor, igualmente entusiasta da natureza, que o progresso trará mais energia para se verem em detalhe as fotos de arquivo destas florinhas e bichos, sem o incómodo de calcorrear à chuva os caminhos do vale do Tua.

No fim destes enganos, diremos, como dos ausentes, que as lágrimas-de-anjo foram singelas e valiosas. Alguns demónios chorarão a sua perda irreparável. E depois, quem nos poderá aliviar a culpa?