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26.5.11

Bons ares de outras terras

Verbena bonariensis L.

Há em Alfena, perdido entre eucaliptais, um milagroso prado húmido que merecia ser declarado micro-reserva botânica. Contam-se em mais de uma dezena as espécies que, sendo escassas ou mesmo desconhecidas na região do Porto, tiverem artes de lá se instalar: Isoetes, Potamegeton polygonifolius, Baldellia alpestris, Gentiana pneumonanthe, Radiola linoides, Cirsium filipendulum, Hypericum elodes, Anagallis tenella, Scutellaria minor, etc. O incêndio que varreu o local no Verão passado levou ao alargamento do caminho junto ao prado, e não tardou que os veículos todo-o-terreno ameaçassem reduzir toda a diversidade vegetal a uma sopa lamacenta. Felizmente, a Câmara de Valongo, em resposta aos alertas, espetou umas estacas no chão para desviar os monstros motorizados. E talvez este ano, ao contrário do que o pessimismo nos segredava, regressem as plantas que fizeram a nossa alegria.

Uma das plantas que conquistou um timeshare no prado foi esta verbena altaneira com todo o ar de ser alienígena. Na verdade, a grande maioria das cerca de 250 espécies do género Verbena nasceu nas Américas - do Norte, Central ou do Sul - e a V. bonariensis, originária do Brasil e da Argentina, não é excepção. O epíteto específico refere-se aliás à cidade de Buenos Aires. É uma planta erecta e vistosa, de floração estival, capaz de atingir um metro e vinte de altura, com haste de secção quadrangular e folhas rugosas dispostas aos pares. Por via da sua utilização em jardinagem, naturalizou-se em muitos países de clima tropical ou temperado, a ponto de por vezes se tornar invasora indesejável.

Em Portugal, único país europeu onde ela fugiu dos jardins para a natureza, a Verbena bonariensis, por ser pouco comum, não parece constituir problema de maior. Contudo, talvez nos Açores o caso mude de figura: encontrámo-la em número apreciável na ilha Terceira, por exemplo em redor do paul da Praia da Vitória.

19.5.11

Cilada taxonómica


Scilla ramburei Boiss.

O erro de um especialista pode levar ao registo de uma nova espécie que é de facto indistinguível de outra já anteriormente baptizada. O erro de um amador, por contraste, só confirma a inépcia do sapateiro que quer subir acima da chinela. Amador e especialista têm portanto que adoptar comportamentos distintos: o primeiro só arrisca uma opinião depois de muito ponderar; o segundo esbanja opiniões e faz currículo com elas.

É por causa desta profusão de opiniões desencontradas que alguns géneros botânicos se transformam num campo minado para quem gosta de certezas. Que as cilas (género Scilla) são uma verdadeira cilada para o naturalista amador sabíamos nós há muito tempo. Até hoje conseguimos evitá-la, mas estas fotos esperaram já um ano para sair do baú. Ou erramos, ou não falamos mais de cilas. Erremos, pois.

A cila-de-uma-folha é de tal modo comum em bosques e matagais no início da Primavera que por vezes nem lhe prestamos atenção. Com esse alheamento perdemos a oportunidade de detectar variações interessantes. Algumas cilas também primaveris mas com o escapo floral mais espigado têm não uma, mas cinco ou seis folhas. São sem dúvida de uma espécie diferente, mas que espécie será essa? Talvez Scilla ramburei - pelo menos assim julgamos das plantas aí em cima, fotografadas nas margens do rio Ferreira, em Valongo.

Acontece que, no norte de Portugal e na Galiza, foram registadas pelo menos seis espécies de Scilla com caracteres morfológicos semelhantes: S. ramburei, S. verna, S. beirana, S. odorata, S. merinoi e S. paui. A delimitação entre as diversas espécies é controversa, e já houve quem apontasse que alguns destes nomes são na verdade sinónimos. Tanto quanto pudemos entender, S. beirana e S. ramburei designam a mesma espécie, que inclui plantas geralmente mais encorpadas do que a S. verna e a S. odorata. Mas mesmo esse traço distintivo não é seguro, pois uma mesma planta crescendo em solos ricos e húmidos desenvolve-se melhor do que em lugares áridos.

A Scilla é pois um género a carecer de urgente clarificação, tarefa que talvez a Flora Ibérica venha a cumprir. Mas as incertezas taxonómicas não nos devem impedir de admirar tais plantas.

Adenda 1. Sobre a taxonomia e morfologia do género Scilla e de outros géneros aparentados (Hyacinthoides e Ornithogalum), leia-se o extenso e educativo comentário que o Prof. Rubim Almeida, da Faculdade de Ciências do Porto, teve a amabilidade de deixar neste outro post.

Adenda 2. As fotos que originalmente acompanhavam este texto correspondiam a outra espécie que não a Scilla ramburei, e por isso foram substituídas.

18.5.11

Estrela donzela


Ornithogalum broteroi M. Laínz

Nomes vulgares: donzelas; leite-de-galinha
Ecologia e distribuição: pastagens e prados, clareiras de matos e bosques abertos não muito longe da costa em altitudes até 1300 m; ocorre no oeste da Península Ibérica e ainda no norte de África
Distribuição em Portugal: do Minho ao Algarve, principalmente no litoral
Época de floração: Fevereiro a Junho
Data e local das fotos:
Abril de 2011, Alfena, Valongo, entre matos e eucaliptais recém-ardidos
Informações adicionais: as flores do Ornithogalum broteroi são muito semelhantes às do O. concinnum: em ambas estão ausentes as faixas verde no verso das pétalas. No entanto, o Ornithogalum broteroi tem uma espiga mais curta, com menos flores, e cada planta dá uma única folha

25.4.11

Amarelo depois do fogo



Halimium ocymoides (Lam.) Willk.

Em Alfena, do lado de lá de uma novíssima auto-estrada-que-afinal-tem-custos, há uma lixeira a que alguns adeptos do eufemismo poderão chamar aterro ou depósito de inertes. Não sendo de desdenhar contributos privados, parece ser sobretudo à junta de freguesia que cabe manter e acrescentar o acervo de detritos: materiais de construção, entulhos, electrodomésticos, colchões, mobiliário diverso. A lixeira coroa uma encosta que desce para a ribeira de Tabãos, e está rodeada por muitos hectares de eucaliptais. No Verão passado ardeu tudo o que não tinha ardido em anos anteriores. O solo enegrecido e ralo, com alguma carqueja a despontar, estende-se como um tapete infernal até à mata de eucaliptos carbonizados.

Para facilitar o acesso à lixeira e aos montes circundantes de camiões e de veículos todo-o-terreno, existe um viaduto que sobrevoa a auto-estrada, e que está ligado ao centro da freguesia por uma estrada moderadamente esburacada. Não sendo passeio que se recomende aos amantes de paisagens e da vida ao ar livre, afinal o que viemos aqui fazer? Dá-se o caso de o regime quase anual de incêndios que sobreveio à eucaliptização não ter conseguido erradicar por completo a riqueza botânica deste lugar. É aqui que a população mais nortenha do pinheiro-baboso oscila no limiar da extinção. Em ano de censo nacional, é imperioso contarmos quantos efectivos sobrevivem.

Observar as outras plantas rentabiliza a excursão e é um bálsamo para o olhar. As que mais se esforçam por mitigar a fealdade do cenário são as cistáceas de flores amarelas: tuberárias e halímios inauguram os seus enfeites em Abril e prometem mantê-los por três ou quatro meses.

Conhecido como mato-branco ou sargaço-branco, o Halimium ocymoides é um pequeno arbusto de folhas esbranquiçadas, em geral com não mais que 30 ou 40 cm de altura (mas podendo chegar a 1 m), presente em terrenos silícicos de norte a sul do país na companhia de urzes e de tomilhos. Globalmente, distribui-se por Marrocos e pela Península Ibérica, onde só não alcança o extremo norte. Distingue-se pelas longas hastes florais, muito ramificadas, e pela mancha castanha ou púrpura na base das pétalas. O pretexto para o epíteto ocymoides vem da semelhança das suas folhas com as do manjericão (Ocimum basilicum).

24.3.11

À atenção dos coelhos



Lotus pedunculatus Cav.

Os eucaliptais do vale da ribeira de Tabãos, em Alfena (Valongo), bem se esforçam por chupar todos os veios de água que correm à superfície. No pico do Verão, logo antes do grande incêndio, a secura estava instalada e o ribeiro era uma imóvel sucessão de poças de água. Depois ficou tudo negro e uns dias de chuva forte criaram lamaçais cor-de-cinza. Vieram uns veículos todo-o-terreno de uns aventurosos sedentários que, confundindo Alfena com o Quénia, atravessaram riachos e esmagaram a vegetação que tentava regenerar-se. Do que lá vimos no ano passado, em visitas assíduas a um prado húmido cercado por eucaliptos, muito pouco há-de regressar este ano para confirmar o ciclo das estações. A natureza só se repete quando não é deliberadamente destruída.

Para a desilusão não ser completa, há que moderar as expectativas. Este Lotus pedunculatus, que gosta de água mas é pouco exigente quanto ao habitat, é um dos resistentes que não vão abandonar o vale de Tabãos. É verdade que podemos vê-lo em inúmeros outros lugares de norte a sul do país, tanto em terrenos ácidos como básicos, mas não é por ser produto fabricado em série que ele deixa de merecer a atenção dos botânicos. Por exemplo, é de todo o interesse saber distingui-lo do Lotus corniculatus - que, embora tenha flores e folhas semelhantes, é em geral mais rasteiro e ocupa lugares mais secos. O Lotus pedunculatus pode chegar a um metro de altura, e as inflorescências, surgidas entre Março e Outubro, são dotadas de um pedúnculo comprido que faz lembrar um pescoço de girafa e é a razão de ser do epíteto pedunculatus. Misteriosa é a designação vernácula de erva-coelheira: será que câmaras de vídeo-vigilância ocultas no arvoredo captaram os coelhos a devorar esta planta, preferindo-a às demais? Ou será ela o alimento recomendado para coelhos criados em cativeiro? O nome inglês greater bird's-foot trefoil é muito mais transparente: como ilustra a foto em cima, as vagens parecem formar pés de pássaro com um número variável e por vezes excessivo de dedos.

31.12.10

Passagem


Amieiros e freixos - rio Ferreira, Valongo

Atravessavam uma floresta. Sem feras, que ali não as havia, um ou outro lobo, talvez, javalis. Nenhum tigre lhes saltaria às costas. E no entanto, avançando na penumbra lançada pelas copas fechadas, entre as colunatas dos troncos, todos aqueles homens valentes sentiam-se perpassar por uma ponta de estremecimento, cada qual levando seu próprio tigre no peito.

Marina Colasanti, Um homem, frente e verso ( 23 histórias de um viajante, Global Ed., 2005)

22.12.10

Folhas-de-azeda


Polygonum lapathifolium L.

     Nomes vulgares: erva-pessegueira, mal-casada
     Distribuição global: subcosmopolita
     Distribuição em Portugal: quase todo o território continental, em relvados húmidos e leitos de rios
     Época de floração: Junho a Novembro 
     Data e local das fotos: rio Ferreira, Valongo, Setembro de 2010

7.12.10

Erva-dos-elmos


Scutellaria minor Huds. - Alfena, Valongo

O género Scutellaria abriga mais de trezentas espécies de plantas perenes, abundantes em regiões com invernos suaves e humidade elevada. Por isso, é fácil encontrá-las em margens de ribeiros, bordos de turfeiras e prados húmidos. A S. baicalensis Georgi (do lago Baikal, na Sibéria) é a mais famosa pelo seu uso como ansiolítico em medicina tradicional chinesa. Em Portugal só há registo de duas espécies, as que mostraremos de seguida. A designação genérica não se refere às scut, agora ccut; deriva do latim scutella, que originou escudela, e assinala a presença de um apêndice no cálice de cada flor que tem a forma de uma pequena tigela (consegue localizá-lo no topo da foto à direita?). Para que servirá?

A S. minor, a mais pequena do género (não aspira, em geral, a subir além dos 15 cm), exige penumbra e solo ácido, pobre em azoto, sendo portanto companhia frequente de populações de Drosera, Pinguicula, Anagallis tenella e Wahlenbergia hederacea. É herbácea rizomatosa e rastejante, embora as hastes florais erectas pareçam desmentir esse hábito. O caule tem secção quadrada e as folhas, inteiras, opostas e lanceoladas, adoptam morfologia variada conforme a altura a que nascem: as basais são pecioladas, as superiores sésseis e menores, abraçando o caule. As flores cor-de-rosa, com cerca de 1 cm de comprimento, abotoam, todas viradas para o mesmo lado, entre Junho e Setembro. Têm um cálice protegido por pequenas brácteas - e a tal bossa é púrpura - que se fecha para formar o fruto. A corola é um tubo arqueado e bilabiado, sendo o lábio inferior mais largo, recurvo e pintalgado. Espontânea na Europa, restringe-se, na Península Ibérica, ao norte e oeste, ocorrendo em quase todas as províncias portuguesas.


Scutellaria galericulata L. - ria de Aveiro

A S. galericulata é nativa de charcos e juncais europeus e de zonas temperadas da América do Norte, convivendo, por exemplo, com o Equisetum arvense. Distingue-se da S. minor pelas folhas ovais de margens crenadas, pelas hastes - também esparsamente floridas - mais altas (atingem os 40cm) e pelos matizes rubros na ramagem; além disso, é mais penugenta, embora a quantidade de lanugem, como a dos nossos agasalhos, varie com o local e a estação do ano. Na Península ocorre a norte e oeste; em Portugal, só é frequente no norte e litoral centro. As flores azuis também nascem aos pares e nas axilas das folhas, mas são mais tardias que as da S. minor (vimo-las de Julho a Outubro), permitindo todavia a existência de um híbrido entre ambas. Não o conhecemos, havendo já apostas quanto à cor das flores desse cruzamento.

1.12.10

O segundo vértice


Polygonum hydropiper L.

     Nomes vulgares: pimenta-da-água, pimentela
     Distribuição global: Europa, norte de África, América do Norte, sudoeste da Ásia
     Distribuição em Portugal: Continente (quase todo o território) e Madeira
     Época de floração: Julho a Outubro
     Data e local das fotos: margens do rio Ferreira em Valongo, Setembro de 2010

26.11.10

Relíquias


Quercus suber L. - Campo, Valongo

When you find a thick bush of marjoram or a well-filled nest of Spanish flies you are in direct communication with the natural world which the Lord created with undifferentiated possibilities of good and evil until man could exercise his own free will on it.

But the 'nobles' aren´t like that; all they live by has been handled by others. They find us ecclesiastics useful to reassure them about eternal life, just as you herbalists are here to procure them soothing or stimulating drinks. And by that I don't mean they're bad people; quite the contrary. They're just different; perhaps they appear so strange to us because they have reached a stage towards which all those who are not saints are moving, that of indifference to earthly goods through surfeit. Perhaps it's because of that they take so little notice of things that are of great importance to us; those on mountains don't worry about mosquitoes on plains, nor do the people in Egypt about umbrellas. Yet the former fear landslides, the latter crocodiles, which are no worry to us. For them new fears have appeared of which we're ignorant; I've seen Don Fabrizio get quite testy, wise and serious though he is, because of a badly ironed collar to his shirt; and I know for certain that the Prince of Làscari didn't sleep for a whole night from rage because he was wrongly placed at one of the Viceroy's dinners. Now don't you think that a human being who is put out only by bad washing or protocol must be happy, and thus superior?


Giuseppe Tomasi di Lampedusa, The Leopard (trad. Archibald Colquhoun, The Folio Society, 2000)

24.11.10

Cordão-de-cardeal



Polygonum orientale L.

     Nomes vulgares: em inglês: kiss-me-over-the-garden-gate, em castelhano: disciplinas-de-monja
     Distribuição global: originária do este e sudeste da Ásia
     Distribuição em Portugal: naturalizada, sobretudo no norte do país
     Época de floração: Agosto a Outubro 
     Data e local das fotos: margens do rio Ferreira em Valongo, Setembro de 2010

21.11.10

Palestra: Flores & fetos de Valongo


Gentiana pneumonanthe L. / Simethis planifolia (L.) Gren.

Data e hora: 4 de Dezembro (sábado), às 16h00
Local: sede da Campo Aberto, rua de Santa Catarina, 730-2.º, Porto

Leitores regulares do blogue ou visitantes ocasionais, estão todos convidados para uma palestra onde daremos a conhecer, com muitas fotos, a flora espontânea das serras de Valongo. Entre árvores, arbustos, flores e fetos, serão cerca de 60 as espécies ilustradas. Muitas são escassas na área metropolitana do Porto, e algumas há que são raridades absolutas em Portugal continental ou mesmo na Europa. Este património único, desconhecido de muitos, está ameaçado pela degradação ambiental que tem sofrido esse território nas últimas décadas.

A sede da Campo Aberto estará aberta a partir das 15h00 para quem queira conversar ou, aproveitando o embalo da quadra festiva, comprar livros, artesanato ou produtos do comércio justo.

Depois da palestra haverá lanche, rifas, um leilão, tudo isso em benefício da Campo Aberto (associação reconhecida de utilidade pública), que não tem subsídios e necessita do apoio financeiro de sócios e amigos.

11.11.10

Os fetos e as fendas


Trichomanes speciosum Willd. - ilha Terceira

No dia da chegada, para dissipar a sonolência pós-prandial, fui ao princípio da tarde revisitar o Monte Brasil, onde não punha os pés há quatro anos. O Monte Brasil, para quem não sabe, é uma protuberância vulcânica fartamente arborizada sobranceira à cidade de Angra do Heroísmo e ligada ao resto da ilha por um istmo. A vegetação, dominada por exóticas como a árvore-do-incenso (Pittosporum undulatum) e a criptoméria, não é entusiasmante, embora se registe a presença ocasional da faia-das-ilhas (Myrica faya) e, nas vertentes expostas ao mar, da urze açoriana (Erica azorica). Os grandes atractivos do Monte Brasil são porém de outra ordem. Há as velhas paredes da Fortaleza de São João Baptista, ainda hoje ocupada por um contingente militar, ressumando o verde que é a pátina dos séculos. E há, sobretudo, a vista para o casario de Angra empilhado nas ruas que descem para a baía. Gostaria de poder dizer que a realidade se confundiu com a memória, mas a paisagem estava ferida por um rasgão impossível de ignorar. No limite leste da baía, a falésia foi esventrada quase até ao fundo para lá se enfiar um edifício medonho, de fachada oblíqua e varandas a toda a largura. Dizem que ali funcionará o próximo grande hotel da ilha Terceira - mas, com as obras ainda por concluir, o edifício é desde já um borrão inimaginável no até agora intocado recorte urbano de Angra.

No Monte Brasil, a novidade é que foi inaugurado um desses percursos com marcas amarelas e vermelhas para os caminhantes não se perderem. Seguindo-o, reencontrei as beladonas (Amaryllis belladonna) e passei por locais que já conhecia e por outros que só agora desvendei, como a carreira de tiro rodeada por quatro cumes onde há muito não são disparadas balas. Já de volta a Angra, aconteceu-me deparar, à porta do Museu Vulcanológico, numa rua debruçada sobre a baía, com um aviso anunciando passeios pedestres; um deles, com destino ao Morro Assombrado, estava marcado para daí a dois dias. Como poderia recusar tal convite do acaso? Entrei no edifício - que, além de museu, é sede da associação Os Montanheiros - e fiquei a saber que o passeio era gratuito mas exigente. Aconselhavam-se galochas, vestes impermeáveis, boa resistência física e imunidade a vertigens. Em troca os participantes ficariam a conhecer lugares inacessíveis ao comum dos turistas: trilhos que mal se percebem em densas matas de loureiros e juníperos; desfiladeiros estreitíssimos forrados de alto a baixo por multidões de fetos; descidas impossíveis e escaladas não menos temerárias; e tudo banhado numa humidade intensa que se condensa em charcos, turfeiras e escorrências.

Mas quando soube do passeio, ali na sede dos Montanheiros, em conversa numa sala ocupada com modelos em relevo de várias ilhas açorianas, ainda essas impressões não tinham ganho corpo. O Morro Assombrado era só mais um dos inúmeros picos que no mapa tridimensional da Terceira apareciam assinalados por bandeirolas. Preocupado com as galochas e o impermeável - não dispunha nem duma coisa nem doutra -, não prestei grande atenção ao acervo exemplar do museu: pedras e fósseis, borboletas, imagens da fauna e da flora açorianas, descrições de grutas, etc. Acabei depois por comprar numa loja agrícola umas galochas (brancas) que afinal não usei. Não apenas por vergonha de atravessar o átrio do hotel com elas calçadas, mas porque as solas não tinham a aderência que o percurso acidentado recomendava. Antes meter o pé na poça do que despencar-me numa ravina.

O interior da metade oeste da ilha Terceira é ocupado por uma sucessão de picos, com o de Santa Bárbara, a 1023 metros, a assinalar o ponto mais alto. As povoações ficam todas na costa, a agricultura e a criação de gado só mordiscaram as faldas mais suaves das serras, e mesmo as plantações florestais de criptomérias foram travadas pelos acidentes do terreno. O resultado é que a floresta endémica das ilhas açorianas, dominada pelo cedro-do-mato (Juniperus brevifolia), foi aqui preservada numa extensão que, no resto do arquipélago, só encontra paralelo no Pico e no Faial. É uma floresta cheia de sortilégios, quase sempre encoberta pela névoa, em que as árvores rejeitam a nudez dos troncos e ostentam longos véus de musgos, fetos e líquenes; chamam-lhe a floresta das nuvens, e quem quiser conhecê-la (muitos açorianos não a conhecem) terá que se juntar aos Montanheiros.

Abundante em fendas descomunais como a que se vê na foto acima, o Trichomanes speciosum é um pequeno feto (até 20 cm) notável pelas suas frondes brilhantes e translúcidas, que só se dá em lugares abrigados e permanentemente húmidos. Vive nos arquipélagos atlânticos dos Açores, Madeira e Canárias, e também, em núcleos esparsos e muito reduzidos, no limite oeste do continente europeu (Irlanda, Reino Unido, Bretanha, Península Ibérica). Terá sido dos fetos europeus que mais sofreram com as depredações de coleccionadores inconscientes.


Trichomanes speciosum Willd. - Valongo

Em Portugal continental, o Trichomanes speciosum é dado como extinto em Sintra, e hoje só subsiste uma população refugiada num dos fojos das serras de Valongo. Os fojos são grandes buracos escavados na ossatura da serra, que terão servido, no tempo dos romanos, para aceder às minas de ouro. Quando as serras foram eucaliptizadas, houve plantas (como este outro feto) que só nos fojos puderam continuar a existir. E lá estava, ao fundo do buraco a que chegámos com infinita precaução, e algo acabrunhada pela secura estival, uma população apesar de tudo promissora de Trichomanes speciosum. Se as deixarmos em paz, as plantas agarram-se à vida com uma tenacidade assombrosa.

9.11.10

Raios-rosa



Radiola linoides Roth

Já aqui vos revelámos que encontrámos, e escondemos, um pradinho húmido de solo ácido num recanto de Valongo que parece açoriano, tão modesto que nele só cabem plantas pequeninas e poucos pés de cada uma. A da foto, delicada e de estatura exígua (cada flor tem uns 2 mm de diâmetro), não tem nome comum em português. Quererá o leitor propor algum que lhe assente bem? Lineu chamou-lhe, em 1753, Linum radiola, mas A. W. Roth (1757-1834) entendeu, em 1788, que deveria autonomizá-la, e ela é hoje a única espécie do género Radiola; mais tarde, houve ainda quem propusesse as designações Millegrana radiola ou Radiola multiflora, mas prefere-se hoje a opção de Roth.

Esta herbácea anual, rara e em risco de desaparecer em vários habitats da Europa e Macaronésia, é da família Linaceae, a da planta do linho (Linum usitatissimum L., de cujo talo alto se retiram as fibras para fabricar o tecido), mas tem caules tão baixos (~ 5 cm) e ramificados que nem para um escarpim se aproveitam. As folhas, de uns 2 mm de comprimento, são sésseis, elípticas e opostas, com um só veio central. As flores desabotoam em inflorescências terminais ralas entre Maio e Agosto; têm pétalas brancas e sépalas, de igual tamanho, tridentadas no ápice e raiadas de cor-de-rosa.

Radiola deriva de radius - e assinalam-se hoje os cento e quinze anos da descoberta da radiação electromagnética, que Wilhelm Roentgen cautelosamente nomeou com a letra que serve de incógnita em matemática.

1.10.10

Azedo e avantajado



Oxalis latifolia Kunth

As campeãs do darwinismo são aquelas plantas que se dão tão bem na luta pela vida que abafam toda a concorrência. Mas nós, em vez de promovermos cerimónias de consagração dessas atletas do mundo vegetal, suspiramos de impotência e de desgosto quando deparamos com elas. Preenchem a paisagem até à saturação e deixamos de ter olhos para lhes admirar a hipotética beleza. Veja-se por exemplo o omnipresente trevo-azedo (Oxalis pes-caprae): na primeira metade de cada ano, com início logo em Janeiro, não há terreno baldio ou jardim desmazelado que esteja a salvo da invasão amarela. Nós até gostamos do amarelo, mas não deste particular amarelo que oblitera todas as demais tonalidades - e que, uma vez instalado, é dificílimo de erradicar. Os perigosos herbicidas, em vez de o beliscarem, até lhe dão uma ajuda: matam as outras plantas e deixam-no sozinho em campo. As raízes produzem bolbilhos de onde saem novos rebentos, e portanto o único modo de debelar uma infestação é remover as plantas por completo.

É preciso, pois, algum esforço de distanciação para apreciar as plantas do género Oxalis. É um género populoso: das cerca de 900 espécies (ou 500, segundo outras fontes), ocorrerão umas vinte na Europa, e desse número só duas, O. corniculata e O. acetocella, são autóctones; as restantes foram introduzidas pelo comércio hortícola e encontram-se naturalizadas. Reconheça-se, contudo, e embora de modo nenhum se recomende o seu cultivo, que nem todas se propagam de modo tão aguerrido como o O. pes-caprae. Depois de já termos mostrado o O. purpurea, sul-africano de origem tal como o O. pes-caprae, trazemos hoje uma planta sul-americana, ficando assim representados no blogue os dois maiores produtores mundiais de espécies de Oxalis.

Que os Oxalis sejam apelidados de trevos - ainda que nada tenham a ver com as leguminosas do género Trifolium - explica-se pelo arranjo das folhas, compostas por três folíolos de recorte mais ou menos cordiforme. São plantas semi-comestíveis: o seu travo azedo deve-se ao ácido oxálico, que é tóxico (prejudicial ao fígado e inibidor da digestão) se consumido em grandes quantidades. Há registo de mortes em rebanhos esfomeados que foram pastar em campos infestados por O. pes-caprae.

O Oxalis latifolia distingue-se pela coloração das flores e principalmente - como aliás assinala o epíteto científico - pelo tamanho das folhas, com os folíolos a atingirem os 10 cm de diâmetro. Floresce de Maio a Setembro e é de ocorrência esporádica em Portugal, onde, à semelhança de quase todos os seus congéneres por cá imigrados, raramente produz sementes e se propaga sobretudo por meios vegetativos. Encontrámos um exemplar solitário debaixo do mesmo viaduto que deu abrigo ao Melilotus albus.

28.9.10

Por quem os montes ardem





Succisa pinnatifida Lange

Funes não só se lembrava de cada folha de cada árvore de cada monte, como também de cada uma das vezes que a tinha notado ou imaginado. (...) Suspeito, no entanto, de que não era muito capaz de pensar. Pensar é esquecer diferenças, é generalizar, abstrair. No abarrotado mundo de Funes não havia senão pormenores, quase imediatos.

Jorge Luis Borges, Funes el memorioso (Ficciones, 1944, trad. José Colaço Barreiros, Ed. Teorema)

Logo que soubemos que uma espécie do género Succisa já foi abundante em Valongo mas que agora está à beira da extinção, apressámo-nos a ir à serra despedir-nos dela. Tínhamos lido que uma das ameaças a esta planta é a vizinhança de espécies mais competitivas. Além disso, é exigente quanto às características do solo - xistoso, mas não de qualquer composição -, e não parece ter uma estratégia que a sustente em habitats degradados. Por isso, as populações conhecidas deste endemismo galaico-português estão em grave declínio, e ele consta da lista vermelha da flora vascular ameaçada (em Espanha; Portugal não tem tal lista), estando sob protecção de várias directivas ambientais (espanholas, pois as entidades portuguesas desconhecem o problema).

Como dizia, no sábado fomos procurá-la. Queríamos um terreno devastado por um incêndio há não mais que dois anos. Nas serras de Valongo, que têm ardido muito e anualmente, há vertentes xistosas extensas de solo negro queimado que, em poucos anos, se cobrem de urze, carqueja, tojo, fetos e pequenos eucaliptos; nessa altura, cremos, esta Succisa desaparece vencida pela concorrência, mas logo a seguir ao incêndio tem alguma chance de ali se instalar. Era esse o nosso devaneio de manhã.

Ao início da tarde encontrámos um núcleo de cerca de cem exemplares, a maioria dos pés em flor, numa clareira à beira de um caminho com cerca de cinco metros de diâmetro e junto a um poste de electricidade. Um pouco adiante terá havido mais alguns porque avistámos um solitário no meio fio de um estradão recém-aberto - já se sabe que os azares acontecem, é uma desgraça mas ninguém teve má intenção, desculpem lá.

Os exemplares das fotos têm uns 60 cm de altura, revelando os vários tipos de folhas desta espécie e o voltear dos sucessivos nós das inflorescências, mas havia muitos só com a roseta basal. Nas fotos não se nota, mas a inflorescência é menor que a da S. pratensis; contudo, o estilete de cada flor é mais longo, embora pareça só se desenvolver quando já quase todos os estames perderam a antera, provavelmente para evitar a autopolinização (última foto).

Não se depreenda deste relato que afinal os incêndios são indispensáveis à conservação da biodiversidade. Antes da eucaliptização intensiva e dos fogos quase anuais, a Succisa não corria grandes riscos; só agora, com o equilíbrio natural quebrado, é que ela está em perigo. Sem uma acção inequívoca para a salvar, restar-nos-á reconstituir de modo intoleravelmente preciso, como Funes, os contínuos avanços da ruína.

27.9.10

Sua Alteza à beira-rio



Osmunda regalis L.

O feto-real (Osmunda regalis), além de bonito de se ver, dá-nos um consolador testemunho de que no nosso país ainda nem tudo está perdido. Certificam os manuais que ele ocorre em todas as províncias portuguesas; e, pelo menos no norte, é muito abundante em margens de rios e ribeiras. Em Valongo encontramo-lo no vale do rio Ferreira e também no leito da ribeira de Tabãos, na freguesia de Alfena. É omnipresente nos diversos cursos de água que retalham a Área Protegida das Lagoas, em Ponte de Lima. E também dá um ar da sua graça a um dos recantos mais pitorescos da Quinta da Aveleda, não se acanhando em misturar-se com requintadas plantas exóticas. Eis, pois, uma planta que não parece estar de modo nenhum a regredir, e que muitos dos nossos rios ostentam como prova de vida e promessa de tempos melhores.

Acrescente-se, porém, que este vistoso feto não é um exclusivo português. Pelo contrário, tem uma distribuição cosmopolita, ocorrendo em regiões tropicais e temperadas de todos os continentes, com excepção da Oceânia. Acontece que, em grande parte da Europa, as drenagens de áreas húmidas para uso agrícola têm-no feito rarear. Ainda que fortuitamente, Portugal, por uma vez, distingue-se pela positiva.

O que as fotos não explicam é o porquê do nome feto-real. A realeza da planta, aliás, está consagrada nas designações em muitas línguas europeias e também no próprio nome científico. É que o feto-real é mesmo grande; ou king-size, como se diz em português moderno. As suas frondes bipinadas - que desaparecem no Inverno, ganhando previamente um bonito tom outonal - atingem os dois metros de comprimento. As extremidades das frondes férteis, densamente revestidas por esporângios, têm cor dourada ou castanha e fazem o efeito de um ramo de flores; daí os nomes felce florida (italiano) e helecho florecido (espanhol).

Consta ainda que as raízes fibrosas do feto-real são usadas como substrato para envasamento de orquídeas. Não das orquídeas silvestres que temos mostrado no blogue - essas são uma dádiva da natureza e não sobrevivem à domesticação -, mas sim das variedades tropicais que se vendem nas floristas.

15.9.10

À sombra do viaduto


Melilotus albus Medik.

Cada grande descoberta traz consigo muitas pequenas descobertas. E essa lei não é só válida na investigação científica, mas também em actividades prosaicas como a de andar à procura de plantas raras. Em busca do pinheiro-baboso revirámos Valongo de alto a baixo, visitando lugares que de outro modo nunca teríamos conhecido - e que, valha a verdade, andam longe da beleza impoluta que faz a atracção dos espaços naturais. No meio dos intermináveis eucaliptais há porém resquícios da vegetação que outrora cobriu estas serras: são como metais preciosos esquecidos num armazém de ferro-velho. Um estreito regato, agora seco, alimenta um prado húmido de uns poucos metros quadrados à margem de um caminho: tanto basta para que se reúnam em assembleia plantas tão interessantes como o Hypericum elodes, o Cirsium filipendulum, a Anagallis tenella, a Gentiana pneumonanthe, a Wahlenbergia hederacea e vários Myosotis. E nem mesmo o monte de entulho que sobrou da construção do viaduto pode ser ignorado. Afinal, um dos últimos avistamentos do Drosophyllum lusitanicum por terras de Valongo deu-se num desses habitats artificiais criados pelo desmazelo humano.

A população de D. lusitanicum que por fim encontrámos não tinha entulho nem outros lixos por perto, o que talvez seja consolador. Mas a visita ao entulho à sombra do viaduto também nos trouxe algumas recompensas. Foi lá que vimos esta leguminosa alta (1 a 2 metros de altura), com longas espigas de minúsculas flores brancas, a que os ingleses chamam trevo-doce. E não há como escondê-lo: o Melilotus albus sentia-se em casa, pois é de lugares degradados pela acção do homem que ele gosta. (As plantas com tais gostos depravados designam-se eufemisticamente por ruderais.)

Apesar disso, o Melilotus albus, que é espontâneo em grande parte da Europa, é uma planta com boa reputação: é muito melífera; cultiva-se para forragem; e, sobretudo depois de seca, exala um perfume a relva acabada de cortar.